“Entregar a Deus a sua imagem intacta em nós” (Orígenes – séc. III)

XXIX Domingo Comum

(Is 45, 1.4-6; Sl 95; 1Ts 1, 1-5; Mt 22, 15-21

Os missionários vivem situações muito diversificadas de cultura, regimes de governo. Seu anúncio procura ajudar as pessoas a colocarem as coisas em seu devido lugar: dando a César o que é de César e devolvendo a Deus aquilo que é de Deus. No evangelho deste final de semana, fariseus e alguns partidários de Herodes procuraram apanhar Jesus em uma palavra. A questão proposta por estes grupos girava em torno da liceidade do pagamento de tributos ao império romano: Seria lícito ou não pagar os impostos à Cesar?

Questão antiga, sempre controversa e com inúmeros e muitíssimos desdobramentos na história. Questão que toca a relação espinhosa e ao mesmo tempo delicada existente entre estado e fé, entre poder temporal e espiritual entre governos e Igreja, entre laicidade e religião. Problemas que hoje enfrentamos com novas configurações, quando nos perguntamos quais serão em nossos dias os devidos papéis de um de outro em nossa sociedade? Quais as competências e os limites do estado e da religião em nosso tempo ou quais as possibilidades de encontro e diálogo destas realidades não tão antagônicas senão essencialmente dialéticas. Estas são perguntas muito nossas de nosso tempo, mas que não estão distantes da provocação que a liturgia da Palavra nos faz neste santo Domingo do Senhor.

Jesus não viveu em uma sociedade laica. Nem Ele, nem seus discípulos conheceram este modelo de organização política. Seu contexto sócio-cultural era eminentemente teocrático sob regime de dominação romana (que versava em uma teocracia flertando alguns elementos da antiga democracia grega). É neste contexto que surge a pergunta farisaica: “Mestre sabemos que és verdadeiro e que, de fato, ensinas o caminho de Deus (…) Dize-nos, pois, é licito ou não pagar imposto a César?” (Mt 22, 17).

O ambiente político onde Jesus cresceu, viveu e anunciou o seu Reino não era o muito tranquilo e pacífico. Se as coisas já eram muito “tensas” para Ele em relação aos fariseus, escribas, sacerdotes, anciãos devido à uma intransigência em relação a Lei mosaica, da parte destes grupos político-religiosos, mais conturbada ainda era sua relação com o poder imperial. O status quo da dominação romana sobre a palestina nem sempre foi acolhida por todos estes grupos judaicos. Por isso diante da questão proposta pelos fariseus era preciso da parte de Cristo muita sabedoria e diplomacia na resposta.

Como também em nossos tempos. Sempre que nos perguntamos qual o papel do cristão na sociedade ou até aonde os agentes das confissões de fé podem interferir nas decisões e definições sociais será preciso sempre, cautela e respeito de ambas as partes. É certo que existe um papel, é notório que a Palavra de Deus tem muito a iluminar os caminhos da sociedade em termos de política, economia e cultura, mas tudo em clima de respeito e liberdade pelas instâncias responsáveis.

Aqui os fariseus querem uma ingerência! Aqui os herodianos querem uma intervenção messiânica da história, própria do ambiente de Cristo. No entanto Jesus não entrou nesta “onda” do sagrado provocada por seus adversários.

O Evangelho deste final de semana é extremamente atual. Há um clima de intervenções invasivas de ambas as partes em nosso tempo. De uma parte os radicais ligados a movimentos de inspiração “laicista” querem de todas as formas instaurar a utopia de um mundo ou sociedade onde a religiosidade e seus valores estejam tidos como já superados. O que não se verifica no real. Impossível pensar e viver em um mundo onde o “sagrado”, a “” não oriente os princípios mais perenes desta sociedade. O fenômeno religioso tem antes de tudo um aspecto cultural de base e formação para qualquer sociedade.

De outro lado há uma tentativa de ingerência semelhante à qual ouvimos no evangelho: políticos de inúmeras confissões religiosas querendo também impor à realidade do estado seus valores e princípios, se submetendo para este fim aos maiores escândalos morais e éticos em nome da hegemonia do poder.

