“Recapitular tudo em Cristo” (Ef 1, 10)

XV Domingo do Tempo comum

A oração inicial da liturgia deste domingo nos diz: “Ó Deus mostrai a luz da verdade aos que erram
para retomarem o bom caminho, dai a todos os que professam a fé, rejeitar o que não convém ao
cristão” (Coleta, XV Domingo).
A oração introdutória desta Eucaristia convida-nos a uma retomada de caminho em direção àquele
que é o centro de nossas vidas: Cristo Jesus. Por vezes, nos afastamos, tomamos outros caminhos,
nos dispersamos daquela estrada exigente, estreita, comprometedora, mas que ao final, nos leva à
vida bem-aventurada. Neste final de semana, a Palavra do Senhor nos convida a um retorno. Às
vezes, nós precisamos que alguém se torne próximo e de novo nos ajude e retomar projetos,
propósitos de santidade, de vida de oração, de desapegos, de escolha pela vontade de Deus, que com
a rotina, podemos naturalmente ir relativizando. É muito fácil tomar um caminho mais cômodo,
difícil mesmo é reconhecer que se deve recomeçar a partir de Cristo.
Por isso, Deus, instituiu os profetas. Eles eram homens vocacionados, isto é, chamados por Deus,
para que com suas palavras inspiradas, “endireitassem os caminhos tortuosos”, que os homens
estavam trilhando. A vocação profética não é nada fácil! Não é fácil ouvir um profeta, assim, como
não é prazeroso, quando não se está enfermo, ter de tomar algumas medicações, fortes e amargas,
que nos tiram apetite, nos abatem, produzem até náuseas e desconfortos, mas que no final das coisas
nos trazem a cura, a salvação.
Na liturgia deste domingo, Deus suscitou um “pequeno-grande” profeta, um verdadeiro
vocacionado, pois não exercia esta vocação como um profissional do ramo. Em determinados
períodos da história de Israel, haviam “profetas profissionais”. Por mais paradoxal que o termo
possa indicar, mais haviam realmente estes homens. Ele eram profissionais, por que, eram
escolhidos pelos reis e não por Deus. Falavam sempre em nome de Deus, mas o que desejavam os
seus chefes, com isso sua profecia era limitada ao “status quo” do reino. No entanto Deus chamou
Amós e ele se tornou um grande profeta: “respondeu Amós a Amasias dizendo: ‘ não sou profeta
nem filho de profeta; sou pastor de gado e cultivo sicômoros. O Senhor chamou-me quando eu
tangia o rebanho, e o Senhor me disse: ‘Vai profetizar para Israel meu povo’” (Am, 7, 13-15).
Para quem conhece um pouco da história de Israel, sabe bem, que foram poucos os profetas que
tiveram tanta coragem e ousadia como o “pequeno pastor Amós”. Ainda hoje quando lemos suas
profecias durante a liturgia, não há como permanecer insensível ou impermeável ao que diz. Sua
palavra é forte, densa, provocadora, mas libertadora: “Ouvi isto, vos que anelais os abatimentos do
necessitado; e destruís o miserável da terra. Dizendo, quando passará a lua nova, para vendermos o
grão, e o sábado, para pilharmos o trigo, diminuindo o efa, e aumentado o ciclo, e procedendo
dolosamente com balanças enganosas” (Am 8,4-5). Todos os profetas nos ensinam, a não relativizar
a vida com Deus e com nosso próximo. Sempre quando nos tornamos “cristãos profissionais”, Deus
mandará profetas ou situações que nos convidaram a retomar nossa estrada.
Na segunda leitura o apóstolo Paulo, dá um outro nome a esta retomada de caminho em direção a
Cristo: Ele a define como uma recapitulação: “ para levar a plenitude o tempo estabelecido e
recapitular, em Cristo, o universo inteiro: tudo o que está nos céus e tudo o que esta sobre a terra”
(Ef 1, 10). Obviamente que a concepção paulina da “recapitulatio”, é importantíssima. Foi no
segundo século do cristianismo um estandarte doutrinal pela qual santo Irineu de Lião desenvolveu
toda sua grande teologia ante-gnóstica. Mas aqui, no contexto pastoral de nossa liturgia, o termo
merece profunda atenção. Recapitular, como a palavra ensina é retornar a cabeça: “Caput”! É
retornar, recomeçar, fazer com que coisas sejam integradas a Cristo. Mas recapitular também é
retomar os capítulos. Recapitular é recordar os capítulos de uma obra que lemos, e por que não
dizer: retomar, recordar os capítulos de nossa vida!

