Solenidade da Assunção de Nossa Senhora ( Ap 12, 1-6; 10b; Sl 44; 1Cor 15, 20-26; Lc 1, 39-56) “Descer dos pedestais que criamos, para com humildade ser elevados com Maria” Celebramos neste final de semana a festa da Assunção de Maria. Dogma definido em 1950, durante o pontificado de Pio XII. Esta solenidade corresponde ao mistério da “dormição” de Maria, piedade que já era vivida na Igreja desde o V século no oriente e ocidente cristãos. É claro que pela palavra “assunção”, entendemos sempre uma subida, um elevar-se, uma espécie de progressão para o alto. Todas estas ideias servem em muito para o mistério Mariano deste domingo, no entanto poderíamos sem sombra de dúvida recordar que esta solenidade é para todo o povo de Deus um grande sinal da esperança cristã que contempla Maria como a feliz criatura aquela que acreditou, no que o Senhor lhe prometeu (Lc 1, 45). Que esperança então celebramos no dia de hoje? Que sentido esta solenidade têm em nosso mundo tão centrado no temporal? O que significa uma celebração do alto como é a Assunção de Maria à uma sociedade que se apresenta por vezes com valores tão superficiais e baixos? Deixemos nos conduzir para responder a estas perguntas pela virtude da esperança cristã. A esperança também nos eleva para o alto e não permite que a carga pesada das tribulações cotidianas, da Cruz tomada a cada dia venha sucumbirmos, mas acima de tudo supera as consequências dolorosas de um mundo marcado pelo pecado, pelo fechamento à Deus, pela desesperança na humanidade da qual Maria é modelo primeiro de restauração do que havia sido perdido no pecado. Esta solenidade é marcada por ser um sinal de contradição (Lc 2, 34): do bem sobre as sombras da morte, da fé sobre a descrença, da esperança cristã vencendo toda a desesperança do mundo. Isso já percebemos ouvindo as leituras desta solenidade: Na primeira leitura o livro do Apocalipse fala de um grande sinal no céu: “ Apareceu no céu um grande sinal; uma mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas” (Ap 12, 1). Esta é a visão que o autor do Apocalipse nos oferece: um sinal no céu, uma mulher grávida revestida pelo sol. São imagens interessantes. Nós talvez tão fatigados com as realidades do tempo presente, deixamos de lado os sinais de céu que Deus nos concede. Estes sinais do céu, da eternidade, podem ser encontrados também no aqui e agora. São tantas as pessoas que fazem o bem em nosso tempo. Tantos que com o seu amor e solidariedade “elevam outros” que estavam nos mais profundos abismos espirituais. Tantos que “assumem” gratuitamente a história dolorida de irmãos antes perdidos e agora recapitulados (Ef 1, 10). O que não dizer de santos de nosso tempo como um João Paulo II e uma Madre Teresa de Calcutá, que “gastaram toda a sua vida”, para que outros tivessem devolvida suas vidas. Estes são poucos, efêmeros, mas são sinais de Assunção, de subida de elevação em um tempo fortemente marcado pela “depressão”, seja como se têm apresentada: no módulo psicológico, cultural, mas também de valores e princípios, etc. Lucas, “o primeiro mariólogo”, no evangelho de hoje narra o encontro de Maria com sua prima Isabel. Talvez esteja aí um primeiro sinal de assunção: no encontro humano. Hoje realizamos “nossos encontros” de forma diferentes: A presença física, calorosa, pessoal, afetiva que realiza realmente um encontro, tem ficado para um segundo plano. Nos “encontramos” nos chats, nas redes sociais, nas aulas A DISTÂNCIA e como o próprio conceito diz, a distância se mantém, e com isso não acontecendo um encontro real. A insistência profética da saída e subida de Maria já grávida para visitar sua prima Isabel é para nós sinal profético. O encontro acontece entre ambas mulheres grávidas e então Deus se revela: “ Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança pulou de alegria no seu ventre e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. Com um grande grito exclamou; “Bendita é tu entre as mulheres e bendito o fruto do teu ventre. Como posso merecer que a mãe do Senhor me venha visitar” (Lc 1, 41-43). O Evangelho da visitação é extremamente atual para nós. Nele encontramos muitos sinais para nossa vida. Em primeiro lugar o fato da jovem Maria deslocar-se para a região montanhosa de Judá para servir sua prima anciã que como ela também estava grávida, revela que não existem portas fechadas, caminhos difíceis, dificuldades que impeçam servir ao outro. Mas é sempre preciso reaprender com Maria. Ela sim, quantas dificuldades teriam para paralisa-la. Mas foi servir: “ dirigindo-se apressadamente”. O Evangelho de hoje fala também das consequências desta “subida” de Maria às montanhas de Judá. Bem e as consequências não foram apresentadas por são Lucas na forma de reclamações, ou indignações, mas sim num profundo louvor. As consequências espirituais da “saída” de Maria para ir ao encontro de Isabel tornaram-se um dos hinos mais esplêndidos do Novo Testamento, e pelo qual a Igreja passou a conhecer o interior de Maria, sua alma, sua psique, a força que lhe movia: “ A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espirito exulta de alegria em Deus meu Salvador, porque olhou para a humildade de sua serva. Doravante todas as gerações me chamaram bem-aventurada” (Lc 1, 46-50). O magnificat é como uma revelação fotográfica desta alma e antecipa o futuro de Maria: “todas as gerações me chamaram bem-aventurada”! Que possamos redescobrir a força que existe na espiritualidade Mariana. Que possamos querer subir com ela aos céus, claro tendo de descer em primeiro lugar de muitos pedestais que as vezes subimos e nos iludimos. Descendo também de alguns padrões ditos pelo senso comum, que amar não vale a pena, servir não vale a pena, ser humilde não vale a pena em nosso tempo, diante dessas afirmações, Maria diz: “ derrubou os poderosos de seus tronos e elevou os humildes” (Lc 1, 52). Aprendamos com Maria que a grande subida ao céus, começa com pequenas descidas do coração junto aos pequeninos, sofredores e inteiramente em Deus: “alegra-te cheia de graça o Senhor é contigo” (Lc 1, 28).

