Necessitamos mais do que qualquer coisa de sabedoria.

XVII Domingo comum

(Sb 13.16-18; Sl 85; Rm 8, 26-27; Mt 13, 24-43)

A mensagem da liturgia neste final de semana nos coloca diante de um dos insubstituíveis dons de Deus para a vida do homem: o dom da sabedoria. Em tempos difíceis como o nosso, ela têm se tornado indispensável em nossas escolhas, discernimentos e decisões.

A liturgia deste domingo vem nos recordar que Deus a concede aos que lhe suplicam. E esta “conquista” está ao alcance de todos nós. Quantas vezes nos encontramos em situações complicadas e espinhosas e acabamos por tomar atitudes precipitadas por não termos recorrido à sabedoria? E também seu contrário: Quantas vezes percebemos brotar dentro de nós mesmos, uma palavra, um pensamento, um conselho, que veio do alto, como um dom gratuito de Deus e acabou por trazer luz a momentos onde só víamos sombras: ali estava o socorro da sabedoria do Senhor.

Em nossos dias este dom é mais que necessário. Se observarmos o status quo da política brasileira, iremos perceber que tem sobrado da parte de nossos governantes, outros valores: muita astucia, negociações interesseiras, transações milionárias em troca de poder, mas pouca sabedoria divina. Percebemos neste ambiente aquilo que são Paulo definiu como sabedoria “deste mundo”, centrada apenas em si: “ ninguém se engane a si mesmo, se alguém dentre vós se tem por sábio neste mundo, faça-se louco para se tornar sábio” (3, 1 Cor 18), enquanto que a sapiência querida por Deus, exige uma boa dose de “loucura da cruz” (1 Cor 18), no sentido paulino do termo, contradizendo os valores apregoados pelo mundo. A sabedoria divina está muito mais próxima da caridade cristã, ela como o amor: “ é paciente e bondosa. Não é invejosa e nem se orgulha. Não maltrata, não procura seus próprios interesses e se alegra com a verdade” (1 Cor 13, 4-5).

E desta sabedoria que a Palavra de Deus medita neste final de semana. Deste dom gratuito de Deus disponível a nossas mãos que somos chamados a refletir, pedir e suplicar.

O modelo salomônico encontrado na primeira leitura é urgente aos nossos dias, a nossos governantes e àqueles que receberam a missão de governar-pastorear a Igreja. Diante dos grandes desafios do governo de Israel, o Senhor lhe faz uma aparição no meio dos sonhos e lhe diz: “ Pede o que desejas e eu te darei” (1 Rs 3, 5). O adolescente Salomão poderia pedir tudo: Poderia ser levado pelo afã de sua pouca experiência e desejar o poder, dinheiro, riquezas, a morte dos inimigos, mas não. Demonstra já, para aqueles que desejam possuir a sabedoria seu melhor caminho: a humildade. Pede a Deus: “um coração compreensivo, capaz de governar o teu povo e de discernir entre o bem e o mal. Do contrário, quem poderá governar este teu povo tão numeroso? “ (1 Rs 3, 9).

Olhar a realidade a partir da sabedoria de Deus é a mensagem presente na segunda leitura. Continuando a leitura da epístola aos Romanos, hoje Paulo nos faz um elevado desafio: Perceber que nosso Deus está agindo mesmo que pareça exatamente o contrário: “ sabemos que tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados a salvação segundo o projeto de Deus” ( Rm 8, 28). Desafio lançado por são Paulo, desafio difícil de ser acolhido por nós. Queremos estar sempre no controle de tudo. Não aceitamos facilmente que as coisas não saiam como havíamos planejado. E é aqui que reside o problema: É preciso ter no coração a sabedoria do Senhor que diz: “ porque os meus pensamentos, não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos, são os meus caminhos. Porque assim como os céus, são mais altos que a terra, assim são os meus caminhos mais altos que os vossos caminhos e os meus pensamentos, mais altos que os vossos” (Is 55, 9).

