Jesus Cristo aqui, agora e no futuro!

II Domingo Comum
( Br 5, 1-9; Sl 125; Fl 1, 4-6.8-11; Lc 3, 1-6)

Jesus Cristo aqui, agora e no futuro!
A figura que protagoniza a liturgia da Palavra deste final de semana é João Batista. Ele é a “voz clamando no deserto e preparando os caminhos do Senhor” (Lc 3, 4). A simbólica da “voz” é algo importante aos nossos tempos. Merece nossa reflexão! Para aqueles que como eu, admiradores da boa música, do clássico rock dos anos 70 e 80, esta passando nos cinemas com grande sucesso o filme “Boehmian rapsody”, sobre a estupenda e inesquecível “voz” e vida do controverso Fred Mercury (Queen). Mercury, sabia-se dotado por Deus de um grande dom. Por sua inconfundível e inatingível capacidade vocal. Ele foi uma voz reconhecida no mundo business. Admirada e aclamada por todos. A voz e a conturbada vida de Mercury, falam da importância da “voz” no mundo de hoje. Das “vozes” que são ouvidas, reconhecidas e aplaudidas. Das vozes que encantam as plateias, as assembleias, das vozes capazes de reunir multidões em torno de ideias, pensamentos e projetos de vida. Das muitas vozes que estão a nossa volta, apontando muitas estradas e também do grande desafio que tantas vozes dispersas por ai, para o bom e santo discernimento da escuta da mensagem que as palavras trazem por trás das vozes!

Fico pensando: como seria aquela antiga voz do Batista? Qual seria sua altura? Ha quantos decibéis clamava João pelo deserto da Galileia? O que este grito, este clamor tem ainda a nos dizer? O que a “voz” de João Batista insinua para a Igreja, para nós neste santo Advento? Não seria justo comparar ambas as vozes de Batista e Fred, como seria ainda muito menos justo equiparar suas vidas. A belíssima “voz” de Mercury sofreu um “ruído” por causa de seu estilo de vida. A vida de João Batista fez com que uma voz que antes clamava no deserto, chegasse até a corte da Judeia. A vida de são João Batista afinou, aumentou e tornou a sua voz potentíssima e perigosa!!
Todos os que usam a voz como instrumento necessitam de cuidados. Todos aqueles que trabalham pelo Reino também. João Batista procurava cuidar-se levando um modo de vida extremamente austera: “E João tinha as suas vestes de pele de camelo, e um cinto de couro em torno dos seus lombos, e alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre” (Mt 3, 4). A austeridade do Batista por mais que possa causar estranheza a qualquer pessoa de nosso tempo, habituada a modelos mais sofisticados de vida, mas se justifica somente a partir de sua missão. Toda esta exigência consigo mesmo, era para que sua “voz” e sua vida fossem se tornando cada vez mais afinadas. Afinando seu corpo na austeridade, modelando sua vida no caminho de Deus, João Batista passou a ser instrumento para muitos. Preparando o caminho para a vinda do messias!
Ele o Batista é apenas a “voz” que grita no deserto. Por trás da voz e dos apelos proféticos que São João Batista clamava, estava a Palavra. Ele prepara o povo para ouvir a Palavra que chega. Advento é esta espera daquele que vêm e não daquele que está no passado. As grandes vozes, os grandes artistas que já se foram, permanecem conosco, apenas na lembrança, na memória, na nostalgia e saudade. Um grande nome da música quando parte deixa um vácuo um vazio, no coração de seus admiradores, no entanto o precursor é voz do futuro. Ele sabe que a Palavra que prepara é Ontem, Hoje e Sempre (Hb 1, 13-20).
Cristo não está apenas no passado! A bela cena que meditamos sempre na noite de Natal não é somente memória afetiva, mas um futuro escatológico : “anunciamos Senhor a vossa morte e proclamamos a vossa ressurreição, Vinde Senhor Jesus”.

Colhamos também das canções de Mercury uma mensagem que pode ajudar-nos a viver o advento: “don´t stop me now”; não me pare agora! Não paremos com nosso processo de conversão. Não paremos com nosso profetismo! Não paremos de preparar os caminhos do Senhor que vêm… Não paremos de caminhar em direção a Cristo neste advento. Que nada nos pare. Que nada interfira nossa vida cristã, que nenhum interesse temporal nos disperse aquele futuro em Cristo que nos aguarda, “já e ainda não”!

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“Quando essas coisas começarem a acontecer, levantai-vos e erguei a cabeça, porque a vossa libertação esta próxima” (Lc 21, 28).

I Domingo do Advento

(Jr 33, 14-16; Sl 24; 1 Ts 3, 12-4.3; Lc 21, 25-28.34-36)

Quando essas coisas começarem a acontecer, levantai-vos e erguei a cabeça, porque a vossa libertação esta próxima” (Lc 21, 28).