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“Os vínculos que a fé constrói, são mais profundos até mesmo que os laços de sangue”

X Domingo comum

(Gn 3, 9-15; Sl 32; 2 Cor 4, 13-18-5,1; Mc 3, 20-35)

Nós não nos tornamos plenamente realizados sem que sejam construídas relações e vínculos em torno a nós. Ninguém é chamado a um isolamento, a uma vida solitária, fechada em si mesmo, sem boas amizades que tornam a nossa existência melhor de ser vivida.

A vida na fé também é uma existência repleta de vínculos e fraternidade. Afinal, esta era até uma marca das primeiras comunidades cristãs, um sinal que ia para além até mesmo dos prodígios e carismas que assinalaram as primeiríssimas gerações cristãs, a famosa Koinonia: “os que criam mantinham tudo em comum, vendendo suas propriedades e distribuíam a cada um conforme sua necessidade” (At 2, 44).

Neste domingo a liturgia da Palavra falará também de vínculos, de relações, de experiências de comunhão recíproca. Há sempre este paradoxo no homem: se ele traz dentro de si, o santo desejo de  “ser-com-os-outros”, de “ser-para-os-outros”, há nele também um potencial de ambiguidade, que o faz optar por “um si mesmo”, individualista e isolado, como se fosse uma “ilha”, cercada apenas de um imenso oceano, como se fosse ele o centro de todas as coisas.

O pecado original, o mistério da iniquidade é quem tornou-nos assim: desconfiado dos outros, inimigo de Deus e por consequência, distante do irmão.

 

Na primeira leitura de nossa liturgia, Deus faz uma pergunta a Adão muito singular: “Onde estas?” (Gn 3, 10). Não tanto o aspecto geográfico se nos interessa na questão proposta por Deus, mas o lugar existencial que agora se encontra Adão após a queda! Adão encontra-se perdido. Adão perdeu com o pecado o vínculo original mais essencial que existe. Perdeu a amizade e a intimidade com Deus, perdeu ali, toda a primeira referência, por isso está agora perdido.

 

O evangelho deste domingo é concluído com a seguinte afirmação de Jesus Cristo: “Aqui estão minha mãe e meus irmãos. Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mc 3, 35). É uma afirmação contundente da parte de Jesus. Difícil de ser digerida por nós e  compreendida. Logo pensamos em Maria, e nos profundos vínculos de fé que nos unem a ela, de devoção, de amor de piedade eclesial.

Mas aqui o assunto é bem mais relevante que a unidade familiar existente entre Jesus e Maria. Mais do que refletir sobre mariologia, o tema aqui, é bem mais cristológico. Como na primeira leitura a questão é “vincular”, é relacional e teologicamente familiar também.

 

Jesus no começo do evangelho entre em uma casa. Nada tão familiar como a “casa”, e lá, os “seus” o seguem!!

“Seus” e “Casa” importam muito neste evangelho. Não estão aqui como um detalhe. Primeiro é bom recordar que a “casa”, era o primeiro nome dado a Igreja. Os cristãos da primeira geração, reuniam-se também nas sinagogas, um lugar bem mais institucional, mas pouco a pouco, passaram a celebrar sua fé nas casas, “Domus ecclesia”, assim eram chamadas. É la que Cristo está e é de lá que quer falar para os que realmente são os “seus”!!

Não é muito fácil ser dos “seus”, ser “seu irmão, irmã, mãe”, ser membro desta família, que está para além do vínculo consanguíneo. Para sê-lo é necessário um outro vínculo, outra forma de proximidade. O apóstolo Paulo na segunda leitura exorta-nos que devemos aproveitar até mesmo situações que pareçam contraditórias, mas que na lógica do Reino tornam-se positivas, para sermos de sua família:“ Mesmo se nosso homem exterior se vai se arruinando, o nosso homem interior, pelo contrário, vai-se renovando dia a dia. Com efeito, o volume insignificante de tribulação momentânea acarreta para nós uma glória eterna” (2 Cor 4,17).

 

Aprendamos com a própria Maria. Ninguém foi tão familiar a Cristo que ela: “ Faça-se em mim segundo a sua vontade” (Lc 1, 38). Ninguém fez tão perfeitamente a vontade do Pai como ela, por isso ela é sua família.

 

Este é o vínculo perdido, mas que em Cristo foi recapitulado. Vínculo maior que os laços de sangue, mas que nos tornam participantes desta grande família de Deus!!!

