“Jesus é o Bom Pastor e a porta das ovelhas. Que portas você tem aberto para que Ele entre e ceie contigo”.

IV Domingo do tempo Pascal

(At 2, 14. 36-40, Sl 22; Jo 10, 1-10)

Celebramos no IV domingo da páscoa a figura do Bom Pastor. Ela é imagem antiga na tradição de Israel e que Jesus assumiu também como sua. O Pastor em Israel lembrava o cuidado, o amparo, o amor pelo seu rebanho, a providência do alimento e a proteção contra os inimigos. Por isso é que esta significativa imagem bíblica se aplicou perfeitamente a Cristo.

Também no IV domingo celebramos o dia mundial de oração pelas vocações. A Igreja neste dia é novamente convidada a se fazer obediente ao apelo do mestre que roga a seus discípulos: “pedi pois ao Senhor da messe que envie operários para sua messe” (Mt 9, 38).

No evangelho deste domingo Jesus se utiliza de uma imagem muito singular. Se define como a “porta das ovelhas” (7). Ao se auto definir como a porta das ovelhas, Jesus está dizendo a seus discípulos que Ele é o ingresso por onde seus discípulos devem entrar, que Ele é o caminho por onde os seus amigos devem trilhar que é por Ele e somente por Ele que se abrem as possibilidades de nossa vida encontrar-se com a salvação.

A porta é uma imagem muito cara na antiguidade. Ela recorda a via de ingresso nas cidades, o acesso a cidadania tão importante para o homem do mundo antigo. Mas haviam “portas”, que podiam indicar também o ingresso a caminhos de vida equivocados. Haviam, como hoje portas que davam acesso a uma vida dissoluta no pecado, no fechamento total para a vida divina.

A imagem da porta é cara em nosso contexto também. Vivemos em um mundo onde encontramos portas abertas para o egoísmo, para a perdição, para o ingresso em um mundo de drogas, do crime, da corrupção política enfim. Infelizmente constatamos que para esses fins não existem trancas, chaves e limites. Tudo é um pouco permissível no nosso contexto e quando cogitamos em estabelecer alguns limites morais, estas “portas” são consideradas como antiquadas e démodés. Mas paradoxalmente há em nosso tempo muitas portas que se encontram trancadas. As portas de acolhida para os mais pobres, para os idosos de nossa sociedade; as portas do coração de nossos políticos e legisladores que deveriam abrir-se ao bem comum mas permanecem fechadas ao próximo e “escancaradas” para os interesses particulares; as portas do coração do homem moderno que cada vez mais se fecha “por dentro”, em um materialismo e individualismo que os têm levado a sentir-se cada vez mais órfão de si mesmo.

A imagem da porta é realmente muito presente também para todos nós. E é por isso que é tão bem vinda neste tempo pascal. Jesus abriu para todos nós uma grande porta: a porta de acesso ao Pai no alto da cruz: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim” (Jo 14, 6).

Hoje o convite que nos faz a liturgia do Bom Pastor é o de abrir por dentro de nós mesmos a porta do coração e deixar que Ele entre, sente e faça conosco a refeição: “entrou para ficar com eles. E, uma vez à mesa com eles, tomou o pão, abençoou-o, depois partiu-o e distribui-o a eles. Então seus olhos se abrirão e reconheceram” (Lc 24, 30-31).

Quando nós pensamos na imagem do Bom Pastor e nos atributos que ela oferece logo vêm a nossa memória o cuidado e a amizade. O evangelho de João nos diz que: “O Bom Pastor conhece as minhas ovelhas e elas me conhecem, como o Pai me conhece e eu conheço o Pai. Eu dou a vida por minhas ovelhas” (Jo 10, 14-15). O texto revela que a relação que existe entre pastor ovelha é mediada pelo conhecimento. Aqui abre-se uma porta muito singular para a compreensão deste belo capítulo de João. O verbo conhecer no contexto bíblico não tem o mesmo sentido que no contexto moderno. Conhecer na Escritura não é apenas saber tecnicamente sobre alguma coisa. Conhecer é na verdade amar. O que se estabelece entre pastor e ovelha é mediado pelo amor que um tem pelo outro como o Pai tem pelo Filho. Por isso Jesus pode afirmar: “conheço minhas ovelhas (…) E eu dou a vida por minhas ovelhas” (Jo 10, 4.15) .

Com certeza temos muitas portas que precisam ser abertas em nossa vida. A porta do perdão, do amor ao próximo, da solidariedade, a porta à vida em abundância que promete o Senhor Jesus. Mas também existem, não sejamos ingênuos portas que necessitam ser para sempre fechadas em nós. As portas que têm te levado ao egoísmo, ao rancor, a um estilo de vida materialista e fechado em si… Feche sem medo estas portas e abra de par em par o coração para aquele que: “Eis que estou a porta e bato se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei e cearei com ele e ele comigo” (Ap 3, 20)

Os três sinais que marcaram o encontro dos discípulos de Emaús com o ressuscitado!