No Evangelho deste domingo continuamos nossa meditação sobre as parábolas do Reino dos céus. Aqui o Reino é comparado com algo muito valioso: um tesouro encontrado no campo e uma pérola de grande valor. Lembremos como o livro dos Provérbios descreve a sabedoria, que adjetivos encontrou para defini-la: “ recebe meu ensino e não a prata, preferi o conhecimento antes que o ouro puro. Porquanto melhor é a sabedoria do que as mais finas joias, e de tudo o que se possa ambicionar, nada se compara a ela” (Prov.8, 10-11).

Para o autor dos Provérbios a Sabedoria é mais valiosa do que qualquer tesouro. As duas parábolas revelam algo muito semelhante: “ O reino dos céus é como um tesouro escondido no campo. Um homem o encontra e o mantém escondido, depois vende todos os seus bens e compra aquele campo. O reino dos céus também é como um comprador que procura pérolas preciosas. Quando encontra uma pérola de grande valor, vende todos os seus bens e compra aquela pérola” (Mt 13, 45-46).

Em jogo no evangelho está o valor que damos as coisas. A descoberta do reino simbolizada no tesouro ou na pérola de grande valor, fez com que aqueles homens deixassem tudo para possuir o reino. Somente a sabedoria de Deus nos leva a tomar esta decisão. Somente ela, para nos recordar que ganhar o reino dos céus vale mais do que qualquer bem aqui na terra. Somente a sabedoria da Cruz e não do “mundo”, nos auxiliará na escolha do bem maior, dos tesouros do céu, onde nem a traça, nem a ferrugem consomem, e onde nem os ladrões não minam e nem roubam” (Mt 6, 22) .

Necessitamos mais do que qualquer coisa da sabedoria de Deus. Para escolher sempre por Ele.

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A paciência tudo alcança!

XVI Domingo do Tempo Comum
(Sb 12, 13.16-19; Sl 85; Rm 8, 26-27; Mt 13, 24-43)

