Tire as pedras de morte de sua vida!

V Domingo da Quaresma

( Ez 37, 12-14; Sl 129; Rm 8, 8-11; Jo 11, 1-45)

Durante o tempo quaresmal a palavra de Deus nos conduziu à vários lugares geo -teológicos. Fomos ao deserto ( Mt 4, 1-11), a montanha (Mt 17, 1-9), ao poço (Jo 4), a cura (Jo 9) e neste domingo nos leva ao mais profundo de nossas vidas,  como no salmo proposto à esta liturgia diz : “das profundezas eu clamo a vós, escutai minha voz” (Sl 129,1), isto é, ao lugar chamado morte. A morte têm significados. Se apresenta a nós com muitos rostos. Existe a perda real de alguém muito próximo, mas existem também as consequências desta perda, que nem sempre expressam apenas a falta biológica. As consequências são sempre emocionais e existências. Quando perdemos alguém muito estimado por nós, temos a sensação de que algo em nós se foi com esta perda. E para muitos é extremamente difícil a recuperação.

A morte na Sagrada Escritura têm também seus significados. Ela está associada ao pecado. Vê nele sua origem e propagação:  Quanto mais se vive na proximidade do pecado, mais perto das feridas da morte se estará. A morte aqui é entendida como degeneração espiritual. Paulo na segunda leitura expressa esta realidade da seguinte forma: “Os que vivem segundo a carne não podem agradar a Deus (…) Se, porém, Cristo mora em vós, embora vosso corpo esteja ferido de morte por causa do pecado, vosso espírito está cheio de vida, graças à justiça” (Rm 8, 8. 10).

Neste quinto domingo quaresmal a liturgia nos conduz para este lugar teológico. Não com o intuito de nos fazer chorar de novo nossas mortes e perdas. Mas para curá-las: As perdas, as decepções podem endurecer nossa vida e coração. Sem nos darmos conta tornamo-nos nós mesmos “as lápides e os túmulos” onde foram enterrados nossos mais próximos. Este endurecimento da “alma” e da “esperança”, pode decretar o começo de uma morte espiritual que muitos cristãos se veem mergulhados. Este domingo quaresmal deixemos que o Senhor diga as mesmas palavras que disse a seu amigo Lazáro: “Vem para fora” (Jo 11, 44).

O que precisa vivificar-se dentro de cada um de nós? Em que lugar de nossa vida algo parece estar morto? O que precisa “vir para fora”, ser deixado para trás e retomar o caminho da ressurreição do Senhor?

O profeta Ezequiel na primeira leitura anuncia uma linda promessa: “Ó meu povo, vou abrir as vossas sepulturas e conduzir-vos para a terra de Israel” (Ez 37, 12). Não é fácil mexer com nossas perdas. É melhor permanecer na zona de conforto. Colocar uma pedra em cima de algumas situações e decretar para si mesmo o seu falimento. Mas este tipo de atitude não resolve coisas dentro de nós. Apenas as retarda, as empurra. A quaresma é tempo também de cura. De acreditar e confiar na ação do Senhor. Como Ele passa da morte da Vida na Páscoa, esta mesma passagem acontece no interior de cada um de nós. Cantamos em nossas assembléias: “Eis o  tempo…. eis o Dia da salvação”. Talvez seja o tempo (Kairós) de conversão de situações de morte em sua vida para tempos de vida:  Rompimento de relações, necessidade de perdoar alguém que lhe fez mal, reconciliação na família, enfim oportunidades de um novo recomeço que o Senhor promete.

