“A paz de Cristo transforma a partir de dentro!”

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Solenidade da Santa mãe de Deus
(Nm 6, 22-37; Sl 66; Gl 4, 4-7; Lc 2, 16-21)

Iniciamos com este domingo um novo ano. Novos projetos, sonhos, expectativas são criadas, tudo que envolve a mística secular do ano novo. Para nós cristão o 2017 terá ainda um bom motivo para ser acolhido por todos. Será dedicado a mãe de Deus, celebraremos o Ano Mariano, lembrando os 300 anos em que Maria apareceu ao nosso povo, nas águas do rio Paraíba.
Hoje celebramos a festa da mãe de Deus e o dia mundial da paz. 2016 não foi um ano dos mais fáceis. A crise mundial se instalou definitivamente no Brasil, acompanhamos nos meios de comunicação os processos políticos de impedimento, a corrupção instaurada, até nos depararmos com a tragédia na Síria, onde com nossa oração e compaixão nos tornamos testemunhas de um dos mais horrendos momentos da história humana. São marcas do ano que passou, são cristãmente como a “coroa de espinhos posta à cabeça de Cristo”. As angústias humanas jamais serão alienadas das dores do coração de Cristo.
No entanto um novo início, pode recordar um novo nascimento. A ideia secular do ano novo serve ao cristianismo. O apóstolo Paulo em Colossenses nos fala que: “ Ele é a imagem do Deus invisível (…), nele foram criadas todas as coisas (…) Ele é o princípio o primogênito (…) pois aprouve a Deus habitar toda a plenitude e reconciliar por Ele todos os seres (…) realizando a paz” (Col 1, 15. 17. 20).
A palavra paulina nos enche de esperança. Não uma mera esperança da cultura paganizada de nosso tempo, que espera da “sorte” da “fortuna” dos “bens”. Nossa esperança se constrói no Cristo e no mistério do santo natal. A encarnação significa exatamente isto: Deus assume nossa humanidade: ferida, pecadora, tantas vezes equivocada, perversa, com más inclinações. Mas que no Verbo Eterno foi assunta e redimida pelo sangue de sua Cruz (Cl 1, 22). Mas o que enfim o mistério da encarnação tem a dizer a nós católicos que iremos começar 2017? A melhor resposta à esta pergunta se encontra na liturgia deste domingo: “Quando completou-se o tempo previsto, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher, nascido sujeito a lei, para resgatar os que eram sujeitos à lei” (Gl 4, 4-5). Eis a resposta da Palavra! Eis o caminho sem ilusões para a nossa vida. Jesus nasceu de uma mulher. Recebeu de Maria “ verdadeiramente a carne humana” (Santo Atanásio). Na encarnação Deus eternamente assume a humanidade, a aperfeiçoa, a diviniza a santifica. A melhor forma de abraçarmos este novo ano que chega, é assumindo-o. Abraçando-o com suas alegrias e desafios, conquistas e perdas. Pois fomos já abraçados por Deus no nascimento de seu Filho: “ Ela deu luz um filho, envolveu-o em panos e deitou-o na manjedoura pois não havia lugar para eles” (Lc 2, 7). Se José e Maria não encontraram um lugar para Ele nascer, os panos que envolveram carinhosamente o menino, lembram os panos que o envolviam na hora de sua cruz e não o seguraram na ressurreição. E se tornaram para toda a humanidade, lugar onde renascemos em Cristo.
Mas hoje é também a solenidade da mãe de Deus. É bom começar o ano assim. Sendo gerado para Cristo a partir de Maria. Esta solenidade nos inspira a isto. Mas nos confere uma grande responsabilidade: Celebramos também o dia mundial da Paz. Onde podemos encontrá-la? Onde buscá-la? Como divulgar a paz em um mundo rodeado de inúmeros conflitos? A Palavra de Deus novamente nos responde: “Os pastores foram às pressas a Belém e encontraram Maria e José e o recém-nascido na manjedoura. Tendo-o visto contaram o que lhes fora dito sobre o menino” (Lc 2, 16-17).
O encontro entre os pastores e a Sagrada Família é o grande sinal da paz. Pois a paz cristã é sempre um dom transformador e não um tranquilizante. Os pastores como os publicanos eram considerados gente de má índole. E a estes o anjo anunciou o nascimento do Filho. A paz que vem de Cristo e que os pastores encontraram na manjedoura de Belém é isto: Capaz de transfigurar realidades difíceis, situações antes perdidas, conflitos internos e externos. Os pastores são sinais para nós. Não eram os melhores cidadãos da sociedade palestina da época, mas o encontro com o Cristo nascente transformou suas vidas e os fez testemunhas desta paz: “E todos os que ouviam os pastores ficaram maravilhados com aquilo que contavam” (Lc 2, 18). Restam ainda muitas realidades conflitivas no mundo. Há ausência de paz em muitas regiões de nosso planeta. Mas ela pode ser encontrada, buscada e para aqueles que já a encontraram, compartilhada!
Os pastores hoje nos ensinam que não existe realidades perdidas para Cristo e que quando o encontramos devemos compartilha-la com os outros!
Feliz Ano do Senhor de 2017!

