“ Assim não tendes falta de nenhum dom, vós que aguardais a revelação do Senhor nosso, Jesus Cristo. É ele quem vos dará a perseverança em vosso procedimento irrepreensível, até ao fim, até o dia de nosso Senhor” (1Cor 1, 7 -9)

I Domingo do Advento

( Is 63. 64, 2-17; Sl 79; 1Cor 1, 3-9; Mc 13,33-37)

Neste final de semana iniciamos o tempo litúrgico do Advento. Neste tempo a Igreja convida seus fiéis a uma atitude de espera e vigilância. Estes serão os dois movimentos espirituais que iram mobilizar toda a espiritualidade no advento.

Os dois motivos que marcam o tempo do advento não são tão simples e fáceis de serem observados. Exigem de nós passos em direção à lugares que durante o “corre-corre” da vida nem sempre observamos. Advento por exemplo significa “espera”, e sabemos que na sociedade pragmática que vivemos onde quase tudo se reduz ao imediato, ao “aqui e o agora”; “esperar”, aguardar, demorar-se, se torna tarefa difícil.

Mas o advento convida-nos também a vigilância, a andarmos mais atentos e acordados. Outro profundo desafio espiritual que se impõe a nossa vida.

O Papa Francisco tem pedido estas atitudes dos católicos nos dias de hoje. Dá a elas palavras diferentes, mas que terminam por indicar semelhantes significados: Quer a Igreja em um estado permanente de missão! Quer a Igreja em caminho de saída, de encontro e acolhida para os irmãos. Quer a Igreja em estado de vigilância, de cuidado e atenção com aqueles que estão fora, com aqueles que se encontram em “periferias existências”, alienados de toda forma de dignidade, mas que devem encontrar na Igreja está casa aberta e acolhedora.

O profeta Isaias na primeira leitura de nossa liturgia se torna expressão antagônica daquilo que estamos meditando. Ele é porta voz de um cenário de cansaço espiritual, acomodação, esfriamento da fé e endurecimento do coração: “ Como nos deixaste andar longe de teus caminhos e endureceste nossos corações para não termos teu temor? Por amor de teus servos, das tribos de tua herança, volta atrás.” (Is 17-19). O lamento de Isaías é revelador. Agimos assim também. Facilmente encontramos culpados para nossas “burradas”, fora de nós mesmos. Com muita dificuldade assumimos a responsabilidade de nossas fraquezas e pecados. O profeta vai além, chega a culpabilizar o próprio Deus por seu relaxamento e endurecimento de coração.

O reconhecimento do mal, e suas consequências: “ todos nós nos tornamos imundície, e todas as nossas boas obras são como um pano sujo; murchamos todos como folhas(…)” (Is 64, 4); foi o caminho encontrado por Isaías para retomar o caminho em direção a Aliança com seu Senhor. Tal qual o filho pródigo que após cair em si, faz o caminho de volta para casa: “ Não há quem invoque o teu nome, quem se levante para encontrar-se contigo(…). Assim mesmo, Senhor, tu és nosso pai, e nós somos barro; tu, oleiro, e nós todos, obra de tuas mãos” (Is 64, 7).

O profeta nos exorta que o advento pode ser um tempo especial de reencontro com esta inacabada obra que somos nós nas mãos de Deus, mas relembra também que não precisamos para isto chegar ao fundo do poço na vida espiritual e moral. Não há necessidade de criar abismos, mas sim pontes: “ Assim não tendes falta de nenhum dom, vós que aguardais a revelação do Senhor nosso, Jesus Cristo. É ele quem vos dará a perseverança em vosso procedimento irrepreensível, até ao fim, até o dia de nosso Senhor” (1Cor 1, 7 -9- segunda leitura da liturgia).

É Paulo quem faz a conexão desta liturgia com o santo Evangelho. Na segunda leitura se encontra o outro importante “tom” do advento: a vigilância!

O Evangelho deste domingo começa com a seguinte expressão: Cuidado! Não para incutir nos ouvintes um sentimento de “medo” e sim de atenção de nossa parte de como estamos conduzindo nossa vida cristã. Se há algum esfriamento, algum cansaço, alguma sonolência, a culpa deste estado de coisas, não está no Cristo que vêm , mas com que espírito estamos o acolhendo. Para isso o “bom recado” desta liturgia de advento é a vigilância: “ vigiai, porque não sabeis quando o dono da casa vem: a tarde, à meia-noite, de madrugada ou ao amanhecer. Para que não suceda que, vindo de repente, ele vos encontre dormindo” (Mc 13, 36).