O evangelho deste final de semana fala também de outras consequências da experiência da morte e da perda. Quando esta é vivida no âmbito familiar. Quanta dor, quanto desespero, mas também quanta solidariedade que uma dolorosa situação assim pode gerar. A família é a de Marta, Maria e Lázaro, os grandes amigos do Senhor: “Jesus era muito amigo de Marta, de sua irmã Maria e de Lázaro” (Jo 11, 5). Estamos diante do capítulo 11 de são João. Ele descreve a morte e a “revificação” de Lázaro amigo do Senhor. E neste longo texto proposto para este domingo, todas as reações que envolveriam a perda de um amigo querido estão presentes. Desde a reação das irmãs: “Então Marta disse a Jesus: “ Senhor se estivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido. Mas mesmo assim eu sei, que o que pedires a Deus Ele te dará” (Jo 11, 21). De sua irmã Maria: “ quando o viu caiu de joelhos e disse: Senhor se estivesse estado aqui, o meu irmão não teria morrido” (Jo 11, 33). Dos outros conhecidos: “Vede como Ele o amava” (Jo 11, 36). E a mais impressionante: a do próprio Cristo: “Jesus ficou profundamente comovido (…) e Jesus chorou” (Jo 11, 35). Mas será desta mais profunda dor (Sl 129, 1), que surgirá o mais sublime dos sinais de Cristo. São os paradoxos que o evangelho propõe, as únicas realidades capazes de tirar nossas vidas das mais escuras sepulturas. E é o que está em jogo neste longo texto. A revificação de Lázaro, após 4 dias de sua sepultura: “Tirai a pedra, Marta, a irmã do morto, interveio. Senhor, já cheira mal. Está morto a quatro dias” (Jo 11, 38), é o sinal, de outra ressurreição: “Maria Madalena foi ao sepulcro, de madrugada, quando ainda estava escuro e vê que a pedra fora tirada” (Jo 20, 1). Em ambas, foi preciso arrancar uma pedra. Na Ressurreição do Senhor, a pedra não pode lhe prender… O peso da morte não resistiu à força do amor. Mas sabemos que para sentirmos esta força, esta Vida em nós, algumas pedras precisam ser tiradas do coração. Nem Marta quis. É muito doloroso olhar de novo as mortes, mas é preciso. Deixe Jesus dizer neste tempo a você: “Tirai a pedra da mortes de sua vida e Eu faço o resto”!

Discernir é aprender a ver a luz por entre sombras!

IV Domingo da Quaresma

( I Sm 16, 1b.6-7.10-13ª; Ef 5, 8-14, Jo 9,1-41)

Neste IV domingo quaresmal nos encontramos com um dom importante dado pelo Espírito de Deus: o dom do discernimento. Discernir é uma outra forma de ver, de olhar e de enxergar no mais profundo da realidade.

O próprio verbo latino discernere, significa: conhecer ou ver distintamente e também iluminar aquilo que se apresenta obscuro. A vida cristã apresenta muitas situações em que é necessário fazer algum discernimento: Escolher o bem ao invés do mal, a Graça ao invés do pecado, o amor ao invés do egoísmo. Alguns discernimentos se nos apresentam fáceis de escolha. Outros nem tanto. São bem mais penosos e exigentes. Por exemplo, nem sempre é fácil, discernir uma vocação de especial consagração. Nem sempre é pacifico discernir a vontade de Deus em nossas vidas: Para saber o que Deus quer de mim preciso ouvir a sua voz. Aprender a escutar o Senhor falar em nosso íntimo, em meio a tantas vozes que ecoam sobre nossos ouvidos.

Na primeira leitura temos um típico caso de bom discernimento. Nela encontramos a narração da vocação de Davi. O profeta Samuel desce até a casa de Jessé para ungir naquela família o rei de Israel: “Enche o chifre de óleo e vem para que eu te envie à casa de Jessé de Belém, pois escolhi um rei para seus filhos” (I Sm 16, 1b). Passam diante de Samuel os 7 filhos de Jessé, todos bem preparados segundo os critérios do homem, no entanto recusados pelo Senhor à esta missão: “Mas o Senhor disse-lhe: não olhe sua aparência nem para sua estatura, porque eu o rejeitei. Não julgo segundo os critérios do homem: o homem vê as aparências, mas o Senhor olha o coração” (I Sm 7).

O dom do discernimento é este olhar mais profundo. É ver para além das aparências, ver no interior. Começar a olhar a realidade a partir de Deus. Muitas vezes somos conduzidos por critérios humanos. Estes são orientados pelo que chamamos de “senso comum”, isto é, por aquilo que a maioria estabelece como a “verdade”. Porém o discernimento convida-nos a olhar mais profundamente. Não é mais o senso comum que pesa e sim o “sensus fidei”, isto é, o sentido da fé.