“Na solenidade da Trindade, deixar-se conduzir por Deus”

Festa da Santíssima Trindade

(Dt 4, 32-40, Sl 32; Rm 8, 14-17; Mt 28, 16-20)

Certamente conhecemos algumas pessoas especiais. Pessoas que marcaram nossa vida, deixando rastros de bondade, solidariedade, gratuidade e até mesmo santidade. Essas pessoas não  encontramos mui facilmente, estão cada vez mais raras, mas se estivermos mais atentos, estão sempre perto de nós, às vezes ao nosso lado, em nossas comunidades eclesiais, alegrando a nossa vida.

 

O Apóstolo Paulo na segunda leitura da solenidade de hoje fala-nos de pessoas assim. Ele mesmo era um deles. Estas pessoas vivem assim, “de bem com a vida, gratuitos, santos”, pois dentro de si, são tomados de uma certeza vital que enche sua vida de confiança: são herdeiros de uma família que os faz muito amados. Nada melhor para aprender a bem viver, do que saber e sentir lá dentro do coração que alguém nos ama infinitamente. Que alguém nos ama com gratuidade. Nada existe de tão libertador do que viver assim.

No domingo em que celebramos a solenidade da Santíssima Trindade, recordamos então este imenso e eterno amor de Deus pela humanidade. Nós olhamos e contemplamos, obviamente cada uma das Pessoas Trinitárias, mas principalmente sua ação e habitação em cada um de nós, na Igreja e no mundo. Santo Irineu de Lion, o grande teólogo do II século, definia esta atividade trinitária,  usando-se de uma imagem muito coloquial, como um grande abraço que o Pai dá a humanidade: “O Filho e o Espírito Santo são as duas mãos do Pai, que abraçam e plasmam a humanidade” (Adv. 4, 20,1). E sabemos que existe muita gente perto de nós que é testemunha deste grande abraço e amor Trinitário. Paulo fala destas pessoas: “Todos aqueles que se deixam conduzir pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rm 8, 14).

Jesus, Maria, são José, são Paulo, são Francisco de Assis, Santa Teresa de Calcutá e hoje o Papa Francisco, nos deixam claro estes sinais: Conduzem a sua vida, a partir do alto. Neles e também em tantos outros, percebemos que estas “duas mãos do Pai”, os conduzem para onde devem ir: “Mas agora assim diz o Senhor que te criou ó Jacó, e que te formou ó Israel: não temas porque eu te salvei, chamei-te pelo nome, tu és meu. Quando passares pelas águas, estarei contigo, e quando pelos rios, eles não te afogaram, quando passares pelo fogo, ele não te queimará, nem a chama arderá em ti” (Is 43, 1-4).

 

No entanto, é sempre importante recordar, que ser conduzido pelo Espírito Trinitário, não é estar de forma alguma “superprotegido”, ou em alguma redoma artificial impermeável aos problemas, tribulações ou provações. Os santos acima citados, tiveram durante seu itinerário vital, muitas e infindas graças de Deus, mas também muitas provações. A paternidade amorosa oferecida pelas três Pessoas trinitárias, em nada se assemelha, com alguma forma de protecionismos modernos, onde os filhos, passam quase a conduzir a vontade dos Pais. A paternidade Divina é sempre uma experiência de libertação, disposta a superar dentro de nós feridas antigas, orgulhos, pecados que geram profundos fechamentos a Deus e aos irmãos; traumas inconscientes que com o passar do tempo se fizeram bloqueios e solapam a nossa liberdade de amar e servir a nossos irmãos.

A experiência de amor de Deus que fizeram nossos santos, muitas vezes os tirou de situações tranquilas de conforto, os lançando para “desertos existenciais e espirituais”, para que ali, ainda que sem compreenderem num primeiro momento viessem a ser purificados por dentro, de imagens equivocas que pudessem ter de Deus. Na primeira leitura o livro do Deuteronômio exorta-nos também sobre isso: “terá jamais algum Deus vindo escolher para si um povo entre nações, por meio de provações, de sinais e de prodígios, por meio de combates, com mão forte e braço  estendido, e por meio de grandes terrores, como tudo o que por ti o Senhor vosso Deus fez (…)? (Dt 4, 34).

E fora exatamente através destas provas que estas especiais pessoas puderam fazer a experiência da Paternidade Divina, e também de ser cuidado e guiado pela família Trinitária.

No final de semana em que celebramos a solenidade da Santíssima Trindade, a liturgia quer recordar-nos que assim como em Deus coexiste um amor que une eternamente as três pessoas da Trindade e Neles, não existe o vazio e a solidão, na humanidade também.

