“ A perda da alma, o único temor possível”

XII Domingo do Tempo do Comum

(Jr 20, 10-13; Sl 68; Rm 5, 12-15; Mt 10, 26-33)

Não temer” é a ordem evangélica que o Senhor nos oferece na liturgia neste final de semana. Parece brincadeira ou contradição, afinal vivemos num tempo onde as pessoas expressam muitas formas de medo: temos medo dos homens, medo da violência, tememos a morte, tememos o desemprego, tememos as guerras, os jovens temem o futuro, muitos católicos temem admitir sua fé publicamente, outros temem descobrir a vontade de Deus para suas vidas, outros serem perseguidos por causa de sua fé.

O medo e o temor existem dentro de nós, porque em nós existe algo que ainda não nos foi revelado. Há mistérios da vida, do cotidiano que não conhecemos por isso nós tememos. O medo não é causa ele é apenas consequência de uma realidade humana intrínseca em todos: nós não somos oniscientes, em outras palavras não conhecemos todas as coisas.

Porém da mesma forma que nos damos conta que “vemos ainda como um espelho” (1 Cor 13,12) a realidade que nos cerca, esta constatação nos é também muito favorável. Ela é reveladora de algo muito próprio do cristianismo. Nós cristãos, não devemos ter a nossa fé alicerçada no saber, na ciência, apenas na razão. Nossa fé não se edifica somente no entender. Muitos santos de nossa Igreja viveram longos períodos de escuridão sem nada entender. Nossa fé se constrói na confiança inabalável em nosso Deus. É por isso que o salmista da liturgia de hoje pode constatar duas realidades presentes na vida cristã: a primeira é a da provação da fé: “ Por vossa causa é que sofri tantos insultos e meu rosto se cobriu de confusão” (Sl 68, 8). A segunda é a do socorro de Deus: “ Respondei-me pelo vosso imenso amor, pela vossa salvação que nunca falha, Senhor ouvi-me, pois suave é vossa graça” (Sl 68, 14-16).

A liturgia da Igreja deste final de semana evoca esta realidade: No caminho haverão provações, escuridão da fé, dúvidas, dificuldades, mas diante de todos estes obstáculos que surgem em nossa corrida em direção a Cristo (Fil 3, 14), a palavra de Jesus dita a seus discípulos tem a mesma força quando dirigida a todos nós: “ Não tenhais medo dos homens, pois nada há de encoberto que não seja revelado, e nada de escondido que não seja conhecido” (Mt 10, 26).

Em outras palavras não temais os momentos de escuridão da fé, de dúvidas, de incertezas. As vezes vivemos estes difíceis movimentos da alma, sofremos, não entendemos muito bem o que se está passando, mas um dia virá a luz, um dia aquilo que estava encoberto no medo, na dúvida virá à claridade.

No entanto sabemos muito bem. O medo exerce uma força psicológica muito perigosa em todos nós. Ele pode nos paralisar. A evangelização não pode ser feita a partir de situações de medo. Ela se dá na confiança que Deus caminha a nossa frente. As vezes sentimos evangelizadores com certos temores! Eles comportam-se como se temessem aos homens. Temem mexer em situações difíceis. Preferem dar continuidade a uma ação pastoral que apenas mantém um “status quo”, o mais do mesmo. Sem mudanças, sem problemas e como consequência sem perturbações e perseguições. Mas pensemos realmente: será que é isso que Nosso Senhor espera de nós? Ele quererá apenas de seus evangelizadores uma mera pastoral de manutenção ou um patamar mais missionário e mais profético.

Na primeira leitura encontramos um profeta chamado Jeremias. A vocação profética é bela, estupenda, dom de Deus, mas altamente comprometedora. Os profetas estão comprometidos com Deus até o pescoço! Jeremias é porta voz desta paradoxal realidade da vocação ao profetismo: “ Eu ouvi as injúrias de tantos homens e os vi espalhando o medo em redor: denunciai-o, denunciemo-lo; talvez ele cometa um engano e nós poderemos apanhá-lo e desforrar-nos dele” (Jer 20, 10). No entanto Jeremias não titubeou diante das injúrias: “Mas o Senhor está ao meu lado, como forte guerreiro, por isso os que me perseguem cairão vencidos” (Jr 20, 11). Se o profeta se compromete com Deus até o fim, Deus não é em nada diferente. Ele estará ao nosso lado até nas mais desafiadoras situações: “Quanto a vós até os cabelos de vossa cabeça estarão contados. Não tenhais medo!” (Mt 10, 31).

Porém a liturgia de hoje apresenta apenas uma realidade ao qual devemos temer: E ela está ligada as realidades ultimas de nossa existência, isto é a salvação. Jesus diz a seus discípulos: “ Não temais medo daqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma! Pelo contrário, temei aquele que pode destruir a alma e o corpo no inferno!” (Mt 10, 25) Que tipo de temor afinal é este que o Senhor está falando expondo a seus discípulos? O que significa temer a morte e a destruição da dimensão da alma em nós? No cristianismo antigo, no período ligado às perseguições os cristãos eram expostos aos mais duros tormentos, tortura e violência por causa do nome de Cristo. Diante das terríveis e criativas sessões de torturas romanas a primeira geração cristã era levada a renunciar sua fé em Cristo e prestar culto a César, imperador Romano. O corpo daqueles primeiros cristãos, os santos mártires eram expostos aos mais cruentos sofrimentos. Muitos, milhares foram mortos, por causa da fé, mas não perderam tiveram sua alma morta.

