A Cruz, a força atuante dos pacíficos.

XXIV Domingo Comum

Estamos atravessando em nosso país e no mundo um tribulado período de crises, marcada por intolerâncias, polarizações políticas, religiosas e sociais, que passam a questionar os antigos valores construídos por tempos da ética, do respeito ao próximo e as mais singulares diferenças. Todo este ambiente de intolerância e intransigência social que passamos, revela sim um grande cansaço e desconfiança de parte da população nas instituições históricas e em valores que a pouco mais de 20 anos ainda eram muito estimados e seguidos na cultura e sociedade ocidental. A gente sente e percebe que os princípios que o humanismo relegou, como a capacidade de gerir conflitos a partir do diálogo e não a partir de atitudes bélicas; do consenso, do respeito ao próximo e não da “queda de braço virtual”, estão aos poucos desaparecendo de nossos ambientes sociais, comunitários e até mesmo eclesiais, sendo substituídos por uma mentalidade altamente pragmática, revanchista e carente de visão maior histórica e moral.

Vale a pena neste contexto deixar que a Palavra de Deus ilumine estes tempos de “sombras” que estamos imersos. Vale muito a pena abrir nossos ouvidos para o discurso da montanha onde Jesus diz: “Bem-aventurados os pacificadores, pois serão chamados Filhos de Deus”. Obviamente que a teologia nos diz que a condição “sine qua non” para sermos filhos do Pai do céu é o batismo. Esta é a via sacramental e ontológica, mas como existem aqueles filhos adotivos que de tão amados, são chamados de “filhos do coração”, existe para além da filiação sacramental, uma outra, existencial e espiritual, onde a mesma bem-aventurança, impõe-nos a seguinte exigência: ser filho do Pai do céu = ser construtor da paz. Nestes difíceis dias que estamos atravessando, construir a paz, além de ser um caminho de santidade, torna-se também via de equilíbrio e tolerância social.

Neste final de semana a liturgia quer recuperar nossa memória para a força que existe nas atitudes de pacifícismo. Estamos já, tão ambientados aos conflitos, às discussões acirradas de visões distintas de mundo, que pensamos poder levar para dentro do espaço eclesial, este mesmo modus vivendi de reação.

Na primeira leitura Isaías nos apresenta uma imagem muito significativa: é a descrição de um servo de Deus, que tornou-se para a Igreja primitiva “figura do Cristo sofredor”. Isaías o descreve com predicados que, com certeza, não são nem de longe, de fácil assimilação no atual contexto: “O Senhor abriu-me os ouvidos; não lhe resisti nem voltei atrás. Ofereci as costas para me baterem e as faces para me arrancarem a barba. Não desviei o rosto de bofetões e cusparadas” (Is 50, 5-7). O servo de  Isaías, aceita o sofrimento, a humilhação, como um oferecimento, sem revanches e nem vinganças. A aventura da construção da paz, é capaz de superar até o mais humilhante sofrimento e rejeição.

O evangelho deste domingo, com certeza, nos fará compreender o paradoxo proposto pelo profeta Isaías. É o início da segunda parte de são Marcos. Agora já sem a variedade de milagres e prodígios, mas com o objetivo maior de formar e “ensinar” os seus discípulos. No caminho de Jerusalém, caminho da cruz, Ele explica o sentido de seu próprio destino e de sua identidade. Em Cristo missão e identidade se fundam. Ao questionar os discípulos sobre quem era verdadeiramente. Pedro responde: “Tu és o Messias, proibiu-lhes com severidade a falarem a seu respeito e logo começou a ensiná-los” (Mc 8, 31). Primeiro uma severa proibição acerca da messianidade de Cristo. Certamente evitando criar no imaginário de seus discípulos uma expectativa errônea sobre sua messianidade: evitar que Pedro e seus irmãos, viessem a interpretar o seu messianismo em chave eminentemente gloriosa e política: lembremos o servo de Isaías! Menos prodígios, milagres e glória e mais ensino. Jesus começa a fazer com os seus uma catequese sobre sua messianidade e identidade: E esta, passa também misteriosamente por um livre oferecimento ao mistério do sofrimento. Ele que havia sido enviado para nos livrar da morte, das garras do pecado e de todo mal, agora impotente sucumbe ao próprio poder que viera destruir. É o grande paradoxo de seu messianismo, que não está fundado na ideia de um Deus que resolverá todos os problemas do mundo e também todos os nossos problemas.

A continuação do Evangelho afirma que o próprio Pedro esperava uma outra coisa de Cristo que tanto amava: “  Em seguida começou a ensiná-los, dizendo que o Filho do homem devia sofrer e ser rejeitado da parte dos sacerdotes e doutores da lei; devia ser morto e ressuscitar ao terceiro dia. E dizia isso abertamente. Então Pedro tomou Jesus a parte e começou a repreendê-lo” (Mc 8, 31-33). Marcos sabiamente ao unir o anúncio messiânico aos anúncios da paixão, une o mistério da filiação divina ao mistério da cruz. É como um acabamento de uma obra, como o resultado de uma equação. Não basta apenas dizer: tu és o Cristo. Se faz necessário abraçar este Cristo. E Ele não escondeu o segredo de sua identidade, dizia abertamente aos seus de sua eminente paixão, que devia sofrer, ser rejeitado, ser morto, de fato as condições que este seguimento oferece, são muito exigentes. Pedro quer um messias, poderoso e não admite num primeiro momento, sua antagônica impotência.