A exortação feita por Jesus aos seus discípulos enquanto permanecia na cidade de Jerusalém é extremamente significativa. Diz muito aos seus interlocutores da época e muito também a nós que ouviremos está palavra neste final de semana: “levantai-vos e erguei a cabeça” (28); frase emblemática e estimulante. Nós muitas vezes preferimos fazer o contrário. Acredite! Teríamos uma “montanha” de motivos para permanecermos “deitados, paralisados e com nossas cabeças baixas”. Não nos faltam motivações para isso: crise econômica, insegurança social, violência, corrupção política, individualismo crescente e com ele toda a forma de exclusão e divisão sociológica que por incrível que pareça, aliada a intolerância social, começa a ganhar ares de razoabilidade em nossos tempos, enfim, motivos não nos têm faltado para mantermo-nos com nosso corpo paralisado e nossa cabeça baixa, como se estivéssemos envergonhados e acabrunhados.

Mas Jesus insiste: “Levantai-vos e erguei vossa cabeça”!

Neste domingo começamos um novo ciclo litúrgico. O tempo do Advento. O Advento é um tempo da esperança. Na antiguidade clássica o adventurus era marcado pela espera de um importante homem publico que trazia de Roma boas notícias para as pequenas cidades e vilarejos. As pessoas preparavam-se para sua chegada, arrumavam suas casas, ajeitavam  e organizavam suas vidas, dívidas financeiras podiam ser perdoadas e esquecidas, enfim, a vinda tão esperada deste nobre romano significava uma palavra de esperança e por que não de libertação.

Da mesma forma assim se expressa a nossa espera neste tempo do Advento. Esperança semelhante nutrimos neste período, porém ela deixa de ser apenas histórica para ganhar significado teológico. A nossa virtude teologal da Esperança vivida no advento se funda em sua razão de ser. Esperamos a Cristo, e esperamos contra toda a esperança, por isso que neste rico ciclo adventício Jesus exorta-nos contra toda e qualquer desesperança nas realidades que o tempo atual se nos apresenta, a “levantar-se do chão da desolação e erguer a cabeça, pois nossa salvação está mais próxima do que antes” (Lc 21, 28; Rm 13, 11).

Agora Jesus ensina-nos também como devemos estar preparados neste advento: Ensina-nos a como esperar. Indica-nos como devemos “arrumar as coisas”, como faziam os homens na antiguidade. Não pode ser uma espera passiva. Não deve ser uma espera desanimada, está esperança é carregada de mudança. Não devemos nutrir a expectativa já superada dos messianismos políticos e sociológicos que recusam nossa intervenção e participação e acabam jogando toda a responsabilidade da transformação para o alto, como quem joga a sorte e espera que tudo se resolva num passe de mágica. Não, Jesus não nos ensina este método. Ele exorta-nos a como devemos viver este advento: “tomai cuidado para que vossos corações não fiquem insensíveis por causa da gula e da embriaguez e das preocupações da vida e, esse dia cairá como uma armadilha sobre vós” (Lc 21, 34).

 

A primeira forma de espera é uma atitude interior: Uma espera no coração. O coração é o lugar onde sentimos mais latentes as dores do mundo. Tudo passa pelo coração, o amor, o ódio, a esperança, a tristeza, enfim. Nosso coração precisa estar preparado. Ele simboliza de; certa forma a casa que quer acolher o Salvador e por isso, não pode estar interrompida de outras coisas: gulas, bebidas, orgias, dinheiro, não preenche o coração, apenas serve como um paliativo momentâneo contra os vazios internos. Só Ele, acolhido e celebrado, será capaz de nos devolver a paz.

Outra forma de espera é ainda mais ativa e participativa que a primeira: Na epístola paulina aos Tessalonicenses, o apóstolo os exorta a aguardarem a vinda do messias em atitude ativa de santidade: “Que assim ele confirme os vossos corações numa santidade sem defeito aos olhos de Deus, nosso Pai, no dia da vinda de Nosso Senhor Jesus com todos os santos” (1Ts 3, 13).

No final do Evangelho Jesus ensina ainda uma terceira forma de expectativa. A vigilância e oração. Estes dois estados da alma são extremamente interessantes. Pois exigirá de nós que estejamos despertos e acordados de cabeça erguida. Será a oração que manterá sempre nossa cabeça erguida, voltada para o alto, de onde virá o Senhor para nos Salvar!

 

XXXIII Domingo Comum

(XXXIII Domingo Comum)

Dn 12,1-3; Sl 15; Hb 10, 11-18; Mc 13, 24-32.