Hoje em dia somos expostos todos os dias a optar por Cristo. Nossa sociedade se orienta por valores materiais, corporais, visíveis. O cristianismo no mundo será sempre um sinal de contradição. Teremos sempre de renovar nossas mais profundas opções por Ele, para não sentir estar sendo destruído dentro de nós a “alma”: a presença de Deus, a justiça de Deus e a Verdade de Deus!

 

XI Domingo do Tempo Comum

(Ex 19, 2-6; Rm 5, 6-11; Mt 9,36-10, 8)

Existem muitas realidades que incidem na evangelização. Elas são fomentadoras de respostas que nós discípulos de Jesus Cristo somos chamados a dar. Nascem geralmente de um olhar sensível à realidade que cerca o discipulado e com certa urgência clama por nós inserção. O Papa Francisco tem sido um atual “porta voz” destes significativos clamores que circundam o agir da Igreja no mundo de hoje quando reiteradas vezes tem falado: “prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada, por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrara as próprias seguranças” (EG).

Na liturgia de hoje a Palavra de Deus percorre este desafiante itinerário pastoral: “O texto evangélico de hoje contém o primeiro envio missionário dos apóstolos com as instruções de Jesus para a missão evangelizadora que lhes é confiada. É a partir da perspectiva missionária que se definem a vocação e a identidade da comunidade eclesial no mundo dos homens, com a opção preferencial pelos pobres” (Nas fontes da palavra, Caballero, Basilio. p, 209).

Os primeiros versículos do evangelho deste final de semana apresenta-nos uma chave de leitura especialíssima para todo e qualquer evangelizador, seja ele, Padre, diácono, religioso (a), catequista enfim, qualquer servidor da vinha do Senhor: “vendo Jesus as multidões, compadeceu-se, porque estavam como ovelhas que não têm pastor” (Mt 9, 36). Comecemos este rico versículo bíblico pelo verbo inicial. Jesus Cristo, “”. Talvez um primeiro sinal de sua evangelização. Ele , olha para além de si mesmo. Assim como no sermão da Montanha Ele vê, que existem “pobres, aflitos, puros de coração, mansos, perseguidos pelo Reino, promotores de paz, do qual a herança é o Reino dos céus” (Mt 5, 2 ss), Ele vê a realidade e a partir dela não se desespera, não se acomoda, não perde a esperança, mas a partir do “alto” começa a dar uma resposta.

Jesus enxerga algo que nós também vemos. Também percebemos que muitas vezes nosso povo anda abatido e errante sem a imagem do pastor. Pensemos no Brasil, lembremos daqueles a quem foram confiadas nossa esperança à coisa pública. Mas pensemos também na multidão de cristãos que anelam por ouvir e nutrir-se à mesa da Palavra do Senhor e que na falta de ministros que a anunciem muitas vezes permanecem cansados e abatidos: “e como ouvirão se não há quem pregue” (Rm 10, 14).

Jesus Nosso Senhor nos ensina primeiro “vendo”. O senso da realidade, dos desafios cotidianos de hoje não devem nos amedrontar. E depois a partir do alto, agindo: “A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos, Pedi, pois, ao Senhor da messe que envie trabalhadores para sua messe” (Mt 37-38). Surge a nossa meditação outro verbo importante para esta reflexão: “Pedi”. Diante do enorme desafio de uma grande colheita, do fruto já maduro e pronto para ser colhido, da urgência da colheita, surge a suplica aos céus. A petição, a suplica, o clamor ao Pai o “Senhor da messe”, não tem nada de fuga do real, dos problemas, mas diz muito sobre o essencial de qualquer evangelização. Ela a missão da Igreja no mundo é sempre ação do alto: “sem mim nada podeis fazer” (Jo 15, 5), através é claro de seus ministros, discípulos (a) afinados com sua vontade.

A Palavra de Deus nos faz sérios questionamento neste final de semana: Como responder aos desafios da Evangelização em nossos tempos? Como suscitar mais operários para a missão do Senhor em nossos dias?

Sem querer perder tempo com especulações filosóficas ou sociológicas sobre nosso tempo, deixemos que a própria palavra de Deus nos ilumine. Ela mesma nos indica o caminho possível.  Em primeiro lugar aprendendo com o Senhor Jesus: “tende em vós os mesmo sentimento de Cristo Jesus, o qual sendo igual a Deus, esvaziou-se dessa condição e assumiu a condição de servo” (Fl 2, 5-6). Cristo Nosso Senhor sai de si mesmo. A Encarnação revela a profundidade desta sua saída. Sendo igual a Deus se fez servo. Como servo de Deus Ele vê e se compadece dos sofrimentos alheios. Nós como seus discípulos devemos viver em nossa espiritualidade estes mesmos sentimentos de Cristo: de Ver, sair e compadecer-se com o outro. Esta chave missionária na evangelização nos desloca dos medos, da acomodação, de sentirmo-nos como nas palavras do Papa Francisco como uma Igreja: “auto-referencial”, preocupada consigo mesmo, para sair em direção ao outro.