Não estamos só para vivermos isolados uns dos outros. Não recebemos de Deus um espírito de escravos (Rm 8, 15), que nos impeça de experimentar a liberdade interior de um Francisco ou Paulo, mas sim de filhos adotivos (Rm 8, 15b), que conduzidos pelo Espírito de Deus, são chamados a superar medos, traumas, bloqueios, inimizades e criar acima de tudo ponte entre as pessoas e não muros.

 

 

“A cada um é dado a manifestação do Espírito em vista do bem comum” (1 Cor 12, 7)

Festa de Pentecostes
(At 2, 1-11, Sl 102; 1 Cor 12,3b-7.12; Ev Jo 20, 19-23)

O Espírito Santo é fonte e força de amor mútuo. É também sinal que estamos vivendo um tempo novo. Jesus concluiu o se caminho aqui entre nós, mas não nos deixou sozinhos: enviou-nos o mesmo Espírito que o ungiu e o fortaleceu na missão. O apóstolo Paulo lembra aos filipenses que: “tenham entre vós os mesmos sentimentos de Cristo Jesus” (Fil 2, 5).
Celebrar a solenidade de Pentecostes é um convite que a Igreja nos faz, de cultivar entre nós, estes mesmos sentimentos do Senhor Jesus. É se deixar animar por aquele Santo Espírito que animou a a sua missão, aquele mesmo amor que une o Pai e o Filho e do qual participamos: “ O meu mandamento é este, que vos amei uns aos outros assim como eu vos amei” (Jo 15, 9).
Na aldeia global em que vivemos a antiga festa de pentecostes se torna urgente. Pentecostes celebra, sabemos a vinda do Espírito Santo sobre a Igreja, na antiguidade judaica, os primeiros frutos das colheitas oferecidas no templo ao Senhor, recorda-nos com isso um caráter de amizade e comunhão.
Há 20 ou 25 anos atrás esperava-se muito da chamada globalização: Se acreditava, tinha-se fé que com o fim das fronteiras territoriais, muitas periferias existências viriam a ser superadas. Essa esperança aumentou com o advento da internet, e com a facilidade ao acesso de comunicação entre as pessoas que ela propiciou: surgimento das redes sociais, dos chats de comunicação, enfim, o mundo se tornou muito próximo, se tornou uma “aldeia” de comunicantes, mas por pesar, as antigas questões fundamentais que tocam o homem de nosso tempo, se tornaram ainda mais distantes: as periferias existências aumentaram, as sociais se amontoaram, nos tornamos comunicantes com o mundo inteiro, e, no entanto, temos a sensação que cada vez menos estamos nos compreendendo e acolhendo. Neste sentido pentecostes se torna urgente!

Pentecostes é festa do Espirito Santo, é nascimento da Igreja, mas é também uma oportunidade que a liturgia nos oferece para nos entendermos melhor, nos acolhermos com os mesmos sentimentos de Cristo Jesus (Fil,2,5), com mais fraternidade, solidariedade e caridade.
Na primeira leitura, o livro dos Atos dos Apóstolos, narra o evento pentecostes, reunindo os discípulos no cenáculo: Enquanto oravam veio do céu um barulho como se fosse uma forte ventania, que encheu a casa onde se encontravam. Então apareceram línguas como de fogo que se repartiam sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas conforme o Espírito os inspirava (At 2, 4-5). Ainda no mesmo texto, são Lucas, descreve a presença de todas as nações conhecidas na antiguidade e que se faziam presentes em Jerusalém naquele momento. Os povos citados são sinais de línguas diferentes. Nações diversas, culturas antagônicas, mas que naquele momento, passaram a se entender e compreender: “todos nós os escutamos anunciarem as maravilhas de Deus na nossa própria língua” (At 2, 11); as línguas dos céus que descem e repousam sobre os discípulos, torna o mundo conhecido, reforça a unidade nas diferenças culturais e étnicas, constrói pontes entre os povos e não muros que queiram “separar” fronteiras existências e sociais.
Mas se pentecostes é urgentíssimo para o mundo global, no espaço eclesial e comunitário, é mais urgente e necessário ainda! Ha muitas línguas em nossas comunidades. Muita criatividade e às vezes muita gente que, ainda que fale a mesma língua confessional, litúrgica, comungue da mesma fé “Una, Santa, Católica e Apostólica”, esteja nos primeiros frontões de defesa da fé frente aos eminentes perigos da modernidade, parece não falar a mesma língua de irmãos da própria comunidade eclesial. O que percebemos às vezes nas macro-relações, são consequências de experiências mal resolvidas entre nós, que acontece lá na aldeia, com quem passa ao meu lado, na pequena comunidade, na família cristã, lá onde tudo deve começar. Ai também celebrar pentecostes é urgente.
A inspiração judaica é impressionante: Pentecostes era a festa das primícias, isto é, dos primeiros frutos, da primeira colheita: O primeiro fruto é a Igreja e sua primícia é a linguagem do amor, da unidade, da fraternidade: “Eu não rogo apenas por eles mas também por aqueles que me deste, para que sejam um Pai, como tu ó Pai estas em mim e Eu em ti (…) para que o mundo creia que tu me enviastes” (Jo 17, 21); “e todos os que acreditavam estavam juntos, e tinham tudo em comum (…) louvavam a Deus e eram estimados pelo povo e a cada dia o Senhor acrescentava à Igreja àqueles que havia de salvar” (At 2, 42.47).