Uma tendência natural dos homens é a de dividir a humanidade em duas grandes categorias: os bons de um lado e os maus de outro. É claro que esta tendência é presente também no plano religioso. Gostamos de invocar benção e prosperidade sobre nós mesmos, nossa família, nossos projetos, mas aos maus que caiam as maldições, aos inimigos, algum tipo de desprezo.
Está não é a sadia visão cristã, ela lembra mais uma corrente filosófica que entrou no cristianismo como um fermento levedando nossa imagem do Pai misericordioso e o transformando em um divisor que separa bons de um lado e maus de outro. A esta visão dualista do mundo chamamos maniqueísmo, não cristianismo.
A liturgia de hoje nos joga às searas mais amplas. Não nega de forma alguma a existência do mal, da corrupção, do pecado e da queda, mas não trata estes problemas como pensavam os maniqueístas, como algo fora de nós mesmos. Até por que, seria muito cômodo aceitar uma espécie de queda além de nós, pois não nos comprometeria em nada com ela. Nem haveria desta forma alguma possibilidade de pecado, pois não existiria também liberdade de consciência. Para esta visão o homem é como uma marionete, que um princípio mal o manipula.
A Palavra deste domingo não toma caminhos filosóficos. Ela é bem mais concreta e direta. Ela aponta para um aspecto da vida humana que parece andar escasso em nossos dias. É um valor, uma virtude, mas que no pragmatismo de nosso tempo, tem sido pouco valorizada: Falamos de paciência!
Paciência esta que começa com nossa amizade com Deus. Paciência que reconhece o tempo de Deus em nossa vida. As demoras de Deus em nossa vida, os longos silêncios e consolos do Senhor e acima de tudo isso, aceitar que Nosso Deus tem muita paciência conosco: “Vois porém, sois clemente e fiel. Sois amor paciência e perdão” (Sl 85, 15). Da paciência com Deus à paciência conosco mesmos. Andamos muito impacientes hoje em dia. O trânsito nas grandes cidades é somente um dos indicadores. Mas nossa impaciência chega também a vida espiritual. É lá que se revela e é de lá que emergem todas as outras. Confundimos Deus com um acelerador, como alguém que resolva de imediato nossas fraquezas e mazelas. Mas com Deus isso não é possível. Pois como o salmista disse, Ele é paciente conosco!
Nossos grandes santos já conheciam os degraus deste caminho de fé. Paulo Apóstolo afirmava: “ De bom grado, eu me gloriarei das minhas fraquezas, para que a força de Cristo habite em mim. Eis por que me comprazo nas fraquezas, nas injúrias e nas perseguições (…) Pois quando me sinto fraco é, então que sou forte” (2 Cor 12, 9-10). Também Santa Tereza D´Avila, mestre em vida espiritual depois de um extenuado tempo de silêncio de Deus e aridez em sua vida espiritual, compõe um belíssimo hino de reconhecimento da ação de Deus mesmo em suas fraquezas: “ Nada te perturbe, nada te espante, tudo passa, Deus não muda. A paciência tudo alcança. A quem tem a Deus nada falta, só Deus basta” (Santa Tereza D´Avila).
A liturgia neste final de semana, convida-nos a lançar nosso olhara sobre a paciência de Deus para conosco. É um exercício difícil. Somos muito apressados. Mas o caminho de crescimento na vida do Espírito, exige de cada um de nós, aceitar, reconhecer, amar, cuidar também daqueles duros sinais de fraquezas e pecados que emergem em nossa vida, confiantes que a seu tempo, Deus trabalha em nós, mesmo nossas fragilidades: “ O Espírito vem em socorro de nossas fraquezas, pois nós não sabemos o que pedir, nem como pedir; é o próprio Espírito que intercede em nosso favor, com gemidos inefáveis” (Rm 8, 26).
As 3 parábolas deste final de semana demonstram um Deus misericordioso e paciente que espera que a boa semente lançada no campo, o pequenino grão de mostarda e o fermento na massa, tenham o tempo necessário para o crescimento e o desenvolvimento. Assim também acontece com o que Deus semeou em nós. Às vezes é pequenino como o grão de mostarda. Parece em um primeiro momento que não irá vingar. Surge o joio, o inço, a sujeira, a semente parece que será sufocada pela presença de ervas daninhas, mas ao final irá crescer: “ e quando cresce ficar maior do que as outras plantas. E torna-se uma árvore, de modo que os pássaros fazem ninhos em seus ramos” (Mt 13, 32) .
Respeitemos o tempo de Deus em nós. Não nos assustemos se vemos crescer também o joio, ele é também causa de crescimento! O joio, as fraquezas, as quedas, devem ser motivos de amadurecimento, são na lógica de Deus um bom fertilizante para nossa fé.

“No tempo certo, Deus colherá sempre os melhores frutos”!

XV Domingo do Tempo comum
( Is 55, 10-11; Sl 64; Rm 8, 18,23; Mt 13, 1-23)