No chamado de Davi, Samuel é conduzido pela fé: “enche o chifre de óleo”. Foi esta unção que faz com que mandasse chamar o oitavo filho de Jessé, um simples pastor de ovelhas: “Estão aqui todos teus filhos? Jessé respondeu: Resta ainda o mais novo que está apascentando ovelhas” (I Sm 16, 12).  E o Senhor falou ao coração de Samuel: “Levanta-te, unge-o: é este! Samuel tomou o chifre com óleo e ungiu a Davi na presença de seus irmãos.” ( I Sm 16, 13).

Da história da vocação de Davi podemos recolher um belo ensinamento: Para um bom discernimento, para aprender a olhar a realidade não sob critérios humanos mas divinos é preciso que nossa alma esteja afinada com a vontade de Deus. Isso acontece quando nos encontramos como Samuel com nosso vaso cheio de óleo. Com uma vida cheia de unção.

No extenso evangelho proposto para este domingo encontramos uma outra dimensão do discernimento: a Iluminação. O texto narra a cura do cego de nascença e remonta também aos “escrutínios” que precediam o batismo aos convertidos à fé. No evangelho o batismo é concebido como “iluminação”, mediante a fé para todo aquele que crê em Jesus Cristo.

O texto com certeza nos provoca para percebermos realidades em nossa vida que precisam receber a iluminação de Cristo. A cura é feita por uma imagem muito simbólica: “Jesus cuspiu no chão, fez lama com a saliva e colocou-a sobre os olhos do cego e disse: vai lavar-te na piscina de siloé. O cego foi lavou-se e voltou enxergando” ( Jo 9, 6). O senso comum em que fomos “mergulhados”, muitas vezes nos cega. Nossa visão sobre a família, sobre a política, sobre a sexualidade por vezes têm a opinião da maioria. A doxa (opinião comum) prega: A família está perdida, o corpo é meu faço o que quero, a política no Brasil não têm mais jeito, somos a mais corrupta das nações…. É preciso um maior discernimento sobre estas realidades significativas para nós. É preciso olhá-las com os olhos da fé. Necessário vê-las a partir de Deus. Deixar que Jesus toque “faça lama sobre nossos olhos”, isto é, recrie e restaure nossa visão e nos lave nas águas de sua Palavra e de seu batismo, para que vejamos com profundidade e discernimento. Paulo na segunda leitura diz: “Outrora éreis trevas, mas agora sois luz. Vivei como filhos da luz. E o fruto da luz chama-se: bondade, justiça, verdade. Discerni o que agrada ao Senhor” (Ef 5, 8-9).

Talvez uma outra visão que Cristo queira restituir nesta quaresma em nossas vidas seja o olhar que estabelecemos sobre o outro e sobre nós mesmos. Em primeiro lugar saber que toda a visão do outro que temos é condicionada pela visão de si. Se me enxergo como “perfeito, bom, belo, inteligente, autossuficiente”, óbvio que está autoimagem será definidora da percepção do semelhante. Ele será sempre inferior a mim. Está imagem precisa de cura. Todos nós a temos. Recebemos com a culpa original. Que o Senhor que lavou nossos pecados no batismo, toque nossa visão e cure nosso coração da autossuficiência, raiz de toda negação para Deus.

Jesus encontra a Samaritana e a fonte se encontra com a sede!

III Domingo da Quaresma

( Ex 17, 3-7; Sl 94; 5, 1-2.5-8; Jo 4, 5-42)

Neste terceiro domingo quaresmal ouviremos em nossas liturgias o encontro de Jesus com a mulher samaritana junto ao poço de Jacó. A palavra “encontro” neste evangelho é muito bem-vinda. Para são João autor do quarto evangelho ter fé e crer é sempre encontrar-se com Cristo. E foi o que aconteceu com aquela samaritana. Vindo buscar água para matar sua sede, acabou por encontrar a própria “fonte” de onde jorram rios de água viva. (Jo 7, 38).

