“Construindo a nossa morada no céu com as pedras vivas que somos nós

V Domingo da Páscoa

( At 6, 1-7; Sl 32; 1 Pd 2, 4-9, Jo 14, 1-12)

A comunidade cristã das origens viveu uma experiência marcada por grande entusiasmo, fervor e alegria: “dia a dia, unânimes, frequentavam assiduamente o templo e partiam o pão pelas casas, tomando o alimento com alegria e simplicidade de coração” (At 2, 46). Lucas nos Atos dos Apóstolos descreve como testemunha ocular que foi esta significativa experiência que fizera a primeira geração cristã. Mas como acontece em todas as relações, também na relação com Deus depois de um momento de “enamoramento espiritual”, provieram as primeiras tribulações, as primeiras desistências, as primeiras perseguições, dissenções entre os membros das próprias comunidades, as primeiras crises, em suma, o mistério da Cruz de Cristo visitou também seus fervorosos seguidores.

É a hora em que começam novas perguntas: Senhor a quem iremos, só tu tens palavras de Vida? (Jo 6, 69); Senhor não sabemos para onde vais. Como podemos conhecer o caminho? Mostra-nos o Pai e isto nos basta? (Jo 14, 5.9). Os sinceros questionamentos que fizeram aqueles primeiros discípulos de Cristo, não serão diferentes das perguntas que nossa geração faz, quando é chamada a atravessar períodos de provas e dificuldades. Com certeza também nestes momentos vemos desmoronar a nossa volta todas nossas certezas. E ver que projetos pessoais em que estávamos alicerçados desabarem não é experiência fácil para nós e nem mesmo para aquela primeira geração de discípulos de Jesus.

Na segunda leitura o apóstolo Pedro nos auxilia ainda mais a compreender a palavra que hoje meditamos. Ele exorta seus irmãos na fé partindo de duas imagens que podem ser muito uteis a todos nós: A primeira delas é a da pedra viva, da rocha, atribuída a Cristo: “Caríssimos aproximai-vos do Senhor, pedra viva, rejeitada pelos homens, mas escolhida e honrosa por Deus” (1 Pd 2, 4). É muito interessante como Pedro define Cristo: Ele é pedra viva. Ao fazer esta afirmação ele nos está dizendo, que Ele é nossa solidez, nossa rocha firme, nosso abrigo forte, onde encontramos segurança. Nele nossa vida está alicerçada como em uma rocha. Mas Pedro se utiliza ainda de outra imagem semelhante a esta para  nós batizados: “Do mesmo modo, também vós como pedras vivas, formai um edifício espiritual (…)” (1Pd 2, 5). Participamos pelo batismo desta construção espiritual que é o Corpo de Cristo. E é nestas duas alegorias petrinas que se encontra o centro de nossa reflexão, no fato de também sermos chamados de “pedras e edificação espiritual”, pela vida divina que circula em todos nós.

E ai, surgem também um sérias perguntas sobre nós mesmos: Como ser esta pedra viva, este edifício espiritual em Cristo? Como poderemos manter em nossa vida espiritual a tenacidade e a firmeza destas pedras vivas? Como ser este edifício espiritual, quando muitas vezes experimenta-se a provação da fé e sentimos desabarem em nossa volta e dentro de nós antigas certezas que estávamos antes fundados?

É aqui que se encontra nosso maior paradoxo e que o apóstolo Paulo tão bem definiu: “trazemos pois este tesouro em vasos de argila, para que esse incomparável poder seja de Deus e não de nós. Somos atribulados de todos os lados, mas não esmagados, postos em dificuldade mas não vencidos; perseguidos, mas não abandonados (…)” (2 Cor 4, 7-9ss).

É sempre um grande desafio manter a tenacidade das pedras, a firmeza de uma rocha que mesmo quando atingida pela força das ondas do mar, permanece estável e sólida. Nós que somos as “pedras vivas do Senhor” e o seu “edifício espiritual”, quando sentimos a cruz pesar sobre nós, temos a sensação de que aquelas pedras se esfarelaram e que aquele edifício por algum motivo ruiu! Nossa humanidade é assim mesmo: “trazemos pois este tesouro em vasos de argila” (2Cor 4, 7). No entanto permanece em todos nós a missão de ser Pedra! Ela é muito séria, é só recordarmos que foi entregue do Apóstolo Pedro: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” (Mt 16, 18).

Qual então será o segredo para mantermos esta tenacidade e solidez na vida cotidiana e espiritual? Qual será o caminho para esta confiança no Senhor mesmo em meio as tempestades da vida? Penso que são Paulo pode nos ensinar muito sobre este santo caminho: Ele afirma que trazemos um grande tesouro: a vida da fé é um magnífico tesouro. Nada vale mais que o dom que recebemos de Deus: “O Reino dos céus é semelhante a um tesouro escondido no campo; um homem o acha e torna a esconder e, na sua alegria, vai e vende tudo que possui para comprar aquele campo” (Mt 13, 44). Porém este tesouro é dom! Foi-nos dado e está em nós. Permanece para sempre em nós, inabita eternamente pelo batismo em nós, é vida dentro de nós. Mas nós não somos este tesouro. Participamos dele honrosa e humildemente: “isto é para vós que credes ele será um tesouro precioso para os que creem(…)” (1 Pd 2,7). Mas não somos sua origem e sua causa, somos apenas o que Paulo profundamente define vasos de argila.

Para sermos estas pedras vivas, iremos sempre necessitar que a luz e o calor do Senhor, transforme no seu tempo estes humildes vasos de barro em rochas contundentes e fortes. Poderá demorar a vida toda. Talvez iremos nos descobrir somente na eternidade esta morada que o Senhor irá preparar: “ Na casa de meu Pai há muitas moradas (…) pois vou preparar-vos um lugar, virei novamente e vos levarei comigo” (Jo 14, 2.4); construída por as pedras vivas que fora nosso testemunho de fé!

 

 

 

 

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