“Para os que habitavam nas sombras da morte uma luz resplandeceu” (Is 9, 1)

natal_do_senhorSolenidade do Natal do Senhor

( Is 9, 1-6; Sl 96; Tt 2, 11-14, Lc 2, 1-14)

Celebramos neste domingo a festa do Natal do Senhor. Com ela conclui-se o tempo de espera e da promessa. Aquele que durante o advento aguardávamos, enfim chegou, veio visitar nossa casa, nossa vida, veio iluminar nossas trevas, veio para nos trazer a paz.

A paz é desejo de todos. O Natal é sempre símbolo que enfim ela se realize entre nós. Que cessem as guerras, as discórdias, que os homens encontrem formas de reconciliação. São as “utopias” esperadas para este santo tempo que estamos vivendo. No entanto nem sempre a realidade condiz com a esperança. Nosso santo Natal será permeado este ano com uma série de imagens que tem entristecido o coração de Deus e o nosso: A dor das crianças de Aleppo na Síria, os atentados na Alemanha, a crise econômica no RS, deixando Estado e servidores públicos em desespero ofuscam de certo para tantos o sinal do menino na manjedoura de Belém, tirando de seus olhos e coração aquela luz anunciada pelo anjo aos pastores: “Não tenhais medo, eu vos anuncio uma grande alegria para todo o povo” (Lc 2, 10).

Porém apesar da realidade aparecer dura, a esperança não se extingue e perde seu brilho. Na Palavra de Deus encontramos significado também para as dores do mundo. Elas não permanecem sem sentido. Isaías na primeira leitura da missa, coloca nossos corações novamente na trilha da paz e da esperança. Anuncia a visão de uma grande luz, para os que habitavam em região de trevas: Que lugar deve ser este? Será apenas um lugar geográfico, um local? Será Aleppo, serão os conflitos gerados pela crise econômica no estado? Serão trevas existências ou espirituais que muitos estão habitando? São de certo modo cada uma destas realidades: Pois há trevas profundas nelas, mas há luz também. Acima de tudo Isaías anuncia uma grande luz: “uma luz resplandeceu” (Is 9, 1). Com ela virá também um tempo de consolação e menos opressão: “Pois o jugo que oprimia o povo- a carga sobre os ombros o orgulho dos fiscais, tu os abateste como na jornada de Madiã” (Is 9, 3). Isaías fala que este novo tempo de paz: “grande será seu reino, e a paz não há de ter fim sobre o trono de Davi” (Is 9, 6), tem seu começo com o nascimento de um menino: “nasceu para nós um menino, o nome que lhe foi dado é conselheiro admirável, príncipe da paz, Deus forte, Pai dos tempos futuros” (Is 9, 5). Em meio a mais profunda desolação antes anunciada por Isaías, no nascimento de um menino renasce a paz futura. Nada deve ofuscar esta esperança de ‘novos céus e nova terra” de nosso olhos e coração.

O evangelho de Lucas narra o nascimento de Jesus em Belém, cumprindo a profecia de Miquéias: “e tu Belém, pequena entre os clãs de judá, de ti sairá para mim aquele que governará Israel. Suas origens são de tempos antigos” (Mq 5, 1). A narrativa do mistério da encarnação é antecipada pelo dado da história: O grande censo proposto por César Augusto para todas as colônias do império. Todo o mundo passa a ser conhecido pelo rei. Ele é quem deve prover a paz de toda a “orbe”, a segurança, o culto e também claro os impostos sobre os ombros do povo. A pax que Roma reivindicava, era semelhante as tréguas que os grandes de nosso tempo propõe e tem somente gerado: Sírias, Áfricas, EI, milícias, etc. Não é a paz da gratuidade e sim do interesse.