São Pedro, não deixa de ser uma auto-imagem de todos nós. Era melhor que reagisse, mais do que isso, que o Pai dos céus intervisse, no entanto, Jesus pacificamente, aceita salvar-nos de outra forma, muito mais plena e perfeita. Reagindo, usando de força bruta, pegando em armas como um alucinado líder político, apenas atacaria as consequências de todo o mal, mas não o mal, o  pecado e a injustiça. No entanto, no alto da cruz, Ele eliminará o mal na sua raiz: “ Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e me siga” (Mc 8, 34). E mais ainda: “ Quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la, mas quem perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho, vai salvá-la” (Mc 8, 35).

Todos nós, todos os homens querem alguma forma de salvação. Queremos ser salvos de nossas contas, queremos ser salvos de nossas doenças, queremos ser salvos de nossas tribulações, queremos ser salvos do inferno. A ideia soteriológica é intrínseca no ser-humano. Em ateus, agnósticos e crentes! Nós na verdade não queremos mais nenhum sofrimento, nenhuma dor. Aqui reside o dilema humano e por ventura a Graça divina. Jesus optou não por si, mas por nós. Se tivesse optado por si, a história seria outra e Pedro teria razão. Mas não. O amor foi quem venceu e o amor na Cruz acolhida e oferecida livremente jogou todo o mal no abismo!

Isto mudará também o mundo. Em primeiro lugar, o mundo de nossas relações fraternas e eclesiais: o amor e o perdão!!

Aprendamos neste final de semana está obra da fé que fala são Tiago na segunda leitura: “se não se traduz em obras, por si só a fé esta morta” (Tg 2, 17). A fé é crer, a obra é amar!!!

 

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“Nenhuma coisa é pura ou impura em si mesma, o desafio de transformar as sujeiras dentro de nós em pureza”!!

XXII Domingo do tempo comum

Neste domingo a liturgia retoma o evangelho de são Marcos nas celebrações eucarísticas. Após algumas semanas de meditação em torno do discurso sobre o pão da vida presente em são João, voltamos para o evangelho de são Marcos, o texto mais primitivo e sintético dos evangelhos. Nós poderíamos delimitar a temática da liturgia de hoje a partir das seguintes perguntas: Como pode-se viver a fé cristã com mais autenticidade? O que poderíamos fazer para expressar nossa fé em Cristo indo mais a essência das coisas e relativizando algum de seus pormenores?

 

São Tiago na segunda leitura exorta seus interlocutores a acolhida da fé com, humildade e verdade: “recebei com humildade a Palavra que em vós é implantada (…) Todavia sede praticantes da Palavra e não meros ouvintes, enganando-vos a vós mesmos” (Tg 1,21-22) e por consequência  propõe a seus ouvintes uma religiosidade que una fé e vida, escuta e prática desta Palavra: “com efeito a religião pura e sem mancha diante de Deus Pai é esta: assistir os órfãos e viúvas em suas tribulações e não se deixar contaminar pelo mundo” ( Tg 1, 27).

Aqui a partir de são Tiago, começamos a tocar no centro da mensagem deste final de semana. Começamos a responder às perguntas propostas na introdução de nossa meditação. Como ser um autêntico cristão? Como ir ao que realmente interessa e é capaz de transformar nossas vidas e ser testemunho para nossos irmãos?

Jesus Cristo no evangelho deste final de semana nos auxilia em muito à nossa reflexão: Dirigindo-se aos fariseus e alguns doutores da lei diz: “este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim” (Mc 7, 6). São palavras densas e fortes estas dirigidas por Jesus a estes líderes judaicos. Em outras palavras, o que Jesus está falando poderia ser dito também da seguinte maneira: o que eles estão exigindo de vocês, nem eles são capazes de viver!! Infelizmente esta incoerência entre fé e vida, escuta e prática da Palavra é ainda atualíssimo em nossos dias. Estamos sempre correndo o risco de colocar pesados fardos morais, ou espirituais no ombro de outros, quando nós mesmos não somos sequer capazes de carregá-los. Muitas vezes projetamos nossas derrotas e fracassos na vida espiritual nos outros, exigindo que nossos irmãos vivam uma “perfeição e pureza de fé” que há muito deixamos de vivê-la: É nestes momentos que é sempre aconselhável uma escuta atenta daquela Palavra do Senhor que nos resgata e redimi dos falsos moralismos: “tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim que sou manso e humilde de coração” (Mt 11, 29).

 

O evangelho deste domingo aborda uma tema importantíssimo para o contexto bíblico e muito mais ainda em nossos dias. O divergente tema da “pureza”. Este é de uma riqueza histórica impressionante, a ponto de estar entre as bem-aventuranças: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt 5, 8). Isto significa afirmar que um caminho de “pureza” é realmente possível e não só, como ele é um caminho de visão de Deus. Tal afirmação se une a grande tradição sapiencial bíblica, pela qual o autor sagrado do livro dos salmos questionava-se: “ Senhor quem morará em vossa casa e no vosso santo monte habitará? É aquele que têm as mãos limpas e o coração puro” (Sl 24, 3).