 

Solenidade da Assunção de Nossa Senhora

( Ap 12, 1-6; 10b; Sl 44; 1Cor 15, 20-26; Lc 1, 39-56)

Celebramos neste final de semana a festa da Assunção de Maria. Dogma definido em 1950, durante o pontificado de Pio XII. Esta solenidade corresponde ao mistério da “dormição” de Maria, piedade que já era vivida na Igreja desde o V século no oriente e ocidente cristãos. É claro que pela palavra “assunção”, entendemos sempre uma subida, um elevar-se, uma espécie de progressão para o alto. Todas estas ideias servem em muito para o mistério Mariano deste domingo, no entanto poderíamos sem sombra de dúvida recordar que esta solenidade é para todo o povo de Deus um grande sinal da esperança cristã que contempla Maria como a feliz criatura aquela que acreditou, no que o Senhor lhe prometeu (Lc 1, 45).

Que esperança então celebramos no dia de hoje? Que sentido esta solenidade têm em nosso mundo tão centrado no temporal? O que significa uma celebração do alto como é a Assunção de Maria à uma sociedade que se apresenta por vezes com valores tão superficiais e baixos?

Deixemos nos conduzir para responder a estas perguntas pela virtude da esperança cristã. A esperança também nos eleva para o alto e não permite que a carga pesada das tribulações cotidianas, da Cruz tomada a cada dia venha sucumbirmos,  mas acima de tudo supera as consequências dolorosas de um mundo marcado pelo pecado, pelo fechamento à Deus, pela desesperança na humanidade da qual Maria é modelo primeiro de restauração do que havia sido perdido no pecado.

Esta solenidade é marcada por ser um sinal de contradição (Lc 2, 34): do bem sobre as sombras da morte, da fé sobre a descrença, da esperança cristã vencendo toda a desesperança do mundo. Isso já percebemos ouvindo as leituras desta solenidade:

Na primeira leitura o livro do Apocalipse fala de um grande sinal no céu: “ Apareceu no céu um grande sinal; uma mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas” (Ap 12, 1). Esta é a visão que o autor do Apocalipse nos oferece: um sinal no céu, uma mulher grávida revestida pelo sol. São imagens interessantes. Nós talvez tão fatigados com as realidades do tempo presente, deixamos de lado os sinais de céu que Deus nos concede. Estes sinais do céu, da eternidade, podem ser encontrados também no aqui e agora. São tantas as pessoas que fazem o bem em nosso tempo. Tantos que com o seu amor e solidariedade “elevam outros” que estavam nos mais profundos abismos espirituais. Tantos que “assumem” gratuitamente a história dolorida de irmãos antes perdidos e agora recapitulados (Ef 1, 10).

O que não dizer de santos de nosso tempo como um João Paulo II e uma Madre Teresa de Calcutá, que “gastaram toda a sua vida”, para que outros tivessem devolvida suas vidas. Estes são poucos, efêmeros, mas são sinais de Assunção, de subida de elevação em um tempo fortemente marcado pela “depressão”, seja como se têm apresentada: no módulo psicológico, cultural, mas também de valores e princípios, etc.

Lucas, “o primeiro mariólogo”, no evangelho de hoje narra o encontro de Maria com sua prima Isabel. Talvez esteja aí um primeiro sinal de assunção: no encontro humano. Hoje realizamos “nossos encontros” de forma diferentes: A presença física, calorosa, pessoal, afetiva que realiza realmente um encontro, tem ficado para um segundo plano. Nos “encontramos” nos chats, nas redes sociais, nas aulas A DISTÂNCIA e como o próprio conceito diz, a distância se mantém, e com isso não acontecendo um encontro real. A insistência profética da saída e subida de Maria já grávida para visitar sua prima Isabel é para nós sinal profético. O encontro acontece entre ambas mulheres grávidas e então Deus se revela: “ Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança pulou de alegria no seu ventre e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. Com um grande grito exclamou; “Bendita é tu entre as mulheres e bendito o fruto do teu ventre. Como posso merecer que a mãe do Senhor me venha visitar” (Lc 1, 41-43).

O Evangelho da visitação é extremamente atual para nós. Nele encontramos muitos sinais para nossa vida. Em primeiro lugar o fato da jovem Maria deslocar-se para a região montanhosa de Judá para servir sua prima anciã que como ela também estava grávida, revela que não existem portas fechadas, caminhos difíceis, dificuldades que impeçam servir ao outro. Mas é sempre preciso reaprender com Maria. Ela sim, quantas dificuldades teriam para paralisa-la. Mas foi servir: “ dirigindo-se apressadamente”.

O Evangelho de hoje fala também das consequências desta “subida” de Maria às montanhas de Judá. Bem e as consequências não foram apresentadas por são Lucas na forma de reclamações, ou indignações, mas sim num profundo louvor.

As consequências espirituais da “saída” de Maria para ir ao encontro de Isabel tornaram-se um dos hinos mais esplêndidos do Novo Testamento, e pelo qual a Igreja passou a conhecer o interior de Maria, sua alma, sua psique, a força que lhe movia: “ A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espirito exulta de alegria em Deus meu Salvador, porque olhou para a humildade de sua serva. Doravante todas as gerações me chamaram bem-aventurada” (Lc 1, 46-50).

O magnificat é como uma revelação fotográfica desta alma e antecipa o futuro de Maria: “todas as gerações me chamaram bem-aventurada”!

