Festa de todos os santos

Festa de todos os santos

( Ap 7, 2-4.9-14; Sl 23; 1Jo 3, 1-3; Mt 5, 1-12)

Neste final de semana celebramos a solenidade de todos os santos na Igreja. É sempre desafiador refletirmos sobre a santidade, pois ocorre podermos idealizá-la por demais e tornar esta vocação algo inatingível, ou, desconsiderá-la ou subtraí-la a um estado de vida que não diz mais respeito ao homem de nosso tempo, não mais inserindo-a como um projeto pessoal e eclesial de vida cristã.

Pelo contrário a liturgia desta solenidade apresenta a santidade como algo humanamente possível e atingível. Obviamente que isto não quer dizer que buscá-la ou desejá-la no profundo seja algo que se possa conquistar com poucos esforços, renúncias e sem testemunho. Não, a tradição da Igreja sempre transmitiu ricos testemunhos, permeados de fidelidade, lutas, grandes renúncias, perseguições, contradições e até mesmo por uma série de incompreensões da parte dos próprios companheiros de caminhada cristã.

O santo é alguém tirado do meio do povo de Deus. Não existe uma pequena “elite” espiritual apta à santidade de vida e uma grande massa cristã relegada a mediocridade do espírito, não, a vida beata, é um caminho aberto a todos os fiéis batizados: A Constituição Dogmática Lumen Gentium do Con. Vat. II, afirmou que a santidade é uma vocação universal de todos os cristãos: “ensinando que todos os cristãos são chamados à plenitude de vida cristã e à perfeição da caridade” (LG 40).

As três leituras da liturgia deste domingo nos apresentam a santidade como um processo, um caminho, um itinerário espiritual que os católicos estão convidados a fazer, não sem incorrer em perigos, provações e tentações. A santidade de vida é uma vitória da Graça divina em colaboração com a natureza humana. Graça e natureza, liberdade e vontade, não travam entre si uma batalha inglória. Na realidade são expressões complementares que procuram integrar-se, comunicar-se ainda que dialéticas, a partir do dom da Graça Divina. A primeira leitura tirada do livro do Apocalipse de são João, apresenta a grande visão futura do apóstolo. Nela ele vê uma grande número de pessoas 144.000 de todas as tribos de Israel. É o simbolismo das 12 tribos antigas, unidas aos 12 apóstolos de Cristo em um número assim exorbitante significando uma realidade incontável de gentes: “Depois disso, vi uma multidão imensa de gente de todas as nações, tribos, raças e línguas, que ninguém podia contar. Estavam em pé diante do Cordeiro, trajavam, vestes brancas e palmas nas mãos” (Ap 7, 4-9). A visão é reveladora a nós de quem são então estes santos:  uma imensa multidão de todas as raças, línguas e nações. Os santos são gente, isto é, gente como a gente. Não são definidos por pátria ou circunscritos a determinada língua. Não, é gente de todas as nações e falas. Diogneto a famosa apologia do segundo século, narra também a presença determinante dos cristãos em um determinado território, ainda por nós desconhecidos dizendo:

“Os cristãos, de fato, não se distinguem dos outros homens, nem por sua terra, nem por sua língua ou costumes. Com efeito, não moram em cidades próprias, nem falam língua estranha, nem têm algum modo especial de viver. Sua doutrina não foi inventada por eles, graças ao talento e a especulação de homens curiosos, nem professam, como outros, algum ensinamento humano. Pelo contrário, vivendo em casas gregas e bárbaras, conforme a sorte de cada um, e adaptando-se aos costumes do lugar quanto à roupa, ao alimento e ao resto, testemunham um modo de vida admirável e, sem dúvida, paradoxal. Vivem na sua pátria, mas como forasteiros; participam de tudo como cristãos e suportam tudo como estrangeiros. Toda pátria estrangeira é pátria deles, a cada pátria é estrangeira. Casam-se como todos e

geram filhos, mas não abandonam os recém-nascidos. Põe a mesa em comum, mas não o leito; estão na carne, mas não vivem segundo a carne; moram na terra, mas têm sua cidadania no céu” (Diogneto, V).

A segunda leitura de nossa liturgia ajuda-nos ainda mais na compreensão do mistério da santidade, pois fala-nos de sua realidade dialética, isto é, daquilo que já somos e já conquistamos, sem esquecer aquilo que ainda devemos nos tornar. A santidade gera está tensão no fiel. É uma realidade incômoda, instigante, avessa a comodismos e zonas de conforto. São João fala-nos: “caríssimos, vede que grande presente de amor o Pai nos deu: sermos chamados filhos de Deus (…) Caríssimos desde já somos filhos de Deus, mas nem sequer se manifestou! Sabemos que quando se manifestar seremos semelhantes a Ele” (1 Jo 3, 2). Tornamo-nos semelhantes a Ele, é possível não por nossos méritos, mas pelo auxílio da graça divina. Há muito de nossa colaboração, nossa adesão, nossa vontade, mas só será possível se: “todo aquele que espera nele purifica-se a si mesmo, como também ele é puro” (1 Jo 3, 3).