O nascimento de Cristo este sim é a origem da paz! Sua paz é mais profunda que a de Augusto, pois é plena. Dela participam todos que a acolhem, mesmo os mergulhados nas sombras da morte. Mesmo as crianças em Aleppo, os cristãos perseguidos na África e Síria, os servidores públicos de nosso Estado, toda a humanidade!

Nós queridos irmãos temos de aprender muito neste Natal com alguns protagonistas do Evangelho desta missa: Dentre eles os pastores. Ficavam a noite inteira vigiando seu rebanho para que não fossem assaltados por lobos e ladrões. São símbolos para nós. Devemos vigiar também, não adormecer, não esmorecer, mas esperar por aquele que vêm!

Nós devemos cuidar também para que lobos e ladrões não continuem a roubar e assaltar durante a noite muitos de nosso rebanho. Aprendamos hoje com os pastores a esperar pelo Natal.

Sabemos que muita dor ainda haverá até a plenitude deste tempo futuro. Mas Ele já está em nosso meio. Ofereça este santo Natal pelos conflitos no mundo inteiro, reze pelas crianças na Síria, pelos cristãos perseguidos, pela paz no RS. Abra espaço na sua ceia para que estas realidades sejam alcançadas pela sua oração pois a: “graça de Deus que se manifestou, trazendo a salvação para todos os homens” (Tt 2, 11)!

 

“Assombro, dúvida e silêncio: são José”