Eis a questão de nossa meditação deste final de semana! Há quem devemos honrar, reverenciar, adorar, amar, servir? Aqui vale para refrescar nossa memória o primeiro mandamento da lei que diz: “Shemá! Ouve, ó Israel: Yahweh, o nosso SENHOR, é o único Deus! Amarás o SENHOR, teu Deus, com todo o coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças.” (Dt 6, 4-6). Nosso Senhor é o único. A Ele nosso verdadeiro culto e adoração. Toda a nossa vida e esperança. Com certeza Jesus quis recordar ao coração dos fariseus está verdade da Lei. Não quereria Ele provocar uma insurreição contra os romanos e nem mesmo legitimar a adoração ao imperador Romano (César). Ele quis em sua infinita sabedoria, colocar as coisas em seu devido lugar. Tudo indica que é o que mais estejamos precisando nestes tempos de extremismos laicistas e fundamentalistas é encontrar um equilíbrio nestas relações. Santo Agostinho ilumina-nos em muita nossa espiritualidade ao comentar este evangelho: “ mostrai-me a moeda. Mostraram-na a ele. De quem disse, é a imagem e a inscrição? Responderam de César. E ele: Dai pois a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Como César busca a imagem em sua moeda, assim Deus busca a sua imagem em nós, em tua alma. Dai pois a César, disse, o que é de César. O que César te pede: sua imagem. O  que Deus te pede: Sua imagem. Porém a do César está na moeda, mas a de Deus está em ti. Se alguma vez perdes uma moeda, choras porque perdeste a imagem de César; e não choras quando um ídolo sabendo que fazes injúria à imagem de Deus reside em ti” (Sermão 113, 7-8)
A reflexão de Agostinho nos convida a recuperarmos nosso lugar na sociedade, com nossos compromissos como cidadãos, sendo honestos e sal da terra e luz do mundo, testemunhando ali também nosso cristianismo e paradoxalmente nossa relação e reverencia com o Senhor. As instâncias não são ambíguas, ou totalmente opostas, serão sempre complementares. Podemos perder muitas moedas com inscrições e imagens de tantos vultos, mas não perderemos jamais aquela imagem de Deus gravada em nossos corações, comprada com o sangue de Cristo: “ façamos o homem nossa imagem e semelhança. O pintor desta imagem é o Filho de Deus” (Origenes de Alexandria)

 

 

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“Ninguém colherá frutos de uma vinha sem cuidados. Ninguém colherá frutos em sua vida sem renúncia, cuidado de si e sacrifícios. ”

XXVI Domingo Comum
(Is 5, 1-7, Sl 79; Fl 4, 6-9; Mt 21, 33-43)

A Vinha era das belas imagens de Israel. O fruto mais esperado, o vinho decorrente de suas uvas, simbolizava o amor, a alegria a vida que circulava entre o povo de Israel e seu Deus. Mas sabe-se que, a Vinha, a “Vite” é concretamente para além da linguagem metafórica um arbusto do tipo das trepadeiras, com um caule e ramos muito frágeis que pode ser arrancado até mesmo pelas mãos de uma criança. Por isso toda a vinha para que dê bons frutos precisa que seus vinhateiros a cultivem, a cuidem, a protejam contra todas as intempéries do tempo, a defendam dos ataques de animais predadores que podem roubar seus frutos, a cerquem com carinho e proteção como o salmista desta liturgia diz: “ voltai-vos para nós Deus do universo. Olhai do alto céu e protegei-a! Foi a vossa mão que a plantou, protegei-a e ao rebento que firmastes” (Sl 79, 15-16).
Por manter estas características é que a “vinha” tornou-se símbolo de Israel e simultaneamente passou a ser também imagem de Cristo e sua Igreja: “ Eu sou a videira verdadeira e meu Pai é o agricultor. Todo o ramo em mim que não produz fruto ele a poda para que produza mais fruto” (Jo 15, 1-2). O fato de ser uma árvore do tipo “trepadeira”, permite que toda a “videira” se alargue, se expanda, cresça para direita e esquerda, norte e sul, espalhando seus ramos, folhas e flores, para todos os lados. Mas para que isso aconteça, precisa ter um apoio! As vezes se joga sobre um muro, outras a um madeiro mais forte, por vezes a uma casa. Como a videira, a Igreja precisou também destes apoios, para se espalhar e levar seus frutos por toda a “urbe”.
E estes apoios somos todos nós! Em primeiríssimo lugar foram os apóstolos e profetas que derramaram seu sangue para que a vinha do Senhor continuasse sua divina missão de derramar sobre a humanidade inteira o vinho melhor da Eucaristia: “ então, tomando um cálice, deu graças e disse: “tomai isto e reparti entre vós; pois eu vos digo que não beberei novamente o fruto da videira, até que venha o Reino de Deus (…) este é ó cálice da Nova Aliança em meu sangue, que é derramado por vós” (Lc 22, 17-18).
Mas nós também somos estes apoios em que a videira encontra lugar para subir, crescer e espalhar seus frutos. A Igreja também continua a se (difundir) pelo mundo através de nós (paradoxalmente) “apesar de nós”, isto é, apesar de pecados, fraquezas e feridas, a Videira da comunidade eclesial continua estendendo seus ramos e procurando muros, casas e pedras vivas para edificar templos vivos em Cristo. (1 Pd 2, 5).
Além de apoios para o crescimento, a vinha do Senhor precisa também ser cuidada e protegida. Por isso ela necessita de bons vinhateiros, isto é, pessoas que estejam dispostos a sacrificar seu tempo, às vezes sua própria vida para o cuidado e proteção da vinha. Se existem os apoios onde a videira possa se expandir, é preciso também que generosos vinhateiros cuidem para que esta possa nos oferecer os bons frutos da fé. Paulo apóstolo nos apresenta alguns critérios que revelam uma comunidade eclesial plena dos frutos do Espírito: “mas o fruto do Espírito é amor, paz, alegria, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, autodomínio (…) se vivemos pelo Espírito, pelo Espírito pautamos nossa conduta” (Gl 5, 22-25) ou o próprio texto da segunda leitura desta liturgia: “ quanto mais irmãos ocupai-vos com tudo o que é verdadeiro, respeitável e puro, justo e amável, tudo o que é virtude ou de qualquer modo mereça louvor. Praticai o que aprendestes e recebestes de mim, ou que de mim ouvistes. Assim o Deus da paz estará convosco” (Fl 4, 8-9).
No entanto, nem sempre encontramos difundidos em nossas comunidades estes frutos. Nem sempre os encontramos abundantemente em nossas próprias vidas. Há momentos que sentimos um sabor “amargo” no interior de nossas comunidades eclesiais: falta o vinho novo da fé, da gratuidade e sobra o da inveja, das fofocas, do egoísmo e individualismos. Não esqueçamos, nossas vinhas para darem bons frutos necessitam que seus vinhateiros às cuidem, queiram podar, por vezes situações e eventos que já deviam estar há muito superados, mas necessita em muito que seus próprios vinhateiros se deixem transformar e renovar pela graça do Senhor.
Para isso é sempre preciso recordar que os vinhateiros, isto é todos nós: padres, religiosos(a), ministros e catequistas, músicos, jovens e catequizandos, são cuidadores da vinha do Senhor não donos. São “administradores”, que o Senhor da vinha confiou o cuidado, mas não seus patrões. Sempre quando “ad-ministradores”, como bem diz a palavra: servidores a alguém, passam a sentir-se “senhores” da vinha, surgem os frutos e os dissabores que somente a carne pode oferecer: invejas, brigas, competições, etc.
Hoje a liturgia da Palavra nos quer convidar novamente ao ingresso na vinha do Senhor. Que forma de cuidado você está exercendo em sua comunidade eclesial! Você está sendo um bom apoio? Você está se tornando um bom cuidador e vinhateiro? Ou você ainda pensa apenas em tirar proveito de seus frutos?