O Evangelho deste final de semana descreve os sinais que apontam para o final dos tempos: “O sol vai se escurecer, a lua não brilhará mais, e as estrelas começaram a cair do céu e as forças do céu serão abaladas” (Mc 13, 24). Para quem vive dentro de certa estabilidade social, comunitária e eclesial estes sinais apresentados por são Marcos no evangelho serão sempre eventos futuros, que muito provavelmente nossas gerações não venham a conhecer, no entanto para tantas pessoas com quem cruzamos no caminho, estes sinais alarmantes serão sempre muito significativos. Por mais paradoxal que pareça, para algumas pessoas, este futuro já chegou.

Com frequência encontro muita gente que perdeu como o “sol e a lua” o brilho de viver. A vida lugar da esperança, da alegria, da bondade, tornou-se para tantos (a) um peso imenso, uma carga sobre os ombros quase impossível de ser conduzida: para eles este futuro já é agora! Quem têm a oportunidade de ouvir uma pessoa atravessando o “vale sombrio” (Sl 22, 5) da depressão, ou de alguma perda afetiva em sua vida, com certeza lê e entende esta palavra com mais reciprocidade e verdade: Eles podem dizer, (estes) aflitos e bem-aventurados do Reino (Mt 5, 4), esta palavra é também para mim, um dia já a experimentei em minha vida.

 

Obviamente estamos meditando neste final de semana sobre o final dos tempos, tema este que se torna cada vez mais difícil de ser refletido, seja na Teologia, na espiritualidade e claro para tantos presbíteros na pregação da Palavra. Tratamos do tema sempre com muita distância e um pouco de temor. Melhor é sempre falar do “aqui e agora”, no máximo do amanhã, mas de uma realidade assim futura, dos Novíssimos, têm sido sempre um desafio grande para a pastoral da Igreja. Sem nos abstermos de forma alguma das realidades que virão, pode ser interessante olhar para os fatos que ai estão, próximos de todos nós pregadores da Palavra e que em seu drama, já apresentam sinais e aspectos existências semelhantes àqueles anunciados por Jesus no final dos tempos.

Toda aquela pessoa que experimenta uma grande crise na sua vida, todo aquele que viveu uma perda considerável em sua vida, passa a viver interiormente um sentimento ao menos semelhante aos descritos por são Marcos, é também uma sensação de “final de tempos”, ainda que apenas apareça no âmbito pessoal, o mundo a sua volta, o “cosmos” em seu entorno, desmoronou, como as estrelas que começaram a cair do céu e as forças do céu foram abaladas” (Mc 12, 25).

Importante percebermos esta sensação futura já tão próxima de gente que caminha ao nosso lado. Por outro lado para não ficarmos apenas no sentido existencial e interno desta Palavra, a liturgia quer apontar para uma realidade que nosso tempo tende a rejeitar. Existe sim uma transitoriedade nas coisas, existe sim um acabamento na vida, existe sim uma transformação da realidade para algo muito maior…e melhor.

Jesus ao falar do futuro a seus interlocutores, quer com isso libertá-los das expectativas apocalípticas que tinham, acerca de Deus Pai e acerca de si mesmo. Ele mesmo tivera um final trágico, no alto de uma Cruz, cercado por dois ladrões. Cristo mesmo experimenta sua finitude, superando assim as expectativas de um messias poderoso, resolvendo todos os problemas da humanidade em um passo de mágica. Não o Senhor não quis tomar este caminho. Na primeira leitura o profeta Daniel fala positivamente e com esperança sobre as realidades últimas: “ Mas os que tiverem sido sábios brilharão como o firmamento, e os que tiverem ensinados muitos homens os caminhos da virtude brilharam como as estrelas, por toda a eternidade” (Dn 12, 3). O profeta com esperança messiânica devolve à criação o brilho e a luz de outrora para todos que em meio às tribulações, sofrimentos do tempo presente, souberam ensinar homens o caminho da virtude! Eis nossa real esperança! Eis que ainda que passem céus e terra, homens (a) que deixaram sinais de virtude e justiça iram permanecer lá na realidade futura, com brilho jamais visto.

Jesus é sempre o primeiro! Trouxe-nos a luz, ainda que os homens tenham preferido as trevas, mas seu brilho não passou, sua luz venceu a destruição da morte, trazendo-nos nova vida.

Se há relatividade na vida, se há transitoriedade na existência, há também realidades absolutas, e que permaneceram para sempre.

Ter consciência que tudo passa pode ser muito ruim, mas saber que tudo passa, pode ser muito bom também! Aqui neste mundo ainda marcado pelo que é imperfeito, incompleto, finito, carente, injusto, estamos todos os dias esperando que com nossa vida, se abra de par em par, a porta para a eternidade. É lá enfim que nos reconheceremos, reconheceremos os outros, os sofridos desta história e claro veremos a Ele face a face. Até lá, muita luta, esperança e certeza de que nada é definitivo, só Deus não muda!