Que possamos redescobrir a força que existe na espiritualidade Mariana. Que possamos querer subir com ela aos céus, claro tendo de descer em primeiro lugar de muitos pedestais que as vezes subimos e nos iludimos. Descendo também de alguns padrões ditos pelo senso comum, que amar não vale a pena, servir não vale a pena, ser humilde não vale a pena em nosso tempo, diante dessas afirmações, Maria diz: “ derrubou os poderosos de seus tronos e elevou os humildes” (Lc 1, 52).

Aprendamos com Maria que a grande subida ao céus, começa com pequenas descidas do coração junto aos pequeninos, sofredores e inteiramente em Deus: “alegra-te cheia de graça o Senhor é contigo” (Lc 1, 28).

 

 

“A importância de fazer travessias”

XIX Domingo Comum

Neste domingo a liturgia da Palavra nos apresenta o belo evangelho onde Jesus caminha sobre as águas. É um texto rico de imagens. Poderíamos meditá-lo através de variadas nuances devido a riqueza de seus personagens e figuras teológicas. Mas precisamos sempre escolher uma parte do texto para partilhá-lo com nossos irmãos. Nem sempre “será a melhor parte”, mas o fragmento que o bom Deus nos foi inspirando ao coração.

Jesus a pouco havia feito diante de seus discípulos e multidão um grande sinal. Havia multiplicado os pães para “ cerca de cinco mil homens” (Mt 14, 21), e seus discípulos ficaram saciados: “ todos comeram e ficaram saciados” (Mt 14, 20).

Mas logo após o Senhor Jesus dá uma ordem aos seus. Do deserto que estavam, antes famintos, com fome e sede, o Senhor: “forçou os seus discípulos a embarcar e aguardá-lo na outra margem, até que ele despedisse as multidões” (Mt 14, 22). Multidões, deserto e agora mar, lugares naturais e geográficos, mas que em Cristo vão se tornando lugares teológicos e epifânicos de sua revelação. E é desta travessia para o outro lado do mar que acontece mais um profundo reconhecimento da identidade de Cristo, o evangelho de hoje irá ser concluído com a seguinte afirmação: “ Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus” (Mt 14, 33).

Os discípulos para chegarem a esta constatação teológica acerca de Jesus, tiveram de passar por muitas situações; tiveram de superar muitos mares revoltos e ondas fortes e violentas que davam contra sua barca (Mt 14, 24).

Conosco acontecem situações semelhantes à dos discípulos de Cristo. Também a vida por vezes se nos apresenta surpreendente. Como os 12 somos ora “saciados, plenos, confirmados em nossa fé”, no entanto pouco tempo depois já estamos mergulhados nas mais inusitadas tempestades da vida. Na primeira leitura, Elias, o maior dos profetas de Israel, após ter conseguido a vitória sobre os “ídolos de Baal” e ter vencido os seus 450 profetas se vê sozinho e com medo no deserto: “Elias teve medo, e partiu para salvar a sua vida. Chegando a Bersabéia, em Judá, deixou ali o seu servo,
e andou pelo deserto um dia de caminho. Sentou-se debaixo de um junípero e desejou a morte: Basta, Senhor, disse ele; tirai-me a vida, porque não sou melhor do que meus pais
” (1 Rs 19, 3-4). E foi paradoxalmente neste momento que fez sua mais profunda experiência de intimidade com Deus, no monte Horeb onde Deus o mandou: “ Sai e permanece sobre o monte diante de Deus, porque o Senhor vai passar” (1 Rs 19, 11);

O profeta Elias aí permaneceu, obediente a voz de Deus. Não foi fácil para o profeta sentir a presença do Senhor. Não é nada fácil para nós também. É preciso sintonia, discernimento, perseverança, confiança. São muitas vozes que passam por nossos ouvidos cotidianamente. Hoje em dia há muita gente apontando e afirmando onde Deus está: nos programas televisivos religiosos, nos milagres, nas curas causadas em troca de generoso dizimo de pobres fiéis, realmente nos encontramos as vezes perdidos, em meio a tantos ruídos. É bom reaprender com o minucioso discernimento do grande profeta: “ (…) veio um vento impetuoso (…) mas o Senhor não estava no vento; (…) veio o terremoto (…); veio o fogo (…) mas o Senhor não estava no fogo. E depois ouviu-se uma leve brisa. Ouvindo isso, Elias cobriu o rosto com o manto e pôs-se à entrada da gruta” (Rs 19, 12-13ª); Elias soube esperar, soube discernir a voz do Senhor no meio dos ruídos enganadores. Nós neste domingo somos chamados por esta palavra a reconhecer a voz do Senhor que passa muito perto de nosso coração: “ Quero ouvir o que o Senhor irá falar. É a paz que ele vai anunciar. Está perto a salvação dos que o temem e a glória habitará em sua terra” (Sl responsorial da missa de hoje);

O Evangelho deste domingo nos convida a reconhecer o Senhor para além das tempestades da vida. Como a barca de Pedro e seus discípulos fora atingida por ventos fortes e contrários, mas não derrubada, assim é também a Barca da Igreja, a barca onde navega a nossa vida. Lembremos o apóstolo Paulo: “ somos atribulados de todos os lados, mas não esmagados; postos em extrema dificuldade, mas não vencidos pelos impasses, perseguidos mas não abandonados, prostrados por terra, mas não aniquilados” (2 Cor 8ss); esta dialética que vivem os cristãos no mundo é o signo da cruz, seu e nosso mais idôneo sinal. É nossa grande garantia de fidelidade a missão do Senhor, pode parecer às vezes contraditória, pois com certeza gostaríamos de gozar sempre de paz e tranquilidade em nossa caminhada de fé. Mas nem sempre é assim, as vezes Deus mesmo nos ordena a entrar na Barca e enfrentar os ventos contrários do tempo para chegar a outra margem.