O evangelho deste final de semana quem sabe nos oferece um “remédio salutar” para estes nossos insistentes pecados que ferem aquele primeiro fruto que a comunidade cristã é chamada a apresentar ao Senhor em pentecostes: O Pentecostes em João, mais brando do que a narrativa de Atos dos Apóstolos se fundamenta em duas realidades: a) O Cristo traído e morto na Cruz, se manifesta ao discípulos não com “instinto” de vingança, de cobrança. Mas oferece duas palavras densas de teologia espiritual: a Paz esteja convosco e dom do perdão: “ a quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados” (Jo 20, 23). b) Novo homem re-criado em Cristo: “ como o Pai me enviou, também eu vos envio e depois disso, soprou sobre eles e disse: Recebei o Espírito Santo” (Jo 20, 22).
O pentecostes brando joanino, com menos ruídos e os vendavais lucanos, em vez de, transformar as estruturas exteriores (que também claro necessitam de mudanças), revoluciona por dentro, o coração e a mente dos apóstolos de Jesus.
Deixemos neste final de semana o Senhor Jesus soprar em nós também: Em nossas narinas em nosso coração, tire o pó do homem velho, com as velhas mentalidades de ódio, vingança, ausência de perdão que gera comunicação interrompida, para que renascidos no Espírito vivamos como ensina a sequencia do Espírito Santo na liturgia de hoje: “ sem a luz que acode, nada o homem pode, nenhum bem a nele; Ao sujo lavai, ao seco regai, curai o doente, Dobrai o que é duro, guiai no escuro o frio aquecei” (Sequência de Pentecostes) ..

“Sair de si é elevar-se!!

Festa da Ascensão do Senhor
(At 1, 1-14; Sl 46; Ef 1, 17-23, Mc 16, 15-20)

“Sair de si é elevar-se!

Com alegria celebramos neste final de semana a festa da Ascensão do Senhor, o mistério de sua elevação aos céus e de certa forma a concretização de mais um artigo de nossa fé que recordamos todos os domingos “subiu aos céus e está sentado à direita do Pai”.
No entanto, sabemos que esta solenidade sempre causou na mentalidade popular um sentimento de despedida, de partida de abandono de Jesus da realidade humana, para uma realidade superior, do qual participaremos sempre com algum decréscimo ou então, impossibilitados de fruir de toda sua plenitude. É o mesmo sentimento que nos salta os olhos quando tomamos o texto proposto para a primeira leitura de domingo por ex: “homens da galileia, por que ficais aqui, parados, olhando para o céu? Esse Jesus que vos foi levado para o céu, virá do mesmo modo como o vistes partir para o céu” (At 1, 11). Ao mesmo tempo que este versículo parece “anestesiar” o leitor, criando um clima de nostalgia, como quando alguém vê seu grande amigo partir em viagem e permanece “de um outr lado” contemplando ao longe sua despedida, ele também, pode ser muito provocativo e até mesmo desinstalador. Não há nada de nostálgico na elevação de Cristo aos céus. Os autores sagrados não tinham nenhuma intenção de romantizar um mistério cristológico. Ele na verdade é um convite a também subirmos com ele. Para isso não basta apenas uma atitude passiva do tipo: “os apóstolos continuavam olhando para o céu” (10) e sim, ativa: “por que ficais parados” (11), isto é, não sonegar de forma alguma a dimensão contemplativa da vida, mas perceber que esta não deve jamais nos alienar, nos deixar parados, olhando apenas para o alto, enquanto ao nosso lado, continuam a se apresentar realidades profundamente rebaixadas que precisam a partir de nosso testemunho elevar-se.