A palavra do Senhor atinge em cheio um estado de anima, em que muitos de nós podem se encontrar. Mas atinge também um estado de anima, em que nossas própria comunidades eclesiais, movimentos, pastorais, comunidades religiosas, parecem também estar: sonolentas e adormecidas.

Neste domingo deixe-se acordar pelo Senhor. Ouça a voz de Cristo gritar em seu coração: vigiai! e cuidado, porque não sabeis quando chegará o momento. (Mc 13, 33)

 

 

 

 

 

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“No entardecer de nossa vida seremos julgados pelo amor” (São João da Cruz)

 

Festa de Cristo Rei

(Ez 34, 11-12; 15-17; Sl 22; 1 Cor 15, 20-18; Mt 25, 31-46)

A liturgia da Igreja é feita de ciclos. Cada tempo litúrgico corresponde a um ciclo específico. O tempo do Advento, o ciclo natalício, a quaresma, o ciclo da pascal, as festas e os santos importantes festejados na Igreja e claro o tempo comum que neste final de semana celebramos. Todo o calendário litúrgico se encaminha para a solenidade que hoje celebramos: A festa de Cristo Rei e Senhor do Universo.

É para este “oriente” que se encaminha a caminhada litúrgica eclesial. A vida é também liturgia. Ela também é feita de ciclos e ritos. Quando os homens perdem o significado ritual da vida, eles perdem também aquilo que sustenta o ritmo da existência humana: Nascer, crescer, tornar-se adulto, saber envelhecer e morrer, são ciclos da vida que se abrem e se concluem diante de nós todos sem que seja preciso muita reflexão, é o ordinário no tempo existencial de cada um.

Neste final de semana celebramos a alegria da conclusão de mais um ciclo litúrgico. Desde que o calendário litúrgico foi assumido na Igreja no séc V; com sabedoria a Igreja segue esta melodia litúrgica. O tempo litúrgico tens muitos fins seguramente. Mas um deles somos sempre chamados a abraçar: Nele nós vivemos e celebramos nossa vida de santidade. Nele Deus nos chama á “esperar”, à “mudar e purificar nosso coração”, à festejar, e a caminhar como peregrinos até o foco que a Igreja jamais perde de vista que é : Cristo Senhor de todas as coisas: “conforme decisão prévia que lhe aprouve tomar, para levar o tempo à sua plenitude: a de em Cristo encabeçar todas as coisas as que estão nos céus e na terra” (Ef 3, 10).

Na liturgia deste final de semana, a Igreja nos chama atenção a revisão de nossa caminhada. Para que este “exame” se realize de forma concreta, e não meramente subjetiva, os critérios nos são dados pela Palavra de Deus. É ela a Palavra do Senhor que deve trazer luz aos lugares que permanecem ainda escuros e sombrios, em nossa vida. Será ela, a Palavra, que permitirá que ciclos vitais ainda abertos dentro de nós ou inconclusos venham a fechar-se e resolver-se neste final de ano litúrgico.

A liturgia neste final de semana aponta para um ciclo que permanece aberto entre nós e que invariavelmente todos temos de participar: Neste “exame de final de ano litúrgico”, nossa aprovação espiritual deve permitir-se interpelar pelos apelos que o evangelista Mateus nos provoca: “ Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita; Vinde benditos de meu Pai! Recebei como herança o Reino que meu Pai vos preparou desde a fundação do mundo! Pois eu estava com fome e me destes de comer; eu estava com sede e me destes de beber; eu era estrangeiro e me recebestes em casa; eu estava nu e me vestistes; eu estava doente e cuidastes de mim; eu estava na prisão e fostes me visitar” (Mt 25, 34-36).

Com certeza durante todo este ano fizemos muitas coisas. Realizamos boas obras em nome de nossa comunidade, de nosso movimento eclesial, em nossa vida espiritual, mas não poderíamos encerrar este ano sem que nossa vida cristã queira participar de forma efetiva deste ciclo que permanece aberto em nossa sociedade.

O Papa Francisco no lançamento do dia mundial dos pobres enviou uma belíssima mensagem a toda a Igreja, nela estava presente o eixo de nossa vida cristã: unir fé e obras, vida interior e misericórdia, mãos e coração: “ «Meus filhinhos, não amemos com palavras nem com a boca, mas com obras e com verdade» (1 Jo 3, 18). Estas palavras do apóstolo João exprimem um imperativo de que nenhum cristão pode prescindir. A importância do mandamento de Jesus, transmitido pelo «discípulo amado» até aos nossos dias, aparece ainda mais acentuada ao contrapor as palavras vazias, que frequentemente se encontram na nossa boca, às obras concretas, as únicas capazes de medir verdadeiramente o que valemos. O amor não admite álibis: quem pretende amar como Jesus amou, deve assumir o seu exemplo, sobretudo quando somos chamados a amar os pobres. Aliás, é bem conhecida a forma de amar do Filho de Deus, e João recorda-a com clareza. Assenta sobre duas colunas mestras: o primeiro a amar foi Deus (cf. 1 Jo 4, 10.19); e amou dando-Se totalmente, incluindo a própria vida (cf. 1 Jo 3, 16).Um amor assim não pode ficar sem resposta” (Papa Francisco).