Quando tocarmos a “outra margem do rio”, sim aí teremos um “shalom” em plenitude, uma perfeita bonança espiritual e humana. Por enquanto vamos fazendo a nossa travessia, Jesus nos encontra lá, mas no seu corpo místico que é a Igreja navega conosco. Encontraremos ainda muitos ventos, tempestades, mas Ele conduzirá sempre a Igreja que somos nós. Não esqueçamos é preciso fazer as longas travessias da vida! Elas podem ser dolorosas mas somente por elas reconheceremos que conosco estava o Senhor!

 

 

 

Solenidade da Transfiguração, festa da visão, da escuta e da memória do Senhor!

Festa da Transfiguração do Senhor

(Dn 7, 9-14; Sl 96; 2 Pd 1, 16-19; Mt 17, 1-9)

Celebramos neste final de semana a festa da transfiguração do Senhor. Solenidade muito antiga na Igreja que remonta o VI século no oriente e X séc. na Igreja do ocidente. A liturgia deste final de semana é permeada por imagens muito expressivas e simbólicas. Falar de transfiguração nos dias de hoje sugere um grande desafio, pois experimentamos a nossa volta um mundo que vai se desfigurando: desde o ponto de vista ecológico, econômico, político e até humano. Há “infelizmente” bem mais razões de “desfiguração” do que sinais transfigurados. O desafio talvez esteja exatamente neste ponto: Como encontrar novamente os vestígios que a transfiguração do Senhor deixa a nossa volta? Como não se deixar aniquilar ou desesperar com as feridas da desfiguração em nosso no tempo?

O primeiro sinal de transfiguração que podemos encontrar está nos sentidos, mais precisamente, no escutar: Temos “ouvido”, muitas idéias, muitas informações e notícias que trazem a imagem de um mundo desfigurado, de um tempo sem saídas e esperanças. E de tanto “dar ouvidos” a essas más notícias que nos absorvem, nossa confiança sente-se esmorecida e fragilizada. Claro que não dá para “fechar os ouvidos” a tantas informações que nos chegam, mas é preciso discernir melhor e sintonizar novamente nossa escuta em direção ao Filho. No alto do Tabor após Pedro, Tiago e João após terem feito a memorável experiência da transfiguração do Senhor, ante a sombra da nuvem que os encobria e os amedrontava, a voz do Senhor os exorta: “ Este é meu Filho amado, no qual pus todo meu agrado. Escutai-o (…) Jesus se aproximou e tocou neles e disse: Levantai-vos e não tenhais medo” (Mt 17, 5-7).

Um outro sentido que nos desafia ao encontro dos “vestígios” da transfiguração está na visão e por consequência na memória: Pode até parecer contradição, pois sabemos que a sociedade da imagem em que vivemos, tem posto diante de nossos olhos um espetáculo de horrores. Mas o que vale para a “escuta”, vale também a “visão”. Ela também precisa ser recuperada, elevada, purificada. No Evangelho deste domingo Jesus tomou consigo seus três discípulos e os conduziu “a um lugar a parte sobre uma alta montanha” (Mt 17, 1). Muitas vezes se faz necessário “sair e subir” para ver melhor, com mais amplitude, com mais serenidade a realidade que nos cerca. Lá no alto a experiência de Pedro e seus companheiros foi tremenda e inesquecível: “ E foi transfigurado diante deles; o seu rosto brilhou como o sol e as suas roupas ficaram brancas com a luz” (Mt 17, 2) e ainda, “ mas sim por termos sido testemunhas oculares de sua majestade (…) quando do seio da esplendida glória se fez ouvir aquela voz que dizia; Este é o meu Filho bem-amado, no qual ponho o meu bem querer. Esta voz, nós a ouvimos do céu, quando estávamos com ele no monte santo” (2 Pd 1, 17-18). Esta foi uma experiência da visão e da memória, os apóstolos foram testemunhas oculares do mistério da transfiguração do Senhor. E esta visão permaneceu na memória e no coração de Pedro, ao ponto de que aquele registro espiritual, transformou-se em Palavra de Deus para todos nós.

A experiência de transfiguração que somos chamados a fazer tocam nossos sentidos. Também nós somos testemunhas do Senhor em nosso tempo. Acontece que nem sempre vivemos tempos fortes de transfiguração. Muitas vezes estamos com a vida mergulhada em problemas, tribulações e não conseguimos ver mais a luz. Nestas horas é preciso movimentar-se interna e externamente: É preciso fazer como os discípulos, “sair e subir”. Se faz necessário um movimento interno de saída de si: dos laços que nos amarram, dos problemas que nos cercam, de um círculo vicioso que vai roubando de nossa vida a visão da fé, a memória da misericórdia de Deus em nós e a escuta daquela voz que um dia falou ao nosso ouvido: “Este é meu Filho amado, escutai-o”!

Mas se faz necessário “sair e subir”. A experiência que Pedro e seus companheiros fizeram no Tabor, fora também uma experiência de saída e memória.

Assim também se faz o Tabor cotidiano em nós! Ele é sempre uma decisão pelo alto, pela luz que um dia “ que como lâmpada brilha em lugar escuro, até clarear o dia (…) em nossos corações” (2 Pd 1,19), de escuta da voz do Filho amado e de memória das misericórdias do Senhor em nossa vida.

 

 

 

Necessitamos mais do que qualquer coisa de sabedoria.

XVII Domingo comum

(Sb 13.16-18; Sl 85; Rm 8, 26-27; Mt 13, 24-43)

A mensagem da liturgia neste final de semana nos coloca diante de um dos insubstituíveis dons de Deus para a vida do homem: o dom da sabedoria. Em tempos difíceis como o nosso, ela têm se tornado indispensável em nossas escolhas, discernimentos e decisões.