No entanto, os fariseus e escribas ficaram “escandalizados”, com o comportamento dos discípulos de Jesus, por que estes não lavavam as mãos antes das refeições, permanecendo assim, no olhar farisaico, com as mãos impuras… Parece que estes interlocutores de Jesus, haviam esquecido, que não basta apenas a ablução de mãos, para estar puro. O salmista recorda também a necessidade de ter um coração puro! ‘lavar apenas as mãos pode ser indício de profunda observância da Lei, mas também de mero formalismo desinteressado’.

Para Jesus não bastava apenas as “mãos” era preciso ir mais fundo. É muito fácil transformar um gesto de higiene pessoal e um rito, para parecer estar “ok” diante de Deus: “Bem se fiz isto, se observei este rito, estou purificado inteiramente diante de Deus e de meus irmãos.”  Ao mesmo tempo sabemos que lavar as mãos pode significar muitas outras coisas: Pilatos lavou suas mãos diante do justo Jesus. Políticos e mais políticos, lavam as mãos, diante de tantas corrupções, às vezes até mesmo padres, religiosos, leigos cristãos, perdem a oportunidade de tornarem-se “sal da terra e luz do mundo”, diante de injustiças, pecados sociais, desconsideração pela dignidade humana, e em vez de assumirem as causas profundas dos homens de nosso tempo, também acabam “lavando as suas mãos”, mantendo uma aparência “límpida”, enquanto por dentro não ha grandes transformações.

 

A liturgia da Palavra deste domingo nos ajuda a recuperar a importância do lugar da pureza em nossa vida. É o caminho da visão de Deus, está la nas bem-aventuranças! Mas Jesus Cristo nos quer fazer compreender que para tornarmo-nos puros, não basta apenas delimitar limites, como se esta virtude evangélica, fosse meramente espacial: aqui deste lado os puros e as coisas puras, os bons católicos observantes de todas as normativas canônicas, e do lado de lá, os impuros e as realidades que contaminam. Jesus supera está dicotomia em primeiro lugar aproximando-se dos impuros: pobres, enfermos, pecadores, publicanos, etc, elevando-os ao estado original e mais, sentencia o formalismo excludente dos escribas e fariseus com a belíssima e revolucionária afirmação: “ escutai todos e compreendei: o que torna o homem impuro, não é o que entra nele vindo de fora, mas o que sai do seu interior. Pois é de dentro do coração do humano que saem as más intenções, imoralidades, roubos, assassínios, adultérios, ambições desmedidas, fraudes, devassidão e inveja (…)” ( Mc 7,23).

Toda esta sujeira, este lixo que a gente vai acumulando durante nossa sincera busca diante de Deus, precisa ser transformado, assim como fazem talvez estas cooperativas que do lixo, fazem obras de arte,  meios de vida digno para tanta gente. Nossa purificação passa por esta transformação também. Só o fogo purifica! A água limpa por fora, na epiderme, na superfície. Somente uma conversão sincera à vontade de Deus é capaz de reciclar sujeiras dentre de nós em obras novas!!!

A quem iremos servir?

XXI Domingo Comum

( Js 24, 1-2a; .15-17; Ef 5, 21-32; Jo 6, 60-69)

A oração da coleta deste XXI domingo comum diz assim: “(…) dai ao vosso povo amar o que ordenais e esperar o que prometeis, para que na instabilidade deste mundo, fixemos nossos corações onde se encontram as verdadeiras alegrias” (Coleta XXI domingo comum).

É presente nesta oração inicial de nossa Eucaristia o pedido da graça: conceder ao vosso povo, amar e esperar suas promessas, mesmo que vivamos na instabilidade do mundo. No Evangelho de João, conclusão do discurso do pão da vida, os discípulos a serem interpelados por Cristo sobre a continuidade ou a perseverança em seu seguimento, ouvem a decisiva resposta petrina que diz: “a quem iremos Senhor? Tu tens palavras de vida eterna” (Jo 6, 68).

O seguimento de Cristo por vezes nos coloca diante de autênticas opções da vida. Diante de decisões e definições de caminho. Ante a “instabilidade deste mundo”, é preciso renovar nossa adesão a Ele, e manter nossos olhos fixos no Senhor em suas promessas.

A primeira leitura tirada do livro de Josué reafirma as mesmas necessidades consequentes do seguimento. Josué, o sucessor de Moisés, reunido em Siquém com todas as tribos de Israel e também suas autoridades: anciãos, chefes, os juízes, e os magistrados, propõe-lhes também uma decisão: “Se vos parece mal servir ao Senhor, escolhei hoje a quem quereis servir se aos deuses a quem vossos pais serviram na Mesopotâmia (…) Quanto a mim e à minha família, nós serviremos ao Senhor” (Js 24, 15). A palavra “servir” possui neste texto uma grande importância. Esta ligada a escravidão que os hebreus sofreram no Egito, onde “serviam” às mais duras penas, aos mais absurdos e terríveis sofrimentos. “Servir” aqui no contexto bíblico significa, aderir livre e alegremente ao Deus verdadeiro, abandonando o “servir” idolátrico da escravidão egipciana; significa seguir, somente um caminho e aceitar energicamente a sua proposta: é uma releitura na prática do primeiro mandamento: “amar ao Senhor, com todo o coração, com todas as tuas forças e com toda tua alma” (Dt 6, 5)

 

Assim a pergunta de Josué se impõe a nós todos: “escolhe hoje a quem quereis servir?” (Js 24,15). Da mesma forma a pergunta feita por Jesus a seus discípulos: “Vós também quereis ir embora?” (Jo 6, 67).