Por fim o Evangelho complementa a liturgia da solenidade deste final de semana. As bem Aventuranças serão sempre um itinerário aberto para ser seguido por cada cristão. Aqueles que conseguem aventurar-se em suas propostas, passam a construir uma casa que se edifica sobre a rocha de Cristo. As bem Aventuranças são o próprio Cristo, se cumprem todas Nele, pois é Ele o verdadeiro Bem-Aventurado. Mas a força das Bem- Aventuranças alcançam todo e o singular ser humano, pois são convites humanizadores por excelência. O santo é alguém tirado do meio de seu povo, é gente como a gente, mas é sobretudo um “humano”, alguém que com sua vida assemelha-se àquele que revela o homem ao homem (RH). A santidade é a humanização na história. Todos os santos que a Igreja reconheceu, foram humanizadores de outros. Atraíram a tantos por que sua vida era uma expressão dos valores sagrados presente no sermão da Montanha. Da simplicidade, da pobreza e da pureza, da mansidão e da perseguição, da paz em meio as aflições.

Peçamos ao Senhor que não esqueçamos de trilhar o incomodo mas necessário caminho da vida beata!.

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“ Sem medo de insistir diante de Deus”!

XXX Domingo do tempo comum

(Jr 30, 7-9; Hb 5, 1-6; Mc 10, 46-52)

Jesus e seus discípulos continuam seu itinerário em direção à Jerusalém. Antes, no entanto, passam por Jericó, distante pouco mais de 27 km da capital Israelita. O destino final, o lugar teológico por excelência será Jerusalém, mas até sua chegada, Jesus não fechará os seus olhos para situações humanas de desespero, angustia, marginalização e exclusão. No coração e na missão do Senhor, a parte, a singularidade o indivíduo é tão importante quanto a totalidade. É uma dialética ainda difícil de compreendermos, um método evangelizador profundamente humanizador, que por vezes, esquecemos de repeti-lo. Em Cristo, uma singela obra de misericórdia como por exemplo, visitar os enfermos, é tão importante quanto, grandes projetos de evangelização.

 

Imediatamente antes da entrada triunfal em Jerusalém e de sua paixão. Marcos narra o episódio desconcertante da cura de um cego em Jericó: “Jesus saiu de Jericó junto com seus discípulos e uma grande multidão. O filho de Bartimeu, cego e mendigo, estava a beira do caminho” (Mc 10, 46). Há um contraste que impressiona nesta passagem: Em primeiro lugar a grande imagem, o triunfo da missão na narrativa de Marcos: Jesus, os discípulos e uma grande multidão. Após seu contrário: Bartimeu, cego, mendigo e sentado a beira do caminho. Bartimeu é um inominado. Sabe-se apenas que é filho de um certo Timeo, certamente de origem grega, portanto já fora do contexto palestino, ainda por cima é um cego, um mendigo e alguém que está ai “a beira do caminho”. Quem seria ele para interromper o destino de Jesus, seus discípulos e as multidões? Ele é apenas um detalhe para os discípulos por exemplo: “Muitos o repreendiam para que se calasse. Mas ele gritava ainda mais: “Filho de Davi, tem piedade de mim” (Mc 10, 48). Há muita gente semelhante a Bartimeu sentada também a beira de nossos caminhos. Há muitos Bartimeus sentados a frente de nossas Igrejas, de nossos clubes sociais, de nossos cinemas, teatros e restaurantes, que foram se tornando invisíveis para nós. Os Bartimeus incomodam muito…gritam com força, tentamos como os discípulos e as multidões impedi-los, pois pensamos que estão atrapalhando o “caminho da Igreja”, mas não estão não. Jesus Nosso Senhor neste final de semana quer nos ensinar que a Evangelização é feita de bons projetos pastorais, pensados, rezados, discutidos, inspirados, mas também é feita de realidades imponderáveis do imprevisto, das surpresas de Deus e de suas oportunidades. Jesus sempre soube aproveitá-las muito bem.

O clamor de Bartimeu fez com que Jesus, parasse e o chamasse: “Eles o chamaram e disseram: coragem, levanta-te, Jesus te chama” (Mc 10, 50). Esta mudança dos planos, este envio despretensioso que Jesus dá a seus discípulos revela um outro ensinamento evangelizador. Para Jesus, nenhuma situação, nenhum sofrimento humano, ninguém que esteja a margem pode ser desprezado ou esquecido do Reino. Se o mundo os despreza, porque eles, os bartimeus de nosso tempo, nada podem oferecer, a misericórdia do Senhor as acolhe.

A segunda leitura nos ajuda a compreender por que Jesus realiza estes gestos tão desconcertantes. A epístola aos Hebreus faz uma leitura cristã do sacerdócio veterotestamentário. Descreve traços que lembram o apogeu da liturgia sacerdotal, a exuberância, os ritos, a beleza do culto de outrora. É como se o desconhecido autor, tivesse uma grande nostalgia dos tempos do culto sacerdotal do AT. Porém não esquece de pontuar alguns traços deste sumo sacerdote, que é Cristo, com nuances misericordiosos, humanos, existenciais e de compaixão: “todo sumo sacerdote é tirado do meio dos homens e instituído em favor dos homens, nas coisas que se referem a Deus, para oferecer dons e sacrifícios pelos pecados. Sabe ter compaixão dos que estão na ignorância e no erro, porque ele mesmo está cercado de fraqueza” (Hb 5, 1-2).

