A necessidade de atravessar os mares do egoismo.

XVI Domingo Comum

( 2 Rs 4, 42-44; Sl 144; Ef 4, 1-6; Jo 6, 1-15)

A liturgia deste final de semana nos convida a realizar um dos gestos humanos mais nobres, mais elevados e também mais cristológicos, que possamos fazer: o gesto da partilha. Já na oração inicial desta Eucaristia este convite se faz presente: “redobrai de amor para convosco, para que conduzidos por vós, usemos de tal modo os bens que passam, que possamos abraçar os que não passam”.

A coleta da liturgia deste domingo nos exorta a que nossa relação com os “bens que temos”, sejam feitos com a moderação que o evangelho do Senhor nos ensina: “Não ajunteis tesouros na terra, onde as traças e as ferrugens os consomem (…), mas ajuntais tesouros no céu (…), porque onde está o teu tesouro, aí está o teu coração” (Mt 6, 19-21).

Quando passamos a aprender a beleza evangélica que há da partilha dos bens, da liberdade interior em relação as coisas, passamos a “ajuntar tesouros no céu”, mas tesouro este, que já encontramos aqui na terra.

As vezes espiritualizamos muito as inspirações que o Evangelho nos propõe. Parece mais plausível para muitos cristãos evitar de tocar em assuntos da terra e da vida. Em alguns ambientes católicos temas como: a partilha, o bem comum, o uso moderado e equilibrado dos bens, os sinais dos pecados sociais, soam ainda pouco elevados, ou nada santificantes. É melhor, nestes espaços, mais fácil e menos incômodo, se utilizar de uma retórica cristã que permaneça apenas apontando para uma das dimensões da fé cristã, a espiritual, é claro, não menos importante que a outra, mas que sem o princípio teológico da Encarnação, torna-se evasiva e incompleta. Um catolicismo assim, corre o risco de sonegar o mandamento do amor que diz: “amarás o Senhor teu Deus de todo o coração, e o teu próximo como a ti mesmo” (MT 22, 37-38).

 

No entanto, a Palavra do Senhor está sempre ai, para nos desafiar. Para permitir que saiamos das zonas de conforto e lançando-nos em águas mais profundas e exigentes. O Evangelho deste domingo começa, com Jesus atravessando o mar da Galileia:“Jesus foi para o outro lado do mar da galileia (…) uma grande multidão o seguia, porque via os sinais que operava em favor dos doentes” ( Jo 6, 1-2). Estamos no início do cap. VI de João. Capítulo em que o evangelista medita sobre o “ Pão da Vida”.

No entanto, nosso evangelho dominical começa com uma barca que atravessa um mar! É de um simbolismo impressionante, porque logo nos faz pensar em duas realidades: a primeira é claro a travessia do mar, os hebreus que conduzidos por Moisés superam o “inimigo mar vermelho” e tocam a terra prometida a pé enxuto. De outra parte, esta superação do mar da galileia feita por Jesus e seus discípulos é realizada em uma “Barca”, símbolo dos mais antigos, da Igreja que navega com Cristo superando os inimigos.

 

Na outra margem, a multidão o segue, porque via os sinais que realizava em favor dos doentes. Jesus então realiza um grande sinal, que ensina-nos, ensina as multidões e também a seus discípulos. Todos aprenderão com Cristo, no entanto todos terão de fazer travessias profundas em sua concepção de fé e cristianismo. Uma grande e sedenta multidão corre atrás de Jesus pelo bem que Ele faz, porque Ele opera sinais em favor de doentes. É uma busca por Deus, genuína, integra, mas pouco gratuita. Busco a Cristo, porque realiza grandes milagres em mim. No começo de nossa caminhada, nossa adesão ao Senhor é assim mesmo. Nós o buscamos, por que nos concede algo em troca: uma cura, uma segurança afetiva ou econômica, uma paz que eu antes não conhecia, mas

estes aspectos da fé, estão muito presentes no início de nosso caminho.

As multidões o seguem por isso, mas nós, seus discípulos, vamos sendo exortados a aprofundar mais a nossa fé.

Mais que buscar a Deus, para Dele receber algum beneficio, o que de forma alguma se mostra em atitude equivocada, a Palavra deste final de semana, quer orientar-nos a partilhar “o Pão da Vida que é Deus” para com os outros. Mais do que saciar apenas a nossa fome e sede de Deus, a liturgia deste final de semana, quer que demos de alimentar também a nossos muitos irmãos famintos do “Pão da Vida”, quer que nos tornemos alimentos a eles. Para isso não precisamos muita coisa, não é necessário muito dinheiro, “nem duzentos denários de prata” (Jo 6, 7). Precisamos apenas partilhar do pouco que temos.

André o irmão de Simão Pedro, é a figura do discípulo que parece ter compreendido isso com mais profundidade: Ele apresenta um menino com cinco pães de cevada e dois peixinhos. Este pouco, que a olhos humanos não satisfariam a quase ninguém, oferecidos ao Senhor, saciaram uma multidão de cinco mil homens.