Festa de todos os santos

Festa de todos os santos

( Ap 7, 2-4.9-14; Sl 23; 1Jo 3, 1-3; Mt 5, 1-12)

Neste final de semana celebramos a solenidade de todos os santos na Igreja. É sempre desafiador refletirmos sobre a santidade, pois ocorre podermos idealizá-la por demais e tornar esta vocação algo inatingível, ou, desconsiderá-la ou subtraí-la a um estado de vida que não diz mais respeito ao homem de nosso tempo, não mais inserindo-a como um projeto pessoal e eclesial de vida cristã.

Pelo contrário a liturgia desta solenidade apresenta a santidade como algo humanamente possível e atingível. Obviamente que isto não quer dizer que buscá-la ou desejá-la no profundo seja algo que se possa conquistar com poucos esforços, renúncias e sem testemunho. Não, a tradição da Igreja sempre transmitiu ricos testemunhos, permeados de fidelidade, lutas, grandes renúncias, perseguições, contradições e até mesmo por uma série de incompreensões da parte dos próprios companheiros de caminhada cristã.

O santo é alguém tirado do meio do povo de Deus. Não existe uma pequena “elite” espiritual apta à santidade de vida e uma grande massa cristã relegada a mediocridade do espírito, não, a vida beata, é um caminho aberto a todos os fiéis batizados: A Constituição Dogmática Lumen Gentium do Con. Vat. II, afirmou que a santidade é uma vocação universal de todos os cristãos: “ensinando que todos os cristãos são chamados à plenitude de vida cristã e à perfeição da caridade” (LG 40).

As três leituras da liturgia deste domingo nos apresentam a santidade como um processo, um caminho, um itinerário espiritual que os católicos estão convidados a fazer, não sem incorrer em perigos, provações e tentações. A santidade de vida é uma vitória da Graça divina em colaboração com a natureza humana. Graça e natureza, liberdade e vontade, não travam entre si uma batalha inglória. Na realidade são expressões complementares que procuram integrar-se, comunicar-se ainda que dialéticas, a partir do dom da Graça Divina. A primeira leitura tirada do livro do Apocalipse de são João, apresenta a grande visão futura do apóstolo. Nela ele vê uma grande número de pessoas 144.000 de todas as tribos de Israel. É o simbolismo das 12 tribos antigas, unidas aos 12 apóstolos de Cristo em um número assim exorbitante significando uma realidade incontável de gentes: “Depois disso, vi uma multidão imensa de gente de todas as nações, tribos, raças e línguas, que ninguém podia contar. Estavam em pé diante do Cordeiro, trajavam, vestes brancas e palmas nas mãos” (Ap 7, 4-9). A visão é reveladora a nós de quem são então estes santos:  uma imensa multidão de todas as raças, línguas e nações. Os santos são gente, isto é, gente como a gente. Não são definidos por pátria ou circunscritos a determinada língua. Não, é gente de todas as nações e falas. Diogneto a famosa apologia do segundo século, narra também a presença determinante dos cristãos em um determinado território, ainda por nós desconhecidos dizendo:

“Os cristãos, de fato, não se distinguem dos outros homens, nem por sua terra, nem por sua língua ou costumes. Com efeito, não moram em cidades próprias, nem falam língua estranha, nem têm algum modo especial de viver. Sua doutrina não foi inventada por eles, graças ao talento e a especulação de homens curiosos, nem professam, como outros, algum ensinamento humano. Pelo contrário, vivendo em casas gregas e bárbaras, conforme a sorte de cada um, e adaptando-se aos costumes do lugar quanto à roupa, ao alimento e ao resto, testemunham um modo de vida admirável e, sem dúvida, paradoxal. Vivem na sua pátria, mas como forasteiros; participam de tudo como cristãos e suportam tudo como estrangeiros. Toda pátria estrangeira é pátria deles, a cada pátria é estrangeira. Casam-se como todos e

geram filhos, mas não abandonam os recém-nascidos. Põe a mesa em comum, mas não o leito; estão na carne, mas não vivem segundo a carne; moram na terra, mas têm sua cidadania no céu” (Diogneto, V).

A segunda leitura de nossa liturgia ajuda-nos ainda mais na compreensão do mistério da santidade, pois fala-nos de sua realidade dialética, isto é, daquilo que já somos e já conquistamos, sem esquecer aquilo que ainda devemos nos tornar. A santidade gera está tensão no fiel. É uma realidade incômoda, instigante, avessa a comodismos e zonas de conforto. São João fala-nos: “caríssimos, vede que grande presente de amor o Pai nos deu: sermos chamados filhos de Deus (…) Caríssimos desde já somos filhos de Deus, mas nem sequer se manifestou! Sabemos que quando se manifestar seremos semelhantes a Ele” (1 Jo 3, 2). Tornamo-nos semelhantes a Ele, é possível não por nossos méritos, mas pelo auxílio da graça divina. Há muito de nossa colaboração, nossa adesão, nossa vontade, mas só será possível se: “todo aquele que espera nele purifica-se a si mesmo, como também ele é puro” (1 Jo 3, 3).