received_10211449666586796IV Domingo do Advento
(Is 7, 10-14; Sl 23; Rm 1, 1-7; Mt 1, 18-24)
Entre todas as figuras que aparecem no advento: Isaías, João Batista, Maria, com certeza aquela mais “cinzenta” é a de são José. Ele é um personagem ímpar, coberto de mistério e silêncio. José não emite uma só palavra. Passamos os dois evangelhos que narram sua presença sem ao menos ouvir o som de sua voz. De Isaías, as belíssimas profecias sobre o messias, de João Batista a “Voz forte” que prepara os caminhos do Senhor, da mãe do Senhor o diálogo amoroso com o arcanjo Gabriel mas de José apenas um silêncio “cinzento” onde a luz precisou da sombra para ser notada. No entanto todos estes pequenos dados sobre são José, somente nos fazem admirá-lo cada vez mais, amá-lo cada vez mais e perceber sua notável missão na história da salvação.
São José aparece no Evangelho deste quarto domingo em um momento de pura perplexidade. Maria que lhe estava prometida em casamento e antes de viverem juntos, ela ficou grávida pela ação do Espírito Santo (Mt 1, 18). Eis a dúvida de José, eis a sombra, a cinza, o assombro, o silêncio no coração daquele justo homem. Todos nós já vivemos perplexidades na fé. Todos já tivemos nossos momentos cinzentos, todos já experimentamos aquela hora em que o silêncio de Deus nos visita deixando-nos com o coração cheio de incertezas. Nestas horas difíceis, quando ficamos sem respostas certas, estamos próximos de são José.
O drama do justo homem do evangelho é tremendo: O fato de Maria lhe estar prometida em casamento na lei judaica, já significava que apesar de não habitarem juntos, já estavam unidos em casamento. Maria já era a esposa de José. Derrepente tudo desaba na vida de José. Os planos, os projetos antes programados por ele e sua noiva parecem estar postos em cheque. Há agora uma nuvem cinzenta pairando sobre a vida de José. E como o justo homem vai agir? Quando somos visitados pela dúvida, quando nossos projetos pessoais se desconcertam que atitudes geralmente tomamos? Será que agimos como o silencioso homem do evangelho? Mas enfim o que fez são José? A palavra nos diz que José sendo um homem justo e não querendo denunciá-la resolver abandonar Maria em segredo (Mt 1, 19). E ainda nos revela algo da profundidade espiritual de José: Lá onde morava o seu senso de “justiça”: “Enquanto pensava nisso, eis que o anjo do Senhor lhe apareceu em sonho, e lhe disse” (Mt 1, 20). O texto original grego, poderia muito bem ser traduzido da seguinte forma: “enquanto meditava dentro de si”. Aqui teríamos duas ricas informações sobre esta bela passagem do evangelho de Mateus: a primeira claro acerca da importância dos sonhos na antiguidade. Eles eram o canal de comunicação de Deus com os homens, mas em José, temos algo para além desta concepção importante mas meramente psicológica: Antes de repousar e sonhar, José meditou dentro de si, refletiu, dialogou com seu Senhor. Não tomou atitudes precipitadas. Sua justiça, já é acompanhada pela Nova Aliança presente no ventre de sua esposa. Então como em Maria, é ajudado pelo anjo!
Na primeira leitura o profeta Isaías narra outro drama. Acaz vê em perigo o seu reino. É interpelado pelo profeta para implorar o socorro de Deus: “ Pede ao Senhor teu Deus que te faça ver um sinal (…) da profundeza da terra (…) das alturas do céu” (Is 7, 11). O rei no entanto rejeita o auxílio de Deus e prefere confiar nos ídolos: “não pedirei nem tentarei o Senhor” (Is 7,12). Acaz é a antítese de José. Prefere abandonar-se a si mesmo e aos ídolos que contar com o alto. José sendo justo prefere abandonar-se no Senhor. O sinal não pedido por Acaz é concedido a casa de Israel: “ Pois bem, o próprio Senhor vos dará um sinal. Eis que uma virgem conceberá a e dará a luz um filho, e lhe porá o nome de Emanuel” (Is 7, 14).
O mesmo sinal foi concedido a uma outra casa: Alcançou a casa de José e Maria: “ José, filho de Davi, não tenhas medo de receber Maria como tua esposa, porque ela concebeu pela ação do Espírito Santo” (Mt 1, 20).
José não teve o privilégio de Acaz. Não foi alertado por um profeta. Teve a misteriosa visita de um anjo enquanto sonhava. Na vida de são José sombra e cinza sempre o acompanharam. Ele é destes homens que conseguem caminhar, confiar, mesmo na mais profunda dúvida e escuridão. Nós aqui continuaremos sem ouvir sua voz, a altura, a suavidade, a mansidão do som de suas palavras. Mas sempre perseguiremos o seu silêncio. Sempre que nos falte o som de uma resposta, o silêncio de José nos fará: esperar, meditar, dentro de si com Deus!!
Os planos de José e Maria não eram seus. Eram de Deus. Nós também temos os nossos. É bom projetar-se. É importante prever-se, organizar-se. Mas se alguma coisa não der muito certo no caminho. NÃO TEMAS! Talvez seja José e Maria lhe visitando com seu Filho!

“Abrir os olhos e ver o Senhor que vem!!”

olhos-pra-cruzIII Domingo do Advento

( Is 35, 1-6.10; Sl 145; Tg 5, 7-10; Mt 11, 2-11)

Neste terceiro domingo do Advento, uma palavra nos chama a atenção: o verbo “Ver”. Somos a sociedade da imagem. Nossas fotos estão expostas no Facebook, no Whatsapp, em qualquer nova rede social que apareça. Não se consegue mais manter-se no anonimato. Qualquer passeio, espetáculo, férias torna-se domínio público de amigos e desconhecidos. A cultura da imagem, aliada a uma boa necessidade de autoproteção tem sido a tônica destes nossos tempos em quase todos os ambientes da sociedade, inclusive na esfera eclesial.

Por traz desta constatação inicial que sentimos, parece estar presente o sentido do ”ver”. É a visão que reconhece. É ela que atesta, que aponta, que confirma a verdade sobre as coisas. É só porque alguém “está vendo” que continuamos dando crédito a maciça cultura da imagem que nos têm absorvido.

O sentido da visão é muito importante também na Escritura e na liturgia. Sacramentos são sinais sensíveis (visíveis) de realidades vistas somente com a fé e o coração. A Escritura é plena de visões proféticas, de curas dos olhos, de luz que impera sobre a escuridão das trevas.