A carta aos Efésios na segunda leitura desta liturgia contribui ainda mais para que não vivamos uma ascensão de forma passiva: “ (…) bem acima de toda a autoridade, poder, potência, soberania ou qualquer título que se possa mencionar não somente neste mundo mas ainda no mundo futuro. Sim Ele pôs tudo a seus pés e fez dele, que está acima de tudo, a Cabeça da Igreja que é seu corpo, a plenitude daquele que possui a plenitude universal” (Ef 1, 22-23). O apóstolo Paulo nos ajuda a evitar que as estruturas negativas que o mundo oferece possam nos intimidar na proclamação do Reino. Sabemos sim das forças opostas à boa nova de Cristo, sabemos do pecado, das injustiças, da ausência da paz, das estruturas tão desumanizadoras encontradas em nossos tempos e o quanto estas aparecem poderosas diante de nós, no entanto, Paulo recorda em sua epístola que Cristo ressuscitado esta “bem acima de toda autoridade, poder, potência, ou qualquer título que se possa mencionar não só neste mundo” (21); vale recordar a afirmação joanina presente também no discurso de despedida de Jesus: “ No mundo tereis aflições, coragem eu venci o mundo” (Jo 16, 23).

A coragem diante das estruturas “mundanas”, em nada deve ser comparada com qualquer atitude irresponsável ou impulsiva. A boa evangelização começa reconhecendo o chão onde estamos pisando, a cultura onde estamos inseridos, as sementes do reino presente nesta cultura, os valores e claro, as realidades obscuras, rebaixadas e que precisam com nosso testemunho serem assumidas e elevadas. Para isso não basta apenas olhar pra cima, e permanecer de braços cruzados esperando que o Senhor volte e resolva as coisas por nós aqui embaixo: “ Então os que estavam reunidos perguntaram a Jesus: “ Senhor é agora que vais restaurar o Reino de Deus? Jesus respondeu: ‘ não vos cabe saber os tempos e os momentos (…) mas recebereis o Espírito Santo que descerá sobre vós, para serdes minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e na Samaria, até os confins da terra” (At 1, 6-8)
Eis a resposta. Aqui está a chave da desacomodação. Aqui encontra-se o segredo de nossa elevação com Cristo: “recebereis o Espírito Santo que descerá sobre vós” (7). Não precisamos ficar olhando para cima, Ele desce sobre nós. É a sua força que vêm sobre nós. É esta “dynamis”, que nos torna capazes de enfrentar e elevar as estruturas do mundo. Mas não podemos permanecer paralisados.
O evangelho deste final de semana, os discípulos são enviados em missão pelo Ressuscitado: “ Ide por todo o mundo e anunciai o evangelho a toda a criatura” (Mc 16, 15). A subida se confunde com a saída em missão dos discípulos. A partir do envio de Cristo aos discípulos é que se realizam os sinais: “ expulsam demônios, falaram novas línguas, se pegarem em serpentes ou beberem algum veneno não lhes fará mal algum, quando impuserem as mãos sobre os doentes eles ficaram curados” (Mc 16, 18).
Sair, desacomodar-se é subir é elevar-se! Saindo de nós mesmos, de nossos círculos fechados e confiando na ação do Espírito que colaboramos com a elevação as realidades temporais, tão necessitadas de nossa adesão! Saia, testemunhe, eleve-se!

 

IV Domingo da Páscoa

(At 4,8-12 ; 1Jo 3, 1-2; 10, 11-18)