Josué, responde que com sua família, servirá ao Senhor: Quantos desafios encontram as famílias no mundo de hoje para que em unidade possam servir a Cristo? Quantas famílias fragmentadas pelas horas de trabalho, pelos busca dos filhos na escola, pela exaustão da vida moderna, que com o passar do tempo, impossibilitam que pais acompanhem seus filhos na catequese por exemplo, que mães em casa, possam repassar os estudos e tarefas dos filhos, que o exercício da paternidade seja  presente, tanto nas questões que dizem respeito a educação da fé dos filhos, como em seu processo de amadurecimento humano. Estes são apenas alguns dos desafios de uma família que em unidade é desafiada a servir ao Senhor.

Paulo na segunda leitura já delimitava o desafio de uma família cristã em testemunhar o evangelho: Obviamente que o texto paulino, faz uma retrato de uma família cristã existente nos primórdios da Igreja, porém com intuições muito atuais para nosso contexto: “Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela (…) aquele que ama sua mulher ama-se a si mesmo. Ninguém jamais odiou a sua própria carne. Ao contrário, alimenta-a e cerca-a de cuidados como Cristo faz com a sua Igreja, e nós somos membros da Igreja, por isso o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá a sua mulher e ambos serão uma só carne” (Ef 5, 25.29-30).

A perspectiva paulina é que a família humana de alguma forma seja um símbolo da unidade existente entre Cristo e a Igreja, e que a intuição assumida no matrimônio de formarem “uma só carne”, jamais seja esquecida pelo casal, não sendo um peso para ambos, mas sim um projeto de vida nutrido e fortalecido com sacramento do matrimônio.

 

No evangelho Jesus vê-se interrogado por seus discípulos diante das decisões exigentes do seguimento: “Esta palavra é dura demais. Quem consegue escutá-la?” (Jo 6, 61). Fale as pessoas palavras fáceis, ofereça aos homens caminhos prazerosos, fale às pessoas apenas o que gostariam de ouvir que, com certeza, terás muitos seguidores. Com Jesus as coisas não são bem assim e por conseguinte, com seus discípulos também. Jesus não negocia verdades, não faz concessões sobre as consequências de seu seguimento e por isso sua palavra parece ser “dura demais e difícil de escutá-la”. Na continuação do evangelho deste domingo São João diz: “a partir daquele momento muitos discípulos voltaram atrás e não andaram mais com ele” (Jo 6, 66). Lembremo-nos daquele jovem rico, observante da Lei em todas as coisas, mas ao ser recordado por Jesus, de que era rico, e que para ser perfeito deveria deixar tudo, dar aos pobres e depois segui-lo, voltou ele entristecido para casa, pois ainda estava muito apegado aos seus bens.

Os discípulos foram conduzidos por Cristo a uma grande crise. Nós discípulos de Cristo o somos também. As “instabilidades do mundo”, as contradições da sociedade cada vez mais secularizada, as injustiças sociais, a avassaladora corrupção política de nossos tempos, também questiona-nos sobre nossa identidade cristã: Josué hoje pergunta-nos: “ Há quem quereis servir: se aos deuses mesopotâmicos, isto é aos ídolos deste tempo, ou ao Senhor?”. Jesus questiona-nos: e vocês diante de tantos desafios impostos pela minha Verdade, libertadora, mas exigente, também quereis ir embora? Paulo apóstolo na grande catequese sobre a família, recordar-nos também que: “assim é que o marido deve amar sua mulher, como ao próprio corpo”, isto é, a família vive realmente sua unidade existencial, enquanto sinal e símbolo da Igreja, que é o corpo ao qual devemos amar: “este  mistério é grande, e eu interpreto em relação a Cristo e à Igreja” (Ef 5, 32).

Renovemos nossas opções por Cristo. Revisemos como elas estão sedimentadas em nós e como Pedro digamos: “ A quem iremos Senhor, só tu tens palavras de vida eterna”! (Jo 6, 69)

“ A assunção de Maria é uma história de fé, de luta e da vitória do novo homem”

Festa da Assunção de Nossa Senhora

Celebramos neste domingo a solenidade da Assunção de Nossa Senhora aos céus. O CIC, expressa este outro mistério cristológico da seguinte forma: “Finalmente, a Imaculada Virgem, preservada imune de toda mancha da culpa original, terminando o seu curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celeste (…); A Assunção da Virgem Maria é uma antecipação da ressurreição de seu Filho e uma antecipação da ressurreição dos outros cristãos” (CIC, 966).

Este dogma da Assunção de Maria aos céus foi definido em 1950, por Pio XII, tornando-se uma verdade de fé para todos os cristãos católicos.

Na liturgia da Palavra desta solenidade litúrgica, nos deparamos com um outro lado desta festa: o viés que a Palavra de Deus nos oferece. A Palavra lida na liturgia, se torna o “óculos” no qual os cristãos, contemplando o mistério Mariano, todo pleno de méritos e graças divinas, não ocultam e omitem a sua dimensão humana. A palavra apresenta a Assunção de Maria como uma história de fé, como uma luta espiritual e como os primeiros frutos da ressurreição do Senhor em nós.