III Domingo Pascal

(At 2, 14. 22-28; 1Pd 1, 17-21; Lc 24, 13-35)

Neste III domingo da páscoa temos a narrativa da aparição de Cristo ressuscitado a dois discípulos que caminhavam de Jerusalém a Emaús. Não era um longo caminho que separava estas duas cidades apenas 11km. Deve-se ter presente que na antiguidade as pessoas caminhavam e se deslocavam em torno de 12 a 15 km por dia: das regiões de campanha às cidades, para buscar água nas fontes, alimentos nos mercados, animais nos campos. Caminhar era uma pratica cotidiana das gentes na época de Cristo. E hoje o evangelho relata este dois discípulos que enquanto faziam seu caminho de volta à aldeia de Emaús eram acompanhados por Cristo ressuscitado.

Há neste belo texto de Lucas uma situação importante que devemos sublinhar para melhor mergulharmos na Palavra. Existe entre os dois discípulos do qual sabemos o nome apenas de um deles: Cléofas (V. 18), um lugar comum, um sentimento psicológico que os iguala, para além do caminho que fazem de retorno a sua aldeia: Interessa-nos muito este sentimento, pois encontramos no final do Evangelho de são João notícia semelhante: a decepção, o cansaço e a tristeza, fazem com que os discípulos do Senhor liderados por Pedro, queiram retornar para suas vidas antigas, aqui significando a volta a pesca: “ Estavam juntos Simão Pedro e Tomé, chamado Gêmeo, Natanael, que era da galileia, os filhos de Zebedeu e dois outros discípulos. Simão Pedro lhes disse: vou pescar. Eles lhes disseram: Vamos nós também contigo” (Jo 21, 2-3). A cena evangélica ao mesmo que tão dramática, não é menos lírica e realista. A dor, as decepções do caminho, as tristezas, quando tomam proporções enormes dentro de nós, nos dizem que tudo está ruindo. Aquilo que acreditamos tanto, que jogamos toda nossa vida, nossa juventude, nossa esperança, falhou, então, o melhor é retornar para aquilo que fazíamos antes, “para pesca”, para aldeia antiga, para aquelas situações que garantiam ao menos minha segurança. Mas com o evangelho, sabemos que não é assim: a fé como diz Hebreus é: “um modo de possuir o que se espera, um meio de conhecer as realidades que  não se vêem (…) ora, sem a fé é impossível lhe ser agradável. Pois, aquele que se aproxima de Deus deve crer que ele existe e que recompensa os que o procuram” (Hb 11, 1.6).

Na cena de Emaús o ambiente psicológico é bem parecido: Os discípulos retornavam para as suas vidas em Emaús com aqueles mesmos sentimentos de dor e tristeza ao ponto de não reconhecerem quem caminhava ao seu lado: “ Eis que dois deles viajavam neste mesmo dia para uma aldeia chamada Emaús (…) ora enquanto conversavam e discutiam entre si, o próprio Jesus aproximou-se e pôs-se a caminhar com eles; seus olhos, porém estavam impedidos de reconhece –lo(…) Eles pararam com o rosto sombrio” (Lc 24, 13.15.17).

Eles queriam retornar. Na verdade desistir. A tristeza, a dor, a decepção que traziam na alma e coração, havia também fechado seus olhos ao ponto de não perceber que o ressuscitado caminhava com eles. A imagem é com certeza lugar comum de nossas vidas. Quando a dor bate nossa porta, quando percebemos que desmorona aquilo que acreditávamos, a vontade é deixar tudo e retornar para os antigos caminhos. Na crise parece ser melhor não arriscar-se mais na aventura da fé e permanecer com as seguranças de uma vida tranquila. Jesus nos orienta neste evangelho que o melhor caminho não é “retornar” para nossa aldeia, mas sim “encontrá-lo” agora também nestas realidades como o ressuscitado.

E ele mesmo é quem nos aponta os lugares espirituais em que se darão agora este encontro, capaz de fazer que: “nossos olhos se abram e o reconheçam e também, nosso coração arda de amor por Ele” (Lc 24, 31.32).

Neste III domingo da Páscoa Cristo ressuscitado não quer que desistamos da aventura da fé. Não quer que em meio a nossas crises e decepções retornemos aos nossos antigos caminhos, à segurança de nossas aldeias. Quer que abram-se nossos olhos e arda de novo nosso coração novamente. A liturgia nos mostra três lugares teológicos onde este profundo encontro reascende dentro de cada um de nós: O primeiro deles se dá na Palavra de Deus: “então Jesus lhes disse: Homens sem compreensão, como o coração de vocês é lento para crer tudo o que os profetas anunciaram! Então, não era necessário que o Cristo padecesse estas coisas para entrar em sua glória? E começando por Moisés e por todos os profetas, explicou-lhes as Escrituras a seu respeito” (Lc 24, 25-27).