Que sementes lançamos no mundo? Que valores deixamos para outras gerações? Com que significados marcamos a vida das pessoas que nos cercam? Que sementes estamos espalhamos ao nosso redor? Com estas perguntas iniciamos nossa meditação deste final de semana. A ideia central está mais nos sinais que vamos deixando no caminho, do que nos grandes conteúdos que possuímos. Lembro sempre de minha catequista. Uma jovem dedicada e simples. Ela não tinha lá muita erudição teológica. Naquela época os (as) catequistas não se preparavam tanto, não havia à disposição como hoje tantos cursos de formação catequética e pastoral. No entanto, jamais a esqueci. Há décadas que não há vejo, mas nunca esqueço o que ela com muita simplicidade e generosidade semeou durante dois anos em mim.
Bem mais do que conteúdos (que são muito importantes), lembro mesmo é de sua dedicação e do amor com que transmitia aqueles primeiros conteúdos da fé cristã para nós um grupo de pré-adolescentes dando nossos primeiros passos na fé.
Este momento de minha vida, com certeza é lugar comum de muitas experiências similares. E está em perfeita sintonia com a liturgia deste final de semana, pois revela a força da Palavra de Deus que como em Isaías: “ a palavra que sair da minha boca: não voltará vazia; antes, realizará tudo que for de minha vontade e produzirá os efeitos que pretende ao envia-la” (Is 55, 11).
Neste domingo o evangelho fala da parábola do semeador. É um texto belo, simples de compreender e profundo. Jesus entrou em uma barca e grande multidão reuniu-se em sua volta e começou a ensiná-los. Interessante pensar está forma de “mesa da palavra” que Cristo se utiliza: a barca, símbolo mais antigo da Igreja, diante de uma multidão que ficava de pé na praia ( Mt 13, 2). É um belo símbolo da Igreja, e de nossas assembleias dominicais. Às vezes não sabemos quem nos ouve, seus nomes ou até mesmo como ecoa a Palavra em suas vidas, mas é dever nosso sempre proclamá-la como é um dever do semeador, semear ainda que não possa mensurar como serão os frutos de sua colheita.
A parábola inicia com a imagem de um semeador saindo a lançar suas sementes. Enquanto semeava quatro foram os locais em que caíram suas sementes. No texto são 4 tipos de solo. Uma à beira do caminho, umas em solo pedregoso, algumas em solo espinhoso e também em terra boa. Há neste texto alguns elementos que favorecem o semeador, por exemplo o fato de sempre sair e semear e claro a força própria semente, que é a Palavra de Deus. Mas há também alguns fatores que lhe são antagônicos, como por exemplo a qualidade do terreno em teve de semear. A parábola do semeador revela que para que a semente dê os frutos que são esperados é importante a qualidade do terreno em que a semente foi lançada. É claro que cada terreno expresso no texto bíblico remonta a nós ouvintes situações especificas da vida, revela que o terreno deve ser profundo, para que a semente encontre mais possibilidades de gerar cem, sessenta e trinta frutos por semente (Mt 13, 9).
Mas sabemos também que estes solos são metáforas de nossa vida ou melhor de nossa capacidade de acolher a boa semente da Palavra. E como se apresentam estes terrenos, assim, muitíssimas vezes também nos apresentamos. Quem já não sentiu que existem muitas forças querendo “roubar” de nós a Palavra de Deus? São Paulo na carta aos Efésios declara que: “nossa luta não é contra os homens, mas contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo das trevas” (Ef 6, 11). Não sejamos inocentes ou ingênuos, mas o inimigo de Deus está aí, rondando àqueles sedentos da escuta da Palavra, para tira-los do caminho do Senhor. Quem já não experienciou alguma vez na vida, sua alma assemelhar-se a um solo pedregoso e sem profundidade? A semente foi recebida com alegria, mas os sofrimentos e a sensação de deserto espiritual não permitiram que a semente desse frutos. Quem de nós recebeu a Palavra como que entre os espinhos? Quem já não passou por sufocos em sua vida? Quem de nós já não teve a sensação de estar oprimido ou deprimido cercado por espinhos, sem ar para respirar? Que de nós já não se deixou iludir pelas riquezas sufocando o dinamismo da Palavra de Deus.
Todas estas imagens são assinaladoras de algo que está no outro lado do semeador. De uma realidade presente na vida de seu interlocutor. Para o semeador é claro que está realidade é um solo ainda não fecundo para a colheita dos frutos. No entanto para os pregadores, os catequistas, os semeadores da Palavra, do outro lado de sua semeadura está o problema do mal: aqui na parábola se apresenta como nas tentações sob três manifestações: No demônio que quer roubar a Palavra de Deus em nós; no mistério da iniquidade e tentações e por fim no ministério do sofrimento.
Mas todas elas apontam também para realidades que precisam ser superadas em cada um de nós. O apóstolo Paulo na Segunda leitura é extremamente positivo quanto a isso: Em relação ao mistério do sofrimento ele afirma: “eu entendo que os sofrimentos do tempo presente nem merecem ser comparados com a glória que deve ser revelada em nós” (Rm 8, 18). Há aqui algo que precisa ser integrado em nós. Vivemos uma ditadura do não sofrer. Não se pode mais sofrer na vida. Algumas religiões até proíbem que isso aconteça a seus fiéis comparando o sofrimento humano a um castigo de Deus. Paulo pelo contrário entende e acolhe o sofrimento, mas sabe que algo bem maior há de se manifestar em nós. Paulo ainda fala sobre o mistério da iniquidade e que este também será superado: “ pois a criação ficou sujeita à vaidade, não por sua livre vontade, mas por vontade daquele que a sujeitou, também ela espera ser libertada da escravidão e corrupção, para de fato participar da glória dos filhos de Deus” (Rm 8, 20). O mistério da iniquidade foi vencido na morte de Cruz de Cristo. Naquela semente que caiu na terra, morreu e deu muitos frutos, uma árvore esplendorosa que é sua Igreja, que continua a semear esta Palavra na terra.
Voltemos agora ao semeador. Ele ainda há de encontrar terrenos hostis a Palavra de Deus, mas continuará semeando sempre. Pois no final de tudo quando Deus será tudo em todos (1 Cor 15, 16), veremos com olhos purificados da fé que valeu muito a pena lançar a Palavra.
Valeu a pena a simples semeadura de minha primeira catequista, que semeou mais com o coração, sem ao menos saber o que um dia seria colhido!