Por fim o Evangelho complementa a liturgia da solenidade deste final de semana. As bem Aventuranças serão sempre um itinerário aberto para ser seguido por cada cristão. Aqueles que conseguem aventurar-se em suas propostas, passam a construir uma casa que se edifica sobre a rocha de Cristo. As bem Aventuranças são o próprio Cristo, se cumprem todas Nele, pois é Ele o verdadeiro Bem-Aventurado. Mas a força das Bem- Aventuranças alcançam todo e o singular ser humano, pois são convites humanizadores por excelência. O santo é alguém tirado do meio de seu povo, é gente como a gente, mas é sobretudo um “humano”, alguém que com sua vida assemelha-se àquele que revela o homem ao homem (RH). A santidade é a humanização na história. Todos os santos que a Igreja reconheceu, foram humanizadores de outros. Atraíram a tantos por que sua vida era uma expressão dos valores sagrados presente no sermão da Montanha. Da simplicidade, da pobreza e da pureza, da mansidão e da perseguição, da paz em meio as aflições.

Peçamos ao Senhor que não esqueçamos de trilhar o incomodo mas necessário caminho da vida beata!.

“ Sem medo de insistir diante de Deus”!

XXX Domingo do tempo comum

(Jr 30, 7-9; Hb 5, 1-6; Mc 10, 46-52)

Jesus e seus discípulos continuam seu itinerário em direção à Jerusalém. Antes, no entanto, passam por Jericó, distante pouco mais de 27 km da capital Israelita. O destino final, o lugar teológico por excelência será Jerusalém, mas até sua chegada, Jesus não fechará os seus olhos para situações humanas de desespero, angustia, marginalização e exclusão. No coração e na missão do Senhor, a parte, a singularidade o indivíduo é tão importante quanto a totalidade. É uma dialética ainda difícil de compreendermos, um método evangelizador profundamente humanizador, que por vezes, esquecemos de repeti-lo. Em Cristo, uma singela obra de misericórdia como por exemplo, visitar os enfermos, é tão importante quanto, grandes projetos de evangelização.

 

Imediatamente antes da entrada triunfal em Jerusalém e de sua paixão. Marcos narra o episódio desconcertante da cura de um cego em Jericó: “Jesus saiu de Jericó junto com seus discípulos e uma grande multidão. O filho de Bartimeu, cego e mendigo, estava a beira do caminho” (Mc 10, 46). Há um contraste que impressiona nesta passagem: Em primeiro lugar a grande imagem, o triunfo da missão na narrativa de Marcos: Jesus, os discípulos e uma grande multidão. Após seu contrário: Bartimeu, cego, mendigo e sentado a beira do caminho. Bartimeu é um inominado. Sabe-se apenas que é filho de um certo Timeo, certamente de origem grega, portanto já fora do contexto palestino, ainda por cima é um cego, um mendigo e alguém que está ai “a beira do caminho”. Quem seria ele para interromper o destino de Jesus, seus discípulos e as multidões? Ele é apenas um detalhe para os discípulos por exemplo: “Muitos o repreendiam para que se calasse. Mas ele gritava ainda mais: “Filho de Davi, tem piedade de mim” (Mc 10, 48). Há muita gente semelhante a Bartimeu sentada também a beira de nossos caminhos. Há muitos Bartimeus sentados a frente de nossas Igrejas, de nossos clubes sociais, de nossos cinemas, teatros e restaurantes, que foram se tornando invisíveis para nós. Os Bartimeus incomodam muito…gritam com força, tentamos como os discípulos e as multidões impedi-los, pois pensamos que estão atrapalhando o “caminho da Igreja”, mas não estão não. Jesus Nosso Senhor neste final de semana quer nos ensinar que a Evangelização é feita de bons projetos pastorais, pensados, rezados, discutidos, inspirados, mas também é feita de realidades imponderáveis do imprevisto, das surpresas de Deus e de suas oportunidades. Jesus sempre soube aproveitá-las muito bem.

O clamor de Bartimeu fez com que Jesus, parasse e o chamasse: “Eles o chamaram e disseram: coragem, levanta-te, Jesus te chama” (Mc 10, 50). Esta mudança dos planos, este envio despretensioso que Jesus dá a seus discípulos revela um outro ensinamento evangelizador. Para Jesus, nenhuma situação, nenhum sofrimento humano, ninguém que esteja a margem pode ser desprezado ou esquecido do Reino. Se o mundo os despreza, porque eles, os bartimeus de nosso tempo, nada podem oferecer, a misericórdia do Senhor as acolhe.