Esta é a primeira via em que Jesus lhes abre para chegarem a fé em sua pessoa: a leitura cristológica da Escritura. Lei e profetas, Moisés e Elias, eram figuras de Cristo. A segunda via se dá no partir do pão: “pondo-se a mesa com eles, tomou o pão, deu graças a Deus e, depois de o partir, entregou-o a eles. Neste momento os olhos deles se abriram e o reconheceram; mas Ele desapareceu do meio deles “(Lc 24, 30-31). Aqui entra a leitura eucarística do fato. Lucas transcreve aqui o rito com que Jesus iniciou a instituição da eucaristia na última ceia. A terceira via de reconhecimento do ressuscitado acontece na comunhão com os irmãos: “levantando-se no mesmo instante, voltaram para Jerusalém onde encontraram reunidos os Onze com seus companheiros” (33). Três vias de reconhecimento, Palavra, Eucaristia e comunidade eclesial. Possamos nós também continuar a aventura da fé no ressuscitado o encontrando cotidianamente também nestas vias do Senhor ressuscitado.

“É preciso abrir portas para ser sinal de comunhão e ressurreição”

II Domingo da Páscoa

(At 2, 42-45; 1 Pd 1,3-9; Jo 20, 19-31)

A liturgia do II° domingo da Páscoa exorta-nos a percepção de alguns sinais que acompanham as testemunhas do ressuscitado. O primeiro deles encontramos na 1° leitura no relato de At: “Eles se mostravam assíduos ao ensinamento dos apóstolos, a comunhão fraterna, à fração do pão e às orações” (At 2, 42), este primeiro sinal era conhecido na Igreja primitiva como Koinonia, uma forma comunitária de viver e testemunhar a vida cristã que indicava um alto grau de fraternidade entre os discípulos: “todos os fiéis tinham tudo em comum” (At 2, 42), um outro evidente sinal que marcou o testemunho no ressuscitado foi o da familiaridade: “ Oito dias depois, achavam-se os discípulos, de novo dentro da casa, e Tomé estava com eles. Jesus veio, estando as portas fechadas por medo dos judeus pôs-se no meio deles e disse: Paz a vós” (Jo 20, 26-27). Profunda comunhão (Koinonia) e familiaridade foram sinais que acompanharam as testemunhas do ressuscitado na comunidade primitiva. É evidente que muitos outros existiam, mas estes acima mencionados parecem ecoar muito em nossos tempos. Somos nós hoje também testemunhas de Cristo ressuscitado e por isso queremos sempre descobrir em nossas comunidades eclesiais, em nossas assembleias litúrgicas, em nossas casas de formação nos nossos planos pastorais estes mesmos sentimentos que habitaram a vida dos primeiros cristãos: “tende em vós o mesmo sentimento de Cristo Jesus” (Fl 2, 5).

No entanto não querendo ser negativo, nem sempre estamos os encontrando. Mesmo sabendo que devem estar por lá, em algum lugar de nossa alma, e de nossas Igrejas esta inspiração viva e alegre do início do cristianismo deve ainda pautar nosso seguimento a Jesus Cristo. Muitas vezes o relato da comunidade cristã primitiva presente na 1° leitura é algo que ficou “em algum lugar do passado”. Quase como uma utopia inatingível: “dia a dia, unânimes, frequentavam assiduamente o templo e partiam o pão pelas casas, tomando o alimento com alegria e simplicidade de coração (…) e cada dia, o Senhor acrescentava ao número deles os que seriam salvos” (At 2, 45). Este magnífico retrato da Igreja nascente transformou-se para alguns cristãos numa moldura de parede onde aparecem aqueles quadros antigos já amarelados e esquecidos no tempo. E não deve ser assim. A experiência primitiva dos cristãos não é para ser admirada apenas. Não deve ser para nós apenas uma boa lembrança: É para ser vivida e atualizada também em nosso desafiante tempo.

E somos convidados neste segundo domingo pascal há encontrar estes sinais também entre nós cristãos deste tempo: Como estamos vivendo a comunhão fraterna entre nós? Em outras palavras, como vivemos o mandamento do amor entre nós? Como se vive hoje o novo mandamento: “Eu vos dou um novo mandamento, que vos amei uns aos outros. Como vos amei” (Jo 13, 34). E quando pensamos em familiaridade e proximidade com o Ressuscitado. Como a estamos vivendo? Como estão sendo celebradas e preparadas nossas eucaristias, presença viva do Ressuscitado no meio de nós? Estas tem sido uma experiência de proximidade e familiaridade com o Senhor?

Na 2° leitura o apóstolo Pedro fala que pela ressurreição do Senhor, Cristo nos chamou para: “uma esperança viva, uma herança incorruptível, imaculada e imarcescível, reservada nos céus para vós (…) nisso deveis alegrar-vos, ainda que agora, se necessário, sejais contristados por um pouco de tempo (..)” (1 Pd 1, 3, 4). A vida de um renascido em Cristo deve ecoar estas afirmações petrinas. Por que as vezes ainda titubeamos e desconfiamos? “ Por que estais perturbados e por que tendes dúvidas em vossos corações?” (Lc 24, 38). Por que as vezes parecemos estar distantes desta familiaridade e proximidade que os cristãos na Igreja primitiva viveram e testemunharam?