Neste texto as palavras fonte e poço não são detalhes aleatórios. Há um profundo sentido que o evangelista nos quer transmitir. Fonte e poço na verdade saciam sedes diferentes. Revelam buscas diferentes. Expectativas diversas. A mulher samaritana encontra Jesus sentado sobre a fonte de Jacó. Ela com seu cântaro vazio, sua sede física, sua necessidade cotidiana, revela muitos de nós. Muitas de nossas sedes!

A sede pode ser vista por uma urgente necessidade de preenchimento. Há nela uma vazio aparente que precisa se completar. Por isso carrega nos braços seu jarro. E vai até aquele poço. Quem saberia dizer quantas vezes repetia este caminho na semana. Mas sempre precisava fazê-lo de volta, pois após o termino da água que juntará no poço, a sede permanecia.

A samaritana nos ensina, que nós também temos sede: Mas de quê? O que preenche os lugares secos em nosso interior? Em quais poços temos buscado água para saciar nossas mais profundas sedes?

O encontro entre Jesus e a samaritana, é feito de perguntas. Ela faz inúmeras perguntas a Jesus, que nem sempre as responde. E por quê? Por que Jesus as vezes adota este método também conosco? Por que as vezes temos a sensação de ficar sem respostas aos nossos questionamentos, às nossas sedes? Porque Jesus sabe, que as respostas estão dentro de nós. Estão exatamente do outro lado de nossa sede

Jesus pede a samaritana: Dá-me de beber? A fonte pede, àquela que tem sede. Mas ela ainda não O percebe. A cena lembra Maria inclinada chorando junto ao sepulcro a perda do corpo do Senhor: “Mulher por que choras? Porque levaram meu Senhor e não sei onde o puseram” (Jo 20, 13). Só reconhece seu Senhor quando a chama por seu nome: “Maria, Ela lhe diz Raboni” (Jo 20, 15). Quando vivemos uma grande dor, uma grande perda, também não conseguimos ver a luz. O trágico toma conta de tudo em nós, podendo até mesmo nos cegar.

A samaritana também. Estava já habituada a beber da água daquele velho poço de Jacó. Como dissemos acima, existe uma pequena diferença entre um poço e uma fonte. As águas de um poço são geralmente paradas. Provém de cisternas e dependem em muito das chuvas. Nas grandes estiagens podem desaparecer por tempos. As águas de uma fonte (se cuidadas), são sempre vivas. Jorram e vencem os perigos das secas.

O encontro entre Cristo e a Samaritana marca na verdade esta passagem. Do poço das nossas vidas, de nossas sedes, de nossas buscas. De portas que batemos pensando em encontrar algo saciasse os nossos profundos vazios quando na verdade nossa sede só aumentava, para a fonte de água viva. Jesus responde: “Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede: Dá-me de beber, tu mesma lhe pediria e Ele te daria água viva”. (Jo 4, 10).

A mulher responde a Cristo, dizendo: “nem sequer tens balde e o poço é profundo. De onde vais tirar água viva?” (Jo 4, 11). Como era profundo o poço dado por Jacó, é profundo também nossos poços humanos. Como para levar aquela água era necessário um balde, inclinar-se, descer até o profundo do poço para saciar nossa sede, é necessário permitir que o Senhor desça até o que é mais profundo em nós e preencha-nos de sua água viva.

O poço de Jacó era uma imagem importante para judeus e samaritanos. Dele todos bebiam: “como também seus filhos e seus animais” (Jo 4, 12). A água no Antigo Testamento era figura da Lei mosaica. Todos beberam da lei, chegaram a terra prometida depois de passar pelas águas: “ e os israelitas passaram a pé enxuto no meio do mar, enquanto as águas formavam uma muralha” (Ex 14, 22). Chegaram a terra prometida passando pelas águas, mas lá ainda tiveram sede: “o povo sedento de água, murmurava contra Moisés: Por que nos fizestes sair do Egito? Foi para nos fazer morrer de sede, a nós, nossos filhos e nosso gado? “(Ex 17, 4).

A lei foi para o povo hebreu o início. A figura de salvação. Como fora para aquela samaritana o seu cântaro, cheio de água. No entanto este encontro revela que é Cristo quem a pede primeiro: “Dá-me de beber?” (Jo 4, 7), pois é Ele aquele que diz: “Tenho sede” (Jo 19, 28).