Outra forma de responder a questão se encontra também na palavra do Senhor. Está presente na suplica, na petição e no chamado. Diante da grande messe, o pedido: “Pedi ao Senhor da messe”. Isso somente é possível quando nós discípulos do Senhor reconhecermos que a messe não é nossa, no sentido de posse. Ela não é nossa posse, propriedade, não somos seus “donos” o protagonista primeiro de toda evangelização é o Senhor. Nós seus “enviados”: “pedi ao Senhor da messe que mande operários para sua messe” (Mt 9, 38). Apenas simples e humildes trabalhadores da vinha do Senhor. (Bento XVI).

Ainda um outro importante aspecto aparece neste texto: o chamado: “Jesus chamou os doze discípulos e deu-lhes poder para expulsarem os espíritos maus e para curarem todo o tipo de doença e enfermidade” (Mt 10,1).

A missão na messe do Senhor não é algo genérico. Ela é pessoal. Jesus identifica os seus discípulos, confere seu poder a eles e os chama pelo nome. Peçamos nós também ao Senhor da messe que tenhamos a sensibilidade de “ver” as necessidades do povo, dar respostas concretas e inspiradas para isso e convidar outros (a) para juntarem-se a esta bela missão.

“A festa da Trindade nos recorda que não estamos sós no início, não estamos sós no tempo e nem na Pátria celeste”!

Festa da Santíssima Trindade

(Ex 34, 4-8-9, Dn 3; 2 Cor 13, 11-13, Jo 3, 16-18)

Neste final de semana celebramos a festa da Santíssima Trindade. Com ela celebramos nossa origem e nossa fonte. Há muitas pessoas que buscam suas origens genealógicas. Com esta pesquisa procuram descobrir sua raiz inicial, querem saber a quem primeiro pertenceram, a quem descendem, a que nação, país, que língua falavam seus antepassados. Esta salutar busca sobre suas raízes, reveladora um desejo de conhecer os nossos princípios, de saber onde estamos ancorados, fundamentados, alicerçados.

Neste final de semana em que contemplamos o mistério divino da Trindade, a Igreja nos convoca a mergulhar novamente em nossas origens. Mergulhar sim pois a Trindade é uma eterna fonte na qual todos temos a vida, o movimento do ser. Pois nós somos também de sua raça (At 17, 28). A Trindade é nossa fonte primeira, nossa primeira raiz, a Ela todos descendemos e Nela nos movemos. Mas é também o nosso destino e no tempo a “barca” com a qual estamos realizando santamente nossa travessia rumo à eternidade.

O mistério da santíssima Trindade nos recorda algo importantíssimo sobre a natureza de Deus. Nele há uma plena e perfeita comunhão, uma família, formada por três pessoas que se amam eterna e reciprocamente. Isso nada têm de abstrato ou distante de nossas realidades, pelo contrário, é algo muito próximo de nós. O prólogo do Evangelho de João comunica esta notícia: “No princípio era o Verbo e o Verbo Deus. Ele estava no princípio com Deus (…) Nele estava a vida e a vida era a luz dos homens” (Jo 1, 1-3). Esta mesma informação que João dá sobre a intima comunhão do Verbo eterno no seio do Pai, se desdobra também a nós. Revela que no princípio, nas origens às vezes desejadas de nossos ancestrais, para reconhecer quem somos, encontramos no mistério da Trindade uma primeira resposta. No princípio, nas origens não estamos sós. Há um Deus comunhão por quem todas as coisas foram feitas e sem Ele nada do que existe se fez (Jo 1, 2), é quem está conosco. Isso significa que nos inícios, nas origens, fomos o fruto do amor de uma família divina.

Parece-nos ser interessante recordar que a família trinitária das origens, continua presente no tempo. Toma a nossa mão e faz o caminho conosco até a pátria definitiva. No mistério Trinitário começo e meio, isto é, eternidade e tempo se tocam. Não há um dualismo temporal, um antes distinto de um depois. Há na realidade com a encarnação do Verbo, o encontro definitivo do eterno com o tempo, de Deus com os homens e da participação plena desta divindade pois esta comunhão se revelou a nós: “e o Verbo se fez carne e habitou entre nós. E vimos a sua glória, com a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e verdade” (Jo 1, 14).

É preciso fazer memória desta afirmação da fé cristã. Ela nada têm de especulativa, ou dos discursos teológicos inacessíveis à maioria do povo de Deus somente compreensível ao domínio teológico.  Antes de especular sobre a Trindade, deve-se recordar que Nela existe uma família, uma plena e perfeita comunhão. A imagem da família simboliza muitas coisas. Lembra lar, aconchego, segurança, referência, paternidade, filiação e por que não pensar na casa. Na travessia que a humanidade faz na história até o céu, muita gente tem se achado órfã de “pai”. Há muitos filhos e filhas de Deus que sentem fazer este itinerário na mais profunda solidão. Há muitos que imaginam um “deus” totalmente transcendente e inacessível ao mundo e por isso jamais poderão conceber a natureza paterna em Deus, caminham a sós, sem sentir-se seus filhos.