No Evangelho de domingo o ressuscitado se coloca no meio dos discípulos. O relato de sua aparição recorda-nos a resposta que acompanha nossas liturgias: “Ele está no meio de nós”! Não estamos tratando de mera formalidade litúrgica e sim de uma afirmação teológica que a cada domingo repetimos no mínimo por três vezes durante a liturgia: Ele está entre nós! Em nosso meio! Próximo dos seus discípulos e profundamente familiar a eles: “À tarde desse dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas onde se achavam os judeus, Jesus veio e pondo-se no meio deles lhes disse: ‘Paz a vós’” (Jo 20, 19). Pôr-se no meio, estar entre os seus, evoca intimidade e gratuidade. Os relatos joaninos da ressurreição se apresentam sempre desta forma. Jesus em meio aos seus. Jesus mostrando aos discípulos os sinais de sua intimidade com o Pai: “Oito dias depois, achavam-se os discípulos, de novo dentro da casa, e Tomé com eles. Jesus veio, estando as portas fechadas, pô-se no meio e disse: Paz a vós! Disse depois a Tomé: Põe teu dedo aqui e vê minhas mãos! Estende a tua mão no meu lado e não sejas incrédulo, mas acredita” (Jo 20, 26-27).

A familiaridade e a fraternidade partem dele mesmo. Mostrando as marcas da cruz, Jesus não vem aos seus com sentimento de vingança. Pelo contrário, com gratuidade e amor. Não os manda vingá-lo, mas sim perdoar em seu nome: “aqueles a quem perdoardes ser-lhes-ão perdoados” (Jo 20, 23).

A ressurreição é sempre uma passagem. É a páscoa de Cristo. É a pedra de morte que foi retirada do túmulo. Mas é também a imagem que a 1° leitura nos traz de uma casa aberta para a graça de Deus: “louvavam a Deus e eram favoravelmente estimados pelo povo (..) tomavam o alimento com alegria” (At 2, 44). Porém parece que ainda há portas fechadas entre nós. Há divisões, ciúmes, intrigas, portas e pedras que impedem que a alegria e a familiaridade do ressuscitado reine e conduza nossas vidas. Façamos neste tempo de Páscoa um novo exercício espiritual: O de ser uma Igreja da comunhão fraterna, da fração do Pão e das portas abertas. Portas fora e dentro de cada um de nós!

Domingo da Páscoa do Senhor

(At 10, 37-43; Cl 3, 1-4; Jo 20, 1-9)

Celebramos neste domingo a Páscoa da Ressurreição do Senhor. A vida segue um pouco a trilha da liturgia ou a própria liturgia imita a vida. Na vida têm-se momentos duros e difíceis. Momentos onde experimenta-se “vales escuros” (Sl 22), “profundezas e abismos” (Sl 129); “angústia suprema” (Mt 26, 33), “sentimentos de abandono” (Sl 21) e até mesmo morte (Jo 11, 4). E assim se faz o maravilhoso e paradoxal ciclo de nossa vida: De morte e vida, de dor e alegria, de incertezas e descobertas, de dúvidas e fé, de derrotas e vitórias, de esperança e de amor. Este é seu ciclo. Nele estamos todos nós, existindo no seu meio, mas ao mesmo tempo livres. Esta sua inexorável liberdade é o que nos faz pensar que este ciclo não está fechado, pré-determinado por um destino, mas que é sempre aberto, pela vitória da vida sobre a morte.

Quando nos aproximamos para celebrar a festa da Páscoa, perguntamo-nos sempre pelo seu sentido nos dias de hoje. Perguntar-se sobre o seu significado não é mero racionalismo. Quando nós perguntamos sobre o sentido da páscoa em nossos dias não estamos correndo atrás de evidências científicas e históricas. Elas não nos interessam tanto como outrora. Perguntamo-nos sobre o significado que este evento têm ainda na vida e no coração de cristãos e não cristãos, dos homens de boa vontade de outros credos e claro também aos não crentes.

A liturgia como dissemos acima é símbolo da vida. E como a vida é marcada por contradições e oposições, assim ela aparece a liturgia. Na liturgia pascal, para chegar a se celebrar a vida, primeiro caminhamos por um longo deserto: pelo silêncio e pela promessa, pelas provações, por sentimentos de ausência do amparo de Deus nos caminho. Além do influxo do vêm de fora, deparamo-nos com tantas rejeições e fechamentos dentro de nós mesmos. Como Paulo repetimos muitas vezes: “não faço o bem que quero, mas o mal que me aborrece” (Rm 7,19), eis a dramática experiência da contradição dentro de nós. Depois de O termos conhecido, de ter revelado sua face a nós, ainda nos fechamos?

Voltamos agora para o sentido da ressurreição para nossos dias. Onde podemos ainda encontra-lo? Onde aquele primeiro dia da semana fala ao nosso tempo? Sempre quando me faço esta interrogação penso que a primeira resposta está no devir. Creio que tudo se move dentro do ciclo da Ressurreição do Senhor. Até mesmo as oposições e os longos silêncios. Nada está fora. O apóstolo Paulo é porta voz desta realidade quando diz: “Por isso a criação aguarda ansiosamente a manifestação dos filhos de Deus (…) por que sabemos que a criação sofre e geme como dores de parto até o presente dia. Não somente ela, mas também nós que temos as primícias (…) aguardamos a redenção do nosso corpo” (Rm 8, 20.22).