A liturgia deste domingo vem nos recordar que Deus a concede aos que lhe suplicam. E esta “conquista” está ao alcance de todos nós. Quantas vezes nos encontramos em situações complicadas e espinhosas e acabamos por tomar atitudes precipitadas por não termos recorrido à sabedoria? E também seu contrário: Quantas vezes percebemos brotar dentro de nós mesmos, uma palavra, um pensamento, um conselho, que veio do alto, como um dom gratuito de Deus e acabou por trazer luz a momentos onde só víamos sombras: ali estava o socorro da sabedoria do Senhor.

Em nossos dias este dom é mais que necessário. Se observarmos o status quo da política brasileira, iremos perceber que tem sobrado da parte de nossos governantes, outros valores: muita astucia, negociações interesseiras, transações milionárias em troca de poder, mas pouca sabedoria divina. Percebemos neste ambiente aquilo que são Paulo definiu como sabedoria “deste mundo”, centrada apenas em si: “ ninguém se engane a si mesmo, se alguém dentre vós se tem por sábio neste mundo, faça-se louco para se tornar sábio” (3, 1 Cor 18), enquanto que a sapiência querida por Deus, exige uma boa dose de “loucura da cruz” (1 Cor 18), no sentido paulino do termo, contradizendo os valores apregoados pelo mundo. A sabedoria divina está muito mais próxima da caridade cristã, ela como o amor: “ é paciente e bondosa. Não é invejosa e nem se orgulha. Não maltrata, não procura seus próprios interesses e se alegra com a verdade” (1 Cor 13, 4-5).

E desta sabedoria que a Palavra de Deus medita neste final de semana. Deste dom gratuito de Deus disponível a nossas mãos que somos chamados a refletir, pedir e suplicar.

O modelo salomônico encontrado na primeira leitura é urgente aos nossos dias, a nossos governantes e àqueles que receberam a missão de governar-pastorear a Igreja. Diante dos grandes desafios do governo de Israel, o Senhor lhe faz uma aparição no meio dos sonhos e lhe diz: “ Pede o que desejas e eu te darei” (1 Rs 3, 5). O adolescente Salomão poderia pedir tudo: Poderia ser levado pelo afã de sua pouca experiência e desejar o poder, dinheiro, riquezas, a morte dos inimigos, mas não. Demonstra já, para aqueles que desejam possuir a sabedoria seu melhor caminho: a humildade. Pede a Deus: “um coração compreensivo, capaz de governar o teu povo e de discernir entre o bem e o mal. Do contrário, quem poderá governar este teu povo tão numeroso? “ (1 Rs 3, 9).

Olhar a realidade a partir da sabedoria de Deus é a mensagem presente na segunda leitura. Continuando a leitura da epístola aos Romanos, hoje Paulo nos faz um elevado desafio: Perceber que nosso Deus está agindo mesmo que pareça exatamente o contrário: “ sabemos que tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados a salvação segundo o projeto de Deus” ( Rm 8, 28). Desafio lançado por são Paulo, desafio difícil de ser acolhido por nós. Queremos estar sempre no controle de tudo. Não aceitamos facilmente que as coisas não saiam como havíamos planejado. E é aqui que reside o problema: É preciso ter no coração a sabedoria do Senhor que diz: “ porque os meus pensamentos, não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos, são os meus caminhos. Porque assim como os céus, são mais altos que a terra, assim são os meus caminhos mais altos que os vossos caminhos e os meus pensamentos, mais altos que os vossos” (Is 55, 9).

No Evangelho deste domingo continuamos nossa meditação sobre as parábolas do Reino dos céus. Aqui o Reino é comparado com algo muito valioso: um tesouro encontrado no campo e uma pérola de grande valor. Lembremos como o livro dos Provérbios descreve a sabedoria, que adjetivos encontrou para defini-la: “ recebe meu ensino e não a prata, preferi o conhecimento antes que o ouro puro. Porquanto melhor é a sabedoria do que as mais finas joias, e de tudo o que se possa ambicionar, nada se compara a ela” (Prov.8, 10-11).

Para o autor dos Provérbios a Sabedoria é mais valiosa do que qualquer tesouro. As duas parábolas revelam algo muito semelhante: “ O reino dos céus é como um tesouro escondido no campo. Um homem o encontra e o mantém escondido, depois vende todos os seus bens e compra aquele campo. O reino dos céus também é como um comprador que procura pérolas preciosas. Quando encontra uma pérola de grande valor, vende todos os seus bens e compra aquela pérola” (Mt 13, 45-46).

Em jogo no evangelho está o valor que damos as coisas. A descoberta do reino simbolizada no tesouro ou na pérola de grande valor, fez com que aqueles homens deixassem tudo para possuir o reino. Somente a sabedoria de Deus nos leva a tomar esta decisão. Somente ela, para nos recordar que ganhar o reino dos céus vale mais do que qualquer bem aqui na terra. Somente a sabedoria da Cruz e não do “mundo”, nos auxiliará na escolha do bem maior, dos tesouros do céu, onde nem a traça, nem a ferrugem consomem, e onde nem os ladrões não minam e nem roubam” (Mt 6, 22) .

Necessitamos mais do que qualquer coisa da sabedoria de Deus. Para escolher sempre por Ele.

A paciência tudo alcança!