O Filho ainda longe da vinha do Pai!

XXVI Domingo Comum

( Ez18, 25-28; Fl 2, 1-11; Mt 21, 28-32)

O evangelho deste final de semana nos apresenta uma imagem muito cotidiana: a relação entre Pai e filhos. Na Parábola dos dois filhos chamados ao trabalho na vinha, percebemos lugares comuns à muitas situações familiares. Tantos pais que diuturnamente pedem um pequeno auxílio a seus filhos nos simples trabalhos da casa, como limpeza do seu próprio quarto, ou um simples favor na manutenção do carro para o passeio de domingo, etc… Tantos pais de família que “na lida” necessitam da força jovem de seus filhos para os sacrificantes trabalhos da vida rural e muitas vezes escutam: ‘já vou Pai! Mas nem sempre seus filhos aparecem’. É aquele “velho” vício humano do “deixa para depois”, e que nos lembra aquela Palavra de Jesus: “ nem todo aquele que diz Senhor, Senhor entra no Reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus” (Mt 7, 21)

Hoje em nossa liturgia a Palavra, os dois filhos refletem esta realidade tão presente em nossa vida cotidiana que:  nem sempre o que expressamos ou prometemos com palavras acaba por se refletir no agir! Se quisermos encontrar um outro lugar comum da liturgia, com certeza poderíamos recorrer a política atual, plena de “belas e suntuosas”, promessas retóricas, mas de pouquíssima ou nenhuma realidade prática e transformadora na vida das pessoas.

Na parábola de hoje Jesus tem diante de si o grupo dos sacerdotes e dos anciãos do povo. A estes propõem uma pergunta seguida da parábola: “ Que vos parece? ” (Mt 21, 28). Anciãos e sacerdotes exerciam um papel importantíssimo para Israel do tempo de Jesus. Eles respondiam com toda autoridade pelo governo e administração (anciãos) e pelo pureza e fidelidade a tradição do culto (sacerdotes), por isso sua eminente influência.

A parábola é dirigida a estes personagens nem sempre amigáveis e solícitos com Jesus Cristo: Ela fala de um pai de família que convoca seus dois filhos para o trabalho na sua vinha: O primeiro responde que não queria ir, mas depois muda de opinião e vai. O segundo responde que sim, mas não foi. Devemos recordar que a “vinha” era uma das mais belas imagens do povo de Deus. Israel era considerada a vinha que o próprio Deus havia plantado e cultivado: “ o meu amado plantou uma vinha, num outeiro fértil. E cercou-a, limpando-a das pedras, plantou-a de excelentes vites(…) esperava que desse uvas boas, porém só deu uvas amargas”( Is 5, 1-2)! Assim como um vinhateiro espera bons frutos de sua vinha, com certeza os Pais esperam prontidão de seus filhos quando os convocam para os trabalhos, porém sabemos, que nem sempre é assim que acontece. Como na parábola as promessas de ajuda que não se efetuam, mas no entanto há muitas surpresas: filhos muito amados por seus pais, que num primeiro momento frustram suas expectativas, projetos e sonhos depositados da parte dos pais sobre eles, mas depois de um tempo: “mudam de opinião”!(Mt 21, 28).