A segunda leitura nos ajuda a compreender por que Jesus realiza estes gestos tão desconcertantes. A epístola aos Hebreus faz uma leitura cristã do sacerdócio veterotestamentário. Descreve traços que lembram o apogeu da liturgia sacerdotal, a exuberância, os ritos, a beleza do culto de outrora. É como se o desconhecido autor, tivesse uma grande nostalgia dos tempos do culto sacerdotal do AT. Porém não esquece de pontuar alguns traços deste sumo sacerdote, que é Cristo, com nuances misericordiosos, humanos, existenciais e de compaixão: “todo sumo sacerdote é tirado do meio dos homens e instituído em favor dos homens, nas coisas que se referem a Deus, para oferecer dons e sacrifícios pelos pecados. Sabe ter compaixão dos que estão na ignorância e no erro, porque ele mesmo está cercado de fraqueza” (Hb 5, 1-2).

Fora este sentimento, esta compaixão que fez com que Jesus parasse, ouvisse e se compadecesse da dor e do sofrimento de Bartimeu e lhe fizesse a importante pergunta: “ O que quer que eu te faça?” (Mc 10, 51). Na pergunta de Jesus, não pensem estar contida uma tentação constante presente na vida espiritual, de que Deus deve estar disponível a atender todos os nossos pedidos e necessidades, como se Ele é quem tivesse o dever de fazer nossa vontade e não o contrário. Não existe aqui nenhuma subserviência divina em relação ao homem. É presente sim a sua infinita misericórdia. Está manifesta diante das nossas mais secretas e inconscientes necessidades. Na pergunta de Cristo está presente, o “Deus que vê o que está oculto”, até mesmo as realidades mais difíceis de serem vistas por nós mesmos. Muito mais do que um Deus subserviente, Jesus revelou na cura de Bartimeu um Deus rico em misericórdia, pronto a tocar e sanar nossas misérias e pecados.

 

“Deixar tudo e seguir, deixar tudo para receber, o paradoxo da fé”

XXVIII Domingo comum

(Sab 7, 7-11; Hb 4, 12-13; Mc 10, 17-30)

O binômio que o evangelho deste domingo apresenta é tirado da fala dramática feita por Pedro a Jesus: “ E nós que deixamos tudo e te seguimos” e da resposta dada por Cristo: “ em verdade vos digo quem tiver deixado tudo (…) receberá cem vezes mais agora, durante esta vida” (29).

Tocamos nesta liturgia o paradoxo central da fé cristã que imposto a todos os candidatos a seu discipulado: “se alguém quer vir após mim, tome sua cruz, renuncie a si mesmo e depois me siga, pois que quer, pois quem quiser salvar a sua vida, perdela-á, mas quem perder sua vida por amor de mim e do evangelho esse a salvará” (Mc 8, 35).

 

No evangelho proposto para este domingo iremos nos deparar com um problema que muitas vezes  se tornou obstáculo para o discipulado e que ainda hoje, continua a bater as portas do nosso coração, nos desacomodando, questionando-nos e nos tirando das zonas de conforto que às vezes, nos encontramos nos obrigando a “remar” para regiões de insegurança existencial e espiritual por vezes tão necessária para um avanço na direção de Cristo. Teremos de enfrentar a tão sofrida renuncia dos bens e o tão libertador desapego dos mesmos.

O episódio desta liturgia do homem rico acabou por provocar apreensão aos discípulos de Jesus: “e nós que deixamos tudo para te seguir” (28). Ele continua causando inquietação também em muitos nos tempos atuais, até por que toca em algo muito significativo para todos nós: nos bens, na segurança temporal que a posse dos bens pode nos conceder e na mesma medida no seu contrário: no desapego, na pobreza e na liberdade existencial que esta pode oferecer com todas as inseguranças dela advinda.

O relato é bem conhecido de todos nós: “quando Jesus saiu a caminhar, veio alguém correndo, ajoelhou-se diante dele e perguntou:”Bom mestre que devo fazer para possuir a vida eterna ?” (Mc 10, 17). Jesus em sua resposta recordou que para isso era preciso obedecer os mandamentos: “não matarás, não cometerás adultério, não roubarás, não levantarás falso testemunho (…)” (19). Enfim Jesus lhe oferece o caminho ordinário, a observância da lei. E todas estas coisas o homem já observava desde sua juventude. Isso demonstra um pouco da índole deste homem. Revela que era um piedoso, um bom judeu! Nós temos também em nossas comunidades pessoas assim. Gente que procura viver e obedecer a “lei” com austera integridade, capaz de grandes sacrifícios, muitas vezes podendo cair no exagero de certos rigorismos eclesiásticos e passam a exigir um catolicísmo tão “alto e ideal” que somente pequenos e seletos grupos conseguirão seguir.