Fora este sentimento, esta compaixão que fez com que Jesus parasse, ouvisse e se compadecesse da dor e do sofrimento de Bartimeu e lhe fizesse a importante pergunta: “ O que quer que eu te faça?” (Mc 10, 51). Na pergunta de Jesus, não pensem estar contida uma tentação constante presente na vida espiritual, de que Deus deve estar disponível a atender todos os nossos pedidos e necessidades, como se Ele é quem tivesse o dever de fazer nossa vontade e não o contrário. Não existe aqui nenhuma subserviência divina em relação ao homem. É presente sim a sua infinita misericórdia. Está manifesta diante das nossas mais secretas e inconscientes necessidades. Na pergunta de Cristo está presente, o “Deus que vê o que está oculto”, até mesmo as realidades mais difíceis de serem vistas por nós mesmos. Muito mais do que um Deus subserviente, Jesus revelou na cura de Bartimeu um Deus rico em misericórdia, pronto a tocar e sanar nossas misérias e pecados.

 

“Deixar tudo e seguir, deixar tudo para receber, o paradoxo da fé”

XXVIII Domingo comum

(Sab 7, 7-11; Hb 4, 12-13; Mc 10, 17-30)

O binômio que o evangelho deste domingo apresenta é tirado da fala dramática feita por Pedro a Jesus: “ E nós que deixamos tudo e te seguimos” e da resposta dada por Cristo: “ em verdade vos digo quem tiver deixado tudo (…) receberá cem vezes mais agora, durante esta vida” (29).

Tocamos nesta liturgia o paradoxo central da fé cristã que imposto a todos os candidatos a seu discipulado: “se alguém quer vir após mim, tome sua cruz, renuncie a si mesmo e depois me siga, pois que quer, pois quem quiser salvar a sua vida, perdela-á, mas quem perder sua vida por amor de mim e do evangelho esse a salvará” (Mc 8, 35).

 

No evangelho proposto para este domingo iremos nos deparar com um problema que muitas vezes  se tornou obstáculo para o discipulado e que ainda hoje, continua a bater as portas do nosso coração, nos desacomodando, questionando-nos e nos tirando das zonas de conforto que às vezes, nos encontramos nos obrigando a “remar” para regiões de insegurança existencial e espiritual por vezes tão necessária para um avanço na direção de Cristo. Teremos de enfrentar a tão sofrida renuncia dos bens e o tão libertador desapego dos mesmos.

O episódio desta liturgia do homem rico acabou por provocar apreensão aos discípulos de Jesus: “e nós que deixamos tudo para te seguir” (28). Ele continua causando inquietação também em muitos nos tempos atuais, até por que toca em algo muito significativo para todos nós: nos bens, na segurança temporal que a posse dos bens pode nos conceder e na mesma medida no seu contrário: no desapego, na pobreza e na liberdade existencial que esta pode oferecer com todas as inseguranças dela advinda.

O relato é bem conhecido de todos nós: “quando Jesus saiu a caminhar, veio alguém correndo, ajoelhou-se diante dele e perguntou:”Bom mestre que devo fazer para possuir a vida eterna ?” (Mc 10, 17). Jesus em sua resposta recordou que para isso era preciso obedecer os mandamentos: “não matarás, não cometerás adultério, não roubarás, não levantarás falso testemunho (…)” (19). Enfim Jesus lhe oferece o caminho ordinário, a observância da lei. E todas estas coisas o homem já observava desde sua juventude. Isso demonstra um pouco da índole deste homem. Revela que era um piedoso, um bom judeu! Nós temos também em nossas comunidades pessoas assim. Gente que procura viver e obedecer a “lei” com austera integridade, capaz de grandes sacrifícios, muitas vezes podendo cair no exagero de certos rigorismos eclesiásticos e passam a exigir um catolicísmo tão “alto e ideal” que somente pequenos e seletos grupos conseguirão seguir.

No entanto Jesus percebeu que aquele homem era chamado a realidades maiores, mais altas, de maior entrega e lhe faz a grande proposta: “Jesus olhou para ele com amor e disse: Só uma coisa te falta: vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres, e terás um tesouro no céu. Depois vem e segue-me” (Mc 10, 21).

A conclusão foi que aquele piedoso homem foi embora triste e abatido, porque era muito rico! Chegou cheio de entusiasmo, e retornou a sua casa triste e abatido. O apego a seus bens da terra, não o permitiu a descoberta dos bens do céu. Preferiu a alegria do passageiro à felicidade do que é eterno. Para além de qualquer juízo moral que queiramos dar a interpretação desta passagem bíblica, sua hermenêutica será sempre atual. Há muita gente semelhante a este misterioso homem do evangelho. Por que para muitos, a renúncia dos bens é algo extremamente exigente. Para leigos, para religiosos (a), para sacerdotes, enfim, a segurança e o bem estar que uma vida economicamente alta pode gerar é algo que toca o fundo de todos nós. Todos queremos ter, possuir, poder gastar, viver bem….

No diálogo, Jesus com amor lhe disse: “uma coisa só te falta” (21). Sempre faltará uma coisa. Nunca seremos totalmente plenos. Sempre haverá um espaço dentro de nós que nem mesmo o dinheiro e o poder poderão suprir. Há no homem um lugar no mais profundo de seu íntimo, em nossa maior intimidade que será o lugar onde Deus depositará todas as suas riquezas e nada nem ninguém poderá preenchê-la.