O poeta Vinícius de Moraes compôs uma bela obra endereçada às crianças. Para além de sua consagrada carreira musical, “Vini” ou o “poetinha”, como era conhecido no círculo boêmio de amigos, resolveu dedicar parte de seu imenso talento poético também aos mais pequeninos. Fez uma belíssima canção chamada: “A porta”. Em um dos versos, o autor lembra que a porta é capaz de “fechar tudo no mundo, mas viver aberta no céu”! A canção de Vinícius recorda-nos que existem realidades que precisam ser fechadas em nós. Como uma porta, não devemos permitir que invada a nossa vida, o pecado, o egoísmo, a ganância, a violência, a falta de fé e esperança, a impureza, etc. A canção sobre a “porta” ensina-nos também que existem situações abertas ou mal resolvidas que precisam um dia serem fechadas, curadas, como uma cicatriz que é sinal de que as antigas feridas, que já nos machucaram durante tanto tempo, fecharam e restou apenas uma mera lembrança, não mais incômoda como o ranger de uma porta, aquela antiga dor enfim se fechou. Mas o que a “poesia” de Vinícius, mais queria, nos advertir, é que jamais sejamos pessoas fechadas em si mesmo. Uma porta fechada, deixa de ser porta. Perde sua “missão”, que é abrir para que circule através dela a Vida, o ár, o movimento das pessoas. Uma porta sempre fechada torna-se em realidade um “muro”, uma “parede” fria e sem alma. Como diz a canção “fechar tudo no mundo, (sim) mas viver aberta no céu”.
Neste IV domingo pascal celebramos a figura do “bom pastor” e com ela, um dia muito especial para toda a Igreja: Dia mundia de oração pelas vocações. Lembremos que orar é abrir portas de nossa alma e coração e humildemente permitir que Deus entre em nossa vida. Ele mesmo conduza nossa casa, nossa existência como um “bom Pastor”. Orar é abrir portas de nossa vida para que outros possam entrar, mas orar é também interceder. É pedir ao “Senhor da messe que mande mais operários para sua missão” (Mt 9, 38), mediar que o Espírito de Deus, visite corações já prontos como a messe para ser colhida, que se abram de par em par para o melhor da vida que é realizar-se humanamente a partir de um chamado amoroso feito por Deus.
Neste domingo Jesus se apresenta a partir de uma imagem importante para Israel. Ela têm sua pré-história, remonta os Salmos e os profetas, como por exemplo Ezequiel: “ Como o pastor busca seu rebanho, no dia em que está no meio de suas ovelhas dispersas, assim buscarei minhas ovelhas (…) em bons pastos e as conduzirei e nos altos montes de Israel será seu aprisco (…) eu mesmo apascentarei minhas ovelhas e as farei repousar diz o Senhor” (Ez 34, 14-15); ou no Salmo 22: “ Ele nos leva a descansar em verdes prados. Ele me leva a descansar junto da água. E preparas uma mesa para mim… a graça e a bondade hão de acompanhar-me durante toda a minha vida” (Sl 22, 2-5).
Ambos os relatos nos permitem imaginar uma personalidade amável e bondosa que perpassa a figura do Bom Pastor. Mas Jesus a aprofunda ainda mais. O evangelho deste final de semana afirma que as qualidades do pastor de Israel são levadas em Cristo Jesus a um ponto impensável ainda para os autores do Antigo Testamento. O bom pastor apresentado pelo evangelista João, é o único capaz de entregar sua própria vida pelas ovelhas. Não é bastante para Jesus, cuidar, apascentar, pastorear, conduzir a prados verdejantes, Ele entrega sua própria vida, para que outros a tenham em abundância: “ Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a sua vida por suas ovelhas” (Jo 10, 11-12).

O discurso feito por Jesus no Evangelho deste domingo fora feito diante do pórtico de Salomão no templo em Jerusalém. O pórtico era também uma “porta” de ingresso, onde passavam todos os peregrinos que subiam para as festas pascais e tinham acesso aos lugares mais santos do templo. O referido discurso, assim contextualmente situado, permite perceber uma bela alusão aos líderes religiosos daquele tempo. Eles acabavam tornando-se os “mercenários”, os que aos verem os perigos, abandonavam as ovelhas sob a ameaça dos predadores. Jesus, ao contrário, apresenta-se como o ‘bom pastor’, e por que não dizer também como o verdadeiro pórtico, como o único ingresso possível para o Pai, a verdadeira porta das ovelhas: “ todos os que vieram antes de mim são ladrões e assaltantes, mas as ovelhas não as seguem. Eu sou a porta, quem entra por mim será salvo. Entrará e sairá e encontrará pastagens” (Jo 10, 8-10).
Jesus é o bom pastor, é a Porta diante dos pórticos. É a porta que nos ensina a fechar o ingresso de tantos mercenários que não se importam e não dão a vida para as ovelhas (Jo 10, 13). Quantas são as realidades dominadas pelo mal que insistem em entra em sua casa? Quanto roubo? Quantos mercenários que dispersam as ovelhas em nosso tempo, na fé, na política, nos governos? Quanto assalto de esperança, de fé, de caridade entram em nossa casa pela janela da TV, dos noticiários, do uso desequilibrado das redes sociais, da política atual e que por vezes é preciso que com coragem fechamos estas portas?
Mas Jesus é aquela “porta sempre aberta para o céu”, que o poeta ensinou. Para Ele devemos estar sempre abertos. Para o alto, para o Pai, como o Filho sempre esteve: “ No princípio era o Verbo. E o Verbo estava com Deus. E o Verbo era Deus” (Jo 1,1). Desde a eternidade o Verbo esteve diante de Deus. A porta diante do verdadeiro pórtico da Salvação. Por ele que devemos entrar. É esta porta que devemos sempre abrir aos outros. Para que outros passem e encontrem vida e vida em abundância (Jo 10, 10).
O evangelho nos ensina também o discernimento da verdadeira porta e do verdadeiro pastor: “ Eu sou o bom pastor. Conheço minhas ovelhas e elas me conhecem assim como o Pai me conhece e Eu conheço o Pai” (Jo 10, 14-15)!!