XVI Domingo do Tempo Comum
(Sb 12, 13.16-19; Sl 85; Rm 8, 26-27; Mt 13, 24-43)

Uma tendência natural dos homens é a de dividir a humanidade em duas grandes categorias: os bons de um lado e os maus de outro. É claro que esta tendência é presente também no plano religioso. Gostamos de invocar benção e prosperidade sobre nós mesmos, nossa família, nossos projetos, mas aos maus que caiam as maldições, aos inimigos, algum tipo de desprezo.
Está não é a sadia visão cristã, ela lembra mais uma corrente filosófica que entrou no cristianismo como um fermento levedando nossa imagem do Pai misericordioso e o transformando em um divisor que separa bons de um lado e maus de outro. A esta visão dualista do mundo chamamos maniqueísmo, não cristianismo.
A liturgia de hoje nos joga às searas mais amplas. Não nega de forma alguma a existência do mal, da corrupção, do pecado e da queda, mas não trata estes problemas como pensavam os maniqueístas, como algo fora de nós mesmos. Até por que, seria muito cômodo aceitar uma espécie de queda além de nós, pois não nos comprometeria em nada com ela. Nem haveria desta forma alguma possibilidade de pecado, pois não existiria também liberdade de consciência. Para esta visão o homem é como uma marionete, que um princípio mal o manipula.
A Palavra deste domingo não toma caminhos filosóficos. Ela é bem mais concreta e direta. Ela aponta para um aspecto da vida humana que parece andar escasso em nossos dias. É um valor, uma virtude, mas que no pragmatismo de nosso tempo, tem sido pouco valorizada: Falamos de paciência!
Paciência esta que começa com nossa amizade com Deus. Paciência que reconhece o tempo de Deus em nossa vida. As demoras de Deus em nossa vida, os longos silêncios e consolos do Senhor e acima de tudo isso, aceitar que Nosso Deus tem muita paciência conosco: “Vois porém, sois clemente e fiel. Sois amor paciência e perdão” (Sl 85, 15). Da paciência com Deus à paciência conosco mesmos. Andamos muito impacientes hoje em dia. O trânsito nas grandes cidades é somente um dos indicadores. Mas nossa impaciência chega também a vida espiritual. É lá que se revela e é de lá que emergem todas as outras. Confundimos Deus com um acelerador, como alguém que resolva de imediato nossas fraquezas e mazelas. Mas com Deus isso não é possível. Pois como o salmista disse, Ele é paciente conosco!
Nossos grandes santos já conheciam os degraus deste caminho de fé. Paulo Apóstolo afirmava: “ De bom grado, eu me gloriarei das minhas fraquezas, para que a força de Cristo habite em mim. Eis por que me comprazo nas fraquezas, nas injúrias e nas perseguições (…) Pois quando me sinto fraco é, então que sou forte” (2 Cor 12, 9-10). Também Santa Tereza D´Avila, mestre em vida espiritual depois de um extenuado tempo de silêncio de Deus e aridez em sua vida espiritual, compõe um belíssimo hino de reconhecimento da ação de Deus mesmo em suas fraquezas: “ Nada te perturbe, nada te espante, tudo passa, Deus não muda. A paciência tudo alcança. A quem tem a Deus nada falta, só Deus basta” (Santa Tereza D´Avila).
A liturgia neste final de semana, convida-nos a lançar nosso olhara sobre a paciência de Deus para conosco. É um exercício difícil. Somos muito apressados. Mas o caminho de crescimento na vida do Espírito, exige de cada um de nós, aceitar, reconhecer, amar, cuidar também daqueles duros sinais de fraquezas e pecados que emergem em nossa vida, confiantes que a seu tempo, Deus trabalha em nós, mesmo nossas fragilidades: “ O Espírito vem em socorro de nossas fraquezas, pois nós não sabemos o que pedir, nem como pedir; é o próprio Espírito que intercede em nosso favor, com gemidos inefáveis” (Rm 8, 26).
As 3 parábolas deste final de semana demonstram um Deus misericordioso e paciente que espera que a boa semente lançada no campo, o pequenino grão de mostarda e o fermento na massa, tenham o tempo necessário para o crescimento e o desenvolvimento. Assim também acontece com o que Deus semeou em nós. Às vezes é pequenino como o grão de mostarda. Parece em um primeiro momento que não irá vingar. Surge o joio, o inço, a sujeira, a semente parece que será sufocada pela presença de ervas daninhas, mas ao final irá crescer: “ e quando cresce ficar maior do que as outras plantas. E torna-se uma árvore, de modo que os pássaros fazem ninhos em seus ramos” (Mt 13, 32) .
Respeitemos o tempo de Deus em nós. Não nos assustemos se vemos crescer também o joio, ele é também causa de crescimento! O joio, as fraquezas, as quedas, devem ser motivos de amadurecimento, são na lógica de Deus um bom fertilizante para nossa fé.

“No tempo certo, Deus colherá sempre os melhores frutos”!

XV Domingo do Tempo comum
( Is 55, 10-11; Sl 64; Rm 8, 18,23; Mt 13, 1-23)