A Assunção é história de fé, pois no encontro evangélico entre Maria e sua prima Isabel, a anciã faz uma contundente afirmação sobre a jovem Maria: “Bem aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido, o que o Senhor lhe prometeu” (Lc 1, 45). A mãe do Senhor é aquela que traz consigo esta bem aventurança radicada somente na fé. Conhecemos as bem aventuranças de seu Filho: “Felizes os pobres, os aflitos, os misericordiosos, os mansos, os puros de coração, os perseguidos por causa da justiça, os promotores da paz” (Mt 5, 1-12), enfim todo o modelo de vida e santidade oferecido pelo Senhor aos seus discípulos de quem Maria é a expressão humana, mais completa e realizada.

O canto mariano feito após seu encontro com Isabel é a sua Bem aventurança. E é também um modelo amplo e real de santidade de vida e unidade de vida com o Senhor: “a minha alma engrandece o Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus meu salvador, porque olhou para humildade de sua serva, todas as gerações me chamarão bem aventurada” (LC 1, 46-49).

Mas a festa a Assunção é também uma história de luta e combate espiritual. O livro do Apocalipse fala de dois grandes sinais no céu. Um sinal, marcado pelo bem, pela santidade, pela presença de Deus: “uma mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo de seus pés e sobre a cabeça uma coroa de 12 estrelas”  (Ap 12, 1). O outro sinal, curiosamente, também no céu é todo marcado pela presença do mal, do adversário de Deus, do inimigo: “então apareceu outro sinal no céu; um grande dragão, cor de fogo. Tinha sete cabeças e dez chifres e sobre as cabeças sete coroas. Com a cauda, varria a terça parte das estrelas do céu” (Ap 12, 3-5). Claro que se o primeiro sinal celeste evoca a Igreja, Maria, “a mulher vestida de sol”, o outro, traz contornos expressos de maldade e terror! É uma verdadeira luta espiritual travada no céu! O céu será sempre para nós cristãos este “estado” de vida plena em Deus. Será sempre este “lugar” de total unidade do corpo e da alma com o Pai. Mas para que se toque esta unidade plena, esta amizade antes perdida por causa do pecado das origens, é preciso um sério combate. Sempre existirão dragões tão terríveis como o apresentado pelo autor do Apocalipse, querendo varrer as “estrelas do céu”; querendo tirar nossos nomes inscritos no céu pelo cordeiro.

A mulher símbolo de Maria estava para dar a luz (Ap 12, 4) 😮 trabalho de um parto é sempre um período de sofrimento, de dor, de luta. Há um trabalho de parto que a Igreja realiza em nós. Há um trabalho de parto que a Virgem realiza na vida dos cristãos; o de sermos gerados para Deus e no final de nossa caminhada terrestre nascermos de novo para a vida eterna. Celebrar a Assunção de Maria como luta e combate espirital é experimentar este novo nascimento, este trabalho espiritual de parto.

Por fim a festa da Assunção é solenidade das primícias da ressurreição: Paulo na segunda leitura apresenta o binômio: Adão e Cristo: “como em Adão todos morreram em Cristo todos reviverão. Adão é símbolo da morte, mas o é também do velho homem que persiste em viver em cada um de nós. Cristo, é a Vida plena, isto é o Homem novo, no qual toda a humanidade é chamada a ser e existir (1 Tm).  A dualidade “Adão-Cristo”, “homem velho e homem novo”, habita ainda dentro de nosso coração. “ A luta continuará até a eternidade. Maria assunta ao céu em corpo e alma, é para toda humanidade o símbolo de que o “homem novo” vencerá.

Santo Agostinho define esta mutua colaboração corredentora de Maria desta forma: “ Com efeito, a virgem Maria (…) é reconhecida e honrada como a verdadeira mãe de Deus e do redentor (…) Ela é também a verdadeira ‘mãe dos membros de Cristo, porque cooperou pela caridade para que na nossa Igreja nascessem os fiéis que são membros desta cabeça. Maria, mãe de Cristo, mãe da Igreja”. Como a antiga canção mariana podemos dizer alegres e esperançosos neste final de semana da Assunção de Maria: “Maria santa e fiel, ensina-nos a viver como escolhidos”.

“O anjo do Senhor vem acampar ao redor dos que o temem e os salva” (Sl 33, 8)

XIX Domingo Comum
(1 Rs 19, 4-8; SL 33, Ef 4, 3-;5-2; Jo 6, 41-51)