Do ponto de visto litúrgico, esta solenidade de Cristo Rei e Senhor do Universo propõe um movimento de toda a humanidade e criação em direção à Cristo. O apóstolo Paulo expressa esta realidade na segunda leitura: “E quando todas as coisas estiverem submetidas a Ele, então o próprio Filho se submeterá áquele que lhe submeteu todas as coisas, para que Deus seja tudo em todos” (1 Cor 15, 28). Celebrar Cristo Rei, é celebrar este destino, esta recapitulação de todas as coisas em Cristo (oração da coleta), no entanto sem esquecer que este destino, este caminho, esta direção passa por situações práticas e concretas: Passa pelo amor ao próximo e aos mais pequeninos. São João da Cruz o grande teólogo-místico do séc. XVI, nos oferece uma bela intuição para este “exame” de final de ano litúrgico: “ No final da vida seremos julgados pelo amor”. No final de nosso ciclo seremos julgados com a seguinte sentença: “ Senhor quando foi que te vimos com fome e te demos de comer? Com sede e te demos de beber? Quando foi que te vimos como estrangeiro e te recebemos em casa, e sem roupa e te vestimos? Então o rei lhes responderá: Em verdade vos digo que todas as vezes que fizestes isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25, 37-40).

Encerrando este ciclo anual litúrgico cheio de muitas graças e bênçãos recebidas por Deus, a Palavra do Senhor nos oferece nova oportunidade de abrirmos nova etapa em nossa vida espiritual. Que não esqueçamos dos critérios que o bom Senhor nos apresenta neste dia, e que no dia em que formos julgados, que pese sobre nós apenas o amor que doamos aos mais pequeninos.

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“O segredo da fidelidade no pouco”

Neste final de semana a liturgia da palavra nos convida a refletir sobre os bens que recebemos de Deus. É um convite a gratidão e a confiança. A todos, Deus cumulou com dons, graças, capacidades, inteligência, criatividade, etc. Todos esses bens existenciais, o bom Deus distribuiu a todos os homens para que produzam frutos: “ Eu sou a Videira verdadeira e meu Pai é o agricultor, todo aquele que permanece em mim, produz muito fruto” (Jo 15, 1).

No evangelho deste domingo, Jesus fala a seus discípulos sobre a importância de permanecer Nele, se fiar no Senhor, para que os frutos possam aparecer, isto é, para que os bens concedidos pelo Senhor a nós possam germinar. A parábola dos talentos aponta para este seguinte tema: em primeiro lugar a confiança que o Senhor Jesus tem para conosco, pois confia a nós seus discípulos “talentos”, que precisam ser administrados.

O talento era uma medida monetária. Seu valor era altíssimo, corresponderia a mais ou menos 59 kg de ouro, o que é se torna muito simbólico, pois Deus foi muito generoso ao extremo conosco: Nos cumulou com um valor altíssimo de bens, dons e capacidades e além do mais, deu-nos aquilo de maior valor que é sua herança paterna.

A parábola fala da imensa generosidade de Deus e de nossa resposta a ela: “ um homem ia viajar para o estrangeiro. Chamou seus empregados e lhes entregou seus bens. A um deu cinco talentos, a outro dois e a um terceiro, um, segundo a capacidade de cada um. Em seguida viajou” (Mt 14-15).

Claro que a parábola evangélica é uma imagem do Reino: Cristo depois da ressurreição, retorna até o Pai e confia sua missão a seus discípulos (as). E esta missão é valiosa como uma mina de ouro.

Cuidar, administrar algo tão nobre não é fácil para ninguém. A missão que Deus confiou a nós seus discípulos exige de nossa parte confiança no Senhor. É esta a “capacidade” que aparece no evangelho. Bem mais que um atributo natural, é um dom da Graça que nos capacita a produzirmos os frutos necessários.