Que sementes lançamos no mundo? Que valores deixamos para outras gerações? Com que significados marcamos a vida das pessoas que nos cercam? Que sementes estamos espalhamos ao nosso redor? Com estas perguntas iniciamos nossa meditação deste final de semana. A ideia central está mais nos sinais que vamos deixando no caminho, do que nos grandes conteúdos que possuímos. Lembro sempre de minha catequista. Uma jovem dedicada e simples. Ela não tinha lá muita erudição teológica. Naquela época os (as) catequistas não se preparavam tanto, não havia à disposição como hoje tantos cursos de formação catequética e pastoral. No entanto, jamais a esqueci. Há décadas que não há vejo, mas nunca esqueço o que ela com muita simplicidade e generosidade semeou durante dois anos em mim.
Bem mais do que conteúdos (que são muito importantes), lembro mesmo é de sua dedicação e do amor com que transmitia aqueles primeiros conteúdos da fé cristã para nós um grupo de pré-adolescentes dando nossos primeiros passos na fé.
Este momento de minha vida, com certeza é lugar comum de muitas experiências similares. E está em perfeita sintonia com a liturgia deste final de semana, pois revela a força da Palavra de Deus que como em Isaías: “ a palavra que sair da minha boca: não voltará vazia; antes, realizará tudo que for de minha vontade e produzirá os efeitos que pretende ao envia-la” (Is 55, 11).
Neste domingo o evangelho fala da parábola do semeador. É um texto belo, simples de compreender e profundo. Jesus entrou em uma barca e grande multidão reuniu-se em sua volta e começou a ensiná-los. Interessante pensar está forma de “mesa da palavra” que Cristo se utiliza: a barca, símbolo mais antigo da Igreja, diante de uma multidão que ficava de pé na praia ( Mt 13, 2). É um belo símbolo da Igreja, e de nossas assembleias dominicais. Às vezes não sabemos quem nos ouve, seus nomes ou até mesmo como ecoa a Palavra em suas vidas, mas é dever nosso sempre proclamá-la como é um dever do semeador, semear ainda que não possa mensurar como serão os frutos de sua colheita.
A parábola inicia com a imagem de um semeador saindo a lançar suas sementes. Enquanto semeava quatro foram os locais em que caíram suas sementes. No texto são 4 tipos de solo. Uma à beira do caminho, umas em solo pedregoso, algumas em solo espinhoso e também em terra boa. Há neste texto alguns elementos que favorecem o semeador, por exemplo o fato de sempre sair e semear e claro a força própria semente, que é a Palavra de Deus. Mas há também alguns fatores que lhe são antagônicos, como por exemplo a qualidade do terreno em teve de semear. A parábola do semeador revela que para que a semente dê os frutos que são esperados é importante a qualidade do terreno em que a semente foi lançada. É claro que cada terreno expresso no texto bíblico remonta a nós ouvintes situações especificas da vida, revela que o terreno deve ser profundo, para que a semente encontre mais possibilidades de gerar cem, sessenta e trinta frutos por semente (Mt 13, 9).
Mas sabemos também que estes solos são metáforas de nossa vida ou melhor de nossa capacidade de acolher a boa semente da Palavra. E como se apresentam estes terrenos, assim, muitíssimas vezes também nos apresentamos. Quem já não sentiu que existem muitas forças querendo “roubar” de nós a Palavra de Deus? São Paulo na carta aos Efésios declara que: “nossa luta não é contra os homens, mas contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo das trevas” (Ef 6, 11). Não sejamos inocentes ou ingênuos, mas o inimigo de Deus está aí, rondando àqueles sedentos da escuta da Palavra, para tira-los do caminho do Senhor. Quem já não experienciou alguma vez na vida, sua alma assemelhar-se a um solo pedregoso e sem profundidade? A semente foi recebida com alegria, mas os sofrimentos e a sensação de deserto espiritual não permitiram que a semente desse frutos. Quem de nós recebeu a Palavra como que entre os espinhos? Quem já não passou por sufocos em sua vida? Quem de nós já não teve a sensação de estar oprimido ou deprimido cercado por espinhos, sem ar para respirar? Que de nós já não se deixou iludir pelas riquezas sufocando o dinamismo da Palavra de Deus.
Todas estas imagens são assinaladoras de algo que está no outro lado do semeador. De uma realidade presente na vida de seu interlocutor. Para o semeador é claro que está realidade é um solo ainda não fecundo para a colheita dos frutos. No entanto para os pregadores, os catequistas, os semeadores da Palavra, do outro lado de sua semeadura está o problema do mal: aqui na parábola se apresenta como nas tentações sob três manifestações: No demônio que quer roubar a Palavra de Deus em nós; no mistério da iniquidade e tentações e por fim no ministério do sofrimento.
Mas todas elas apontam também para realidades que precisam ser superadas em cada um de nós. O apóstolo Paulo na Segunda leitura é extremamente positivo quanto a isso: Em relação ao mistério do sofrimento ele afirma: “eu entendo que os sofrimentos do tempo presente nem merecem ser comparados com a glória que deve ser revelada em nós” (Rm 8, 18). Há aqui algo que precisa ser integrado em nós. Vivemos uma ditadura do não sofrer. Não se pode mais sofrer na vida. Algumas religiões até proíbem que isso aconteça a seus fiéis comparando o sofrimento humano a um castigo de Deus. Paulo pelo contrário entende e acolhe o sofrimento, mas sabe que algo bem maior há de se manifestar em nós. Paulo ainda fala sobre o mistério da iniquidade e que este também será superado: “ pois a criação ficou sujeita à vaidade, não por sua livre vontade, mas por vontade daquele que a sujeitou, também ela espera ser libertada da escravidão e corrupção, para de fato participar da glória dos filhos de Deus” (Rm 8, 20). O mistério da iniquidade foi vencido na morte de Cruz de Cristo. Naquela semente que caiu na terra, morreu e deu muitos frutos, uma árvore esplendorosa que é sua Igreja, que continua a semear esta Palavra na terra.
Voltemos agora ao semeador. Ele ainda há de encontrar terrenos hostis a Palavra de Deus, mas continuará semeando sempre. Pois no final de tudo quando Deus será tudo em todos (1 Cor 15, 16), veremos com olhos purificados da fé que valeu muito a pena lançar a Palavra.
Valeu a pena a simples semeadura de minha primeira catequista, que semeou mais com o coração, sem ao menos saber o que um dia seria colhido!

 

 

“ O caminho de ir para cima é ir para baixo” (Francisco de Assis, dos Escritos de Egídio de Assis)

XIV Domingo do Tempo comum

( Zc 9, 9-10; Sl 144; Rm 8, 9-11-13; Mt 11, 25-30)

Começo a meditação deste domingo com uma belíssima reflexão de Santo Agostinho sobre a humildade, tema recorrente nas leituras desta liturgia: “ Nosso Senhor Jesus Cristo, como querendo dar uma lição mais sublime aos que dele se admiravam e conduzir para as secretas e eternas realidades a estes espíritos atentos e como o suspenso fascínio de seus prodígios, lhes diz: Vinde a mim todos vós que estais cansados sob o peso de vossos fardos e, eu vos aliviarei. Tomai sobre mim o meu jugo. Ele não disse: Aprendei de mim a ressuscitar mortos de 4 dias, mas aprendei de mim que sou manso e humilde de coração. A solidíssima humildade é mais poderosa e mais segura que os cumes soprados dos ventos” (De Trinitate, 8 7).