Esta mudança, esta virada de rota, estes novos caminhos que o filho da parábola tomou, tem neste texto um grande significado teológico: ela se chama na linguagem espiritual de conversão, mudança de vida e mentalidade.

O profeta Ezequiel na primeira leitura de nossa liturgia expressa esta possibilidade humana da seguinte forma: “ quando um ímpio se arrepende da maldade que praticou e observa o direito e a justiça, conserva a própria vida. Arrependendo-se de todos os seus pecados, com certeza viverá e não morrerá” (Ez 18, 28).

A parábola dos dois filhos quer recordar a sacerdotes e anciãos que Deus é misericordioso. E haverá sempre possibilidade de “voltar para casa, retomar o caminho”, entrar no trabalho da vinha do Senhor, o que com certeza sacerdotes rígidos e impiedosos ou anciãos rigorosos e moralistas haviam esquecido a tempos: “pois João veio até vós num caminho de justiça e vós não acreditastes nele. Ao contrário, os cobradores de impostos e as prostitutas creram nele. Vós porém, mesmo vendo isso, não vos arrependestes para crer nele” (Mt 21, 32).

Mas esta parábola quer recordar algo semelhante a dizer também a nós. Muitas vezes desacreditamos que o ser humano pode dar a volta por cima em sua vida. Tantas são as pessoas que viveram experiências existenciais de total desregramento, mas retomaram seu caminho e refizeram sua história. A história da Igreja é cheia de homens e mulheres restaurados pela graça de Deus, que após um profundo encontro com o Senhor, tornaram-se modelo de vida para tantos. A parábola dos dois filhos nos recorda exatamente isso. Deus não desiste de nós, Deus não desiste de salvar o homem e poderá sempre nos surpreender reafirmando que: “em verdade vos digo que os cobradores de impostos e as prostitutas vos precedem no Reino dos céus” (Mt 21, 31).

A parábola também nos recorda que a vinha que é a Igreja é “convidada sempre a convidar” outros. A estar aberta aos filhos que estão ainda se encontram longe de casa. Certamente porque ninguém ainda os convidou, ou por que aqueles responsáveis por convidá-los os “sacerdotes e anciãos de hoje” preferem permanecer em um julgamento superficial ou num moralismo rígido que não tem aproximado filhos longe da casa do Pai.

 

 

“Meritocracia ou gratuidade, qual é o caminho do Reino dos céus! ”

XXV Domingo Comum

( Is 55, 6-9; Sl 144; Fl 1, 20c-27ª; Mt 20, 1-16ª)

O profeta Isaías na primeira leitura deste domingo adverte-nos a uma verdade que por vezes esquecemos: sobre a importância de discernir com mais atenção os caminhos de Deus em nossas vidas, recordando-nos que estes “caminhos” poderão quase sempre nos surpreender, pois nem sempre se “enquadraram” dentro de nossas racionais expectativas. Assim Isaías expressa esta ideia: “ os meus pensamentos não são vossos pensamentos, e os meus caminhos não são os vossos caminhos” (Is 55, 8).

Nós aqui “debaixo”, sempre tentamos limitar a ação de Deus para dentro de nossa lógica. Com facilidade avaliamos a “Aliança” de Deus com a humanidade dentro de um quadro bem mais de “meritocracia que de gratuidade e liberalidade divinas”. Em outras palavras, estamos sempre esperando uma “gratificação”, uma retribuição “honesta” que corresponda às expectativas meramente humanas: e é exatamente aí que reside este delicado e nebuloso problema da vida de fé. Retornando ao profeta, Isaias chega a afirmar: “ como o céu está bem acima da terra, assim os meus caminhos estão acima dos vossos, e os meus pensamentos acima dos vossos pensamentos” (Is 55, 9). O que Isaias quer nos fazer ver na verdade é: quem somos nós para conhecermos plenamente os desígnios de Deus para nossa vida? Ou quem somos nós para sabermos o que nos é melhor? Ou quem somos nós para limitarmos o plano e as escolhas de Deus na vida humana?

Ainda no dia de ontem celebrávamos o chamado de são Mateus (Mt 9, 9-13).  A escolha de Mateus para o Apostolado de Jesus é destas que nos desconcertam: ele nada tinha de virtuoso ou idôneo para oferecer: era um publicano, impuro, de má fama tanto para fariseus, quanto para zelotas revolucionários, no entanto Deus o escolhe: “ não são os sãos que precisam de médico, mas sim os enfermos” (Mt 9, 11); não o seu olhar, seu julgamento, sua concepção de fé e cristianismo, mas o caminho é minha misericórdia (Mt 9, 13)!