A liturgia deste final de semana nos ensina que Deus, quando quer pode transformar até mesmo “pedras em pães”, pois nada é impossível a Ele. Ele é o Senhor de tudo: de cinco pães e dois peixes, alimentou cinco mil homens. No entanto, o Senhor quer nos ensinar também que existem milagres que acontecem no ordinário de nossa vida. Partilhar o pouco que temos com nossos irmãos, pode parecer uma coisa muito despretensiosa, corriqueira, normal, mas para o outro, que recebe sua partilha, pode significar muito. Pode significar que Deus o visitou naquele momento. Pode matar a sua fome física, mas pode saciar a sua fome de Deus também, no seu simples gesto de comunhão.

Para isso é preciso subir na Barca com Jesus e atravessar o mar. Chegar até outro lado da margem e ver que existem multidões que continuam famintas e sedentas do Pão da Vida. Todos somos chamado a realizar esta travessia, esta Pascoa, esta libertação de um cristianismo; que busca em Deus a si mesmo, para um catolicismo que torna-se alimento para os outros: “ Jesus disse a Fiipe: Onde vamos comprar alimento pra esta gente?” (Jo 6, 6)

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“Recapitular tudo em Cristo” (Ef 1, 10)

XV Domingo do Tempo comum

A oração inicial da liturgia deste domingo nos diz: “Ó Deus mostrai a luz da verdade aos que erram
para retomarem o bom caminho, dai a todos os que professam a fé, rejeitar o que não convém ao
cristão” (Coleta, XV Domingo).
A oração introdutória desta Eucaristia convida-nos a uma retomada de caminho em direção àquele
que é o centro de nossas vidas: Cristo Jesus. Por vezes, nos afastamos, tomamos outros caminhos,
nos dispersamos daquela estrada exigente, estreita, comprometedora, mas que ao final, nos leva à
vida bem-aventurada. Neste final de semana, a Palavra do Senhor nos convida a um retorno. Às
vezes, nós precisamos que alguém se torne próximo e de novo nos ajude e retomar projetos,
propósitos de santidade, de vida de oração, de desapegos, de escolha pela vontade de Deus, que com
a rotina, podemos naturalmente ir relativizando. É muito fácil tomar um caminho mais cômodo,
difícil mesmo é reconhecer que se deve recomeçar a partir de Cristo.
Por isso, Deus, instituiu os profetas. Eles eram homens vocacionados, isto é, chamados por Deus,
para que com suas palavras inspiradas, “endireitassem os caminhos tortuosos”, que os homens
estavam trilhando. A vocação profética não é nada fácil! Não é fácil ouvir um profeta, assim, como
não é prazeroso, quando não se está enfermo, ter de tomar algumas medicações, fortes e amargas,
que nos tiram apetite, nos abatem, produzem até náuseas e desconfortos, mas que no final das coisas
nos trazem a cura, a salvação.
Na liturgia deste domingo, Deus suscitou um “pequeno-grande” profeta, um verdadeiro
vocacionado, pois não exercia esta vocação como um profissional do ramo. Em determinados
períodos da história de Israel, haviam “profetas profissionais”. Por mais paradoxal que o termo
possa indicar, mais haviam realmente estes homens. Ele eram profissionais, por que, eram
escolhidos pelos reis e não por Deus. Falavam sempre em nome de Deus, mas o que desejavam os
seus chefes, com isso sua profecia era limitada ao “status quo” do reino. No entanto Deus chamou
Amós e ele se tornou um grande profeta: “respondeu Amós a Amasias dizendo: ‘ não sou profeta
nem filho de profeta; sou pastor de gado e cultivo sicômoros. O Senhor chamou-me quando eu
tangia o rebanho, e o Senhor me disse: ‘Vai profetizar para Israel meu povo’” (Am, 7, 13-15).
Para quem conhece um pouco da história de Israel, sabe bem, que foram poucos os profetas que
tiveram tanta coragem e ousadia como o “pequeno pastor Amós”. Ainda hoje quando lemos suas
profecias durante a liturgia, não há como permanecer insensível ou impermeável ao que diz. Sua
palavra é forte, densa, provocadora, mas libertadora: “Ouvi isto, vos que anelais os abatimentos do
necessitado; e destruís o miserável da terra. Dizendo, quando passará a lua nova, para vendermos o
grão, e o sábado, para pilharmos o trigo, diminuindo o efa, e aumentado o ciclo, e procedendo
dolosamente com balanças enganosas” (Am 8,4-5). Todos os profetas nos ensinam, a não relativizar
a vida com Deus e com nosso próximo. Sempre quando nos tornamos “cristãos profissionais”, Deus
mandará profetas ou situações que nos convidaram a retomar nossa estrada.
Na segunda leitura o apóstolo Paulo, dá um outro nome a esta retomada de caminho em direção a
Cristo: Ele a define como uma recapitulação: “ para levar a plenitude o tempo estabelecido e
recapitular, em Cristo, o universo inteiro: tudo o que está nos céus e tudo o que esta sobre a terra”
(Ef 1, 10). Obviamente que a concepção paulina da “recapitulatio”, é importantíssima. Foi no
segundo século do cristianismo um estandarte doutrinal pela qual santo Irineu de Lião desenvolveu
toda sua grande teologia ante-gnóstica. Mas aqui, no contexto pastoral de nossa liturgia, o termo
merece profunda atenção. Recapitular, como a palavra ensina é retornar a cabeça: “Caput”! É
retornar, recomeçar, fazer com que coisas sejam integradas a Cristo. Mas recapitular também é
retomar os capítulos. Recapitular é recordar os capítulos de uma obra que lemos, e por que não
dizer: retomar, recordar os capítulos de nossa vida!