O tema recorrente da liturgia deste final de semana está na humildade. Ela é assunto sempre antagônico e contraditório frente as escolhas que as vezes as circunstâncias da vida nos levam a tomar. Muitas vezes colocamos nossa segurança, nossa paz, nossa confiança nos grandes, nos poderes que o mundo nos oferece, nas guerras, no dinheiro, na dominação, enfim, em uma segurança que tem representado para todo nós alguma manifestação de grandiosidade. Por exemplo: diante do problema da segurança que é real em nossos dias, muitas vezes ouvimos até mesmo dentro do contexto católico discursos apoiados na violência, no extermínio, como se esta saída fosse resolver as reais e concretas causas da violência do nosso país…. No entanto o caminho que a liturgia nos oferece é bem outro. Se começarmos lendo a segunda leitura iremos perceber que são Paulo desconfia de assegurar-se até mesmo da força da “carne”: “ vós não viveis segundo a carne, mas segundo o Espírito que mora em vós (…) portanto temos uma dívida não com a carne, para vivermos segundo a carne, pois se viverdes segundo a carne morrereis, mas se, pela espírito, matardes o procedimento carnal, então vivereis” (Rm 8. 13). Quando Paulo contrapõe espírito e carne não está pensando em linha filosófica dualista, de uma separação total de carne x espírito como pensava o mundo grego. Não é isto que o apóstolo quer aprendamos. Ele está pensando exatamente nas consequências de uma vida segundo o espírito e o seu antagonismo, isto é, uma vida conduzida pela carne, ou pelo egoísmo. Paulo tem presente que a consequência se dá nos frutos que ambas deixam à existência humana: “ ora as obras da carne são manifestas: fornicação, impureza, libertinagem, idolatria, ódio, rixa, ciúmes, ira, discórdias, divisões, etc (…) mas o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, autodomínio (…) pois os que são de Cristo Jesus crucificaram a carne com suas paixões e seus desejos” (Gl 5, 19-20.22-24).

Claro, há uma “violência” positiva presente na epistola paulina. É a vitória da paz sobre a guerra, do perdão sobre a divisão e discórdia, do espírito sobre a carne. Se há algo a ser destruído é a mentalidade carnal, centrada em si, e que só nos tem levado para longe do Senhor: “ mas pelo espírito matardes o procedimento carnal”!

Os textos evangélicos continuam insistindo no tema da humildade e dos pequeninos. O profeta Zacarias anuncia a vinda de um rei humilde: “ Exulta cidade de Sião, rejubila cidade de Jerusalém. Eis que vem teu rei ao teu encontro; ele é justo, ele salva; é humilde e vem montado num jumento, um potro, cria de jumenta(…) e anunciara a paz às nações” (Zc 9, 10). Parece ironia se lembrarmos como os reis entravam nas cidades, montados sobre os melhores cavalos e cercados de toda pompa e segurança militar. Este rei, que é figura de Cristo entrando em Jerusalém, não porta consigo armas de guerra e sim a paz às nações…

No entanto sabemos que nos dias de hoje paira sobre todos nós certa desconfiança nos valores deixados pelo Senhor nas bem-aventuranças. Há nos corações de muitos homens e mulheres de bem cristãos e não professos o descrédito da força bem. Alguns até falam no cansaço dos bons, isto é, daqueles, que ainda poderiam fazer a diferença na sociedade tão dividias em discórdias lançando as verdadeiras sementes da paz: “misericórdia e piedade é o Senhor, ele é amor é paciência, é compaixão. O Senhor é muito bom para com todos, sua ternura abraça toda a criatura” (Sl 144, 2).

Nosso Senhor também sabe disso. E sua palavra neste final de semana permeia também esta realidade. Há um real cansaço deixado pelo medo, pela violência, pelas injustiças, pelos escândalos de nossos políticos, e até mesmo por religiosos que preferiram devido às suas fraquezas e pecados, confiar mais na carne, no poder, no dinheiro, do que nutrir dentro de si mesmo, o essencial que está na interioridade espiritual, vinculo profundo do amor do Senhor.

Cristo com a palavra “vinde”, nos faz neste final de semana um convite revolucionário: “Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso de vossos fardos e eu vos darei descanso” (Mt 11, 28). Este “vinde” recorda o discurso escatológico de Mateus: “ Vinde benditos de meu Pai…” (Mt 25 ss); convite para aqueles que ainda acreditam nas bem-aventuranças. Mas hoje este “vinde” se dirige a mim e a você, religioso (a), catequista, ministro, político, jovem, que esteve errante e cansado de crer no bem e cedeu na tentação de colocar sua esperança nos messias poderosos deste mundo. Escutai:  “Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração” (Mt 25, 29). Eis nosso grande ensino, aprendizado, dado pela Verdade!

Terminamos esta meditação com dois testemunhos da vitória do bem sobre o mal: Primeiro santo Agostinho: “ Se Deus é caridade, para que andar correndo desatinados pelos cumes dos céus e das profundezas da terra em busca daquele que mora em nós. Ninguém diga: não sei o que é o amar; Ame seu irmão e amará ao amor. Se vês a Trindade vês o amor” (De Trinitate, 8, 12); e também Francisco de Assis: “ Ninguém pode chegar ao conhecimento de Deus senão através da humildade; o caminho de ir para cima é ir para baixo”(In Fons Fransciscani, 1115).