Jesus é quem tem a verdadeira sede, pois conhece como ninguém a verdadeira água que jorra para a vida eterna: “ Mas quem beber desta água que eu lhe darei, esse nunca mais terá sede (…) se tornará nele uma fonte, para vida eterna” (Jo 4, 14). Nosso Senhor sabe qual a nossa mais profunda sede. É a sede da eternidade. É esta que todos temos. É esta que a samaritana foi buscar com seu cântaro, pensando que ao enchê-lo estaria saciada. Só Cristo é capaz de preencher-nos, saciar nossa sede de vida e vida em abundância (Jo 10,10).

A mulher samaritana encontrou. Deixou seu cântaro, sua vida antiga, suas sedes antigas e passou a viver da fonte de vida eterna que é Cristo.

Permitamos que Ele nos sacie. Nos preencha. Deixemos também para trás os cântaros que matam apenas sedes momentâneas pela fonte que jorra para vida eterna.

A verdadeira realidade é o céu!

II Domingo tempo da Quaresma

( Gn 12, 1-4a, 2Tm 1, 8b-10, Mt 17, 1-9)

Costumamos dar crédito a análise que as pessoas fazem de nosso cotidiano: Dizem as pessoas: O cotidiano é frio, competitivo, inseguro, estressante, egocêntrico, lugar onde a fraternidade e solidariedade perderam seu significado. À este estado de coisas muitos não crentes e muitos cristãos chamam realidade. Por vezes afirmamos: “a realidade é isso mesmo”! “Ela é fria, dura; este mundo não tem mais jeito”!

O segundo domingo da quaresma fala sobre a realidade! Antiga e Nova Aliança jamais pretenderam livrar o homem do mundo real e concreto. No entanto a Sagrada Escritura também se encarregou sempre de apresentar um olhar mais profundo acerca do real. A realidade, a Verdade, o “Caminho do homem”, nem sempre se fez “notar” ou “ser perceptível” somente naquilo que aparece diante de seus olhos. Há aspectos na “realidade” que são bem mais profundos e que ao invés de soterrarem os homens e mulheres nos problemas do mundo, os tornam livres elevando-os à Deus única realidade existente.

O domingo da Transfiguração apresenta à Igreja a concepção do que afinal é o real. Na liturgia o real está ora como saída e ora como uma subida. O Papa Francisco tem insistido conosco à sermos Igreja em saída. Ele inspirado pelo Espírito Santo percebeu que estávamos muito acomodados a nossa realidade. E com isso acostumados a uma forma de anúncio que apenas “conservava” as coisas no seu devido lugar. Por isso Francisco afirmou: É preciso estar em saída, para perceber onde Deus continua nos surpreendendo.

A liturgia deste domingo convida-nos também a isto: é preciso sair de si, deixar as cômodas seguranças e lançar-se em Deus. Foi o que fez nosso primeiro personagem litúrgico deste domingo: “Naqueles dias o Senhor disse a Abrão: ‘ Sai da tua terra, da tua família, e da casa de teu pai, e vai para a terra que eu te mostrar”(Gn 12, 1). Ninguém gosta de desenraizar-se. Nós somos nossas raízes, elas muitas vezes nos definem, nos acompanham pelo itinerário da vida. Mas Abrão foi! Deixou a sua terra, segurança, comodidade, laços familiares por causa de uma promessa: “ farei de ti um grande povo (…) engrandecerei teu nome (…) abençoarei os que te abençoarem (…) em ti serão abençoadas todas as famílias da terra” (Gn 12, 3-4).

A promessa fez com que Abrão saísse de si, deixando tudo para traz.  Mas fez também que ele recebesse muito mais de Deus. A promessa fez com que ele, percebesse que a realidade estava presente mais em Deus do que em si mesmo.