Para todos nós cristãos a solenidade da Trindade é de grande responsabilidade. Ela fala também que imagem de Deus estamos transmitindo com nossa pregação, nosso testemunho, nossas missas, nossos juízos, nossos extenuantes moralismos e juízos sobre outros. Será esta a imagem de um Deus amor, que os solitários tem sede de encontrar? “a minha alma tem sede de Deus. Somente Nele esta minha salvação” (Sl 62).

Na liturgia da Palavra deste final de semana nos apresenta a imagem de Deus comunhão e amor. O Evangelho começa assim: “Deus amou tanto o mundo, que deu seu Filho unigênito, para que não morra todo o que Nele crer, mas tenha a vida eterna” (Jo 3, 16). João não apresenta um “deus” distante da realidade mundo, mas o “amando”. Um Deus paterno que “deu”, que “doa”, que “entrega” seu único Filho para “salvar” e não “condenar”. Nisso já concebemos qual a imagem de Deus que devemos anunciar. A primeira é de um Deus amor e após que foi revelando seu rosto sua identidade na doação de si mesmo no próprio Filho.

Viver o mistério trinitário é viver também uma espiritualidade trinitária. Os antigos teólogos afirmavam isso se usando de um paradigma teológico importante para a tradição: “a Trindade imanente é a mesma Trindade econômica e vice-versa”, isto quer dizer que, a Trindade nas origens e de nossas origens é a mesma que revelou-se a nós no tempo. E para nós a melhor e mais santa forma de conceber o mistério trinitário que é de um amor reciproco entre as pessoas divinas é vivendo também entre nós uma amor de reciprocidade e de doação!

Salve ó Santíssima Trindade!

“O Espírito dobra o que é duro, guia no escuro, o frio aquece” (Sequência do Espírito Santo)

Solenidade de Pentecostes

(At 2, 1-11; Sl 103; 1Cor 12, 3-7.12-12; Jo 20, 19-23)

Celebrar Pentecostes é celebrar alguém que se quer receber. Receber alguém muito especial, alguém que irá fazer enorme diferença em nossas vidas. Celebrar Pentecostes é celebrar duas realidades da dinâmica espiritual: a comunitária e a pessoal, a do todo e da parte, do uno e do múltiplo. É celebrar a dialética espiritual que move a Igreja desde sempre, sem nunca feri-la. É celebrar o visível  o corpo e no mesmo lugar o sobrenatural. O eterno, a alma e da mesma forma a visibilidade da Igreja no mundo. Celebrar Pentecostes é entrar nesta diferença: a unidade na diversidade e a individualidade na unidade. Só o Espírito de Deus é capaz de realizar tudo isso.

Para preparar-se à receber o Espírito Santo é preciso entrar na lógica do mistério. E ela é sempre ou quase sempre paradoxal ou inefável. Por vezes sofre-se a tentação de querer controlar as coisas, de querer fazer com que o santo mistério de Deus na história seja controlado por nós mesmos, mas pentecostes diz que diante do seu mistério o melhor é fazer como Moisés no Horeb: “Tirar as sandálias diante deste lugar tão santo” (Ex 3, 16).

Pentecostes é a festa da unidade e da comunhão. A solenidade revela que a diferença não é exclui ambas as partes, pelo contrário, somente no respeito à distinção nos é permitido salvaguardar o que a “unicidade” tem de próprio, e o que o “comunitário” oferece à comunhão. As vezes quando deixamos de “ouvir” o que o Espírito diz a Igreja (Ap 2,2); e aceleramos os processos, corremos o risco de sairmos da lógica do mistério que é adoração e contemplação e entramos com muita pressa na esfera do sensível: Com isso vai-se à mentalidade do totalitarismo, da globalização, na qual se pressupõe que na Igreja todos devem falar “forçosamente” uma mesma linguagem, rezar e celebrar univocamente ou “descer” para o princípio do “carismatismo” que não considera o todo, a comunhão, mas somente a “minha parte”, a base, como se a Igreja se assemelha-se a uma “pirâmide” e não aquilo que por analogia teológica o é, um “corpo místico”: “Como o corpo é um, embora tenha muitos membros, e como todos os membros do corpo, embora sejam muitos, formam um só corpo, assim acontece com Cristo” (1 Cor 12, 12).

Viver Pentecostes, celebrar a vinda do Espírito Santo sobre a Igreja é possibilitar não mais conduzir, mas ser conduzido, não estar no controle, mas ser controlado, é permitir guiar-se nos caminhos que o Espírito leva a Igreja.

A liturgia da Palavra desta solenidade traz-nos três significativas imagens qualificativas do Espírito Santo: Em Atos dos Apóstolos Ele se mostra um vento forte e impetuoso. Na carta paulina, é um corpo com muitos membros e no Evangelho, o Espírito de Deus é sopro como um hálito divino. Importa saber que os correspondentes “Ruah” (hebraico) e “Pneuma” (grego) são termos sinônimos. Ambos significam ora, sopro, ar, o hálito humano e também podem indicar o vento.

