A opção diante de um dilema fundamental: Deus ou o dinheiro!

liriosVIII Domingo do tempo Comum

(Is 49, 14-15; 1 Cor 4, 1-5; Mt 6, 24-34)

O evangelho deste domingo prossegue a leitura das bem aventuranças. A passagem de hoje de grande beleza literária, define a atitude do cristão diante do dinheiro. Parece estarmos novamente ouvindo o eco das primeiras duas bem aventuranças: “Bem aventurados os pobres em espírito, por que deles é o Reino dos céus, bem aventurados os mansos porque possuirão a terra” (Mt 5, 3-4).

Esta pode ser a moldura de um quadro conhecido de todos nós: o recorrente dilema que há entre Deus e o dinheiro: Há quem realmente queremos servir? Quem deve enfim reinar sobre nós? Quem deve ser o Senhor das nossas vidas? Quem ocupa o primeiro lugar de nossas escolhas?

Diante destas cotidianas questões que se impõe a todos nós vale a afirmação feita por Jesus no evangelho deste domingo: “Ninguém pode servir a dois senhores. Com efeito ou odiará um e amará o outro, ou se apegará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6, 24).

Cristo com esta objetiva palavra não emite apenas um dado moralista: do pode ou não pode tão atual em nossos dias. Não é o que está implícito em sua palavra. Nela é presente acima de tudo um dado bíblico: “É incompatível o serviço a dois senhores. O Deus da revelação é um Deus ciumento, como se afirma frequentemente nos salmos e Pentateuco. Portanto Deus não admite rivais. Mas resulta também que o “deus-mamom” é totalizante. E quando se apodera do coração do homem destrona e pode derrubar o lugar da divindade em nós” (Caballero, Basílio, p. 194).

Como podemos superar então em nós este dilema tão presente na vida de todos os cristãos? O caminho que Jesus oferece é o do seguimento.  Nós até podemos nos sentir paralisados e divididos diante deste árduo dilema. Mas Ele nos propõe caminhar: servir ao Senhor, abandonando-se à sua providência amorosa de Pai.  Ideia que ele apoia em duas belíssimas imagens da natureza: “Olhai as aves do céu: não semeiam, nem colhem, nem ajuntam celeiros. E, no entanto, vosso Pai do celeste as alimenta” (Mt 6, 26).

Do que foi exposto Jesus conclui um duplo convite para os ouvintes: “não vos preocupeis com a vossa vida, quanto ao que haveis de comer, nem com vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir” (Mt 6, 25). Palavra que à nossa geração, para quem as “pré ocupações”, ocupam e tiram a paz da maioria das pessoas com quem convivemos, como a demasiada idolatria do corpo que domina o ideal de beleza e felicidade nos tempos atuais, a palavra de Jesus é extremamente profética.

De outro lado:” Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e sua justiça, e todas as coisas vos serão acrescentadas” (Mt 6, 33). Este segundo convite corresponde à atitude básica do cristão, seguidor de Cristo. Mediante a opção prioritária por Deus e seu Reinado amoroso em nossa vida e no mundo, estabelecemos a hierarquia de valores querida por Deus. No primeiro lugar de nossas preocupações deve estar Deus. Assim o resto, cada coisa, ocupa o lugar que lhe é apropriado. O Senhor não diz, busquem “unicamente”, mas “em primeiro lugar” o Reino de Deus. Isto não exclui todo o resto. Mas coloca-o em um segundo plano. Em certa medida tudo o mais passa a ser relativizado. Nosso Senhor é muito realista: Sabe que não somos passarinhos ou lírios, e que precisamos do pão nosso de cada dia (Mt 6,11), com diligência e trabalho, o segredo no entanto está em não perder de vista a providência de Deus, confiando-nos totalmente ao Pai, sem angústia e obsessão pela aquisição das coisas.

A atitude do cristão diante do dinheiro e dos bens materiais nos convida a pensarmos um pouco em nossas mais profundas seguranças. Em que realmente nos apoiamos? O que realmente esperamos? E em que tesouro está nosso coração, isto é: O que realmente amamos? O dinheiro significa muitas coisas bem o sabemos. Mas se fossemos eleger apenas uma: seria a segurança. Temos o ideal de um bom seguro de vida, de bens que nos garantirão o futuro, de uma bela aposentadoria, de um bom plano de saúde enfim de bens que ao menos nos garantam o mínimo de dignidade humana. Mas uma obsessão de segurança total choca-se com a fé. Esta é sempre paradoxo, aventura, risco e atitude de peregrino em marcha pela vida. Tudo isso faz com que não estejamos a “salvo” de uma insegurança temporal. A fé que Jesus nos pede é confiança e abandono na mãos de Deus a quem servimos gratuitamente com amor: “Acaso pode a mulher esquecer-se de seu filho pequeno (..)? Se ela se esquecer, eu, porém, não me esquecerei de ti” (Is 49, 15)

Anúncios

É possível dar sempre algo a mais de nós mesmos

 

caminhar-com-deus

VII Domingo do tempo comum

(Lv 19, 1-2.17-18; Sl 102;  1Cor 3, 16-23; Mt 5, 38-58)

Dar algo a mais. Sair de nós mesmos. Superar as zonas de conforto onde se encontra nossa vida de fé. Dar um passo a mais para além do que tem nos paralisado é o belo convite que a liturgia da Palavra nos faz neste final de semana.

