“Na Ascenção do Senhor, Cristo une o céu e a terra, o corpo e alma, o já e o ainda não”

Festa da Ascensão do Senhor

(At 1, 1-11; Sl 46; Ef 1,17-23; Mt 28, 16-20)

“Esse Jesus que foi levado para o céu, virá do mesmo modo como o vistes partir para o céu” (At 1, 11); “bem acima de toda a autoridade, poder, potência, soberania ou qualquer título que se possa mencionar não somente neste mundo” (Ef 1, 20); “Eis que estarei convosco todos os dias até o fim do mundo” (Mt 28, 20).

Nos três fragmentos de textos da liturgia deste final de semana, vemos aparecer uma mesma cena especial: Desde o monte das oliveiras Jesus ressuscitado sobe ante as nuvens do céu, desde os horizontes terrestres, sua figura penetra os infinitos horizontes celestiais. São Paulo na carta dedicada à importante cidade de Ásia Menor, Éfeso, segue esta mesma direção: Cristo sobe até o trono divino, depois de nos ter resgatado do reino da morte e do nada passa ao reino da vida e do infinito. (Ravasi, Gianfranco).

A grandiosa aparição de Cristo a seus discípulos no monte, encerrando o Evangelho de Mateus, traz-nos um traço interessantíssimo: Com efeito, o Senhor, abraça o céu e a terra e faz descer sobre seus discípulos, colocados em um monte da Galiléia, uma última palavra-frase, raiz de toda a missão da Igreja: “Eis que estou convosco todos os dias, até o final do mundo” (Mt 28, 20). (Ravasi, Gianfranco).

Somente seguindo esta espécie de caminho entre “terra e céu”, será possível compreender o mistério que celebramos nesta liturgia, despojando-nos de todo dualismos ou materialismos exagerados da sua compreensão.

A mamãe sempre perguntará a seu filho onde está Deus! Ou onde é a casa de Deus? Ao qual a criança responderá, no céu. Nos antigos santuários bizantinos, o monte mais alto era considerado a “habitação de Deus”, o lugar que somente os iniciados poderiam se aproximar. Moisés no Horeb, experimentou a força de uma sarça que não se consumia e diante desta mística experiência teve de tirar suas sandálias: “não te aproximes, tire as sandálias dos teus pés, pois é santo o lugar onde pisas” (Ex 3, 5).

A Ascenção do Senhor aos céus será então com seu símbolo de subida e a proclamação gloriosa da ressurreição do Senhor, a superação a partir de Cristo de nosso limite humano na participação do mistério insondável dos céus. Mas como efetivamente se dará isto? Cristo o Filho de Deus desceu das alturas, na linguagem paulina, esvaziou-se de sua condição divina, assumindo nossa condição humana, até a morte e morte de cruz (Fl 2, 6ss). Com sua páscoa, Ele rompeu com a prisão da terra a que estava ligada toda a humanidade, e retornando a pátria de Deus, levou consigo todas as criaturas, por isso Paulo escreve: “Subindo aos céus, levou consigo todos os prisioneiros, dando dons aos homens! (Ef 4, 8). Ou em outra passagem aos Efésios: “o que significa que Ele subiu, senão que desceu às partes mais baixas da terra, e o que subiu é o mesmo que desceu muito além de todos os céus” (Ef 4, 9-10).

A Ascenção do Senhor é pois um convite de subida com Cristo. Todos desejamos subir. Todos almejamos em certa medida ascender na vida. Crescer profissionalmente, ter nossos projetos pessoais reconhecidos. Ambiciona-se de certo modo superar mediocridades que nos paralisaram no tempo. O mistério da subida do Senhor Jesus aos céus perpassa todas estas realidades, porém exatamente em sua contradição.

O desejo humano de subir na vida, de crescer, de ascender, é sinalizador de algo mais profundo presente em nós. Este é um desejo pelas coisas do alto e que a mera estabilidade do “status social” não é capaz de responder. Lembremos que o próprio Satanás conduziu Jesus até o monte muito alto e mostrando-lhes todos os reinos do mundo e sua glória lhe disse: “Eu te darei todo isso, se te ajoelhares diante de mim” (Mt 4,10); ao que o Senhor respondeu: “para traz, Satanás, adorarás somente ao Senhor teu Deus e só a Ele servirás” (Mt 4, 11). A Jesus naquele momento fora oferecido todo o poder temporal existente. No entanto escolhe o melhor, o mais nobre: adorar e servir ao Senhor.

O mistério da Ascenção do Senhor traz sempre consigo um tema importante para o homem de nosso tempo, por isso será sempre difícil de traduzi-lo. É que está liturgia coloca-nos diante da realidade “Céu”, e estamos por demais habituados a imaginá-la como um mundo “do andar de cima” e que nada tem a ver “conosco no andar debaixo”, ou no seu antagonismo: Para muitos habituados a não considerá-la mais presente no horizonte humano devido ao excessivo valor que damos hoje em dia ao material, tentação está já presente na mais antiga tradição da Igreja: “ Senhor é agora que vais restaurar o Reino de Israel?” (At 1, 7)

Por isso a festa da Ascenção é profética a nós católicos. Ela abre nossos olhos para a última e única realidade existente, Deus. Ela nos recorda que nem tudo deve ser reduzido ao aqui e agora. Podemos quer subir e crescer na vida, no mundo do trabalho mas sem perder de vista o futuro em Deus: “ buscai as coisas do alto” (Cl 3,1) e sem perder de vista o presente no meu próximo: “ Homens da galileia, por que ficais parados olhando para o céu (…)? (At 11, 11).

 

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