Jesus ao encontrar-se com o fariseu Nicodemos o recorda que o Espírito é como a força do vento: “o vento sopra onde quer, você escuta seu som, mas não sabe de onde vêm nem para onde vai, assim acontece com aqueles que nasceram do Espírito” (Jo 3, 7-8). Com certeza há nesta figura utilizada por Cristo, muito do contexto geográfico. Ela lembra a suave brisa que sopra no final da tarde no tórrido deserto, trazendo o alívio necessário para aqueles que suportam o calor: “no labor descanso, na aflição remanso, doce alívio, vinde” (Sequência)! O Espírito Santo é como este vento que sopra nos desertos áridos de nossa vida os enchendo com sua presença e suavidade. O salmista é a genuína expressão desta realidade quando diz: “Se tirais o seu respiro, elas perecem e voltam para o pó de onde vieram. Enviais o vosso Espírito e renascem e da terra toda a face renovai” (Sl 103, 2).

Nicodemos no diálogo é a figura de homem que deve renascer do alto: “em verdade em verdade vos digo, quem não nascer de novo não poderá entrar no reino de Deus” (Jo 3, 2).

Pentecostes era uma festa hebraica celebrada 50 dias após a páscoa, onde os judeus recordavam as primícias, as primeiras colheitas oferecidas ao Senhor. Na nova aliança pentecostes celebra também primícias. Sua primeira colheita é a Igreja, este povo que nasce agora do alto, do Espírito de Deus, semeado em sua Palavra e nas águas do batismo.

Mas Pentecostes é sempre a solenidade da unidade e da comunhão. O texto em Atos dos Apóstolos mostra bem esta realidade. Há neste texto espaço para o todo e para o indivíduo, é somente assim que o Espírito age em nós: “Então apareceram língua de fogo que se repartiram e pousaram sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito os inspirava” (At 2, 3-4). As línguas de fogo pousam sobre cada um, e todos ficaram cheios do Espirito Santo. O dom que se derrama sobre cada indivíduo presente no cenáculo, contribui para que todos se encham do Espírito. O todo é feito das partes. A unidade é fruto da comunhão: “a cada um é dada a manifestação do Espírito em vista do bem comum” (1 Cor 12, 11).

E por que é importante para nós Igreja, está liberalidade do Espírito no coração humano? Que atualidade esta solenidade oferece ao nosso contexto? O que o Espírito diz hoje a Igreja?

Certamente muito. Vivemos na era da globalização e este fenômeno é composto de realidades positivas e negativas. O positivo da era global certamente está na comunicação. A globalização facilitou as coisas, fronteiras foram superadas, passamos a falar uma língua comum. Com o revolução tecnológica o mundo tornou-se uma grande rede. E isto é interessante. No entanto há também perigo neste fenômeno: A ideia de estarmos todos interligados e “unidos” em uma grande rede, tem feito desaparecer a pessoa, o indivíduo, o “uno no múltiplo”. No mundo global o todo é sempre maior que a parte, mas no mundo do cristianismo, não deve ser assim. O todo e a parte se complementam e se unem dialeticamente. O corpo eclesial não é uma abstração, uma ideia, uma “era global”, um corpo real formado por cada um de seus membros!

Que o Santo Espírito de Deus sopre sobre toda a Igreja e sobre cada um de seus membros. E que possamos falar ainda que em línguas diferentes, de formas e maneiras diferentes a única linguagem que o dom do Senhor conhece: a linguagem do amor!

“Na Ascenção do Senhor, Cristo une o céu e a terra, o corpo e alma, o já e o ainda não”

Festa da Ascensão do Senhor

(At 1, 1-11; Sl 46; Ef 1,17-23; Mt 28, 16-20)

“Esse Jesus que foi levado para o céu, virá do mesmo modo como o vistes partir para o céu” (At 1, 11); “bem acima de toda a autoridade, poder, potência, soberania ou qualquer título que se possa mencionar não somente neste mundo” (Ef 1, 20); “Eis que estarei convosco todos os dias até o fim do mundo” (Mt 28, 20).

Nos três fragmentos de textos da liturgia deste final de semana, vemos aparecer uma mesma cena especial: Desde o monte das oliveiras Jesus ressuscitado sobe ante as nuvens do céu, desde os horizontes terrestres, sua figura penetra os infinitos horizontes celestiais. São Paulo na carta dedicada à importante cidade de Ásia Menor, Éfeso, segue esta mesma direção: Cristo sobe até o trono divino, depois de nos ter resgatado do reino da morte e do nada passa ao reino da vida e do infinito. (Ravasi, Gianfranco).

A grandiosa aparição de Cristo a seus discípulos no monte, encerrando o Evangelho de Mateus, traz-nos um traço interessantíssimo: Com efeito, o Senhor, abraça o céu e a terra e faz descer sobre seus discípulos, colocados em um monte da Galiléia, uma última palavra-frase, raiz de toda a missão da Igreja: “Eis que estou convosco todos os dias, até o final do mundo” (Mt 28, 20). (Ravasi, Gianfranco).

Somente seguindo esta espécie de caminho entre “terra e céu”, será possível compreender o mistério que celebramos nesta liturgia, despojando-nos de todo dualismos ou materialismos exagerados da sua compreensão.

A mamãe sempre perguntará a seu filho onde está Deus! Ou onde é a casa de Deus? Ao qual a criança responderá, no céu. Nos antigos santuários bizantinos, o monte mais alto era considerado a “habitação de Deus”, o lugar que somente os iniciados poderiam se aproximar. Moisés no Horeb, experimentou a força de uma sarça que não se consumia e diante desta mística experiência teve de tirar suas sandálias: “não te aproximes, tire as sandálias dos teus pés, pois é santo o lugar onde pisas” (Ex 3, 5).