No evangelho deste final de semana Jesus conduz 3 de seus discípulos a uma alta montanha. O Tabor também nos conduz a perceber que a realidade não é presente apenas nos áridos desertos do cotidiano, mas vista pelos discípulos na transfiguração do Senhor. Neste momento a palavra nos convida a além de sair de si, isto é, distanciar-se estrategicamente do corre corre da vida, que vai pouco a pouco roubando de nós discípulos de Jesus, a interioridade, a sensibilidade a esperança, e nos fazendo cada vez mais pragmáticos e frios na missão para um movimento de “subida”: “Jesus tomou consigo, Pedro, Tiago e João seu irmão e os levou a um lugar à parte, sobre uma alta montanha” (Mt 17, 1). Subir não é fugir! Os discípulos na verdade subiram com Cristo para o encontrar e também encontrarem a si. Como Abrão que desenraizando-se de suas seguranças não viu-se desamparado mais abençoado, os discípulos diante da transfiguração do Senhor encontraram-se sobre a montanha com sua raiz mais genuína. E esta é Deus!

Podemos nos equivocar ao pensar que o ‘real’ se encontra apenas na planície. Ela senão vier a ser transfigurada poderá vir a ser lugar de fragmentação. E com o tempo fazer com que venhamos a perder de vista a importância da “subida ao monte”. Subir sempre nos fará enxergar com mais amplitude. No alto poderemos ver também situações de desfiguração que o próprio Senhor viu no alto da montanha: “Bem aventurados os pobres porque deles é o Reino dos céus…” (Mt 5, 2). A realidade do Tabor, não exclui a realidade da dor! Pelo contrário toda a possível transformação aqui de baixo, só será realizável, com a inspiração que o Tabor cotidiano nos concede.

A transfiguração foi uma experiência de unidade para Pedro, Tiago e João. Ela foi para os discípulos um “pedacinho do céu”. Ali na montanha, os discípulos encontraram a única realidade capaz de dar unidade ao homem: O céu, Deus, o eterno concederam aos seguidores de Cristo que tudo o mais diante do grande evento a que tiveram acesso se tornou relativo: “E foi transfigurado diante deles, o seu rosto brilhou como o sol e suas roupas brancas como a luz” (Mt 17, 2). Por causa disto podemos entender a fala de Pedro: “Senhor é bom estarmos aqui. Se queres, vou fazer aqui três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias” (Mt 17, 4).

No entanto a Transfiguração fora tão somente antecipação. Antecipa a única realidade possível. Mas há situações que ainda necessitam ser transfiguradas. Em cada um de nós, no mundo, na história, tudo a partir do alto. Nuvens continuaram pairando sobre nós. Cobrindo em nós a luz da experiência de transfigurar-se. Mas as mesmas nuvens que muitas vezes nos assustam, serão sempre indicadoras que ainda há muito dentro de nós que precisa ser transfigurado. Saia de si mesmo, deixe suas terras e seguranças e suba em direção a Deus único possível!

 

Discernir aonde precisamos dizer não!!

deserto11I Domingo do Tempo da Quaresma

Usar o não, a negativa, parece ser um grande desafio deste tempo. É só ouvir atentamente os relatos de educadores e pais quando dirigem uma negativa a vontade de seus alunos e até mesmo filhos, são logo interpretados como “démodés”, autoritários, retrógrados, ou minimizando muito: repressivos.

É que de fato constatamos que, o não está fora de moda. Vivemos em tempos onde o espaço dado a liberdade não tem conhecido mais seus limites. Tudo podemos, tudo é permissível, mas muito pouco se têm refletido sobre como usamos a liberdade nestes tempos.

Sem querer parecer um saudosista de outros tempos. De outro modelo de educar que nem mesmo conheci, todos percebemos que não se cresce humanamente sem que algumas coisas tenham de ser rejeitadas. Não é possível um sadio amadurecimento sem podas. Nenhuma fruta cresce, toma cor e bom sabor sem uma bela poda. Nenhum ser humano torna-se adulto sem que tenha alguma vez na sua vida ouvido ou dito um monossílabo: “não”!

O primeiro domingo da quaresma se caracteriza pela falta e presença do não. O livro do Gênesis mostra que não já no início nossos primeiros pais cederam a proposta do mais astuto dos animais dos campos do Senhor e ultrapassaram um limite imposto pelo próprio criador: “não vós não morrereis. Mas Deus sabe que no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão e vós sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal” (Gn 3, 4-5).