O fato de que tudo se movimenta lembra-nos o significado que a palavra Páscoa possui: Ela indica passagem, caminho, travessia. Superação de um estado escravidão e fechamento, para o de libertação. Assim compreendiam e celebravam os hebreus sua páscoa. Perceberam que quem os conduziu da escravidão no Egito, os fez atravessar o mar a pé enxuto deixando para trás uma longa história de prisão e submissão fora o próprio Senhor: “Moisés estendeu a mão sobre o mar, e durante toda a noite o Senhor fez soprar sobre o mar um vento leste muito forte; e as águas se dividiram. Então, os filhos de Israel entraram pelo meio do mar a pé enxuto enquanto as águas formavam como que uma muralha à direita e à esquerda (…) Ora de madrugada, o Senhor lançou um olhar sobre as tropas egípcias e as pôs em pânico” (Ex 14, 23-24).

A páscoa judaica aponta uma mudança jamais vista na história de Israel: Essa mudança é movimento de passagem e de travessia, não somente de lugar geográfico, mas de lugar existencial: os hebreus passaram de um estado de vida marcado por uma longa escravidão à liberdade na terra prometida.

E para cada um de nós cristãos qual o seu significado ainda hoje? Em que lugar a páscoa do Senhor quer nos levar? De que escravidões nos liberta? Que mares nos faz atravessar? De que noites escuras nos quer iluminar? A que movimento a ressurreição do Senhor nos conduz? Talvez o apóstolo Paulo é uma das mais impressionantes expressões do dom pascal da ressurreição: “Será ignorais que todos nós, batizados em Jesus Cristo, é na sua morte que fomos batizados?” (Rm 6,3). São Paulo fala com maior profundidade e distância do sentido que travessia e passagem expressam o significado pascal. Para ele e para nós cristãos há páscoa do Senhor uma grande travessia. Está no entanto toca o ultimo limite humano. Alcança a última escravidão. Chega e abre a última porta que o pecado havia fechado pela parte de fora para toda a humanidade. Na celebração da páscoa é o próprio Senhor Jesus que fez esta travessia e passagem da grande contradição humana: Ele passou da morte para a Vida, e com Ele cada um de nós: “Pelo batismo na sua morte, fomos sepultados com ele, para que, como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai, assim também nós levemos uma vida nova” (Rm 6, 4).

E o que a Páscoa de Cristo têm a oferecer ao mundo de hoje? Mundo marcado por mortes, divisões, injustiças e contradições, parecendo que Deus silenciou diante do fechamento humano. Em primeiro lugar a situação de nosso tempo

revela uma dimensão desta passagem: A cruz de Cristo que abraça todas estas realidades. Do outro lado sua ressurreição é travessia de morte para a vida. De todas nossas mortes, divisões e contradições para a Vida Eterna.

Não precisamos de muito para que Jesus entre em nossa vida. Talvez somente um pouco de humilhação.

Domingo de Ramos

(Mt 21, 1-11; Is 50, 4-7; Fl 2, 6-11; Mt 27, 11-54)

 

Com a significativa entrada messiânica de Jesus Cristo em Jerusalém iniciamos a semana Santa. Ela nos conduzirá até seu desfecho final no tríduo decisivo para a vida de Nosso Senhor na Missa da Ceia de quinta-feira, na sexta-feira da Paixão e no sábado Santo da Aleluia da Ressurreição. A celebração de hoje é como o “introito” desta grande sinfonia de salvação que terá seu gran finale no domingo da Páscoa. No entanto está grande festa começa a ser preparada um pouco as avessas de nossas ordinárias recepções. Seus preparativos não envolvem tanto o glamour necessário dos grandes eventos, mas sim, tensão, dor, sofrimento, traição e no meio de toda essa contradição a resposta será a total entrega, doação e amor.

Nossa celebração começa fora da Igreja. Entramos depois para dentro da Igreja. Pois entramos também para o interior do itinerário cristão: a sua entrega até o fim por todos nós: “Tendo amado os seus que estavam no mundo amou-os até o fim” (Jo 13,1). Mas antes ouviremos o relato de sua entrada em Jerusalém. Ele é muito simbólico. Jesus envia dois de seus discípulos às proximidades de Jerusalém para buscarem um jumentinho. Assim Ele entrará em Jerusalém. Montado em um simples jumento. Como Balaão que foi conduzido pela jumenta (Nm 22, 27), Jesus se deixa levar por este tão simples animal até Jerusalém. Seu ingresso é por demais significativo. E totalmente contraditório, como muitas coisas em Jesus.

Na Antiguidade os reis entravam também nas cidades. No entanto com toda a pompa e circunstância. Jesus entra pequeno. Os reis eram revestidos e ornamentados com as mais finas vestes. O “meio de transporte” de Jesus é coberto com as vestes de seus discípulos, mas mesmo que ironicamente, Ele é aclamado como um rei pela multidão: “Hosana ao Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana no mais alto dos céus” (Mt 21, 9).