Paulo na segunda da leitura se nos apresenta um caminho de sua profunda conversão, do grande mergulho que o apóstolo dos gentios deu em Cristo Jesus. Ele que antes fora um excelente fariseu de caráter e formação, pela qual, poderia se considerar dignitário de toda salvação: “ ainda que também podia confiar na carne; se alguém poderia nela confiar, ainda mais eu: circundado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus, segundo a lei, fui fariseu” (Fl 3, 5). No entanto hoje mostra-nos o seu percurso espiritual feito não a partir da ótica da meritocracia, mas da profunda descoberta da gratuidade: “ Para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro” (Fl 3, 21); Cristo sua vida e sua morte se torna o único bem possível, o único lucro e mérito a Paulo apóstolo.

A parábola do senhor da vinha conclui a reflexão deste final de semana toda ela nos conduzindo a descoberta do caminho da gratuidade na vida cristã. O último versículo do texto sintetiza a mensagem da parábola do Senhor: “ assim, há últimos que serão primeiros e os primeiros que serão últimos” (Mt 20, 16); os caminhos, as escolhas, os critérios serão sempre de amorosa e livre iniciativa de Deus. Se algo dependesse do nosso critério ou discernimento com certeza iriamos ser parciais e previsíveis, acentuando nossas particularidades na escolha. Mas nosso Deus não, Ele: “ Derruba dos tronos os poderosos, e eleva os humildes (…) auxiliou a Israel ser servo, recordando-se de sua misericórdia” (Lc 1, 52-54).

Nem sempre estamos maduros o suficiente para compreender os desígnios de Deus. Muitas vezes como os trabalhadores chamados na primeiríssima hora, “murmuramos” frente ao dono da Vinha, por que, pensamos a partir de nossos critérios e não com o coração do Senhor: “ E recebendo-o murmuraram contra o Pai de família” (Mt 20, 11).

A Parábola da vinha é também um belo texto de eclesiologia primitiva. Já está presente nela a tensão entre trabalhadores da primeira hora da manhã, ou seja, judeus convertidos ao cristianismo “murmurando” contra os que chegaram à vinha na última hora, isto é, os cristãos vindos do paganismo. Mateus com o pagamento de uma moeda de prata a todos pela jornada de trabalho, quer equilibrar está tensão, afirmando que o mais importante não é o valor do sálario pago, não é ele que equilibra esta relação e sim a salvação dada tanto a judeus como a gentios. Aí está o grande bem!

Em nossas paróquias, movimentos eclesiais, clero, pastorais, também sentimos se manifestar esta forma de tensão: Também entre nós por vezes se apresenta uma equivoca ideia de que católicos que estão a mais tempo nos serviços e ministérios da comunidade eclesial adquirem mais direitos e méritos que outros. Mas entre nós, não deve ser assim. Não deve ser este nosso critério de avaliação, o mérito por tempo de trabalho… Sempre deverá nos acompanhar a gratuidade e a misericórdia no santo serviço do Senhor!!

Aí está nosso “lucro”!

“O caminho do perdão uma estrada nova gratuita e sem cálculos! ”

XXIV Domingo Comum

( Eclo 27, 33-28,9; Sl 103; Rm 14, 7-9; Mt 18, 21-35)

Em obediência ao Senhor Jesus Cristo, amor e perdão no cristão sejam gratuitos, sem cálculos e restrições de “coração”. Se nosso perdão é feito a partir de nossos cálculos, esvaziará aquele perdão proposto pela Palavra de Deus.

Neste final de semana a liturgia da Igreja nos oferece um caminho espiritual necessário a todo discípulo. Este é o caminho do perdão. O perdão por vezes se apresenta como caminho das “pedras” para tantos, pois não o vivemos dentro de seu horizonte e cultura. O ambiente que nos cerca é marcado pelo “olho por olho dente por dente”, pela cultura da vingança, da intolerância, da exposição às vezes publica dos tropeços dos irmãos. Mas a Palavra de Deus que deve ecoar dentro de nós neste domingo dever ser aquele: “ entre vós não deve ser assim” (Mt 20, 26).

No domingo passado ouvíamos no Salmo responsorial a insistência do autor que clamava: “hoje não fecheis o vosso coração” (Sl 94). O pedido vale ainda para esta liturgia. O perdão é exigência de um coração que não poderá fechar-se jamais, de um coração que não poderá interromper um caminho de reconciliação um dia e definitivamente aberto por Cristo no alto da Cruz: “Pai perdoa-lhes, não sabem o que fazem” (Lc 23, 34).

No Evangelho deste domingo Pedro aproximou-se de Jesus e lhe pergunta: “ Senhor quantas vezes devo perdoar o meu irmão se ele pecar contra mim? Até sete vezes? ” (Mt 18, 21). A pergunta feita pelo apóstolo Pedro evoca uma ideia compreensível: é possível perdoar sem calcular o número de vezes em que o perdão foi dado?  Se alguém continua a cometer o mesmo mal contra mim, até quando poderei perdoá-lo? Com certeza Pedro não esquece que na Lei, em que Lamech, o sanguinário filho de Caim canta sua vingança até 7 e depois até 70×7: “Por que sete vezes Caim será castigado, mas Lamech, setenta vezes sete” (Gn 4, 25).