 

 

“ O caminho de ir para cima é ir para baixo” (Francisco de Assis, dos Escritos de Egídio de Assis)

XIV Domingo do Tempo comum

( Zc 9, 9-10; Sl 144; Rm 8, 9-11-13; Mt 11, 25-30)

Começo a meditação deste domingo com uma belíssima reflexão de Santo Agostinho sobre a humildade, tema recorrente nas leituras desta liturgia: “ Nosso Senhor Jesus Cristo, como querendo dar uma lição mais sublime aos que dele se admiravam e conduzir para as secretas e eternas realidades a estes espíritos atentos e como o suspenso fascínio de seus prodígios, lhes diz: Vinde a mim todos vós que estais cansados sob o peso de vossos fardos e, eu vos aliviarei. Tomai sobre mim o meu jugo. Ele não disse: Aprendei de mim a ressuscitar mortos de 4 dias, mas aprendei de mim que sou manso e humilde de coração. A solidíssima humildade é mais poderosa e mais segura que os cumes soprados dos ventos” (De Trinitate, 8 7).

O tema recorrente da liturgia deste final de semana está na humildade. Ela é assunto sempre antagônico e contraditório frente as escolhas que as vezes as circunstâncias da vida nos levam a tomar. Muitas vezes colocamos nossa segurança, nossa paz, nossa confiança nos grandes, nos poderes que o mundo nos oferece, nas guerras, no dinheiro, na dominação, enfim, em uma segurança que tem representado para todo nós alguma manifestação de grandiosidade. Por exemplo: diante do problema da segurança que é real em nossos dias, muitas vezes ouvimos até mesmo dentro do contexto católico discursos apoiados na violência, no extermínio, como se esta saída fosse resolver as reais e concretas causas da violência do nosso país…. No entanto o caminho que a liturgia nos oferece é bem outro. Se começarmos lendo a segunda leitura iremos perceber que são Paulo desconfia de assegurar-se até mesmo da força da “carne”: “ vós não viveis segundo a carne, mas segundo o Espírito que mora em vós (…) portanto temos uma dívida não com a carne, para vivermos segundo a carne, pois se viverdes segundo a carne morrereis, mas se, pela espírito, matardes o procedimento carnal, então vivereis” (Rm 8. 13). Quando Paulo contrapõe espírito e carne não está pensando em linha filosófica dualista, de uma separação total de carne x espírito como pensava o mundo grego. Não é isto que o apóstolo quer aprendamos. Ele está pensando exatamente nas consequências de uma vida segundo o espírito e o seu antagonismo, isto é, uma vida conduzida pela carne, ou pelo egoísmo. Paulo tem presente que a consequência se dá nos frutos que ambas deixam à existência humana: “ ora as obras da carne são manifestas: fornicação, impureza, libertinagem, idolatria, ódio, rixa, ciúmes, ira, discórdias, divisões, etc (…) mas o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, autodomínio (…) pois os que são de Cristo Jesus crucificaram a carne com suas paixões e seus desejos” (Gl 5, 19-20.22-24).