O livro da Sabedoria expressa magnificamente esta realidade. Comparando a sabedoria divina ao mais alto tesouro: “Preferi a sabedoria aos cetros e tronos, em comparação com ela, julguei sem valor a riqueza, a ela não igualei nenhuma pedra preciosa, pois a seu lado todo ouro do mundo é um punhado de areia e diante dela, a prata será como a lama” (Sb 7, 8-9). O homem não entendeu e abatido foi embora. Pedro e seus discípulos ficaram espantados e assustados com a tão alta exigência do seguimento e questionou a Cristo: “E nós que deixamos tudo e te seguimos” (Mc 10, 28). Em outras palavras o que será de nós? Que sorte nos aguarda? Que segurança teremos? Que recompensa haveremos de ter? As questões petrinas são as nossas inquietações também! No entanto Pedro é aquele que “deixou tudo”; aquele que não possui mais nada e por nada é possuído. Ele se torna assim protótipo do discípulo de Cristo. Aquele que tudo deixou pelo Reino, já é aquele que tudo recebeu e na vida eterna receberá cem vezes mais.

Este é o caminho exigente que todos estamos fazendo. Por vezes vamos nos acomodando, então é preciso que Jesus Cristo nos diga: “uma coisa só te falta”. Todos sabemos qual o lugar espiritual onde nosso sapato aperta. O que precisamos ir deixando por este caminho. Ter muitas coisas, ser apegado a muitas coisas na lógica do evangelho é sinônimo de tristeza e abatimento, não ter nada é bem aventurança: “ Felizes os pobres em espírito porque deles é o Reino dos céus” (Mt 5, 3)

Ajudar os irmãos a crescer e não tornar-se obstáculo.

XXVI DOMINGO COMUM

(Nm 11, 25-29; Tg 5, 1-6; Mc 9, 38-43.47-48)

Apesar de viver-se em um contexto onde a permissividade moral contamina tantos ambientes sociais, o tema referencial da Palavra de Deus neste final de semana recorda-nos a sábia exortação de são Paulo aos Coríntios onde “tudo me é permitido, porém nem tudo me convém” (1Cor 1,12). Em uma sociedade carente e em certo sentido frágil no redescobrir valores morais, a contribuição paulina torna-se muito propícia.

A primeira realidade que segundo a liturgia deste final de semana não nos parece passível de toda e qualquer forma de permissividade é a sempre e atual tentação de monopolizar e manipular a Deus, segundo os próprios interesseiros. Se difunde por todos os lados: eclesiais, ambientes religiosos, meios de comunicação e redes sociais, um certo monopólio da experiência de Deus. Há em nossos dias como houvera já na antiguidade cristã um tal número de “super-apóstolos”, católicos e também nos seguimentos evangélicos plenos dos dons da Palavra e dos milagres, “bem mais nutridos que outros” que afirmam com sua prática uma forma de evangelização na qual estes “mega-pregadores” tem sobre si todo o poder e monopólio da fé, como se dissessem as grandes massas que os seguem: Se queres ser curado de teus sofrimentos?; Se queres experimentar o poder de Deus? Se queres ser feliz?, venha à minha Igreja ou quando pertencentes a fé católica: venha à minha paróquia somente lá esta a cura e salvação.

A fé cristã tão próxima dos mais altos valores, dos mais humildes e nobres gestos, por vezes também sofre o “assalto” da tenção tão atual entre o público e o privado. Manipular a experiência de fé, monopolizar a vida espiritual, determinar o espaço onde Deus se revelará, tem sido uma tentação constante no cristianismo. Quando e como iremos superá-la? Talvez caminhando, seguindo e revisando de tempos em tempos nossa experiência cristã, para não incorrermos nesta forma de permissividade moral que se apresenta na tentativa de manipular a Deus.

 

No evangelho de hoje, no caminho em direção à Jerusalém, Jesus vai desenvolvendo uma catequese  com seus discípulos toda ela pontuada sobre o mistério do Filho do homem, que realiza seu plano de amor salvífico passando pelo sofrimento e desconstruindo uma perspectiva messiânica inerente aos discípulos toda ela em chave do poder. Hoje mais um episódio se revela. João quer objetar alguns discípulos que realizavam exorcismos em nome de Cristo, mas não eram do grupo dos doze! Para João e para muitos pregadores e presbíteros atuais, a salvação e a possibilidade do bem era monopólio de uma só classe de eleitos ou de especialistas. No entanto, o Senhor Jesus diante desta interpelação do discípulo, que ainda concebe a salvação como domínio e privilégio, responde celebrando a liberdade e a gratuidade de Deus: “não o proibais, pois ninguém faz milagres em meu nome para depois falar mal de mim. Quem não é contra nós é a nosso favor” (Mc 9, 40).

Há muita gente fazendo o bem por ai, e que não são dos nossos. Talvez a repulsa de João àqueles misteriosos exorcistas era somente a percepção de algo que estava faltando na sua própria vida. Por vezes falta-nos fazer apenas o bem, sermos bons, termos atitudes mais humanas. Jesus sapiencialmente resolve a inquietude teológica do “discípulo amado”, com um simples gesto de bondade: “Em verdade vos digo, quem vos der a beber um copo de água por que sois de Cristo, não ficará sem receber sua recompensa” ( Mc 9, 41-42). Jesus quer mostrar a seus discípulos, que  enquanto caminham com Ele, enquanto estão sendo ensinados, que para ser um bom cristão, não necessariamente você precise estar alinhado a este ou aquele grupo de militância católica, progressista ou tradicionalista, de movimentos ou pastorais, todas estas coisas podem auxiliá-lo em muito, mas se começamos a “deificá-las”, a sobrepô-las ao exercício do amor ao próximo, do serviço, da gratuidade, iram se tornar, logo “pedras de tropeço”.