No entanto Jesus percebeu que aquele homem era chamado a realidades maiores, mais altas, de maior entrega e lhe faz a grande proposta: “Jesus olhou para ele com amor e disse: Só uma coisa te falta: vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres, e terás um tesouro no céu. Depois vem e segue-me” (Mc 10, 21).

A conclusão foi que aquele piedoso homem foi embora triste e abatido, porque era muito rico! Chegou cheio de entusiasmo, e retornou a sua casa triste e abatido. O apego a seus bens da terra, não o permitiu a descoberta dos bens do céu. Preferiu a alegria do passageiro à felicidade do que é eterno. Para além de qualquer juízo moral que queiramos dar a interpretação desta passagem bíblica, sua hermenêutica será sempre atual. Há muita gente semelhante a este misterioso homem do evangelho. Por que para muitos, a renúncia dos bens é algo extremamente exigente. Para leigos, para religiosos (a), para sacerdotes, enfim, a segurança e o bem estar que uma vida economicamente alta pode gerar é algo que toca o fundo de todos nós. Todos queremos ter, possuir, poder gastar, viver bem….

No diálogo, Jesus com amor lhe disse: “uma coisa só te falta” (21). Sempre faltará uma coisa. Nunca seremos totalmente plenos. Sempre haverá um espaço dentro de nós que nem mesmo o dinheiro e o poder poderão suprir. Há no homem um lugar no mais profundo de seu íntimo, em nossa maior intimidade que será o lugar onde Deus depositará todas as suas riquezas e nada nem ninguém poderá preenchê-la.

O livro da Sabedoria expressa magnificamente esta realidade. Comparando a sabedoria divina ao mais alto tesouro: “Preferi a sabedoria aos cetros e tronos, em comparação com ela, julguei sem valor a riqueza, a ela não igualei nenhuma pedra preciosa, pois a seu lado todo ouro do mundo é um punhado de areia e diante dela, a prata será como a lama” (Sb 7, 8-9). O homem não entendeu e abatido foi embora. Pedro e seus discípulos ficaram espantados e assustados com a tão alta exigência do seguimento e questionou a Cristo: “E nós que deixamos tudo e te seguimos” (Mc 10, 28). Em outras palavras o que será de nós? Que sorte nos aguarda? Que segurança teremos? Que recompensa haveremos de ter? As questões petrinas são as nossas inquietações também! No entanto Pedro é aquele que “deixou tudo”; aquele que não possui mais nada e por nada é possuído. Ele se torna assim protótipo do discípulo de Cristo. Aquele que tudo deixou pelo Reino, já é aquele que tudo recebeu e na vida eterna receberá cem vezes mais.

Este é o caminho exigente que todos estamos fazendo. Por vezes vamos nos acomodando, então é preciso que Jesus Cristo nos diga: “uma coisa só te falta”. Todos sabemos qual o lugar espiritual onde nosso sapato aperta. O que precisamos ir deixando por este caminho. Ter muitas coisas, ser apegado a muitas coisas na lógica do evangelho é sinônimo de tristeza e abatimento, não ter nada é bem aventurança: “ Felizes os pobres em espírito porque deles é o Reino dos céus” (Mt 5, 3)

Ajudar os irmãos a crescer e não tornar-se obstáculo.

XXVI DOMINGO COMUM

(Nm 11, 25-29; Tg 5, 1-6; Mc 9, 38-43.47-48)

Apesar de viver-se em um contexto onde a permissividade moral contamina tantos ambientes sociais, o tema referencial da Palavra de Deus neste final de semana recorda-nos a sábia exortação de são Paulo aos Coríntios onde “tudo me é permitido, porém nem tudo me convém” (1Cor 1,12). Em uma sociedade carente e em certo sentido frágil no redescobrir valores morais, a contribuição paulina torna-se muito propícia.

A primeira realidade que segundo a liturgia deste final de semana não nos parece passível de toda e qualquer forma de permissividade é a sempre e atual tentação de monopolizar e manipular a Deus, segundo os próprios interesseiros. Se difunde por todos os lados: eclesiais, ambientes religiosos, meios de comunicação e redes sociais, um certo monopólio da experiência de Deus. Há em nossos dias como houvera já na antiguidade cristã um tal número de “super-apóstolos”, católicos e também nos seguimentos evangélicos plenos dos dons da Palavra e dos milagres, “bem mais nutridos que outros” que afirmam com sua prática uma forma de evangelização na qual estes “mega-pregadores” tem sobre si todo o poder e monopólio da fé, como se dissessem as grandes massas que os seguem: Se queres ser curado de teus sofrimentos?; Se queres experimentar o poder de Deus? Se queres ser feliz?, venha à minha Igreja ou quando pertencentes a fé católica: venha à minha paróquia somente lá esta a cura e salvação.