Obviamente que a parábola dos “talentos”, encontra eco no contexto judaico-cristão na qual o evangelho de Mateus é grande porta voz: Os talentos lucrados por aqueles empregados que produziram cinco e outro dois talentos, sãos os frutos advindos bem mais da Graça do que dos méritos próprios da lei. São símbolos da Igreja nascente que estando unida a seu Senhor produzem muito fruto:  “Não me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi a vós, e vos nomeei, para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça; a fim de que tudo quanto em meu nome pedirdes ao Pai ele vo-lo conceda” (Jo 15, 16).

Mas há também na parábola a negação, a contradição, o fechamento, na imagem do terceiro homem que recebeu 1 talento e por medo o enterrou na terra. Conhecemos muita gente na Igreja que têm enterrado seu talento na terra. Enterrar algo no chão na antiguidade era símbolo de morte. Dons, bens, criatividades, graças que não são postas em comum, mas enterradas no solo, acabam sendo sufocados e morrendo. A parábola dos talentos é uma aventura de fé. Um convite a revisarmos nossa resposta ao que a generosidade de Deus tem disposto ao nosso coração.

Hoje neste final de semana Deus está querendo recordar algo a você: a) Você é amado e dotado de muitos bens doados gratuitamente por Deus. b)  lucrar estes dons é confiar naquele que os cumulou. c) enterrá-los é sufoca-los. Não esqueça, não os deposite no chão por medo de Deus. Mas procure a pequena via da fidelidade, ela lhe garantirá a participação de sua plena alegria “ muito bom servo bom e fiel, como fostes fiel no pouco, eu te confiarei muito mais, vem participar de minha alegria” (Mt 25, 21).

“Virtudes da prudência e esperança, lâmpada para nossos pés e luz em nosso caminho”

XXXII Domingo Comum

(Sab 6,12-16; Sl 62; 1Ts 4, 13-18; Mt 25, 1-13)

Na medida em que estamos chegamos ao final do ano litúrgico, se faz sempre necessária uma breve avaliação. Perguntas passam a se impor nestes momentos: Como têm sido este ano para mim? Como tenho vivido minha fé cristã? Como têm sido minha participação na comunidade eclesial?  De que forma estou sendo “sal da terra e luz do mundo”, no trabalho, na política, junto aos mais necessitados? Como tenho rezado? São precisos e importantes questionamentos que amiúde fazemos sempre quando concluímos períodos em nossa vida. A liturgia da Igreja convida os batizados a cada encerramento do ciclo litúrgico a uma revisão também de seu caminhar espiritual, tendo presente que este “iter” não se fecha em uma visão materialista da realidade, mas mantem-se aberto para o futuro definitivo ao lado do Senhor. Na segunda leitura, são Paulo adverte os irmãos de Tessalônica sobre esta realidade: “ Irmãos, não queremos deixar-vos na incerteza a respeito dos mortos, para que não fiqueis tristes como os outros, que não tem esperança. Se Jesus morreu e ressuscitou- e esta é a nossa fé, de modo semelhante Deus trará de volta com Cristo, os que através dele entraram no sono da morte” (1 Ts 4, 13-14).

A carta paulina fala de um tema importantíssimo seja para seus destinatários primeiros, como também para todos nós: Esperança. Ela é sempre temática atual. Vivemos atualmente “cabisbaixos” e um tanto pessimistas em relação a tantas demandas que nos cercam: na política, na violência, corrupção, incertezas futuras na economia, etc. Na Igreja as perspectivas vocacionais não se apresentam lá muito favoráveis, se torna sempre atual o pedido de Jesus por mais operários para sua messe e claro que estes cenários podem arrancar de nós esta palavra-virtude nominada Esperança.

A palavra esperança, em sua origem se radica na “espera”, e sabemos que não é nada fácil esperar. No mundo atual quer-se tudo para ontem. As comunicações não esperam para darem suas notícias, as redes sociais nos trazem novas informações, mensagens e avisos a cada minuto. Tudo em nossa geração se revela no imediatismo. Por isso se torna sempre difícil falar de esperança nos dias de hoje.

A virtude da esperança necessita de espaço e de tempo. Não cabe no pragmatismo atual e muito menos na liquefação das relações entre as pessoas e entre o homem e Deus. Na primeira leitura o livro da sabedoria faz interessante descrição sobre outra importantíssima virtude tão esquecida em nossos contextos, a prudência.: “A sabedoria é resplandecente e sempre viçosa. Ela é facilmente contemplada por aqueles que a amam(..) Quem por ela madruga não se cansará, pois a encontrará sentada a sua porta. Meditar sobre ela é a perfeição da prudência; e quem for acordado por ela, em breve há de viver despreocupado” (Sb 6, 12-24). O autor do livro da sabedoria nos ajuda a perceber que ambas as virtudes: esperança e prudência, só podem ser alcançadas através da meditação e da contemplação. Meditar, orar, contemplar são atividades do espírito e que exigem dos que a buscam, tempos de silêncio, solidão, estudo, de uma certa “espera” que cria dentro de nós “reservas” espirituais e emocionais muito necessárias à vida cristã e que o imediatismo dos dias de hoje pode com facilidade nos arrancar.