A segunda parte de nosso evangelho falará de uma outra forma de permissividade moral: o escândalo em relação aos pequeninos. Na vida da Igreja sabemos o quanto os escândalos ferem o corpo de Cristo. Como têm sido difícil para nós católicos convivermos com notícias envolvendo nossos pastores nas tramas de moral sexual, da pedofilia, dos abusos descuidados com o dinheiro, Todas estas coisas deixam chagas e cicatrizes enormes e doloridas no Corpo de Cristo e o que é ainda pior nos menores. Jesus se utiliza de uma metáfora pedagógica judaica para abrir os olhos dos discípulos sobre o perigo de escandalizar a outrem: Na tradição antiga os pequenos precisavam para crescer do auxílio e do “modelo” dos mais experientes: Eles eram como suas mãos que o conduziam, seus pés que os ajudavam a caminhar, a enfrentar os desafios dos estudos e da vida e seus olhos, que iluminavam suas estradas. A imagem é belíssima. E fala realmente do ofício do bom pastor, que toma as ovelhas pela mão, caminha a sua frente às defende de todos os perigos.

E Nosso Senhor está dizendo hoje a sua Igreja, principalmente a seus pastores, sejam estas mãos, estes pés e janelas da alma para os seus rebanhos, e não sejam permissivos, promíscuos, abusivos, mas capazes de simples e nobres gestos como o de dar um copo de água a quem tem sede!

Santa Tereza de Calcutá, disse certa vez que as vezes sentia no fundo de sua alma uma grande escuridão da fé. Um vazio abissal que a fez por várias vezes questionar o amor de Deus por ela. No entanto, sabia também que somente uma atitude de amor, um gesto de amor era preciso para as pessoas que encontrava, quase sempre os mais pequeninos e empobrecidos: ela oferecia o seu lindo,  e genuíno sorriso. Era este seu copo de água!!

Qual é hoje o nosso? Peçamos a nosso Senhor que ajude-nos a cortar males em sua raiz e a evitar que tornemo-nos pedras de tropeço a nossos irmãozinhos.

Tende entre vós os mesmos sentimentos de Cristo Jesus (FL 2,1)

XXV Domingo Comum

(Sb 2, 12.17-20; Tg 3, 16-4,3; Mc 9, 30-17)

Depois da “revolução espiritual” provocada pelo anúncio de sua paixão aos discípulos em Cesareia de Filipe, Cristo dará continuidade a revelar sua identidade profundamente ligada a cruz na liturgia de hoje. O primeiro impacto na mente e coração dos discípulos foi intenso. Pedro e seus companheiros foram a “lona”, quando logo após profissão de fé petrina, Jesus começara a ensiná-los que seu messianismo, em nada tinha a ver com aquilo que talvez estivessem aguardando: sucesso, glória, reconhecimento e onipotência. Cristo anunciando sua paixão, rejeição, morte e ressurreição, contrasta com as expectativas dos discípulos que sem sombra de dúvidas aguardavam algo diferenciado no seu seguimento. Uma nova página começa a ser escrita na vida de Pedro e os 11 companheiros. Agora sem a exuberância dos sinais “taumatúrgicos” do início do caminho, sem a ilusão que ao entrarem na escola de Cristo podiam os discípulos ascender socialmente como acontecia a qualquer caminho discipular rabínico do período, mas com a certeza que abraçando o caminho de cruz receberiam cem vezes mais do que entregaram, apesar das perseguições.

 

Segue-se hoje em nossa liturgia um segundo anúncio da paixão de Cristo. É como um novo episódio de uma realidade já explicitada por Cristo, agora em forma mais sintética e direta: “O Filho do homem será entregue nas mãos dos homens, eles o matarão e Ele ressuscitará três dias depois” (9, 31). A reação dos discípulos a este misterioso anúncio é muito reveladora. Não compreendendo as palavras, tinham medo de perguntar ( 9, 32) . Quando recebemos uma má notícia, por exemplo, a revelação de um diagnóstico nada favorável, a informação de um acidente desastroso envolvendo pessoas queridas e amigas, passamos por esta mesma sensação dos discípulos e preferimos um silêncio esperançoso do que a revelação de uma verdade inesperada e impactante. Assim também reagiram os discípulos do Senhor em silêncio, com certeza imerso em cogitações, muito distante da realidade!

O amedrontado silêncio dos discípulos não os impediu que durante sua travessia da Galileia até a cidade de Cafarnaum conversassem entre si pelo caminho. O cenário recorda uma outra conversa, como uma homilia em que aqueles dois discípulos de Emaús conversavam também pelo caminho ao lado de Cristo sem ainda o reconhecerem até que repartisse o pão. Lá Jesus pergunta: “O que estão discutindo no caminho? Eles com o rosto por terra, recordavam que Jesus de Nazaré, profeta poderoso em obras e palavras e que restauraria Israel, isto é libertaria Israel da dominação tirânica romana” (Lc 24, 19.24). Os discípulos de Emaús, tal qual os discípulos de Jesus, não haviam entendido ainda o ensinamento da cruz do Senhor.

Ambos estavam a caminho. A vida em Cristo é um caminho. No entanto, nesta aventura do Caminho se pode progredir, avançar, aprofundar, mas também sempre existirá uma enorme possibilidade de regressão, de infantilismos e fechamentos na caminhada. Os doze, diante do anúncio de cruz e sofrimento de Jesus, regrediram: “Em casa Jesus os perguntou: Que estáveis discutindo pelo caminho? Mas eles calaram-se por que pelo caminho vinham discutindo quem era o maior entre si” (Mc 9, 34). A impressionante reação dos discípulos contrasta com o anúncio de Cristo. Seria muito mais plausível, razoável continuar o caminho atrás de um messias como o descrito pelos dois companheiros de Emaús: “profeta rico em obras e palavras”, no entanto o que transparece nesta liturgia é o contraste de um messiasque apresenta-se como servo, humilde e sofredor.