A sugestão da serpente era inteligente e muito tentadora: ser como Deus e conhecer o bem e o mal. Em outras palavras ser onisciente, ter respostas para todos os mistérios da vida, para a dor e a felicidade. Quem não sonhou possuir tal poder… Quem não sonhou ter respostas a tudo!

O Sempre atual texto de Gn, não se destina a encontrar culpados para nossas perdições. Adão e Eva (Homem e mulher), estão ai para revelar algo que também somos: “ O Senhor Deus formou o homem do pó da terra, soprou-lhes nas narinas o sopro de vida e o homem tornou-se vivente” (Gn 2, 7). Em primeiro lugar somos barro com o álito divino, isto é, metaforicamente é claro: frágeis e criados por Deus. Jamais oniscientes como Ele! Eis a causa e preço da falta de um não.

No evangelho deste final de semana ao ouvirmos o relato das tentações de Jesus no deserto, será a hora e a vez da palavra não. Ele nos ensina neste primeiro domingo quaresmal que muitas vezes rejeitar algumas realidades que não condizem com a vida cristã não é de modo algum sinal de proibição, ou superado moralismo, é sim caminho de liberdade e crescimento.

Jesus nos exorta também que para que o “não”, não seja interpretado como proibição ou forma de repressão é preciso do dom do discernimento. Ele é quem purifica e dá sentido as nossas escolhas pelo bem maior. O dom do discernimento nos auxilia a perceber que a liberdade para ser plena necessita de abandonos de realidades que já estão a muito pesando em nosso caminho na via de Cristo.

Jesus é conduzido ao deserto pelo Espírito de Deus para isso. Nos ensinar o caminho de superação sobre as tentações que circundam nossa vida. Para isto o Senhor se preparou: “Jesus jejuou durante 40 dias e 40 noites e, depois disso, teve fome. Então o tentador se aproximou” (Mt 4, 2-3). Ele não esteve no deserto brincando. Mas na trincheira de uma batalha. Jesus no deserto deve ensinarmos que a vida cristã não é brincadeira, pelo contrário é uma dura batalha as vezes difícil de ser vencida. No deserto Ele nos exorta a necessidade de estar sempre preparados a dizer não às tentações que cotidianamente surgem em nossa vida.

O detalhe riquíssimo de são Mateus no Evangelho nos dá o grau da seriedade contido nas tentações de Cristo: “teve fome e então o tentador se aproximou”. O astuto tentador se aproxima de Jesus no momento de sua fraqueza. Na hora da fome. Conosco nunca será diferente. O mal se aproximará na momento de nossa fraqueza. E nesta hora não podemos ceder como nossos primeiros pais. Nós temos ao nosso lado agora aquele que venceu no deserto e na Cruz por nós o mal. Agora temos força divina para dizer aquele “não” libertador.

Na primeira tentação, o diabo, incita ao Senhor em uma necessidade real. No deserto não há alimento. Não há pão para comer. O deserto é um lugar árido e sequioso: “despede, manda esta gente ir embora, afim de que vão as cidades comprar alimento para comer” (Mc 6, 35).

Então diz a Jesus: “Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se tornem em pães!” (Mt 4, 3). Na interrogação do diabo está presente uma ideia errônea e equivocada da fé cristã e onde muitos acabam se perdendo. Ela contém o mesmo sentido daquela primeira tentação que expulsou nossos pais do jardim do éden. Que é possuir a onisciência, igualar-se a Deus, saber tudo, resolver tudo, todos os problemas e sofrimentos da vida como num passe de mágica. O não de Jesus é libertador. E por isso é o nosso sim!

não somente de pão o homem viverá, mas de toda palavra que sai da boca de Deus” (Mt 4, 6).

Não vivemos apenas do que se vê. Se vive na verdade daquilo que se crê. Enquanto você disser não a toda proposta tentadora que não condiz com a vontade de Deus. Você diz sim a toda a palavra que sai da boca de Deus e afirma como Jesus: “adorarás ao Senhor teu Deus e somente a Ele servirás” (Mt 4, 10).

Sejam para você estes 40 dias de quaresma um passeio pelos desertos de sua alma. Seja para você um grande retiro de discernimento para abandonar aquelas realidades que devem ser deixadas e abraçar aquilo que não passa.

Escolhe pois a vida! Diga não ao mal!