Neste domingo o evangelho narra a parábola das virgens. Sabemos que cinco delas eram prudentes e outras cinco imprevidentes. Nos impressiona pensar que quer seja a prudência, quer seja a esperança estão presentes neste profundo texto bíblico. E aqui se apresentam entrelaçadas. O contexto da parábola conhecemos: as virgens esperam a chegada do noivo para a festa de casamento. Aconteceu que diante da demora do noivo, todas acabaram cochilando e dormindo: “O noivo estava demorando, e todas elas acabaram cochilando e dormindo” (Mt 25, 5). Foi a demora, foi espera além do cálculo, foi o tempo que fez com que as noivas dormissem. Às vezes esta demora pelo “noivo”, pelo “esposo”, por Cristo em nossa vida faz com que venhamos a cansar e adormecer também. O pragmatismo de nossos tempos atinge também nossa vida cristã. Nós também queremos respostas de Deus para ontem. Que nossos problemas sejam resolvidos imediatamente, nossas doenças sejam curadas, nossas paróquias de imediato renovadas. O problema vocacional resolvido. Mas o tempo de Deus quase sempre não se coaduna com nossas expectativas. Às vezes é preciso esperança e preciso saber esperar, e recordar que Deus está no controle de todas as coisas.

Havia uma interessante diferença entre as virgens prometidas em casamento: 5 delas eram prudentes, 5 delas tinham consigo uma reserva de óleo, 5 delas tinham dentro de si, aquela reserva espiritual e por que não dizer emocional, que fez com que mesmo diante do silêncio e da demora do noivo, suas lâmpadas se mantivessem acesas: “ a sabedoria é resplandecente e sempre viçosa” (Sb 6,12). Esta lâmpada da sabedoria, da prudência, da esperança, não pode se apagar dentro de nós. Só iremos ao encontro de Cristo, na noite escura de nossos tempos, se nossas lâmpadas estiverem acesas, se economizarmos um pouquinho, na meditação, na oração pessoal, na caridade com os pequeninos e no amor ao próximo. Assim a porta estará sempre aberta para nós.

 “Santidade de vida é permitir-se restaurar por Deus”

Festa de todos os Santos

(Ap 7, 9-4.9-14, Sl 23, 1 Jo 3, 1-3; Mt 5, 1-12)

O trabalho de restauração na arte é um minucioso e cuidadoso trabalho. O artista, o escultor, o artesão, trabalha lentamente, com calma, zelo, procurando recuperar aquela imagem original antes perdida. Muitas vezes chegam ás mãos dos artistas obras bastante desfiguradas, ora pelo tempo, ora pelo descuido, ora quebradas e esfaceladas que em um primeiro olhar não teriam mais chance de conserto, mas o bom artista sabe que com zelo e amor poderá reconstruí-la novamente á imagem original.

Esta semana aqui em minha paróquia, levei uma imagem de santo Antônio para o conserto. Ele estava quebrado em várias partes. Um dia depois, chegará já a mim uma foto da reconstituição da obra. Antônio estava novamente reconhecível, em pé, colado e daqui a alguns dias pronto novamente para consertar a vida de tantos que recorrem aos seus cuidados. O artista havia feito um pequeno milagre com suas mãos e coração.

Neste final de semana celebramos a festa de todos os santos. A santidade de vida é muitas coisas, até por que muito já se falou sobre ela de maneira formal. Mas é também uma obra continuada de restauração. É a restauração na obra central de nosso Deus que é a vida humana. Recordemos nesta liturgia o grande Irineu de Lião que contra o perigo de uma espiritualidade gnóstica que negava a encarnação do Verbo dizia: “ a glória de Deus é o homem vivo e vida do homem consiste na visão de Deus” (Adv haer; IV, 20, 7). Santidade de vida é exatamente, está visão de Deus, possibilidade de reencontro, amizade, unidade e harmonia novamente com o Senhor que começa já nesta vida e se estende até a visão plena de Deus na glória.

O mesmo santo Irineu de Lião certa vez definiu ao Senhor como a um artista, dizia o santo teólogo que o Verbo e o Espírito Santo são como as duas mãos do Pai que abraçam, acolhem e restauram a criação: “ Desde sempre ele te de fato, tem junto de si o Verbo e a Sabedoria, o Filho e o Espírito. É por meio deles e neles que fez todas as coisas, soberanamente e com toda a liberdade, e é a eles que se dirige, quando diz ‘ façamos o homem à nossa imagem e semelhança´” (Adv; Haeres, IV, 20; 3).

