“O Espírito dobra o que é duro, guia no escuro, o frio aquece” (Sequência do Espírito Santo)

Solenidade de Pentecostes

(At 2, 1-11; Sl 103; 1Cor 12, 3-7.12-12; Jo 20, 19-23)

Celebrar Pentecostes é celebrar alguém que se quer receber. Receber alguém muito especial, alguém que irá fazer enorme diferença em nossas vidas. Celebrar Pentecostes é celebrar duas realidades da dinâmica espiritual: a comunitária e a pessoal, a do todo e da parte, do uno e do múltiplo. É celebrar a dialética espiritual que move a Igreja desde sempre, sem nunca feri-la. É celebrar o visível  o corpo e no mesmo lugar o sobrenatural. O eterno, a alma e da mesma forma a visibilidade da Igreja no mundo. Celebrar Pentecostes é entrar nesta diferença: a unidade na diversidade e a individualidade na unidade. Só o Espírito de Deus é capaz de realizar tudo isso.

Para preparar-se à receber o Espírito Santo é preciso entrar na lógica do mistério. E ela é sempre ou quase sempre paradoxal ou inefável. Por vezes sofre-se a tentação de querer controlar as coisas, de querer fazer com que o santo mistério de Deus na história seja controlado por nós mesmos, mas pentecostes diz que diante do seu mistério o melhor é fazer como Moisés no Horeb: “Tirar as sandálias diante deste lugar tão santo” (Ex 3, 16).

Pentecostes é a festa da unidade e da comunhão. A solenidade revela que a diferença não é exclui ambas as partes, pelo contrário, somente no respeito à distinção nos é permitido salvaguardar o que a “unicidade” tem de próprio, e o que o “comunitário” oferece à comunhão. As vezes quando deixamos de “ouvir” o que o Espírito diz a Igreja (Ap 2,2); e aceleramos os processos, corremos o risco de sairmos da lógica do mistério que é adoração e contemplação e entramos com muita pressa na esfera do sensível: Com isso vai-se à mentalidade do totalitarismo, da globalização, na qual se pressupõe que na Igreja todos devem falar “forçosamente” uma mesma linguagem, rezar e celebrar univocamente ou “descer” para o princípio do “carismatismo” que não considera o todo, a comunhão, mas somente a “minha parte”, a base, como se a Igreja se assemelha-se a uma “pirâmide” e não aquilo que por analogia teológica o é, um “corpo místico”: “Como o corpo é um, embora tenha muitos membros, e como todos os membros do corpo, embora sejam muitos, formam um só corpo, assim acontece com Cristo” (1 Cor 12, 12).

Viver Pentecostes, celebrar a vinda do Espírito Santo sobre a Igreja é possibilitar não mais conduzir, mas ser conduzido, não estar no controle, mas ser controlado, é permitir guiar-se nos caminhos que o Espírito leva a Igreja.

A liturgia da Palavra desta solenidade traz-nos três significativas imagens qualificativas do Espírito Santo: Em Atos dos Apóstolos Ele se mostra um vento forte e impetuoso. Na carta paulina, é um corpo com muitos membros e no Evangelho, o Espírito de Deus é sopro como um hálito divino. Importa saber que os correspondentes “Ruah” (hebraico) e “Pneuma” (grego) são termos sinônimos. Ambos significam ora, sopro, ar, o hálito humano e também podem indicar o vento.

Jesus ao encontrar-se com o fariseu Nicodemos o recorda que o Espírito é como a força do vento: “o vento sopra onde quer, você escuta seu som, mas não sabe de onde vêm nem para onde vai, assim acontece com aqueles que nasceram do Espírito” (Jo 3, 7-8). Com certeza há nesta figura utilizada por Cristo, muito do contexto geográfico. Ela lembra a suave brisa que sopra no final da tarde no tórrido deserto, trazendo o alívio necessário para aqueles que suportam o calor: “no labor descanso, na aflição remanso, doce alívio, vinde” (Sequência)! O Espírito Santo é como este vento que sopra nos desertos áridos de nossa vida os enchendo com sua presença e suavidade. O salmista é a genuína expressão desta realidade quando diz: “Se tirais o seu respiro, elas perecem e voltam para o pó de onde vieram. Enviais o vosso Espírito e renascem e da terra toda a face renovai” (Sl 103, 2).

Nicodemos no diálogo é a figura de homem que deve renascer do alto: “em verdade em verdade vos digo, quem não nascer de novo não poderá entrar no reino de Deus” (Jo 3, 2).

Pentecostes era uma festa hebraica celebrada 50 dias após a páscoa, onde os judeus recordavam as primícias, as primeiras colheitas oferecidas ao Senhor. Na nova aliança pentecostes celebra também primícias. Sua primeira colheita é a Igreja, este povo que nasce agora do alto, do Espírito de Deus, semeado em sua Palavra e nas águas do batismo.

Mas Pentecostes é sempre a solenidade da unidade e da comunhão. O texto em Atos dos Apóstolos mostra bem esta realidade. Há neste texto espaço para o todo e para o indivíduo, é somente assim que o Espírito age em nós: “Então apareceram língua de fogo que se repartiram e pousaram sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito os inspirava” (At 2, 3-4). As línguas de fogo pousam sobre cada um, e todos ficaram cheios do Espirito Santo. O dom que se derrama sobre cada indivíduo presente no cenáculo, contribui para que todos se encham do Espírito. O todo é feito das partes. A unidade é fruto da comunhão: “a cada um é dada a manifestação do Espírito em vista do bem comum” (1 Cor 12, 11).

E por que é importante para nós Igreja, está liberalidade do Espírito no coração humano? Que atualidade esta solenidade oferece ao nosso contexto? O que o Espírito diz hoje a Igreja?

Certamente muito. Vivemos na era da globalização e este fenômeno é composto de realidades positivas e negativas. O positivo da era global certamente está na comunicação. A globalização facilitou as coisas, fronteiras foram superadas, passamos a falar uma língua comum. Com o revolução tecnológica o mundo tornou-se uma grande rede. E isto é interessante. No entanto há também perigo neste fenômeno: A ideia de estarmos todos interligados e “unidos” em uma grande rede, tem feito desaparecer a pessoa, o indivíduo, o “uno no múltiplo”. No mundo global o todo é sempre maior que a parte, mas no mundo do cristianismo, não deve ser assim. O todo e a parte se complementam e se unem dialeticamente. O corpo eclesial não é uma abstração, uma ideia, uma “era global”, um corpo real formado por cada um de seus membros!

Que o Santo Espírito de Deus sopre sobre toda a Igreja e sobre cada um de seus membros. E que possamos falar ainda que em línguas diferentes, de formas e maneiras diferentes a única linguagem que o dom do Senhor conhece: a linguagem do amor!

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