Este terceiro domingo do Advento é marcado por uma expectativa muito próxima do Ver. Expectativa contemporânea ao evangelho, expectativa também nossa. Nós como as multidões que seguiam a Jesus, como seus discípulos, e até como João Batista: queremos ver Jesus (Jo 12, 21). Temos no mais profundo de nosso ser este genuíno desejo. Ver ao Senhor solucionaria todas as nossas crises de fé, seria a prova evidente que faltava ao nosso cristianismo.

É a força da cultura da imagem e ela vem de longe. O evangelho narra que no cárcere João Batista nutria semelhante expectativa. Queria saber (ver) se Jesus era mesmo o messias: “ És tu aquele que há de vir, ou devemos esperar um outro?” (Mt 11, 3). A pergunta do precursor é muito atual. A humanidade corre sempre atrás de um messias. Todos queremos um rei-messias que de alguma forma de respostas as nossas necessidades. Todos desejamos um messias que solucione o problema do “mal no mundo”, da fome, das injustiças, das guerras. Todos carregamos em nós uma expectativa messiânica, do qual o Batista é somente a “voz”. Até mesmo nós cristãos católicos não estamos muito distantes desta concepção: Quando vivemos  situações que nos “apertam os sapatos”, “que nos tiram da zona de conforto”, logo projetamos esta equivoca expectativa sobre Cristo.

É Jesus mesmo que respondendo aos discípulos de João, responde a todos nós, em dois momentos: Primeiro no “Ver”: “ Ide contar a João o que estais ouvindo e vendo; os cegos recuperam a vista, os paralíticos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados” (Mt 11, 4-5). E depois no “crer”: “Feliz aquele que não se escandaliza por causa de mim” (Mt 11, 6). No ver, é preciso enxergar os sinais que atestam que esta é a obra de Cristo e não outra. Isto é, não devemos esperar um messias nossa autoimagem. Que faça aquilo que queiramos, e realize as obras que nos satisfazem. E no crer, seguindo esta bem aventurança: “ feliz (…) não se escandalizar por causa de mim”, isto é, não esperar um messias poderoso, alguém que resolva todos os males da humanidade. Jesus, o Senhor não é esta figura messiânica. Este foi o engano de Pedro e de tantos que projetam em si mesmo uma autoimagem de Jesus Cristo. Jesus é o messias do mistério da Cruz. Ali sua revelação é plena. Aqueles que se escandalizam com a Cruz ou com as dores humanas ao qual Jesus se faz próximo continuarão tendo dificuldade de “ver” que Ele é realmente o messias e não precisamos esperar um outro.

Quem sabe se este terceiro domingo do advento não queira realizar também em nós uma cura em nossa visão sobre Cristo? Quem sabe se como diz o profeta Isaías: “então se abriram os olhos dos cegos” (Is 35, 5), não seja a palavra de vida para meditarmos ainda durante o tempo do advento? Quem sabe senão precisamos purificar nosso olhar profundamente para “ver” que Ele vêm para nos salvar (Is 35, 4).

João Batista, pouco mais de três meses de gestação e já dando sinais de vida!

imagesII Domingo do Tempo do Advento

(Is 11,1-10; Sl 71; Rm 15, 4-9; Mt 3, 1-12)

No segundo domingo do advento entra em cena um personagem singular da história da salvação: João Batista. Ele bem que poderia ser definido em nossos tempos como um personagem “politicamente incorreto”, pois sem as travas na língua que poderiam lhe servir de garantia para um futuro tranquilo, proclamava no deserto a conversão e a proximidade do Reino dos céus. Sua pregação neste sentido se assemelhava a de Jesus Cristo, ao qual João Batista tal qual um “arado” preparava seu caminho.

O incorreto em João Batista lhe custou caro. Muito caro! Sem meias palavras estando ainda no cárcere, denuncia o adultério de Herodes com a mulher de seu irmão e paga o preço da verdade com a própria cabeça: “ mandou degolar João no cárcere e sua cabeça foi lhe trazida num prato” (Mt 14, 10-11).