Como as mãos dos artistas que restauram obras as vezes totalmente destruídas, assim também as mãos do Pai, restauram em nós aquela imagem original, fragmentada e quebrada pelo pecado, pelo tempo, pelo descuido de si mesmo, pelo desleixo na vida espiritual, pelo egoísmo e fechamento de si. Fruto de uma visão parcial da realidade, onde tudo se resume ao “Aqui e o agora”.

Na segunda leitura são João fala da santidade de modo surpreendente: “ Caríssimos desde já somos filhos de Deus, mas nem sequer se manifestou o que seremos! Sabemos que, quando se manifestar, seremos semelhantes a Ele, porque o veremos como Ele é. Todo o que espera Nele, purifica-se a si mesmo, como também Ele é puro” (1 Jo 3, 2-3). João está falando que o potencial à santidade de vida já habita em nós pelo mistério da filiação Divina. Ser chamados filhos, já nos faz em condição de possibilidade a sermos santos. A herança que carregamos dentro de nós é santa. Por isso a palavra de Deus pode afirmar: “ Sede santos como vosso Pai celeste é santo” (Mt 5, 48). Com certeza o pecado das origens maculou, fragmentou, distorceu esta imagem-herança dentro de nós. Dentro da alma humana, aconteceu algo semelhante com as obras de arte quando se quebram ou fragmentam e precisam de restauro e conserto para retornar a sua imagem original.

O salmo de resposta desta liturgia afirmar quem de fato poderá entrar novamente nesta experiência de comunhão e unidade com o Senhor: “ quem subirá até o monte do Senhor, quem ficará em sua santa habitação. Quem tem mãos puras e inocente o coração, quem não dirige sua mente para o crime” (Sl 23, 2).

As bem-aventuranças concluem a liturgia da Palavra desta solenidade de todos os santos. O modelo de santidade que quer-se abraçar começa tendo em nós mesmos os mesmos sentimentos que tinha Jesus Cristo (Fl 2, 4). As bem-aventuranças estão um pouco na contramão da história. É uma obra de arte muito concreta e que exige que nosso olhar sobre ela esteja purificado. Cada beatitude afirmada por Cristo restaura em nós valores que a sociedade consumista e pragmática que vivemos riscou ou quebrou. Deixemo-nos restaurar por Cristo. Sejamos santos como Ele é santo!

“Se alguém diz: eu amo a Deus e odeia o seu irmão é mentiroso” (1 Jo 4, 20)

XXX Domingo Comum

(EX 22, 20-36; Sl 17; 1Ts 1, 5-10, Mt 22, 34-40)

Assim como inúmeros arbustos não nos permitem ver os bosques, as tantas informações que temos hoje em nosso mundo não permite que captemos o que é o essencial. Muitas ideias e posições abstratas não nos deixam ver a verdade que une as coisas.

Assim se achavam os contemporâneos de Jesus Cristo sobre o que é o essencial, o que une, o ligame entre as oposições. Quando pensamos sobre o termo “religião”, logo recordamos sua origem “re-ligio” e seu significado que é o de ligar outra vez. As religiões tradicionais sempre exerceram esta “missão” nas culturas: ligar as pessoas aos mais profundos princípios, ligá-las a Deus, ligá-las às fontes de sua tradição e também unir, ligar, congregar os homens. Todas as culturas de fundo religioso manifestaram que crer em Deus de forma alguma é possível sem que se perceba o homem o “meu próximo”. Quando a religião perde o foco de um de seus pares (Deus ou o homem), começa a vagar no mundo cega e voltada para si mesma. Centrada em muitas leis, normas, códigos infindáveis que manifestam apenas uma das dimensões essenciais da religiosidade: a exterioridade.

Mas não só de exterioridade vive a religiosidade. Ela é importante, necessária, imprescindível para a vida de fé, desde que seja um reflexo de uma experiência profunda e interior para com Deus. Sem interioridade e profundidade a experiência de fé poderá cair no casuísmo das leis, frias e em nada re-ligadoras das pessoas com Deus e o próximo.

Neste final de semana a liturgia dominical quer nos recordar a importância de não nos perdermos somente no que é exterior, somente no que está na parte “ex-terna”, mas naquilo que faz com que toda a vivência da fé seja também “terna”, integradora e unificante.