“ Festa da Epifania do Senhor, quando íntimo e infinito se tocam”

 

 

Solenidade da Epifania do Senhor

( Is 60, 1-6; Sl 71; Ef 3, 2-3; 5-6; Mt 2, 1-12)

Celebramos neste final de semana a solenidade da epifania do Senhor. Epifania significa a manifestação do Senhor a todas as nações e todas as gentes. É uma aparição que transcende o particularismo de Israel, mas toca e alcança a toda “Orbe”.  O salmo responsorial desta festa litúrgica expressa: “os reis de toda a terra hão de adorá-lo e todas as nações hão de servi-lo” (Sl 71, 3). Se na noite de Natal o sinal anunciado pelos anjos aos simples pastores era o de um menino encontrado na manjedoura envolto em faixas com sua mãe (Lc 2, 16); nesta liturgia, o sinal se amplia a todo a universo e se estende também a estes magos advindos do longíssimo oriente para também contemplar e adorar o menino Jesus: “ Quando entraram na casa, viram o menino com Maria sua mãe. Ajoelharam-se diante dele e o adoraram” (Mt 2, 11). A solenidade da Epifania do Senhor é um evento da Graça que supõe e aperfeiçoa a natureza: Pois partindo do particularismo de Israel alcança os confins do universo o mistério da salvação de Cristo:  “Esse mistério, Deus não o fez conhecer aos homens das gerações passadas, mas acaba de o revelar agora, pelo Espírito, aos seus santos, apóstolos e profetas, os pagãos são admitidos à mesma herança, são membros do mesmo corpo, são associados à mesma promessa em Jesus Cristo por meio do evangelho” (Ef 3, 5-6).

O Evangelho nos fala do grande itinerário espiritual feito pelos magos. Saídos do longínquo oriente chegam a Jerusalém com uma pergunta fundamental e ainda muito atual: “onde está o rei dos judeus, que acaba de nascer? Nós vimos sua estrela no oriente e viemos adora-lo” ( Mt 2, 2). Os magos eram homens sábios, estudiosos dos astros, das leis da natureza. E foram conduzidos à Jerusalém por meio disto, uma espécie de sabedoria antiga que unia ciência e religião. Não fora a lei ou as Escrituras que os haviam inspirado este caminho, mas a sabedoria. São Justino mártir (165 dC), no início do II séc; já havia intuído sabiamente as sementes do Verbo Divino dispersas nas culturas além de Israel. O prólogo do Evangelho de João descreve também esta realidade da presença cósmica do Verbo eterno na criação: “ No princípio era o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus e todas as coisas foram feitas por meio Dele, e sem Ele nada do que foi feito se fez. Nele estava a vida e a Vida era a Luz do homens” (Jo 1, 1-4). Fora esta Luz que era com Deus no princípio a conduzir os magos até Jerusalém. Esta luz que ilumina os homens que guiaram estes sábios até Jerusalém.

E fora esta mesma luz que é também um nome da Graça que não permitiu que as trevas de pecado, do egoísmo e da escuridão em que estava mergulhado o rei Herodes, ofuscasse aquela luz da estrela que continuo a conduzir os magos atém o encontro com a profecia de Miquéias: “ E tu Belém na Judéia, de modo algum és a menor entre as principais cidades de Judá, porque de ti sairá um chefe que vai ser o pastor de Israel o meu povo” (Mt 2, 6).

Ao verem novamente a estrela os magos sentiram uma alegria muito grande (…) ajoelharam-se diante dele e o adoraram. Depois ofereceram seus presentes: ouro, incenso e mirra” (Mt 2, 10-11). Os magos guiados pelo infinito, pelos astros, pela sabedoria, foram levados ao íntimo, ao pequeno ao mais humilde. O Natal, a Epifania que ora celebramos une estas duas realidades que para muitos ainda é oposta, diametral, dialética e intocável. No entanto o mistério que hoje celebramos une o infinito com o íntimo, o eterno ao tempo a Graça e a Natureza presente no encontro dos magos que adoram a mãe e o menino na manjedoura de Belém.

O que têm nos guiado neste tempos de Natal? Como vamos conduzir nossa vida durante todo este 2018? Que estrela ou que luz nos guiará nestes tempos?