O livro da Sabedoria (primeira leitura) é para nossa liturgia como um “prefácio” deste Evangelho. Lá, o sagrado autor apresenta-nos a figuro do “Justo”, bela tipologia de Cristo. O contexto literário da obra é a presença de uma reconhecida comunidade judaica na helenizada e cosmopolita Alexandria no II séc. (a.C), tendo de dar testemunho de sua fidelidade a seu Deus e seus valores em uma sociedade muito antagônica. Como este “justo”, pode ser comparado a Cristo, a imagem serve também para os cristãos de hoje, imersos também em uma sociedade em vias de secularização e descristianização, mesmo assim, chamado a dar grande testemunho da fé: “os ímpios dizem; armemos ciladas ao justo, porque sua presença nos incomoda: ele se opõe ao nosso modo de agir, repreende em nós as transgressões da lei e nos reprova as faltas contra a nossa indisciplina” (Sb 2, 12).

Retornando ao Evangelho em que os discípulos no caminho pensavam e cogitavam qual deles seria o maior, ao chegarem na “casa”, isto é, na Igreja, provavelmente na Igreja de Cafarnaum, o Senhor Jesus responde aos seus discípulos, dando um outro ensinamento: “Se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos” (Mc 9, 34). Ensinamento difícil e exigente! Estamos por demais habituados a pensar a partir do poder. Estamos por demais contagiados com a ideia de uma felicidade que se encontra muito mais em receber e receber sempre do que oferecer.  Estamos perdendo de vista a alegria e o sentido que se encontram no mistério do servir a todos. A humanidade está repleta de testemunhos de servidores. Os “lavadores de pés”, os servos humildes, são os que na verdade oferecem a este mundo de concorrências e carreirismos cores e valores diferentes, os poderosos, pelo contrário, só aumentam as distâncias, os muros de separação, as contradições e problemas. Jesus Cristo a apresentar este ensinamento, fala de si! Ele é na realidade o primeiro de todos: “ Ele é imagem do Deus invisível o primogênito da criação” (Col 1, 15); no entanto se fez o “último de todos e aquele que serve a todos” no alto da Cruz!

Hoje a liturgia nos convida a seguir o nosso caminho até a Cruz. Não retroceder jamais, não regressar nem infantilizar-se criando ilusões sobre um Cristo minha imagem e semelhança. Lembremos do Apóstolo Paulo que diz: “Tende em vós os mesmos sentimentos de Cristo Jesus” (  F 2, 1)

 

A Cruz, a força atuante dos pacíficos.

XXIV Domingo Comum

Estamos atravessando em nosso país e no mundo um tribulado período de crises, marcada por intolerâncias, polarizações políticas, religiosas e sociais, que passam a questionar os antigos valores construídos por tempos da ética, do respeito ao próximo e as mais singulares diferenças. Todo este ambiente de intolerância e intransigência social que passamos, revela sim um grande cansaço e desconfiança de parte da população nas instituições históricas e em valores que a pouco mais de 20 anos ainda eram muito estimados e seguidos na cultura e sociedade ocidental. A gente sente e percebe que os princípios que o humanismo relegou, como a capacidade de gerir conflitos a partir do diálogo e não a partir de atitudes bélicas; do consenso, do respeito ao próximo e não da “queda de braço virtual”, estão aos poucos desaparecendo de nossos ambientes sociais, comunitários e até mesmo eclesiais, sendo substituídos por uma mentalidade altamente pragmática, revanchista e carente de visão maior histórica e moral.

Vale a pena neste contexto deixar que a Palavra de Deus ilumine estes tempos de “sombras” que estamos imersos. Vale muito a pena abrir nossos ouvidos para o discurso da montanha onde Jesus diz: “Bem-aventurados os pacificadores, pois serão chamados Filhos de Deus”. Obviamente que a teologia nos diz que a condição “sine qua non” para sermos filhos do Pai do céu é o batismo. Esta é a via sacramental e ontológica, mas como existem aqueles filhos adotivos que de tão amados, são chamados de “filhos do coração”, existe para além da filiação sacramental, uma outra, existencial e espiritual, onde a mesma bem-aventurança, impõe-nos a seguinte exigência: ser filho do Pai do céu = ser construtor da paz. Nestes difíceis dias que estamos atravessando, construir a paz, além de ser um caminho de santidade, torna-se também via de equilíbrio e tolerância social.

Neste final de semana a liturgia quer recuperar nossa memória para a força que existe nas atitudes de pacifícismo. Estamos já, tão ambientados aos conflitos, às discussões acirradas de visões distintas de mundo, que pensamos poder levar para dentro do espaço eclesial, este mesmo modus vivendi de reação.

Na primeira leitura Isaías nos apresenta uma imagem muito significativa: é a descrição de um servo de Deus, que tornou-se para a Igreja primitiva “figura do Cristo sofredor”. Isaías o descreve com predicados que, com certeza, não são nem de longe, de fácil assimilação no atual contexto: “O Senhor abriu-me os ouvidos; não lhe resisti nem voltei atrás. Ofereci as costas para me baterem e as faces para me arrancarem a barba. Não desviei o rosto de bofetões e cusparadas” (Is 50, 5-7). O servo de  Isaías, aceita o sofrimento, a humilhação, como um oferecimento, sem revanches e nem vinganças. A aventura da construção da paz, é capaz de superar até o mais humilhante sofrimento e rejeição.