Sempre que escuto este evangelho penso que duas mensagens são transmitidas nesta simbólica mensagem: Uma é dada pelas multidões, já habituadas a receber César em sua cidade com toda a pompa, abraçaram a inusitada cena de um profeta entrando em uma capital montado em um jumento e causando o maior alvoroço: “ E as multidões respondiam quem é este homem? Este é o profeta Jesus, de Nazaré da Galiléia” (Mt 21,11). A outra mensagem quem dá é Jesus e seu jumentinho. Somente Ele para fazer isso e desfazer todo o jogo de expectativas que Dele as autoridades, as multidões, seus discípulos e as vezes nós também fazemos. Ele nos diz neste santo domingo de ramos, de que realmente precisa para nos conduzir, e nos levar a salvação: Apenas de um jumentinho!

A liturgia de ramos é realmente desconcertante. Deus bem sabe que precisamos por vezes sermos desconcertados. Quando o Senhor envia dois de seus discípulos para esta “missão” de encontrar um jumentinho: obs. Já haviam sido enviados dois a dois para grande missão de pregar a palavra: “Depois disto (…) enviou dois a dois em frente a todas as localidades e vilas e aldeias que pensava visitar mais tarde” (Lc 10, 1), mas agora a missão se reduz a encontrar um animal para sua condução. O interessante é que isso acontece após o grande sinal de Betânia, ordena aqueles dois não nomeados discípulos “desamarrai-o e trazei-os a mim” (Mt 21, 2).

Lázaro revivido ao sair do tumulo está todo atado de mãos e pés. O Senhor diz aos presentes: “desatai-o” (Jo 11, 44). Neste início de semana Santa, Cristo com certeza quer “desamarrarmos”, quer “desatarmos”, quer “desprendermos” de muitas coisas para como entrou em Jerusalém entre também no profundo de nossas vidas. Mas de que realidades Ele quer nos libertar? Aonde será que estamos amarrados? Que nós têm prendido nosso coração e por isso precisam ser desfeitos? Com toda a certeza nossos pecados! Mas há algo que está liturgia quer “desamarrar” em nós, como foi liberto aquele jumentinho para que Ele possa triunfar em nossa vida nesta Santa semana.

Talvez o que precise ser “desatado” é nossa imagem de Deus. Nossa expectativa em relação ao seu messianismo que tem seu ápice no alto da Cruz. Certo triunfalismo muito em voga em nossos tempos que afirmando a verdadeira soberania de Cristo esvazia por demais sua humanidade. E enquanto refletimos sobre o mistério cristológico somente com este olhar, corremos o risco de sonegar a impressionante afirmação paulina em filipenses: “Jesus Cristo, existindo em condição divina, não fez do ser igual a Deus uma usurpação, mas ele esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e tornando-se igual aos homens” (Fl 2, 6-7).

Quem sabe se não será dessas amarras que o Senhor queira nos libertar nesta semana santa. Nossa santidade, deve ser buscada com muita sinceridade. É nossa vocação universal. Mas o caminho passa por este “esvaziamento”, por esta humilhação, pelo sofrimento, pela doação até a morte e morte de Cruz. Talvez seja exatamente disto que precisamos. Deste movimento de rebaixamento e também de algum transporte que nos conduza a humildade.

Nós não necessitamos de muita coisa para entrar no caminho de Cristo. Precisamos somente deixá-lo entrar em nossa vida. E se Ele quer se usar de um humilde jumentinho permitamos. Se Ele quer se usar de um sofrimento permitamos. Se Ele quer se usar de humilhações sejamos gratos por elas. Conosco estará sempre o Senhor! Feliz Semana Santa a todos.

Tire as pedras de morte de sua vida!

V Domingo da Quaresma

( Ez 37, 12-14; Sl 129; Rm 8, 8-11; Jo 11, 1-45)

Durante o tempo quaresmal a palavra de Deus nos conduziu à vários lugares geo -teológicos. Fomos ao deserto ( Mt 4, 1-11), a montanha (Mt 17, 1-9), ao poço (Jo 4), a cura (Jo 9) e neste domingo nos leva ao mais profundo de nossas vidas,  como no salmo proposto à esta liturgia diz : “das profundezas eu clamo a vós, escutai minha voz” (Sl 129,1), isto é, ao lugar chamado morte. A morte têm significados. Se apresenta a nós com muitos rostos. Existe a perda real de alguém muito próximo, mas existem também as consequências desta perda, que nem sempre expressam apenas a falta biológica. As consequências são sempre emocionais e existências. Quando perdemos alguém muito estimado por nós, temos a sensação de que algo em nós se foi com esta perda. E para muitos é extremamente difícil a recuperação.

A morte na Sagrada Escritura têm também seus significados. Ela está associada ao pecado. Vê nele sua origem e propagação:  Quanto mais se vive na proximidade do pecado, mais perto das feridas da morte se estará. A morte aqui é entendida como degeneração espiritual. Paulo na segunda leitura expressa esta realidade da seguinte forma: “Os que vivem segundo a carne não podem agradar a Deus (…) Se, porém, Cristo mora em vós, embora vosso corpo esteja ferido de morte por causa do pecado, vosso espírito está cheio de vida, graças à justiça” (Rm 8, 8. 10).