O número 7 oferecido por Pedro para o perdão remonta em primeiro lugar a plenitude e a totalidade, após o término desta “conta”, haveria um caminho aberto para a vingança o ódio e a indiferença.

No entanto a parábola que vem logo após torna mais claro e concreto o enunciado anterior. Na verdade, a vingança era uma lei sagrada em todo oriente e o perdão grande humilhação. A parábola proposta ainda neste Evangelho é como um grande drama em que o ingresso no Reino dos céus é seu maior protagonista, estando dividida em 4 atos: divida, misericórdia, crueldade e justiça.

Um homem devia dez mil talentos (uma dívida impagável, correspondente a sete milhões de dólares): aqueles ouvintes de Jesus, não podiam imaginar um valor tão alto como este e logo raciocinavam que tal débito era insolúvel: “ Levaram um que lhe devia uma enorme fortuna, como o empregado não tinha com que pagar, o patrão mandou que fosse vendido como escravo junto com a mulher e os filhos e tudo o que possuía” (Mt 18, 24). Contudo o dinheiro obtido com a venda de tudo o que possuía seria ainda insignificante e absolutamente menor em relação ao débito a saldar. Só restava uma coisa aquele homem: “o empregado, porém caiu aos pés, e prostrado, suplicava, dá-me um prazo, e eu, te pagarei tudo” (26).  O Patrão tomado de “compaixão”, condena a dívida e não o devedor.

Note-se que o sentimento que sinaliza o patrão é o da misericórdia. É o segundo ato deste drama, e que em muito supera aquela parte primeira da cena marcada por um débito impagável. Com isso chegamos ao coração deste Evangelho, em que se revela a magnanimidade da misericórdia de Deus, frente aos nossos mais escandalosos pecados e dividas existenciais. Assim também expressa o salmista nesta liturgia: “ Pois ele te perdoa toda a culpa e cura toda a tua enfermidade; da sepultura ele salva tua vida e te cerca de carinho e proteção” (Sl 103, 2).

O terceiro ato desta parábola revela uma imensa crueldade e ao mesmo nos faz compreender a resposta de Jesus a Pedro: “ Não te digo até sete vezes, mas setenta vezes sete” (Mt 18, 22).  O servo antes perdoado de uma dívida impagável se transforma em um credor cruel e calculista. Não perdoa uma insignificante dívida de seu companheiro de apenas “cem moedas de prata”: “ Ele agarrou-o e começou a enforcá-lo, dizendo paga o que me deves” (Mt 18, 29). A dramática cena revela um aspecto essencial à toda esta liturgia. O perdão do Senhor exige de todos nós apenas um simples critério: o fato de que fomos um dia perdoados também, por isso o perdão não conhece cálculos e não se move por número de vezes. O núcleo desta parábola esta naquele homem que veio acertar as contas com seus empregados perdoando sua impagável dívida. Aqui está uma imagem profunda de Cristo e de seu perdão!

Quando rezamos a oração do Senhor sempre repetimos: “perdoai os nossos pecados, assim como nós perdoamos aos nossos devedores”. Isto é repetido solenemente, muitas vezes, não apenas sete, pois não há números para a misericórdia do Senhor. Assim também compete a cada um de nós: Se quisermos receber o perdão do Senhor, devemos perdoar o nosso irmão sempre que pecar contra nós!

“Pedro, os discípulos e a hora de Deus em sua vida. Tempo em que se aprender a pensar  as coisas de Deus”

XXII Domingo do tempo Comum

(Jr 20,7-9; Sl 62; Rm 12, 1-2; Mt 16, 21-27)

Pedro, os discípulos e a hora de Deus em sua vida. Tempo em que se aprender a pensar  as coisas de Deus

Não é nada fácil aprender com a dor. Como não é fácil para ninguém aceitar a desilusão, o fracasso, o sofrimento ou uma repentina doença. Tudo o que envolve o sofrimento ainda nos deixa sem muitas luzes, com muitas perguntas nos lançando em um mundo pintado com muitas sombras existenciais e espirituais. A dor nem sempre avisa quando chega, em alguns casos vai enviando sinais que nem sempre estamos de acordo em interpretá-los.

Na liturgia deste domingo é a hora da dor e de certa forma da desilusão na vida daqueles doze discípulos e também no profetismo de Jeremias (1. Leitura). O Pe. Amadeu Cencini, renomado psicólogo italiano que há muito dedica um sério esforço na formação de religiosos (a) e agentes pastorais no mundo inteiro, escreveu uma obra muito interessante nestes últimos anos intitulado: “ A hora de Deus, a crise na vida cristã”. Em poucas palavras para Cencini, a crise, a dor o sofrimento, seria a hora de Deus na vida humana, momento de transformação e conversão para algo maior e mais purificador humanamente falando. É difícil compreender por parecer tão contraditório, mas na vida cristã é assim mesmo que os caminhos se apresentam: aquilo que pareceu a muitos o fim do meu caminho, é na verdade começo de uma vida da qual Deus agora é quem conduz. A hora de Deus é também a hora da maturidade cristã, que um dia há de chegar a todos discípulos (a) de Nosso Senhor.