A Ascenção do Senhor aos céus será então com seu símbolo de subida e a proclamação gloriosa da ressurreição do Senhor, a superação a partir de Cristo de nosso limite humano na participação do mistério insondável dos céus. Mas como efetivamente se dará isto? Cristo o Filho de Deus desceu das alturas, na linguagem paulina, esvaziou-se de sua condição divina, assumindo nossa condição humana, até a morte e morte de cruz (Fl 2, 6ss). Com sua páscoa, Ele rompeu com a prisão da terra a que estava ligada toda a humanidade, e retornando a pátria de Deus, levou consigo todas as criaturas, por isso Paulo escreve: “Subindo aos céus, levou consigo todos os prisioneiros, dando dons aos homens! (Ef 4, 8). Ou em outra passagem aos Efésios: “o que significa que Ele subiu, senão que desceu às partes mais baixas da terra, e o que subiu é o mesmo que desceu muito além de todos os céus” (Ef 4, 9-10).

A Ascenção do Senhor é pois um convite de subida com Cristo. Todos desejamos subir. Todos almejamos em certa medida ascender na vida. Crescer profissionalmente, ter nossos projetos pessoais reconhecidos. Ambiciona-se de certo modo superar mediocridades que nos paralisaram no tempo. O mistério da subida do Senhor Jesus aos céus perpassa todas estas realidades, porém exatamente em sua contradição.

O desejo humano de subir na vida, de crescer, de ascender, é sinalizador de algo mais profundo presente em nós. Este é um desejo pelas coisas do alto e que a mera estabilidade do “status social” não é capaz de responder. Lembremos que o próprio Satanás conduziu Jesus até o monte muito alto e mostrando-lhes todos os reinos do mundo e sua glória lhe disse: “Eu te darei todo isso, se te ajoelhares diante de mim” (Mt 4,10); ao que o Senhor respondeu: “para traz, Satanás, adorarás somente ao Senhor teu Deus e só a Ele servirás” (Mt 4, 11). A Jesus naquele momento fora oferecido todo o poder temporal existente. No entanto escolhe o melhor, o mais nobre: adorar e servir ao Senhor.

O mistério da Ascenção do Senhor traz sempre consigo um tema importante para o homem de nosso tempo, por isso será sempre difícil de traduzi-lo. É que está liturgia coloca-nos diante da realidade “Céu”, e estamos por demais habituados a imaginá-la como um mundo “do andar de cima” e que nada tem a ver “conosco no andar debaixo”, ou no seu antagonismo: Para muitos habituados a não considerá-la mais presente no horizonte humano devido ao excessivo valor que damos hoje em dia ao material, tentação está já presente na mais antiga tradição da Igreja: “ Senhor é agora que vais restaurar o Reino de Israel?” (At 1, 7)

Por isso a festa da Ascenção é profética a nós católicos. Ela abre nossos olhos para a última e única realidade existente, Deus. Ela nos recorda que nem tudo deve ser reduzido ao aqui e agora. Podemos quer subir e crescer na vida, no mundo do trabalho mas sem perder de vista o futuro em Deus: “ buscai as coisas do alto” (Cl 3,1) e sem perder de vista o presente no meu próximo: “ Homens da galileia, por que ficais parados olhando para o céu (…)? (At 11, 11).

 

 O Espírito da Verdade não permite que nenhuma mentira nos deixe órfãos!

VI Domingo do Tempo Pascal

( At 8, 5-8.14.17; Sl 65; 1 Pd 3, 15-18; Jo 14, 15-21)

“Não vos deixarei órfãos”. (Jo 14, 18)

Não poderíamos imaginar o quão este versículo se tornaria tão impactante como foi, nestes últimos dias para nós brasileiros. O acirramento da crise política nacional nos vitimou com um sentimento de orfandade, de abandono, de desconfiança de uma paternidade social antes possível para com o ideal republicano de pátria. A Pátria é gênero feminino sabemos, mas sua distante origem vêm do nominativo pater (Pai-masculino), tem como genitivo (adjunto adnominal) Patris que significa “do Pai”, ou “Pais” (plural) que indica posse e pertença ao Pai. Bom o antigo latim nos ajuda a entendermos este árido sentimento que atravessa a alma dos brasileiros nestes dias. Os últimos escândalos atingiram agora aos pais de nossa Pátria! De forma vexatória chegaram a mais alta hierarquia. Isto por mais que queiramos brincar (com postagens na internet), ou contestar as afirmações (com ofensas e ameaças pela internet), nos fere profundamente e nos fez de uma espécie de   órfãos sociais. Aqui cabe recordar a pergunta feita por Tomé e por Filipe na liturgia de domingo passado tem significado imenso hoje: “Senhor para onde vais? Como podemos conhecer o caminho?” (Jo 14, 5); “Mostra-nos o caminho e isto nos basta?” ( Jo 14, 9).

Nossos dois discípulos começam a sentir no coração que uma orfandade os visitava. Jesus fora um irmão, um mestre, o messias, mas exerceu para com seus discípulos uma profunda e íntima paternidade espiritual. Foi muitas coisas para eles, mas ao mesmo tempo, forá sempre um pai: “ele estava ainda longe, quando seu pai viu-o, encheu-se de compaixão, correu e lançou-se ao pescoço, cobrindo-o de beijos” (Lc 15, 20) .