Claro, há uma “violência” positiva presente na epistola paulina. É a vitória da paz sobre a guerra, do perdão sobre a divisão e discórdia, do espírito sobre a carne. Se há algo a ser destruído é a mentalidade carnal, centrada em si, e que só nos tem levado para longe do Senhor: “ mas pelo espírito matardes o procedimento carnal”!

Os textos evangélicos continuam insistindo no tema da humildade e dos pequeninos. O profeta Zacarias anuncia a vinda de um rei humilde: “ Exulta cidade de Sião, rejubila cidade de Jerusalém. Eis que vem teu rei ao teu encontro; ele é justo, ele salva; é humilde e vem montado num jumento, um potro, cria de jumenta(…) e anunciara a paz às nações” (Zc 9, 10). Parece ironia se lembrarmos como os reis entravam nas cidades, montados sobre os melhores cavalos e cercados de toda pompa e segurança militar. Este rei, que é figura de Cristo entrando em Jerusalém, não porta consigo armas de guerra e sim a paz às nações…

No entanto sabemos que nos dias de hoje paira sobre todos nós certa desconfiança nos valores deixados pelo Senhor nas bem-aventuranças. Há nos corações de muitos homens e mulheres de bem cristãos e não professos o descrédito da força bem. Alguns até falam no cansaço dos bons, isto é, daqueles, que ainda poderiam fazer a diferença na sociedade tão dividias em discórdias lançando as verdadeiras sementes da paz: “misericórdia e piedade é o Senhor, ele é amor é paciência, é compaixão. O Senhor é muito bom para com todos, sua ternura abraça toda a criatura” (Sl 144, 2).

Nosso Senhor também sabe disso. E sua palavra neste final de semana permeia também esta realidade. Há um real cansaço deixado pelo medo, pela violência, pelas injustiças, pelos escândalos de nossos políticos, e até mesmo por religiosos que preferiram devido às suas fraquezas e pecados, confiar mais na carne, no poder, no dinheiro, do que nutrir dentro de si mesmo, o essencial que está na interioridade espiritual, vinculo profundo do amor do Senhor.

Cristo com a palavra “vinde”, nos faz neste final de semana um convite revolucionário: “Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso de vossos fardos e eu vos darei descanso” (Mt 11, 28). Este “vinde” recorda o discurso escatológico de Mateus: “ Vinde benditos de meu Pai…” (Mt 25 ss); convite para aqueles que ainda acreditam nas bem-aventuranças. Mas hoje este “vinde” se dirige a mim e a você, religioso (a), catequista, ministro, político, jovem, que esteve errante e cansado de crer no bem e cedeu na tentação de colocar sua esperança nos messias poderosos deste mundo. Escutai:  “Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração” (Mt 25, 29). Eis nosso grande ensino, aprendizado, dado pela Verdade!

Terminamos esta meditação com dois testemunhos da vitória do bem sobre o mal: Primeiro santo Agostinho: “ Se Deus é caridade, para que andar correndo desatinados pelos cumes dos céus e das profundezas da terra em busca daquele que mora em nós. Ninguém diga: não sei o que é o amar; Ame seu irmão e amará ao amor. Se vês a Trindade vês o amor” (De Trinitate, 8, 12); e também Francisco de Assis: “ Ninguém pode chegar ao conhecimento de Deus senão através da humildade; o caminho de ir para cima é ir para baixo”(In Fons Fransciscani, 1115).

“ Com são Pedro, um desafio de nossos tempos. Mais ligado ao céu e menos conectado à rede”

Festa de São Pedro e São Paulo

(AT 12, 12,1-11; Sl 33; 2 Tm 4, 6-8.17.18)

Celebramos neste final de semana a festa dos apóstolos Pedro e Paulo. Esta solenidade conclui o festivo mês de junho marcado pela memória de tantos santos: santo Antônio, são João sem esquecer a devoção ao Sagrado Coração de Jesus.

Todas estas memórias litúrgicas celebradas em junho, são fortemente sentidas na cultura e religiosidade popular. É lá no coração do povo simples de Deus que saem as expressões mais afetivas, mais criativas e é no contexto desta religiosidade mais simples que as figuras destes santos se tornam mediação para o encontro com Deus.