Na liturgia deste final de semana esta “hora” é sentida em toda a unidade litúrgica da celebração: A começar na primeira leitura onde o profeta Jeremias expõe com clareza sua experiência de dor e decepção: “ tornei-me alvo de irrisão o dia inteiro, todos zombam de mim (…) não quero mais lembra-me disso nem falar mais em nome dele” (Jr 20-, 8); logo após se encontra novamente o consolo de Deus: “ seduziste-me Senhor, e deixei-me seduzir, fostes mais forte, tiveste mais poder (…) senti então dentro de mim um fogo ardente a penetrar-me o corpo todo, desfaleci, sem forças para suportar” (Jr 20, 8). A experiência espiritual de Jeremias nos ensina que poderemos atravessar momentos intensos de noite escura, de deserto, de desolação, de longas escuridões da fé, mas ainda que estas realidades nos visitem, Deus estará dando estes passos conosco. E eles se vividos à luz do Senhor se tornaram logo, tempos de paz e amadurecimento. Se os profetas passaram, se tantos santos experimentaram, por que não passaríamos também?

A hora de Deus é chegada também na vida dos discípulos do Senhor. Logo após Pedro professar inspirado e entusiasmado que Jesus é o Cristo e ser chamado de pedra, fundamento da Igreja, terá seu momento de “decepção” com o Senhor: Pedro era discípulo de Cristo, mas também seu grande amigo. Estava sempre ao lado de Jesus, não podia admitir que seu grande amigo, O Messias poderoso que há poucas “horas” havia professado viesse a ter um destino como o anunciado por Jesus: “ Jesus começou a mostrar a seus discípulos que devia ir para Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos doutores da lei e que devia ser morto e ressuscitar ao terceiro dia” (Mt 16, 21). Nada nos desinstala tão rapidamente como o sofrimento. Não há nada que nos desacomode tão facilmente como a experiência do fracasso e da dor. Chegara então à Pedro e aos discípulos esta dolorosa hora.  O messias não era bem a figura que até então pensavam. Não era bem aquilo que dele talvez esperassem. Se apresenta diante das autoridades judaicas frágil e obediente: “Ele foi maltratado, humilhado, torturado, contudo não abriu sua boca, agiu como um cordeiro levado ao matadouro, como uma ovelha que permanece muda diante de seus tosquiadores” (Is 53, 7).

Pedro diante do primeiro anúncio da Paixão de seu Senhor esboça com toda singularidade que lhe é própria sua reação: “Então Pedro tomou Jesus à parte e começou a repreendê-lo dizendo: “ Deus não permita tal coisa, Senhor! Que isso não nunca te aconteça” (Mt 16, 22). A reação de Pedro ao sofrimento do Senhor é o mais nítido sinal de uma grande frustração. Os planos messiânicos que o discípulo havia feito de seu mestre agora foram postos todos em cheque: por trás da repreensão que Pedro faz com Jesus poderíamos estar alguns destes sentimentos: “como tu Senhor, que a tão pouco tempo mudou nossa vida, testemunhamos tantos de teus milagres, a força e a sabedoria de tua palavra, agora sofrerás, serás rejeitado da parte dos grandes de Israel, até te levarem a morte? Onde agora está teu poder? Onde agora se esconde teu Pai?”

Eis a hora de Pedro! Eis a hora dos discípulos!

Na segunda leitura são Paulo aos romanos nos oferece um belo auxilio espiritual para compreendermos o drama de Pedro apóstolo: “ não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação de vossa mente, para que possais discernir, qual a vontade de Deus, o que é bom, o que lhe agrada e o que é perfeito” (Rm 12, 2).

Pedro jovem discípulo tinha ainda em mente a expectativa de um messias poderoso. Como um judeu esperava atitudes de revanchismo da parte de Jesus, e jamais aceitaria por isso, o sofrimento gratuito oferecido por Cristo até a morte de Cruz. Para Pedro isso era um escândalo! Por isso Jesus precisou repreendê-lo duramente também: “ Para trás de mim Satanás, tu és pedra de tropeço, pois não pensas as coisas de Deus e sim dos homens” (Mt 16, 23).

Somos muito parecidos com o discípulo Pedro. Não aceitamos que nossos planos pessoais desabem, mesmo que estejam ligados a fé cristã. Como queremos sempre estar no controle de tudo, quer-se as vezes controlar o plano de Deus para nossa vida. Nestas horas precisamos “ transformar nossa maneira de pensar” e “pensar como Deus e não como os homens”. A hora de Deus é um as vezes um momento muito delicado na vida de tantos discípulos de Jesus. Mas é preciso que ela chegue! Sem ela não amadurecemos, não nos desinstalamos de projetos e não navegamos definitiva mamente na barca de Cristo.

“Em tempos em constante mudança, responder com profundidade e sem precipitações a partir de Deus.”