João ao invés de um futuro promissor preferiu respondendo a vontade de Deus ser um precursor. O precursor como indica a própria palavra é aquele que vêm antes. Faz o curso, o percurso de sua vida em vista de um Outro. Ele mesmo ao ser questionado por sua identidade se definia: “ Eu não sou o Cristo. Perguntaram-lhe então? és tu Elias? Ele disse não sou. (…) Eu sou a voz do que clama no deserto. Endireitai o caminho do Senhor (…) Eu batizo com água. No meio de vós esta alguém que não conheceis, aquele que vêm depois de mim, do qual não sou digno de desatar a correia da sandália” (Jo 1, 19.21-22.24). Somente alguém “incorreto” e João Batista tinha coisas incorrigíveis, seria capaz de se definir não sendo.  Só alguém capaz de profunda verdade sobre si e sua missão seria capaz disto. Se auto reconhecer como uma simples voz.

No entanto sabemos a voz de João era da altura de um trovão! E ela estava afinada com algo tão necessário em nossos dias. O Batista é sempre atual. A voz que preparava os caminhos do Senhor estava afinada com a Verdade. Que é um dos atributos de Cristo: “Eu sou a Verdade” (Jo 14, 6). E é desta consciência que João tinha de si e de Cristo que a liturgia deste segundo domingo nos exorta: Onde está nossa verdade? Vivemos a verdade ou tememos o medo do preço de viver a verdade? O evangelho deste domingo afirma que João não teve este medo. Nós ao contrário temos alguns medos. Estamos longe de João. Eu sinto-me distante dele de sua ascese e coragem. Não vivo como ele no deserto, não me visto como João com “peles de camelo e um cinturão de couro em torno dos rins” (Mt 3, 4). Mas como todos os cristãos, nutro lá dentro uma afeição por este belo personagem do Evangelho. Nem poderíamos ser como ele pois é: “entre os nascidos ninguém é maior que João, todavia o menor no Reino dos céus é maior que ele” (Mt 11, 11).

Mas podemos ter algo de João Batista em nós. O que ele preparou no deserto, o batismo que realizava entre todos que vinham Judeia, Jerusalém e dos arredores do Jordão, nos diz que não havia ali um ideal impossível de ser alcançado. O que o batista quer nos ensinar neste advento é de natureza simples. Sobre como anda a verdade de nossa vida de fé. Nossa verdade diante de quem não podemos mentir!

Ele aparece no deserto e hoje na liturgia para que unamos dentro de nós aquilo que dizemos com aquilo que somos. Em João não há dualismos, em nós também não deverá existir. Se por acaso está acontecendo, volta a força de sua palavra: “Convertei-vos porque o Reino dos céus está próximo” (Mt 3, 2)

Paulo apóstolo na segunda leitura fala das mesmas realidades de João com um pouco mais de candura. Mas são intuições idênticas e por isso passiveis de serem bem vividas, não por isso menos exigentes: “ tudo o que foi escrito, foi escrito para nossa instrução (…) O Deus que dá constância e conforto vos dê a graça da harmonia e concórdia uns com os outros, como ensina Cristo Jesus. Assim tendo como que um só coração e uma só voz” (Rm 15, 5-7).

Há ainda 2 verdades importantes sobre são João Batista: Uma dirige-se ao dom e a origem da vida e outra a missão política. O precursor com pouco mais de três meses de gestação já dava sinais de vida e da graça de Deus que estava com Ele. Em dias como os nossos em que alguns legistas ousam em nome de um sofisma biologista fazer leis que interrompem a gestação até o terceiro mês, a palavra sobre o Batista é profética: “ E aconteceu que a criancinha ao ouvir a saudação de Maria exultou de alegria e Isabel ficou cheia do Espírito Santo” (Lc 1, 41).

Em relação à política, o precursor é atualíssimo. Vendo fariseus e saduceus que se aproximavam do seu batismo declara: “Raça de víboras! Quem lhes deu a idéia de fugir da ira que se aproxima?
Dêem fruto que mostre o arrependimento!” (Mt 3, 7). Nossos políticos no congresso se comportaram esta semana sorreirateiramente como serpentes. Enquanto nosso país chorava e se solidarizava com a tragédia da “Chape”, eles derrubavam projetos contra a corrupção na política. Trabalho feito por víboras. Como a palavra, a vida e a profecia de João Batista é atual. Como tem nos feito falta sua liberdade e coragem!

Que nosso Deus que logo vem nos encontre assim! Em profunda harmonia e concórdia com Deus e nossos irmãos. É ali que está a verdade!