O evangelho deste domingo, com certeza, nos fará compreender o paradoxo proposto pelo profeta Isaías. É o início da segunda parte de são Marcos. Agora já sem a variedade de milagres e prodígios, mas com o objetivo maior de formar e “ensinar” os seus discípulos. No caminho de Jerusalém, caminho da cruz, Ele explica o sentido de seu próprio destino e de sua identidade. Em Cristo missão e identidade se fundam. Ao questionar os discípulos sobre quem era verdadeiramente. Pedro responde: “Tu és o Messias, proibiu-lhes com severidade a falarem a seu respeito e logo começou a ensiná-los” (Mc 8, 31). Primeiro uma severa proibição acerca da messianidade de Cristo. Certamente evitando criar no imaginário de seus discípulos uma expectativa errônea sobre sua messianidade: evitar que Pedro e seus irmãos, viessem a interpretar o seu messianismo em chave eminentemente gloriosa e política: lembremos o servo de Isaías! Menos prodígios, milagres e glória e mais ensino. Jesus começa a fazer com os seus uma catequese sobre sua messianidade e identidade: E esta, passa também misteriosamente por um livre oferecimento ao mistério do sofrimento. Ele que havia sido enviado para nos livrar da morte, das garras do pecado e de todo mal, agora impotente sucumbe ao próprio poder que viera destruir. É o grande paradoxo de seu messianismo, que não está fundado na ideia de um Deus que resolverá todos os problemas do mundo e também todos os nossos problemas.

A continuação do Evangelho afirma que o próprio Pedro esperava uma outra coisa de Cristo que tanto amava: “  Em seguida começou a ensiná-los, dizendo que o Filho do homem devia sofrer e ser rejeitado da parte dos sacerdotes e doutores da lei; devia ser morto e ressuscitar ao terceiro dia. E dizia isso abertamente. Então Pedro tomou Jesus a parte e começou a repreendê-lo” (Mc 8, 31-33). Marcos sabiamente ao unir o anúncio messiânico aos anúncios da paixão, une o mistério da filiação divina ao mistério da cruz. É como um acabamento de uma obra, como o resultado de uma equação. Não basta apenas dizer: tu és o Cristo. Se faz necessário abraçar este Cristo. E Ele não escondeu o segredo de sua identidade, dizia abertamente aos seus de sua eminente paixão, que devia sofrer, ser rejeitado, ser morto, de fato as condições que este seguimento oferece, são muito exigentes. Pedro quer um messias, poderoso e não admite num primeiro momento, sua antagônica impotência.

São Pedro, não deixa de ser uma auto-imagem de todos nós. Era melhor que reagisse, mais do que isso, que o Pai dos céus intervisse, no entanto, Jesus pacificamente, aceita salvar-nos de outra forma, muito mais plena e perfeita. Reagindo, usando de força bruta, pegando em armas como um alucinado líder político, apenas atacaria as consequências de todo o mal, mas não o mal, o  pecado e a injustiça. No entanto, no alto da cruz, Ele eliminará o mal na sua raiz: “ Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e me siga” (Mc 8, 34). E mais ainda: “ Quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la, mas quem perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho, vai salvá-la” (Mc 8, 35).

Todos nós, todos os homens querem alguma forma de salvação. Queremos ser salvos de nossas contas, queremos ser salvos de nossas doenças, queremos ser salvos de nossas tribulações, queremos ser salvos do inferno. A ideia soteriológica é intrínseca no ser-humano. Em ateus, agnósticos e crentes! Nós na verdade não queremos mais nenhum sofrimento, nenhuma dor. Aqui reside o dilema humano e por ventura a Graça divina. Jesus optou não por si, mas por nós. Se tivesse optado por si, a história seria outra e Pedro teria razão. Mas não. O amor foi quem venceu e o amor na Cruz acolhida e oferecida livremente jogou todo o mal no abismo!

Isto mudará também o mundo. Em primeiro lugar, o mundo de nossas relações fraternas e eclesiais: o amor e o perdão!!

Aprendamos neste final de semana está obra da fé que fala são Tiago na segunda leitura: “se não se traduz em obras, por si só a fé esta morta” (Tg 2, 17). A fé é crer, a obra é amar!!!

 

“Nenhuma coisa é pura ou impura em si mesma, o desafio de transformar as sujeiras dentro de nós em pureza”!!

XXII Domingo do tempo comum

Neste domingo a liturgia retoma o evangelho de são Marcos nas celebrações eucarísticas. Após algumas semanas de meditação em torno do discurso sobre o pão da vida presente em são João, voltamos para o evangelho de são Marcos, o texto mais primitivo e sintético dos evangelhos. Nós poderíamos delimitar a temática da liturgia de hoje a partir das seguintes perguntas: Como pode-se viver a fé cristã com mais autenticidade? O que poderíamos fazer para expressar nossa fé em Cristo indo mais a essência das coisas e relativizando algum de seus pormenores?