Com o Vs, proposto no salmo responsorial desta liturgia, começamos nossa meditação. Ele nos fala da misteriosa presença de Deus em nossa vida, naqueles momentos onde tudo parece estar perdido. Onde temos a impressão de um Deus muito longe, onde experimentamos uma espécie de noite escura dos sentidos. Todos passamos ou passaremos por estes momentos. Eles são necessários, muitas vezes incompreendidos por nós mesmos, mas se acolhidos, podem ser transformadores, purificadores e urgentes para nosso amadurecimento humano, espiritual e existencial.
Esta é a tão conhecida “hora da crise”, que tantos santos, místicos, teólogos, já experimentaram, e de lá, não voltaram jamais com as mãos e o coração vazios. Pelo contrário, na biografia de um são João da Cruz, ou de uma Santa Teresinha do menino Jesus, ou de uma santa Teresa de Calcutá, esta “hora”, da crise ou da cruz, foi para estes santos, o momento mais inspirador, iluminador, purificador e por que não afirmar: criativo no Espírito.
O teólogo Amadeo Cencini, em sua obra: “A hora de Deus, a crise na vida cristã”, define este momento: “a mesma situação de dificuldade não é vivida como prova somente psicológica, mas como prova espiritual, como melhor diremos acima, ou seja, como luta com Deus, e com um Deus que é sempre diferente da imagem que o cristão faz dele, um Deus que não é somente amigo afável e presença confiável, mas “torrente enganadora”, um Deus que não está sempre aí respondendo às expectativas do orante para contentá-lo, mas que frequentemente se torna ausente, e às vezes inclusive não responde de modo algum ou responde com um silêncio que é duro de aceitar” (P. 30).
Duro de aceitar que as vezes nossa vida de discípulos é feita destas batalhas espirituais, destes silêncios de Deus, necessários.
Na liturgia de hoje nos deparamos com dois momentos de crise. O primeiro é de um realismo impressionante: Elias o grande profeta de Israel encontra-se profundamente angustiado. Seu sofrimento é tão profundo que a desolação espiritual que experimenta tira-lhe inclusive o desejo de viver: “Agora basta, Senhor! Tira minha vida, pois não sou melhor que meus pais” (1 Rs 19, 4). Quantos “Elias”, encontramos cotidianamente em nossas comunidades, nos trabalhos, nas famílias, e até mesmo na vida religiosa. Quantas pessoas profundamente deprimidas, sem sentido, perdidas, que como o profeta imploram um final de vida, pensando que abreviando sua existência, resolverão sua dor. Grande engano pensar assim! A palavra do Senhor, convida-nos a olhar estes momentos de “noite escura”, com os olhos da fé, como a “hora de Deus” em nossa vida.
No momento de maior desolação do profeta ele recebeu o amparo e a presença de Deus:“ Derrepente o anjo tocou-o: levanta-te e anda” (1Rs 4, 5)! O Senhor enviou seu anjo para consolar Elias. No entanto, muitas vezes, temos nós também, de ser anjos para quem se encontra desolado pelo caminho. As vezes é só necessário aproximar-se. Estar por perto, tocar, dizer a pessoa que está abatida: “levanta-te, anda”; a um longo caminho ainda a percorrer! (1 Rs 4, 7).
Foi o que fez o profeta, ele levantou-se, comeu e bebeu, e com a força deste alimento, andou quarenta dias e quarenta noites em direção ao Horeb. Elias se alimentou com o pão assado e retomou seu caminho, estar próximo daqueles que passam pelo duro “vale das sombras da morte”, é ser alimento, pão da vida também para nosso próximo.
No evangelho de hoje a crise se instala no coração dos hebreus, logo após Cristo ter afirmado ser Ele o “pão que desceu do céu”. Ha várias formas de uma crise se instalar no coração de uma pessoa. As vezes as crises podem levar alguém a desolação, a depressão, a uma angústia, que paralisa completamente a alma humana em uma grande tristeza. Outras vezes, a crise se apresenta na forma da negação dos próprios limites. Por exemplo um pai de família que não aceita que seu filho esta vivendo uma crise existencial séria. Prefere não ver a realidade fechando-se sobre si mesmo. Um presbítero que não aceita a correção fraterna de seu bispo, ou de seus irmãos no presbitério, prefere resolver sua crise espiritual isolando-se de tudo e todos. Estas crises causadas por um fechamento mental e espiritual, são tão desastrosas como aquela experimentada por Elias. Estas não levam para o deserto e sim para um abismo, para uma forma de solidão voltada sobre si, e por conseguinte para um distanciamento de Deus e dos irmãos. Lugar que não queremos jamais estar, pois estabelece em torno de si mesmos, não a comunhão mas a ilusão do individualismo.
No Evangelho deste domingo Jesus convida seus ouvintes a não fecharem-se em si: “ Eles comentavam: Não é este, Jesus, o filho de José? Não conhecemos seu pai e sua mãe? Como então pode dizer que desceu do céu? Com estas indagações os hebreus lembram-nos certo grupo de pessoas, que não querem ver a realidade diante de si. Preferem murmuram, ironizar, escamoteando a realidade e preferindo continuar nas suas mentiras.
Que neste final de semana possamos acolhera Palavra de Deus mesmo que esta nos conduza para um lugar de crise, de transformação e purificação. Mas que evitemos os fechamentos, as falsas certezas e as seguranças que não permitam que nos abandonemos inteiramente nas mãos de Deus.

O que tem alimentado nossa fome e sede de Deus

XVIII Domingo comum

(EX 16, 2-4.12-15; Sl 77; Ef 4, 17.20-24; Jo 6, 24-35)

Nossa meditação deste final de semana começa com a comunidade de Israel no deserto, murmurando contra Moisés e Aarão. Libertos que foram dos longos anos de escravidão no Egito, os hebreus murmuram, reclamam, dos sacrifícios e das penúrias que agora livres passam na liberdade da terra prometida.