Mas é claro que a partida de Jesus à casa do Pai, nada têm a ver com a partida que devem fazer alguns de nossos políticos. E por que? Por que ambas despedidas forma antecipadas por um caminho. Jesus deixou marcas no caminho no coração daqueles discípulos jamais esquecidas. Sinais de vida, amor a Deus e ao próximo e um desejo de ser como Ele era. Este foi o vínculo maior que nos deixou: “Se me amais guardareis meus mandamentos (…) e Eu o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14, 15.21) e com este, o desejo de uma existência “alta”, “santa”, se quisermos falar: verdadeiramente ética e altruísta. Tudo e qualquer analogia não será capaz de limitar todo o significado deixado por Jesus, no coração daquela primeira geração e claro que também no nosso! E o caminho deixado por Cristo, nada têm a ver com o caminho que nos deixam nossos “pais na política”.

Hoje como Tomé e Filipe, com o coração apertado também dizemos ao Senhor: “Nós não sabemos o caminho? Mostra-nos o Pai e isto nos basta?”. Por isso vale a nós como aqueles primeiros discípulos a resposta dada pelo Senhor: “Eu sou o caminho, a Verdade e a Vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14, 6s).

Na liturgia de hoje Jesus faz uma promessa a seus discípulos que ainda que venha ausentar-se por um tempo: “filhinhos por pouco tempo ainda estou convosco (…) Para onde vou vós não podereis ir, dou-vos um novo mandamento que vos ameis uns aos outros” (Jo 13, 33-34), não irá permitir que o sentimento de orfandade, de abandono, de desconfiança se apodere dos seus corações. Ele promete um paráclito, um consolador, que permanecerá com eles para sempre (Jo 14, 15). À esta força do alto chama de: “O Espírito da Verdade que o mundo não pode acolher porque não o vê nem o conhece. Vós o conheceis porque permanece para sempre dentro de vós” (Jo 14, 17). Se antes havíamos refletido como fora diverso o caminho deixado por Jesus a nós e como os estragos deixados por nossos políticos nos causam tanta incerteza, aqui chegamos a outro abismo de diferenças: Nosso Senhor, nos deixou o Espírito da Verdade. É um outro qualificativo dado ao Espírito Santo de Deus, afirmando que Ele é Verdade; só Nele podemos discernir o que é a Verdade e também é claro somente com Ele caminhar sob a estrada do bem, da ética, do amor e de tudo o mais que o Senhor nos deixou. Cristo não deixou-nos órfãos, não deixou-nos apenas mergulhados no beco sem saída do espírito do mundo, Ele na verdade permanece sempre conosco e mais permanece dentro de nós, como uma luz, iluminando nossa vida e os momentos de escuridão que podemos passar. Sua partida, despedida dos seus, foi preciso para que o caminho se ampliasse e para que nós seus discípulos compreendessem que só completaremos a corrida (Fl 3, 7), com o auxílio deste Espírito da Verdade.

Têm faltado muita verdade à classe política. Sem generalizações e ideologias, é a própria história que tem nos feito chegar a esta triste conclusão. A política é importante. Ela é mediação possível para o bem comum, para a dignidade humana. Talvez por isso nossos pais na filosofia a definiram como a mais alta de todas as virtudes. No entanto pode estar faltando virtus aos homens que fazem política. O espírito do mundo se apossou deste espaço, mas ele não é seu. Ele é de homens e mulheres que cuidam da política com Verdade e ética não com mentira e interesses próprios.

Na segunda leitura o apóstolo Pedro nos faz ver o lugar desta Verdade em nós: “antes santificai a Cristo o Senhor em vossos corações, estando sempre prontos a dar razão da vossa esperança (…) conservando a boa consciência, para que se em alguma coisa sois difamados, sejam confundidos os que ultrajam vosso bom comportamento”. Atualíssimo texto de são Pedro. A Verdade se manifesta em nós primeiro por dentro. Senão pode parecer apenas um revestimento. A conduta, o comportamento, o testemunho que estamos dando no mundo, é em primeiro lugar uma esperança que deve ser sempre integrada e renovada em cada um, pelo Espírito da Verdade. Possamos viver sempre assim. Buscando as coisas do alto (Col 3, 1) e não se deixando seduzir por caminhos ou marcas que infelizmente outros nos deixam.

Que nossa esperança nunca venha a ser confundida e que a força do alto nos ajude a permanecer sempre em Deus.

“Construindo a nossa morada no céu com as pedras vivas que somos nós

V Domingo da Páscoa

( At 6, 1-7; Sl 32; 1 Pd 2, 4-9, Jo 14, 1-12)

A comunidade cristã das origens viveu uma experiência marcada por grande entusiasmo, fervor e alegria: “dia a dia, unânimes, frequentavam assiduamente o templo e partiam o pão pelas casas, tomando o alimento com alegria e simplicidade de coração” (At 2, 46). Lucas nos Atos dos Apóstolos descreve como testemunha ocular que foi esta significativa experiência que fizera a primeira geração cristã. Mas como acontece em todas as relações, também na relação com Deus depois de um momento de “enamoramento espiritual”, provieram as primeiras tribulações, as primeiras desistências, as primeiras perseguições, dissenções entre os membros das próprias comunidades, as primeiras crises, em suma, o mistério da Cruz de Cristo visitou também seus fervorosos seguidores.