 

São Tiago na segunda leitura exorta seus interlocutores a acolhida da fé com, humildade e verdade: “recebei com humildade a Palavra que em vós é implantada (…) Todavia sede praticantes da Palavra e não meros ouvintes, enganando-vos a vós mesmos” (Tg 1,21-22) e por consequência  propõe a seus ouvintes uma religiosidade que una fé e vida, escuta e prática desta Palavra: “com efeito a religião pura e sem mancha diante de Deus Pai é esta: assistir os órfãos e viúvas em suas tribulações e não se deixar contaminar pelo mundo” ( Tg 1, 27).

Aqui a partir de são Tiago, começamos a tocar no centro da mensagem deste final de semana. Começamos a responder às perguntas propostas na introdução de nossa meditação. Como ser um autêntico cristão? Como ir ao que realmente interessa e é capaz de transformar nossas vidas e ser testemunho para nossos irmãos?

Jesus Cristo no evangelho deste final de semana nos auxilia em muito à nossa reflexão: Dirigindo-se aos fariseus e alguns doutores da lei diz: “este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim” (Mc 7, 6). São palavras densas e fortes estas dirigidas por Jesus a estes líderes judaicos. Em outras palavras, o que Jesus está falando poderia ser dito também da seguinte maneira: o que eles estão exigindo de vocês, nem eles são capazes de viver!! Infelizmente esta incoerência entre fé e vida, escuta e prática da Palavra é ainda atualíssimo em nossos dias. Estamos sempre correndo o risco de colocar pesados fardos morais, ou espirituais no ombro de outros, quando nós mesmos não somos sequer capazes de carregá-los. Muitas vezes projetamos nossas derrotas e fracassos na vida espiritual nos outros, exigindo que nossos irmãos vivam uma “perfeição e pureza de fé” que há muito deixamos de vivê-la: É nestes momentos que é sempre aconselhável uma escuta atenta daquela Palavra do Senhor que nos resgata e redimi dos falsos moralismos: “tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim que sou manso e humilde de coração” (Mt 11, 29).

 

O evangelho deste domingo aborda uma tema importantíssimo para o contexto bíblico e muito mais ainda em nossos dias. O divergente tema da “pureza”. Este é de uma riqueza histórica impressionante, a ponto de estar entre as bem-aventuranças: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt 5, 8). Isto significa afirmar que um caminho de “pureza” é realmente possível e não só, como ele é um caminho de visão de Deus. Tal afirmação se une a grande tradição sapiencial bíblica, pela qual o autor sagrado do livro dos salmos questionava-se: “ Senhor quem morará em vossa casa e no vosso santo monte habitará? É aquele que têm as mãos limpas e o coração puro” (Sl 24, 3).

No entanto, os fariseus e escribas ficaram “escandalizados”, com o comportamento dos discípulos de Jesus, por que estes não lavavam as mãos antes das refeições, permanecendo assim, no olhar farisaico, com as mãos impuras… Parece que estes interlocutores de Jesus, haviam esquecido, que não basta apenas a ablução de mãos, para estar puro. O salmista recorda também a necessidade de ter um coração puro! ‘lavar apenas as mãos pode ser indício de profunda observância da Lei, mas também de mero formalismo desinteressado’.

Para Jesus não bastava apenas as “mãos” era preciso ir mais fundo. É muito fácil transformar um gesto de higiene pessoal e um rito, para parecer estar “ok” diante de Deus: “Bem se fiz isto, se observei este rito, estou purificado inteiramente diante de Deus e de meus irmãos.”  Ao mesmo tempo sabemos que lavar as mãos pode significar muitas outras coisas: Pilatos lavou suas mãos diante do justo Jesus. Políticos e mais políticos, lavam as mãos, diante de tantas corrupções, às vezes até mesmo padres, religiosos, leigos cristãos, perdem a oportunidade de tornarem-se “sal da terra e luz do mundo”, diante de injustiças, pecados sociais, desconsideração pela dignidade humana, e em vez de assumirem as causas profundas dos homens de nosso tempo, também acabam “lavando as suas mãos”, mantendo uma aparência “límpida”, enquanto por dentro não ha grandes transformações.

 

A liturgia da Palavra deste domingo nos ajuda a recuperar a importância do lugar da pureza em nossa vida. É o caminho da visão de Deus, está la nas bem-aventuranças! Mas Jesus Cristo nos quer fazer compreender que para tornarmo-nos puros, não basta apenas delimitar limites, como se esta virtude evangélica, fosse meramente espacial: aqui deste lado os puros e as coisas puras, os bons católicos observantes de todas as normativas canônicas, e do lado de lá, os impuros e as realidades que contaminam. Jesus supera está dicotomia em primeiro lugar aproximando-se dos impuros: pobres, enfermos, pecadores, publicanos, etc, elevando-os ao estado original e mais, sentencia o formalismo excludente dos escribas e fariseus com a belíssima e revolucionária afirmação: “ escutai todos e compreendei: o que torna o homem impuro, não é o que entra nele vindo de fora, mas o que sai do seu interior. Pois é de dentro do coração do humano que saem as más intenções, imoralidades, roubos, assassínios, adultérios, ambições desmedidas, fraudes, devassidão e inveja (…)” ( Mc 7,23).

Toda esta sujeira, este lixo que a gente vai acumulando durante nossa sincera busca diante de Deus, precisa ser transformado, assim como fazem talvez estas cooperativas que do lixo, fazem obras de arte,  meios de vida digno para tanta gente. Nossa purificação passa por esta transformação também. Só o fogo purifica! A água limpa por fora, na epiderme, na superfície. Somente uma conversão sincera à vontade de Deus é capaz de reciclar sujeiras dentre de nós em obras novas!!!