Neste quinto domingo quaresmal a liturgia nos conduz para este lugar teológico. Não com o intuito de nos fazer chorar de novo nossas mortes e perdas. Mas para curá-las: As perdas, as decepções podem endurecer nossa vida e coração. Sem nos darmos conta tornamo-nos nós mesmos “as lápides e os túmulos” onde foram enterrados nossos mais próximos. Este endurecimento da “alma” e da “esperança”, pode decretar o começo de uma morte espiritual que muitos cristãos se veem mergulhados. Este domingo quaresmal deixemos que o Senhor diga as mesmas palavras que disse a seu amigo Lazáro: “Vem para fora” (Jo 11, 44).

O que precisa vivificar-se dentro de cada um de nós? Em que lugar de nossa vida algo parece estar morto? O que precisa “vir para fora”, ser deixado para trás e retomar o caminho da ressurreição do Senhor?

O profeta Ezequiel na primeira leitura anuncia uma linda promessa: “Ó meu povo, vou abrir as vossas sepulturas e conduzir-vos para a terra de Israel” (Ez 37, 12). Não é fácil mexer com nossas perdas. É melhor permanecer na zona de conforto. Colocar uma pedra em cima de algumas situações e decretar para si mesmo o seu falimento. Mas este tipo de atitude não resolve coisas dentro de nós. Apenas as retarda, as empurra. A quaresma é tempo também de cura. De acreditar e confiar na ação do Senhor. Como Ele passa da morte da Vida na Páscoa, esta mesma passagem acontece no interior de cada um de nós. Cantamos em nossas assembléias: “Eis o  tempo…. eis o Dia da salvação”. Talvez seja o tempo (Kairós) de conversão de situações de morte em sua vida para tempos de vida:  Rompimento de relações, necessidade de perdoar alguém que lhe fez mal, reconciliação na família, enfim oportunidades de um novo recomeço que o Senhor promete.

O evangelho deste final de semana fala também de outras consequências da experiência da morte e da perda. Quando esta é vivida no âmbito familiar. Quanta dor, quanto desespero, mas também quanta solidariedade que uma dolorosa situação assim pode gerar. A família é a de Marta, Maria e Lázaro, os grandes amigos do Senhor: “Jesus era muito amigo de Marta, de sua irmã Maria e de Lázaro” (Jo 11, 5). Estamos diante do capítulo 11 de são João. Ele descreve a morte e a “revificação” de Lázaro amigo do Senhor. E neste longo texto proposto para este domingo, todas as reações que envolveriam a perda de um amigo querido estão presentes. Desde a reação das irmãs: “Então Marta disse a Jesus: “ Senhor se estivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido. Mas mesmo assim eu sei, que o que pedires a Deus Ele te dará” (Jo 11, 21). De sua irmã Maria: “ quando o viu caiu de joelhos e disse: Senhor se estivesse estado aqui, o meu irmão não teria morrido” (Jo 11, 33). Dos outros conhecidos: “Vede como Ele o amava” (Jo 11, 36). E a mais impressionante: a do próprio Cristo: “Jesus ficou profundamente comovido (…) e Jesus chorou” (Jo 11, 35). Mas será desta mais profunda dor (Sl 129, 1), que surgirá o mais sublime dos sinais de Cristo. São os paradoxos que o evangelho propõe, as únicas realidades capazes de tirar nossas vidas das mais escuras sepulturas. E é o que está em jogo neste longo texto. A revificação de Lázaro, após 4 dias de sua sepultura: “Tirai a pedra, Marta, a irmã do morto, interveio. Senhor, já cheira mal. Está morto a quatro dias” (Jo 11, 38), é o sinal, de outra ressurreição: “Maria Madalena foi ao sepulcro, de madrugada, quando ainda estava escuro e vê que a pedra fora tirada” (Jo 20, 1). Em ambas, foi preciso arrancar uma pedra. Na Ressurreição do Senhor, a pedra não pode lhe prender… O peso da morte não resistiu à força do amor. Mas sabemos que para sentirmos esta força, esta Vida em nós, algumas pedras precisam ser tiradas do coração. Nem Marta quis. É muito doloroso olhar de novo as mortes, mas é preciso. Deixe Jesus dizer neste tempo a você: “Tirai a pedra da mortes de sua vida e Eu faço o resto”!

Discernir é aprender a ver a luz por entre sombras!

IV Domingo da Quaresma

( I Sm 16, 1b.6-7.10-13ª; Ef 5, 8-14, Jo 9,1-41)

Neste IV domingo quaresmal nos encontramos com um dom importante dado pelo Espírito de Deus: o dom do discernimento. Discernir é uma outra forma de ver, de olhar e de enxergar no mais profundo da realidade.