No evangelho fariseus reunidos em grupo fazem a Jesus um singular questionamento: “ Mestre qual é o maior mandamento da lei?” (Mt 22, 36). Somente os hebreus poderiam fazer esta pergunta a Cristo. Em um “emaranhado” de prescrições e pequenas leis (613), que viviam os judeus no período de Jesus, a questão proposta pelos fariseus indicava algo como: em meio a tantas prescrições e normas o que é realmente o mais importante e mais essencial? Jesus responde que o prioritário é amar! Isto vem em primeiríssimo lugar. Esta é a primeira resposta de Cristo, o resumo de toda a lei (Rm 13).

Os judeus da época (fariseus, escribas, saduceus, etc), compreendiam que o amor, a vontade de Deus se encontrava no cumprimento dos mandamentos, na observância estrita e sincera da Lei do Senhor. O Senhor Jesus, não despreza em nada esta compreensão, mas a plenifica. Para Jesus, não será a observância da lei que irá me ensinar a arte de amar. Não basta apenas um código de ética pré-determinado, mas sim o “amar ao Senhor de todo coração, de toda tua alma e de todo o entendimento” (Mt 22, 37), que dará sentido e significados profundos ao cumprimento da lei. Em outras palavras, Jesus está ensinando aos fariseus que a resposta sobre o maior mandamento não é questão que se deva “decorar”, mas sim que se deva viver com o coração.

Por isso que na primeira leitura da liturgia deste domingo, o mandamento do amor se apresenta em uma versão concreta: “ não oprimas nem maltrates o estrangeiro, pois fostes estrangeiros no Egito (…) se os maltratardes, gritarão por mim, e eu ouvirei seu clamor (…) se emprestares dinheiro a alguém do meu povo, a um pobre que vive ao teu lado, não sejas usurário, dele cobrando juros” (Ex 22, 2-25). É o desdobramento do amor. O amor sim tem a sua pequena e profunda dobradiça. Todos que querem entrar por esta porta, devem acionar esta “dobra”. O amor ao próximo, o segundo e semelhante amor é a observância atenta da lei do Senhor vivida na prática. Não só nas palavras!

Quantos são os cristãos católicos muito dados a normas, formas, leis plenas de  rigor canônico e regras, mas que não conseguem “de todo o coração e toda a alma”, acionar a “maçaneta” que os colocaria diante do próximo. É o risco de todos nós. E a conversão que todos somos chamados a realizar!

Quando você está ao menos disposto a vivência do maior mandamento da lei: amor a Deus e ao próximo, você passa a viver sua fé, sua religiosidade retomando aquilo que é tem de mais importante e nobre para a vida humana: que é capacidade que o cristianismo nos oferece que re-ligarmos novamente. Meus irmãos, ninguém se une verdadeiramente a Deus se não ama seu próximo e ninguém consegue amar realmente seu irmão e nem a si mesmo, se quiser tirar Deus amor desta jornada!

 

“Entregar a Deus a sua imagem intacta em nós” (Orígenes – séc. III)

XXIX Domingo Comum

(Is 45, 1.4-6; Sl 95; 1Ts 1, 1-5; Mt 22, 15-21

Os missionários vivem situações muito diversificadas de cultura, regimes de governo. Seu anúncio procura ajudar as pessoas a colocarem as coisas em seu devido lugar: dando a César o que é de César e devolvendo a Deus aquilo que é de Deus. No evangelho deste final de semana, fariseus e alguns partidários de Herodes procuraram apanhar Jesus em uma palavra. A questão proposta por estes grupos girava em torno da liceidade do pagamento de tributos ao império romano: Seria lícito ou não pagar os impostos à Cesar?

Questão antiga, sempre controversa e com inúmeros e muitíssimos desdobramentos na história. Questão que toca a relação espinhosa e ao mesmo tempo delicada existente entre estado e fé, entre poder temporal e espiritual entre governos e Igreja, entre laicidade e religião. Problemas que hoje enfrentamos com novas configurações, quando nos perguntamos quais serão em nossos dias os devidos papéis de um de outro em nossa sociedade? Quais as competências e os limites do estado e da religião em nosso tempo ou quais as possibilidades de encontro e diálogo destas realidades não tão antagônicas senão essencialmente dialéticas. Estas são perguntas muito nossas de nosso tempo, mas que não estão distantes da provocação que a liturgia da Palavra nos faz neste santo Domingo do Senhor.

Jesus não viveu em uma sociedade laica. Nem Ele, nem seus discípulos conheceram este modelo de organização política. Seu contexto sócio-cultural era eminentemente teocrático sob regime de dominação romana (que versava em uma teocracia flertando alguns elementos da antiga democracia grega). É neste contexto que surge a pergunta farisaica: “Mestre sabemos que és verdadeiro e que, de fato, ensinas o caminho de Deus (…) Dize-nos, pois, é licito ou não pagar imposto a César?” (Mt 22, 17).