Sabemos, a religiosidade popular é muito importante. Nem ousaríamos desprezá-la. Ela está na história da fé do povo brasileiro e na alma de nosso catolicismo, mas como na fé de um teólogo, mais elaborada, também necessita de purificação.

São Pedro e São Paulo, nossos santos juninos, são em verdade dois mártires da fé. Esta verdade não poderá jamais ser esvaziada desta solenidade. Mártires significa que ambos perderam a vida por Cristo. Mas revela também o porquê desta doação de suas vidas: Ambos, Pedro e Paulo foram testemunhas da cruz da Cristo e foi este testemunho no coração do Império Romano que os fez derramar até suas últimas gotas de sangue pelo Evangelho.

A festa das colunas da Igreja não deve ser apenas memória do passado, tem muito a inspirar o nosso presente. Também nós somos chamados a ser testemunhas de Cristo no mundo de hoje. Pedro, Paulo e tanto outros viveram em um mundo que não compreendia a cruz de Cristo: “ mas para anunciar o evangelho sem recorrer a sabedoria da linguagem, a fim de que não se torne inútil a cruz de Cristo. Com efeito a linguagem da cruz é loucura para aqueles que se perdem, mas para aqueles que se salvam, para nós é poder de Deus” (1 Cor 1, 17-18), o antigo mundo destes apóstolos foi se tornando cada vez mais hostil, violento e perigoso aos cristãos daquela geração. Não vivemos em contextos muito diferentes. Sentimos ainda hoje a mesma hostilidade, a velada perseguição em muitos ambientes e até os mesmos perigos que ameaçam valores cristãos já perenes na sociedade. Mas nem por isso devemos recuar, deixar a fé, desistir do combate, pular da barca. Pelo contrário as colunas são nossa melhor inspiração. Assim como a coluna mantém o corpo em pé, o testemunho dos santos de hoje, jogam nossa fé para frente: “ quanto a mim, eu já estou para ser derramado em sacrifício; aproxima-se o momento de minha partida. Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé. Agora está reservada a coroa da justiça (…), não somente a mim, mas a todos que esperam com amor a sua manifestação gloriosa” (2 Tm 4, 17).

O Evangelho desta solenidade narra a profissão de fé de Pedro em Cesáreia de Filipe. Após Jesus os questionar sobre o que dizem os homens sobre Ele, e o que dizem os seus próprios discípulos sobre sua identidade. Pedro responde: “tu és o Messias o Filho do Deus vivo” (Mt 16, 15). O diálogo em Cesaréia é atual à nós. Vivemos tempos de infindas informações. Uma simples navegação na internet pode lhe dar a resposta que deseje. Tudo está na rede! É só clicar….!

No entanto a resposta de Pedro não vêm da rede. Vêm dos céus. Somente o Pai que está nos céus poderia ter feito a mais alta revelação a um simples pescador, formado na escola do oficio de lançar e consertar redes de pesca: “Quando acabou de falar disse a Simão: faze-te ao largo; lançai vossas redes para a pesca” (Lc 5, 4) e ainda: “ Feliz és tu Simão, Filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está nos céus” (Mt 13, 17).

Após a confissão de fé, Pedro recebe uma revelação da parte de Cristo. Ele será a pedra que confirmará os outros irmãos na fé. E ainda se tornará a chave que ligará céus e terra. A missão de Pedro é muito grande.

Hoje em dia o mundo está interligado. Todo o mundo está conectado na rede. Quando mais as pessoas se ligam na internet, se comunicam nas redes sociais, nos celulares, mais se tornam des-ligadas uma das outras e por que não dizer, menos ligadas com Deus.

É claro a internet têm ajudado a fé. Dirimido fronteiras, sendo mediação de tanta entre ajuda entre povos ricos e pobres… Mas ela jamais substituirá a proximidade entre os irmãos e nossa intimidade com Deus.

Pedro liga e desliga. Que está solenidade nos ajude a “des-ligarmos” nossos celulares por uns momentos. A sairmos por instantes da “rede”, para nos “re-ligarmos” àquela rede que estava nas mãos de Pedro e que nos liga de novo ao céu!

São Pedro e São Paulo, rogai por nós!