É a hora em que começam novas perguntas: Senhor a quem iremos, só tu tens palavras de Vida? (Jo 6, 69); Senhor não sabemos para onde vais. Como podemos conhecer o caminho? Mostra-nos o Pai e isto nos basta? (Jo 14, 5.9). Os sinceros questionamentos que fizeram aqueles primeiros discípulos de Cristo, não serão diferentes das perguntas que nossa geração faz, quando é chamada a atravessar períodos de provas e dificuldades. Com certeza também nestes momentos vemos desmoronar a nossa volta todas nossas certezas. E ver que projetos pessoais em que estávamos alicerçados desabarem não é experiência fácil para nós e nem mesmo para aquela primeira geração de discípulos de Jesus.

Na segunda leitura o apóstolo Pedro nos auxilia ainda mais a compreender a palavra que hoje meditamos. Ele exorta seus irmãos na fé partindo de duas imagens que podem ser muito uteis a todos nós: A primeira delas é a da pedra viva, da rocha, atribuída a Cristo: “Caríssimos aproximai-vos do Senhor, pedra viva, rejeitada pelos homens, mas escolhida e honrosa por Deus” (1 Pd 2, 4). É muito interessante como Pedro define Cristo: Ele é pedra viva. Ao fazer esta afirmação ele nos está dizendo, que Ele é nossa solidez, nossa rocha firme, nosso abrigo forte, onde encontramos segurança. Nele nossa vida está alicerçada como em uma rocha. Mas Pedro se utiliza ainda de outra imagem semelhante a esta para  nós batizados: “Do mesmo modo, também vós como pedras vivas, formai um edifício espiritual (…)” (1Pd 2, 5). Participamos pelo batismo desta construção espiritual que é o Corpo de Cristo. E é nestas duas alegorias petrinas que se encontra o centro de nossa reflexão, no fato de também sermos chamados de “pedras e edificação espiritual”, pela vida divina que circula em todos nós.

E ai, surgem também um sérias perguntas sobre nós mesmos: Como ser esta pedra viva, este edifício espiritual em Cristo? Como poderemos manter em nossa vida espiritual a tenacidade e a firmeza destas pedras vivas? Como ser este edifício espiritual, quando muitas vezes experimenta-se a provação da fé e sentimos desabarem em nossa volta e dentro de nós antigas certezas que estávamos antes fundados?

É aqui que se encontra nosso maior paradoxo e que o apóstolo Paulo tão bem definiu: “trazemos pois este tesouro em vasos de argila, para que esse incomparável poder seja de Deus e não de nós. Somos atribulados de todos os lados, mas não esmagados, postos em dificuldade mas não vencidos; perseguidos, mas não abandonados (…)” (2 Cor 4, 7-9ss).

É sempre um grande desafio manter a tenacidade das pedras, a firmeza de uma rocha que mesmo quando atingida pela força das ondas do mar, permanece estável e sólida. Nós que somos as “pedras vivas do Senhor” e o seu “edifício espiritual”, quando sentimos a cruz pesar sobre nós, temos a sensação de que aquelas pedras se esfarelaram e que aquele edifício por algum motivo ruiu! Nossa humanidade é assim mesmo: “trazemos pois este tesouro em vasos de argila” (2Cor 4, 7). No entanto permanece em todos nós a missão de ser Pedra! Ela é muito séria, é só recordarmos que foi entregue do Apóstolo Pedro: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” (Mt 16, 18).

Qual então será o segredo para mantermos esta tenacidade e solidez na vida cotidiana e espiritual? Qual será o caminho para esta confiança no Senhor mesmo em meio as tempestades da vida? Penso que são Paulo pode nos ensinar muito sobre este santo caminho: Ele afirma que trazemos um grande tesouro: a vida da fé é um magnífico tesouro. Nada vale mais que o dom que recebemos de Deus: “O Reino dos céus é semelhante a um tesouro escondido no campo; um homem o acha e torna a esconder e, na sua alegria, vai e vende tudo que possui para comprar aquele campo” (Mt 13, 44). Porém este tesouro é dom! Foi-nos dado e está em nós. Permanece para sempre em nós, inabita eternamente pelo batismo em nós, é vida dentro de nós. Mas nós não somos este tesouro. Participamos dele honrosa e humildemente: “isto é para vós que credes ele será um tesouro precioso para os que creem(…)” (1 Pd 2,7). Mas não somos sua origem e sua causa, somos apenas o que Paulo profundamente define vasos de argila.

Para sermos estas pedras vivas, iremos sempre necessitar que a luz e o calor do Senhor, transforme no seu tempo estes humildes vasos de barro em rochas contundentes e fortes. Poderá demorar a vida toda. Talvez iremos nos descobrir somente na eternidade esta morada que o Senhor irá preparar: “ Na casa de meu Pai há muitas moradas (…) pois vou preparar-vos um lugar, virei novamente e vos levarei comigo” (Jo 14, 2.4); construída por as pedras vivas que fora nosso testemunho de fé!