O ambiente político onde Jesus cresceu, viveu e anunciou o seu Reino não era o muito tranquilo e pacífico. Se as coisas já eram muito “tensas” para Ele em relação aos fariseus, escribas, sacerdotes, anciãos devido à uma intransigência em relação a Lei mosaica, da parte destes grupos político-religiosos, mais conturbada ainda era sua relação com o poder imperial. O status quo da dominação romana sobre a palestina nem sempre foi acolhida por todos estes grupos judaicos. Por isso diante da questão proposta pelos fariseus era preciso da parte de Cristo muita sabedoria e diplomacia na resposta.

Como também em nossos tempos. Sempre que nos perguntamos qual o papel do cristão na sociedade ou até aonde os agentes das confissões de fé podem interferir nas decisões e definições sociais será preciso sempre, cautela e respeito de ambas as partes. É certo que existe um papel, é notório que a Palavra de Deus tem muito a iluminar os caminhos da sociedade em termos de política, economia e cultura, mas tudo em clima de respeito e liberdade pelas instâncias responsáveis.

Aqui os fariseus querem uma ingerência! Aqui os herodianos querem uma intervenção messiânica da história, própria do ambiente de Cristo. No entanto Jesus não entrou nesta “onda” do sagrado provocada por seus adversários.

O Evangelho deste final de semana é extremamente atual. Há um clima de intervenções invasivas de ambas as partes em nosso tempo. De uma parte os radicais ligados a movimentos de inspiração “laicista” querem de todas as formas instaurar a utopia de um mundo ou sociedade onde a religiosidade e seus valores estejam tidos como já superados. O que não se verifica no real. Impossível pensar e viver em um mundo onde o “sagrado”, a “” não oriente os princípios mais perenes desta sociedade. O fenômeno religioso tem antes de tudo um aspecto cultural de base e formação para qualquer sociedade.

De outro lado há uma tentativa de ingerência semelhante à qual ouvimos no evangelho: políticos de inúmeras confissões religiosas querendo também impor à realidade do estado seus valores e princípios, se submetendo para este fim aos maiores escândalos morais e éticos em nome da hegemonia do poder.

Eis a questão de nossa meditação deste final de semana! Há quem devemos honrar, reverenciar, adorar, amar, servir? Aqui vale para refrescar nossa memória o primeiro mandamento da lei que diz: “Shemá! Ouve, ó Israel: Yahweh, o nosso SENHOR, é o único Deus! Amarás o SENHOR, teu Deus, com todo o coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças.” (Dt 6, 4-6). Nosso Senhor é o único. A Ele nosso verdadeiro culto e adoração. Toda a nossa vida e esperança. Com certeza Jesus quis recordar ao coração dos fariseus está verdade da Lei. Não quereria Ele provocar uma insurreição contra os romanos e nem mesmo legitimar a adoração ao imperador Romano (César). Ele quis em sua infinita sabedoria, colocar as coisas em seu devido lugar. Tudo indica que é o que mais estejamos precisando nestes tempos de extremismos laicistas e fundamentalistas é encontrar um equilíbrio nestas relações. Santo Agostinho ilumina-nos em muita nossa espiritualidade ao comentar este evangelho: “ mostrai-me a moeda. Mostraram-na a ele. De quem disse, é a imagem e a inscrição? Responderam de César. E ele: Dai pois a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Como César busca a imagem em sua moeda, assim Deus busca a sua imagem em nós, em tua alma. Dai pois a César, disse, o que é de César. O que César te pede: sua imagem. O  que Deus te pede: Sua imagem. Porém a do César está na moeda, mas a de Deus está em ti. Se alguma vez perdes uma moeda, choras porque perdeste a imagem de César; e não choras quando um ídolo sabendo que fazes injúria à imagem de Deus reside em ti” (Sermão 113, 7-8)
A reflexão de Agostinho nos convida a recuperarmos nosso lugar na sociedade, com nossos compromissos como cidadãos, sendo honestos e sal da terra e luz do mundo, testemunhando ali também nosso cristianismo e paradoxalmente nossa relação e reverencia com o Senhor. As instâncias não são ambíguas, ou totalmente opostas, serão sempre complementares. Podemos perder muitas moedas com inscrições e imagens de tantos vultos, mas não perderemos jamais aquela imagem de Deus gravada em nossos corações, comprada com o sangue de Cristo: “ façamos o homem nossa imagem e semelhança. O pintor desta imagem é o Filho de Deus” (Origenes de Alexandria)