O último degrau à liberdade, para os hebreus foi um “deserto”. O deserto é sempre este lugar de purificação. Quando nosso Deus quer purificar-nos, o Espírito cria situações que nos conduzem para desertos. A experiência hebraica de deserto comportou o binômio graça e sacrifício. A graça, a força do alto que leva adiante e os sacrifícios, as realidades ora antagônicas, ora incompreendidas que nos purificam. O sacrifício foi penoso para Israel, mas sem ele, não existiria purificação e nem liberdade. Quando os hebreus sentiram o sacrifício da fome, tiveram a tentação de voltar para a escravidão, para os anos de opressão: “ junto às panelas de carne e comíamos pão com fartura, por que nos trouxeste para este deserto” (Ex 16, 3). Esqueceram-se da palavra que diz: “nem somente de pão vive o homem, mas de toda a palavra da boca de Deus” (Dt 8,3).

Na segunda leitura da liturgia de hoje o apóstolo Paulo reafirma o que estamos meditando. Orienta a comunidade de Éfeso, proveniente em sua maior parte do paganismo helênico a que: “renunciando a vossa existência passada, despojai-vos do homem velho, que se corrompe sob o efeito das paixões enganadoras, e renovai o vosso espírito e a vossa mentalidade” (Ef 4, 22-24)! Isto é, um verdadeiro processo de libertação, exige uma renovação espiritual e de pensamento: exige conversão.

No entanto, sabemos que a liberdade tem um alto preço, enquanto que a opção de um caminho largo, fácil e espaçoso, acertará sua contas somente no final de todas as coisas. Pensemos por exemplo no caminho de um jovem que está em processo de superação da drogadição: quantas tentações, quantas saudades daquele antigo “prazer e bem-estar” que a substância lhe oferecia o submetendo as maiores opressões existenciais e psicológicas decorrentes da dependência. Quem acompanha usuários de alguma droga, sabem bem que o caminho é longo. Quem é sócio dependente, sabe que o processo de libertação é sacrificante, árduo, doloroso, mas também sabe que o preço da vitória sobre está dependência valerá todo e qualquer sofrimento. Ou mesmo a simples história de um casal de namorados que descobriu o valor antropológico da castidade pré-matrimonial. Quão grande serão suas tentações, precisarão, com certeza, de um auxílio espiritual, que os conduza, passo a passo neste discernimento, que os fará bem mais maduros e preparados para a decisão do matrimônio.

Não existe liberdade sem sacrifícios. E o apóstolo Paulo afirmou: “É para a liberdade que Cristo nos criou” (Gl 5,1).

 

Nossa liturgia neste final de semana, relaciona nossos sacríficos necessários com nossas fomes e nossas sedes. Não apenas aquelas matérias, intrínsecas para nosso caminho na vida, que nos sustentam, mas também aquelas mais profundas. A mesma que um dia saciou uma fome de sentido que havia no coração do grande Agostinho: “ Inquieto está nosso coração, enquanto não descansa em Deus” (Conf; X).

O evangelho de são João que começamos a ler no domingo passado, na grande homilia de Cafarnaum sobre a imagem joanina do “pão”, recorda-nos das fomes profundas que habitam no coração do homem e ora são preenchidas com realidades que “enfaram, mas não nutrem, nem alimentam”. Lembro-me sempre dos tempos de juventude da banda Titãs e da canção “Comida”! Mais jovem não compreendia ainda a densidade da poesia, quando o autor cantava: “a gente não quer só comer, quer comer diversão e arte”. O compositor, o grande Arnaldo Antunes, diz algo semelhante ao que encontramos nos evangelhos sinóticos, nos relatos das tentações: “não só de pão vive o homem (…)” (Mt 4, 4).

O poeta com a canção denuncia certa visão reducionista sobre o homem que se funda na ideia de que distribuindo o alimento material a todos, todos os problemas humanos estarão resolvidos. Sabemos, no entanto, que são muitas as fomes e sedes que permanecem no coração do homem, ainda que este se encontre bem nutrido. Não se deve aqui construir uma oposição entre nossas fomes: ou o alimento material e só, ou basta dar o alimento espiritual que tudo estará sanado. O evangelho de são João evita reduções espiritualistas. Jesus afirma: “ esforçai-vos não pelo alimento que perece, mas pelo que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do homem vos dará” (Jo 6, 27), também diz: “ Tive fome e me destes de comer, tive sede e me destes de beber” (Mt 26, 35). O melhor caminho, o  caminho proposto pelo Cristo é : espiritual e material ao mesmo tempo um no outro. As coisas do Espírito se encarnam em nossa atuação material, como Cristo se encarnou. Ele é o pão que desceu do céu.

Pensemos neste final de semana: Quais são nossas fomes mais profundas? Quais são nossos desejos mais singulares? Como tenho me nutrido material e espiritualmente? Até onde Jesus é nosso pão do céu?

 

 

A necessidade de atravessar os mares do egoismo.

XVI Domingo Comum

( 2 Rs 4, 42-44; Sl 144; Ef 4, 1-6; Jo 6, 1-15)

A liturgia deste final de semana nos convida a realizar um dos gestos humanos mais nobres, mais elevados e também mais cristológicos, que possamos fazer: o gesto da partilha. Já na oração inicial desta Eucaristia este convite se faz presente: “redobrai de amor para convosco, para que conduzidos por vós, usemos de tal modo os bens que passam, que possamos abraçar os que não passam”.

A coleta da liturgia deste domingo nos exorta a que nossa relação com os “bens que temos”, sejam feitos com a moderação que o evangelho do Senhor nos ensina: “Não ajunteis tesouros na terra, onde as traças e as ferrugens os consomem (…), mas ajuntais tesouros no céu (…), porque onde está o teu tesouro, aí está o teu coração” (Mt 6, 19-21).