A fé cristã tão próxima dos mais altos valores, dos mais humildes e nobres gestos, por vezes também sofre o “assalto” da tenção tão atual entre o público e o privado. Manipular a experiência de fé, monopolizar a vida espiritual, determinar o espaço onde Deus se revelará, tem sido uma tentação constante no cristianismo. Quando e como iremos superá-la? Talvez caminhando, seguindo e revisando de tempos em tempos nossa experiência cristã, para não incorrermos nesta forma de permissividade moral que se apresenta na tentativa de manipular a Deus.

 

No evangelho de hoje, no caminho em direção à Jerusalém, Jesus vai desenvolvendo uma catequese  com seus discípulos toda ela pontuada sobre o mistério do Filho do homem, que realiza seu plano de amor salvífico passando pelo sofrimento e desconstruindo uma perspectiva messiânica inerente aos discípulos toda ela em chave do poder. Hoje mais um episódio se revela. João quer objetar alguns discípulos que realizavam exorcismos em nome de Cristo, mas não eram do grupo dos doze! Para João e para muitos pregadores e presbíteros atuais, a salvação e a possibilidade do bem era monopólio de uma só classe de eleitos ou de especialistas. No entanto, o Senhor Jesus diante desta interpelação do discípulo, que ainda concebe a salvação como domínio e privilégio, responde celebrando a liberdade e a gratuidade de Deus: “não o proibais, pois ninguém faz milagres em meu nome para depois falar mal de mim. Quem não é contra nós é a nosso favor” (Mc 9, 40).

Há muita gente fazendo o bem por ai, e que não são dos nossos. Talvez a repulsa de João àqueles misteriosos exorcistas era somente a percepção de algo que estava faltando na sua própria vida. Por vezes falta-nos fazer apenas o bem, sermos bons, termos atitudes mais humanas. Jesus sapiencialmente resolve a inquietude teológica do “discípulo amado”, com um simples gesto de bondade: “Em verdade vos digo, quem vos der a beber um copo de água por que sois de Cristo, não ficará sem receber sua recompensa” ( Mc 9, 41-42). Jesus quer mostrar a seus discípulos, que  enquanto caminham com Ele, enquanto estão sendo ensinados, que para ser um bom cristão, não necessariamente você precise estar alinhado a este ou aquele grupo de militância católica, progressista ou tradicionalista, de movimentos ou pastorais, todas estas coisas podem auxiliá-lo em muito, mas se começamos a “deificá-las”, a sobrepô-las ao exercício do amor ao próximo, do serviço, da gratuidade, iram se tornar, logo “pedras de tropeço”.

A segunda parte de nosso evangelho falará de uma outra forma de permissividade moral: o escândalo em relação aos pequeninos. Na vida da Igreja sabemos o quanto os escândalos ferem o corpo de Cristo. Como têm sido difícil para nós católicos convivermos com notícias envolvendo nossos pastores nas tramas de moral sexual, da pedofilia, dos abusos descuidados com o dinheiro, Todas estas coisas deixam chagas e cicatrizes enormes e doloridas no Corpo de Cristo e o que é ainda pior nos menores. Jesus se utiliza de uma metáfora pedagógica judaica para abrir os olhos dos discípulos sobre o perigo de escandalizar a outrem: Na tradição antiga os pequenos precisavam para crescer do auxílio e do “modelo” dos mais experientes: Eles eram como suas mãos que o conduziam, seus pés que os ajudavam a caminhar, a enfrentar os desafios dos estudos e da vida e seus olhos, que iluminavam suas estradas. A imagem é belíssima. E fala realmente do ofício do bom pastor, que toma as ovelhas pela mão, caminha a sua frente às defende de todos os perigos.

E Nosso Senhor está dizendo hoje a sua Igreja, principalmente a seus pastores, sejam estas mãos, estes pés e janelas da alma para os seus rebanhos, e não sejam permissivos, promíscuos, abusivos, mas capazes de simples e nobres gestos como o de dar um copo de água a quem tem sede!

Santa Tereza de Calcutá, disse certa vez que as vezes sentia no fundo de sua alma uma grande escuridão da fé. Um vazio abissal que a fez por várias vezes questionar o amor de Deus por ela. No entanto, sabia também que somente uma atitude de amor, um gesto de amor era preciso para as pessoas que encontrava, quase sempre os mais pequeninos e empobrecidos: ela oferecia o seu lindo,  e genuíno sorriso. Era este seu copo de água!!

Qual é hoje o nosso? Peçamos a nosso Senhor que ajude-nos a cortar males em sua raiz e a evitar que tornemo-nos pedras de tropeço a nossos irmãozinhos.