Hoje a liturgia da palavra nos chama a “sermos santos como Deus é santo” (Lv 19, 2) e a “sermos perfeitos como o Pai celeste é perfeito” (Mt 5, 48). Reconhecemos estar diante de dois convites muito exigentes e elevados, por isso difícil de serem concretizados. Assim são os grandes ideais: belos, nobres, altivos, mas sempre para outros, ou para uma minoria especial, dotadas de dons e talentos que os capacitam para isto. No entanto aqui, o convite é amplo e universal: “O Senhor falou a Moisés dizendo. Fala a toda a comunidade” (Lv 19, 1). O destinatário desta palavra-convite é todo o povo de Deus, somos todos nós, o que por um lado pode tornar tudo isso mais plausível: “Olha, Deus confia este ideal de vida a todos nós!” Ou mais difícil ainda: “Deus é exigente conosco, nos quer por inteiro”. Tudo vai depender de como acolhemos este belo convite que Deus está te fazendo neste final de semana. Tudo vai depender do tamanho de nossa generosidade para com Deus e nossos irmãos. Tudo depende dos passos que estamos dando e do algo a mais que Deus nos convida a dar. Tudo vai depender da Graça santificante de Deus é claro! Mas tudo vai depender também de você!

O caminho da santidade e da perfeição querida pelo Senhor tem uma estação obrigatória, onde todos aqueles que desejam este ideal de vida deverão ali perder um certo tempo: Falamos do mandamento do amor, isto é do amor ágape, não exclusivo, nem mesmo seletivo, pois eu não escolho agora a quem devo amar: “porque, se amais somente aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Os cobradores de impostos não fazem a mesma coisa?” (Mt 5, 46), mas sou chamado a amar como Deus ama: “Eu, porém vos digo: Amai os vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem! Assim, vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos céus, porque ele faz nascer o sol sobre maus e bons e cair a chuva sobre justos e injustos” (Mt 5, 44-45).

Eis aonde o sapato aperta o nosso pé! Eis o lugar onde estacionamos! Eis a oportunidade de crescermos no caminho do Senhor! Mas eis também o algo a mais, o passo a mais que a santidade nos dá!

A Palavra de Deus neste final de semana está nos dizendo que “bater à porta” da santidade de vida, não consiste somente no cumprimento dos mandamentos, nem mesmo na relativização dos mesmos: “não penseis que vim abolir a lei (…) nem uma só letra ou vírgula serão tiradas da lei, sem que tudo se cumpra” (Mt 5, 17-19), mas sim do algo a mais que eles nos pedem e somente no amor podemos compreender. O apostolo Paulo fala disto quando cita a sabedoria do mundo e a sabedoria de Deus. Amar inimigos, amar os perseguidores, perdoar sempre, considerar pobres, mansos, desanimados, promotores da paz de bem aventurados no mundo de hoje pode parecer uma grande insensatez (loucura), no entanto aos olhos de Deus é a mais alta expressão da sabedoria: “falamos sim, da misteriosa sabedoria de Deus, sabedoria escondida, que desde a eternidade Deus destinou para nossa glória” (1 Cor 2, 7-8).

A santidade consiste então neste passo a mais. E não continuar paralisados na zona de conforto da lei! Amar o meu próximo é sempre importante, mas o é também, “não alimentar ódio no coração contra teu irmão” (Lv 19, 17).

No início do Evangelho de hoje Jesus convida seus discípulos a caminhar: “Se alguém te forçar a andar um quilômetro, caminha dois com ele” (Mt 5, 41). O pano de fundo deste versículo é interessante: os romanos em suas expedições as vezes perdiam-se nas colinas e desertos palestinos e tinham de pedir socorro aos nativos do lugar. Romanos eram sempre inimigos. Muitos palestinos aproveitavam a ocasião para vingança, os fazendo andar a deriva sem jamais encontrar o destino. Jesus não acolhe esta forma de moral! Ela lembra o: “Olho por olho, dente por dente” (Mt 5, 38). Ao contrário: “caminha dois com ele” (42). Há muito o que caminhar. Há muitos caminhos que devemos ainda percorrer, caminhos de santidade e perfeição. Caminhos ao lado de inimigos. Inimigos fora de mim, mas alguns que persistem dentro de cada um de nós que nos paralisam no amor. De o algo a mais de você neste domingo! O algo a mais é amar sempre, com todas as nossas forças e alma!