O próprio verbo latino discernere, significa: conhecer ou ver distintamente e também iluminar aquilo que se apresenta obscuro. A vida cristã apresenta muitas situações em que é necessário fazer algum discernimento: Escolher o bem ao invés do mal, a Graça ao invés do pecado, o amor ao invés do egoísmo. Alguns discernimentos se nos apresentam fáceis de escolha. Outros nem tanto. São bem mais penosos e exigentes. Por exemplo, nem sempre é fácil, discernir uma vocação de especial consagração. Nem sempre é pacifico discernir a vontade de Deus em nossas vidas: Para saber o que Deus quer de mim preciso ouvir a sua voz. Aprender a escutar o Senhor falar em nosso íntimo, em meio a tantas vozes que ecoam sobre nossos ouvidos.

Na primeira leitura temos um típico caso de bom discernimento. Nela encontramos a narração da vocação de Davi. O profeta Samuel desce até a casa de Jessé para ungir naquela família o rei de Israel: “Enche o chifre de óleo e vem para que eu te envie à casa de Jessé de Belém, pois escolhi um rei para seus filhos” (I Sm 16, 1b). Passam diante de Samuel os 7 filhos de Jessé, todos bem preparados segundo os critérios do homem, no entanto recusados pelo Senhor à esta missão: “Mas o Senhor disse-lhe: não olhe sua aparência nem para sua estatura, porque eu o rejeitei. Não julgo segundo os critérios do homem: o homem vê as aparências, mas o Senhor olha o coração” (I Sm 7).

O dom do discernimento é este olhar mais profundo. É ver para além das aparências, ver no interior. Começar a olhar a realidade a partir de Deus. Muitas vezes somos conduzidos por critérios humanos. Estes são orientados pelo que chamamos de “senso comum”, isto é, por aquilo que a maioria estabelece como a “verdade”. Porém o discernimento convida-nos a olhar mais profundamente. Não é mais o senso comum que pesa e sim o “sensus fidei”, isto é, o sentido da fé.

No chamado de Davi, Samuel é conduzido pela fé: “enche o chifre de óleo”. Foi esta unção que faz com que mandasse chamar o oitavo filho de Jessé, um simples pastor de ovelhas: “Estão aqui todos teus filhos? Jessé respondeu: Resta ainda o mais novo que está apascentando ovelhas” (I Sm 16, 12).  E o Senhor falou ao coração de Samuel: “Levanta-te, unge-o: é este! Samuel tomou o chifre com óleo e ungiu a Davi na presença de seus irmãos.” ( I Sm 16, 13).

Da história da vocação de Davi podemos recolher um belo ensinamento: Para um bom discernimento, para aprender a olhar a realidade não sob critérios humanos mas divinos é preciso que nossa alma esteja afinada com a vontade de Deus. Isso acontece quando nos encontramos como Samuel com nosso vaso cheio de óleo. Com uma vida cheia de unção.

No extenso evangelho proposto para este domingo encontramos uma outra dimensão do discernimento: a Iluminação. O texto narra a cura do cego de nascença e remonta também aos “escrutínios” que precediam o batismo aos convertidos à fé. No evangelho o batismo é concebido como “iluminação”, mediante a fé para todo aquele que crê em Jesus Cristo.

O texto com certeza nos provoca para percebermos realidades em nossa vida que precisam receber a iluminação de Cristo. A cura é feita por uma imagem muito simbólica: “Jesus cuspiu no chão, fez lama com a saliva e colocou-a sobre os olhos do cego e disse: vai lavar-te na piscina de siloé. O cego foi lavou-se e voltou enxergando” ( Jo 9, 6). O senso comum em que fomos “mergulhados”, muitas vezes nos cega. Nossa visão sobre a família, sobre a política, sobre a sexualidade por vezes têm a opinião da maioria. A doxa (opinião comum) prega: A família está perdida, o corpo é meu faço o que quero, a política no Brasil não têm mais jeito, somos a mais corrupta das nações…. É preciso um maior discernimento sobre estas realidades significativas para nós. É preciso olhá-las com os olhos da fé. Necessário vê-las a partir de Deus. Deixar que Jesus toque “faça lama sobre nossos olhos”, isto é, recrie e restaure nossa visão e nos lave nas águas de sua Palavra e de seu batismo, para que vejamos com profundidade e discernimento. Paulo na segunda leitura diz: “Outrora éreis trevas, mas agora sois luz. Vivei como filhos da luz. E o fruto da luz chama-se: bondade, justiça, verdade. Discerni o que agrada ao Senhor” (Ef 5, 8-9).

Talvez uma outra visão que Cristo queira restituir nesta quaresma em nossas vidas seja o olhar que estabelecemos sobre o outro e sobre nós mesmos. Em primeiro lugar saber que toda a visão do outro que temos é condicionada pela visão de si. Se me enxergo como “perfeito, bom, belo, inteligente, autossuficiente”, óbvio que está autoimagem será definidora da percepção do semelhante. Ele será sempre inferior a mim. Está imagem precisa de cura. Todos nós a temos. Recebemos com a culpa original. Que o Senhor que lavou nossos pecados no batismo, toque nossa visão e cure nosso coração da autossuficiência, raiz de toda negação para Deus.