XXI Domingo Comum

(Is 22, 19-23;  Rm 11, 33-3’6; Ev Mt 16, 13-20)

“Em tempos em constante mudança, responder com profundidade e sem precipitações a partir de Deus.”

Estamos vivendo em um contexto em que as transformações sócio-culturais são bem mais imediatas do que em tempos de outrora. Nossa sociedade está tendo a oportunidade de acompanhar a partir de dentro uma revolução tecnológica que se apresenta sempre dinâmica, inovadora e em mudança. Os tempos atuais nos fazem recordar o pré-socrático Heráclito que já havia profetizado isto: Dizia ele, que a realidade estava sempre em constante mudança, tudo fluía, se movia, nem mesmo um rio é capaz de repetir seu curso cotidiano. Veja que Heráclito descobriu este “devir do ser, do real” IV século antes de Cristo. Com isso vemos o quanto os antigos já eram bem atinados e tremendamente perspicazes.

A transformação que passamos hoje é acima de tudo tecnológica e virtual! Diferente de outra que já experimentamos. Na industrialização do mundo no séc. XVIII, as mudanças foram significativas, mas bem mais lentas. O homem moderno foi configurando sua vida à indústria, aos horários, aos costumes, ao ritmo da jornada de trabalho. Lentamente se passou do mundo agrário e feudal à industrialização. Porém levamos mais de II séculos para isso!

Hoje tudo muda rapidamente e por isso nossas respostas a estas transformações devem ser cada vez mais profundas e fundamentadas. A oração do dia deste domingo diz: “ Ó Deus que unis vossos fiéis (…) daí ao vosso povo a capacidade de amar e esperar o que prometeis, para que na instabilidade deste mundo fixemos nossos corações onde se encontram a verdade” (Coleta, XXI). Com a oração vemos como existe unidade e equilíbrio na liturgia. É preciso “fixar o coração na verdade, mesmo na instabilidade do mundo”. A liquidez que sentimos na realidade, não deve nos paralisar, mas exigir de nós respostas concretas para este tempo da Graça do Senhor.

A Palavra de Deus neste final de semana nos conduz para este caminho. O evangelho fala que é preciso saber responder aos questionamentos do tempo com profundidade e inspiração e não apenas sob a opinião dos outros. Jesus em Cesárea de Filipe questiona a seus discípulos sobre quem dizem os homens ser o filho do homem? As primeiras respostas o identificam com o senso comum das pessoas: “uns dizem que és João Batista, outros Elias; outros ainda que és Jeremias ou algum dos profetas” (Mt 16, 14). Os discípulos responderam uma parcela da verdade; as pessoas por aí, quando questionadas sobre sua realidade, na maioria das vezes acabam por dar respostas muito negativas, não conseguem ver que há na fluidez deste nosso tempo muita oportunidade para Graça de Deus. São partes, parcelas de um real não amplamente visto. Há muita luz escondida neste túnel.  No evangelho de hoje Pedro nos ensina a dar respostas ao tempo a partir da Graça, do Pai, do alto: “Elevo os meus olhos para os montes; de onde me vem o socorro?
O meu socorro vem do Senhor, que fez os céus e a terra.
Não deixará vacilar o teu pé; aquele que te guarda não dormitará.
Eis que não dormitará nem dormirá aquele que guarda a Israel
.” (Sl 121, 11). O Socorro a Pedro, veio do alto, do Pai, daquele que não dorme nem cochila. À pergunta do Senhor: “ E vós quem dizeis que eu sou? Simão Pedro respondeu: Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo (…) feliz és tu Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu” (16, 17).

Como Pedro, o simples pescador, responde a partir de Deus, a pergunta fundamental da fé: Jesus é Deus; “tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”, nós também somos nos tempos atuais, difíceis, desafiadores, líquidos, incertos, em constante mudança, convidados a responder com inteligência, profundidade e sem precipitações, isto é, não correndo atrás opinião dos outros.

Responder a alguma coisa é de fato, responsabilizar-se por isto. Pedro a partir de sua resposta recebeu grandíssima responsabilidade. Teve de responder pela Igreja e por seus irmãos: “ tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei minha Igreja (…) e eu te darei as chaves do reino dos céus, tudo o que ligares na terra será ligado nos céus e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus” (18-20). Missão imensa esta de Pedro, mas no entanto com a mesma: “ profundidade, riqueza, sabedoria e ciência de Deus” (II Leitura, Rm 11, 33). Respostas profundas abrem a possibilidade de grandes missões!

O Evangelho recorda a motivação da oração inicial de nossa Eucaristia: “ fixemos nossos corações onde se encontram as verdadeiras alegrias”. Há muito ainda o que camihar! Há muitos desafios a responder. Nos sentimos por vezes pequenos diante das transformações atuais, mas também há muito ainda para Deus realizar em nós. Ainda existe tempo para Deus fazer-nos de simples pescadores, professores, religiosos, padres, advogados em pedras fundamentadas e edificadas em Cristo. Como o salmista da liturgia de hoje repitamos: “ O Senhor vossa obra é bondade para sempre. Eu vos peço, completai em mim a obra começada” (137, 3.)