Quando passamos a aprender a beleza evangélica que há da partilha dos bens, da liberdade interior em relação as coisas, passamos a “ajuntar tesouros no céu”, mas tesouro este, que já encontramos aqui na terra.

As vezes espiritualizamos muito as inspirações que o Evangelho nos propõe. Parece mais plausível para muitos cristãos evitar de tocar em assuntos da terra e da vida. Em alguns ambientes católicos temas como: a partilha, o bem comum, o uso moderado e equilibrado dos bens, os sinais dos pecados sociais, soam ainda pouco elevados, ou nada santificantes. É melhor, nestes espaços, mais fácil e menos incômodo, se utilizar de uma retórica cristã que permaneça apenas apontando para uma das dimensões da fé cristã, a espiritual, é claro, não menos importante que a outra, mas que sem o princípio teológico da Encarnação, torna-se evasiva e incompleta. Um catolicismo assim, corre o risco de sonegar o mandamento do amor que diz: “amarás o Senhor teu Deus de todo o coração, e o teu próximo como a ti mesmo” (MT 22, 37-38).

 

No entanto, a Palavra do Senhor está sempre ai, para nos desafiar. Para permitir que saiamos das zonas de conforto e lançando-nos em águas mais profundas e exigentes. O Evangelho deste domingo começa, com Jesus atravessando o mar da Galileia:“Jesus foi para o outro lado do mar da galileia (…) uma grande multidão o seguia, porque via os sinais que operava em favor dos doentes” ( Jo 6, 1-2). Estamos no início do cap. VI de João. Capítulo em que o evangelista medita sobre o “ Pão da Vida”.

No entanto, nosso evangelho dominical começa com uma barca que atravessa um mar! É de um simbolismo impressionante, porque logo nos faz pensar em duas realidades: a primeira é claro a travessia do mar, os hebreus que conduzidos por Moisés superam o “inimigo mar vermelho” e tocam a terra prometida a pé enxuto. De outra parte, esta superação do mar da galileia feita por Jesus e seus discípulos é realizada em uma “Barca”, símbolo dos mais antigos, da Igreja que navega com Cristo superando os inimigos.

 

Na outra margem, a multidão o segue, porque via os sinais que realizava em favor dos doentes. Jesus então realiza um grande sinal, que ensina-nos, ensina as multidões e também a seus discípulos. Todos aprenderão com Cristo, no entanto todos terão de fazer travessias profundas em sua concepção de fé e cristianismo. Uma grande e sedenta multidão corre atrás de Jesus pelo bem que Ele faz, porque Ele opera sinais em favor de doentes. É uma busca por Deus, genuína, integra, mas pouco gratuita. Busco a Cristo, porque realiza grandes milagres em mim. No começo de nossa caminhada, nossa adesão ao Senhor é assim mesmo. Nós o buscamos, por que nos concede algo em troca: uma cura, uma segurança afetiva ou econômica, uma paz que eu antes não conhecia, mas

estes aspectos da fé, estão muito presentes no início de nosso caminho.

As multidões o seguem por isso, mas nós, seus discípulos, vamos sendo exortados a aprofundar mais a nossa fé.

Mais que buscar a Deus, para Dele receber algum beneficio, o que de forma alguma se mostra em atitude equivocada, a Palavra deste final de semana, quer orientar-nos a partilhar “o Pão da Vida que é Deus” para com os outros. Mais do que saciar apenas a nossa fome e sede de Deus, a liturgia deste final de semana, quer que demos de alimentar também a nossos muitos irmãos famintos do “Pão da Vida”, quer que nos tornemos alimentos a eles. Para isso não precisamos muita coisa, não é necessário muito dinheiro, “nem duzentos denários de prata” (Jo 6, 7). Precisamos apenas partilhar do pouco que temos.

André o irmão de Simão Pedro, é a figura do discípulo que parece ter compreendido isso com mais profundidade: Ele apresenta um menino com cinco pães de cevada e dois peixinhos. Este pouco, que a olhos humanos não satisfariam a quase ninguém, oferecidos ao Senhor, saciaram uma multidão de cinco mil homens.

A liturgia deste final de semana nos ensina que Deus, quando quer pode transformar até mesmo “pedras em pães”, pois nada é impossível a Ele. Ele é o Senhor de tudo: de cinco pães e dois peixes, alimentou cinco mil homens. No entanto, o Senhor quer nos ensinar também que existem milagres que acontecem no ordinário de nossa vida. Partilhar o pouco que temos com nossos irmãos, pode parecer uma coisa muito despretensiosa, corriqueira, normal, mas para o outro, que recebe sua partilha, pode significar muito. Pode significar que Deus o visitou naquele momento. Pode matar a sua fome física, mas pode saciar a sua fome de Deus também, no seu simples gesto de comunhão.

Para isso é preciso subir na Barca com Jesus e atravessar o mar. Chegar até outro lado da margem e ver que existem multidões que continuam famintas e sedentas do Pão da Vida. Todos somos chamado a realizar esta travessia, esta Pascoa, esta libertação de um cristianismo; que busca em Deus a si mesmo, para um catolicismo que torna-se alimento para os outros: “ Jesus disse a Fiipe: Onde vamos comprar alimento pra esta gente?” (Jo 6, 6)