O que o Espírito Santo precisa ser desperto em mim para viver o advento!

img_494183203I Domingo do Tempo do Advento

(Is 2, 1-5; Sl 121; Rm 13, 11-14; Mt 24, 37, 44)

Talvez já tenhamos tido a experiência do que significa caminhar na noite e arrastar os pés durante quilômetros, fixando avidamente nosso olhar numa luz, num futuro, numa pátria que representa de alguma modo uma forma de lar. É sempre difícil avaliar distâncias na escuridão. Era está a sensação que tinham os profetas quando olhavam o futuro, à espera da redenção de seu povo, e à espera da vinda do Messias. Só sabiam e as profecias atestavam que ele iria chegar, sabiam no entanto que era da estirpe de Davi e que traria com ele as chaves que abririam todas as cadeias da prisão e a luz, que iluminaria os que jaziam nas trevas: “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz, e os que habitavam na região da morte resplandeceu a luz” (Is 9, 2). Nossos pais carregaram consigo este foco. E ele era definida como uma espera!

Esta mesma atitude de expectativa é o que a Igreja deseja sempre para seus filhos em todos os momentos da sua vida. Considera como parte essencial de sua missão fazer que continuemos olhando para o futuro, ainda que estejamos tão mergulhados nas preocupações do tempo presente. Por isso o tempo litúrgico do Advento que começamos neste domingo vêm nos acordar daquele cansaço espiritual que muitíssimas vezes a demasiada preocupação com as realidades do presente pode nos consumir.

Olhar o futuro, não perder jamais o foco na proeminente vinda do Senhor é o que o santo tempo do advento nos convoca. Mas que forma de espera é esta? Será ela uma expectativa passiva? Será que diante da longa demora não poderemos ser pegos de surpresa? Ou será que esta espera, não deverá ser preparada por cada um de nós? O apóstolo Pedro responde a estas interrogações afirmando: “Ora, uma coisa vós não podeis desconhecer, (…) um dia é como mil anos e mil anos como um dia. Ele não tarda a cumprir sua promessa, como pensam alguns, achando que demora” (1 Pd 3, 8). Da mesma forma que quando estamos para receber a visita de um importante amigo, arrumamos nossa casa, limpamos, preparamos com alegria sua chegada, o Advento é uma convocação a esta forma de espera. Vigilantes e preparados para quando o Senhor voltar!

Na segunda leitura da liturgia, Paulo adentra como alguém que entra em nossas casas, em nossas vidas e nos desperta daquelas situações adormecidas em nós. Talvez minha oração pessoal precisa de um acordar, minha família precise acordar para o diálogo entre pais e filhos, minha consagração necessite de uma novo ardor, nossa paróquia ouse abrir os olhos para os pobres, os desvalidos, os desempregados, os dependentes químicos, etc.  O apóstolo é imperativo para com a comunidade primitiva  romana: “ Vós sabeis em que tempo estamos, pois já é hora de despertar. Com efeito, agora a salvação está mais perto de nós do que quando abraçamos a fé” (Rm 13, 11). A exortação paulina é atualíssima. A Igreja de tempos em tempos precisa de um “despertador espiritual” e os seus filhos também. A força da pregação paulina lembra aquela mãe que cedo da manhã, com todo o direito que a maternidade lhe confere, invade o quarto do filho, e o acorda, dizendo: “já é hora de acordar, vá estudar, levanta-te e vá trabalhar”!

O advento têm esta característica: Despertar para o Senhor que vêm! E preparar-se muito bem para isso. O texto aos romanos orienta como devemos fazer esta preparação: “ Despojemo-nos das ações das trevas e vistamos as armas da luz (…) pelo contrário, revesti-vos do Senhor Jesus Cristo.” (Ro 13, 12.14).

Despojar-se do que é sinal de trevas e vestir-se do que vem de Cristo, pode ser um ótimo caminho a ser vivido no tempo do advento.

O evangelho ainda aponta para um outro aspecto da mística do advento que começaremos a viver neste domingo. A vigilância! Ela é contrária a uma percepção própria do tempo, por isso desafiante. Estamos hoje em dia muito atentos e mergulhados nas redes sociais. “Face e whats”, dirigem nossas vidas, nossas amizades e até mesmo a nossa fé. Perdemos boas horas de leitura, de convivência real, de um passeio, um cinema, num mundo virtual. No entanto a palavra de Deus nos exorta a estarmos vigilantes: “ A vinda do Filho do homem será como nos tempos de Noé. Pois nos dias antes do dilúvio, todos comiam e bebiam, casavam-se e davam-se me casamento, até o dia em que Noé entrou na arca e eles nada perceberam” (MT 24, 37-39).

Não queremos ser pegos assim de surpresa! Não queremos estar neste dia, presos aos celulares e nada perceber. Para isso: “ Ficai atentos” (Mt 24, 42).

Que o advento seja para nós tempo de acordar e esperar ativamente o Senhor que virá!!!

No reino de Cristo, há últimos que serão os primeiros !!(Lc 13,30)

 

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Solenidade de Cristo Rei do Universo

(2 Sm 5, 1-3; Sl 121; Cl 1, 12-20; Lc 23, 35-43)

No reino de Cristo, há últimos que serão os primeiros !!(Lc 13,30)

Chegando ao final do Ano litúrgico, a liturgia convida-nos a uma revisão de nossa caminhada espiritual. A cada ano litúrgico nós entramos com a Igreja em um “grande retiro popular”, conduzido pela escuta e acolhida da Palavra do Senhor a cada domingo. É uma experiência de abertura, alegria, consolação, conversão, crise, mudança de vida e atitudes que a liturgia nos oferece. O ano litúrgico é um caminho. É um itinerário espiritual que toca no profundo da existência humana, chamando-nos a deixar as “margens” resistentes e egoístas de experiência humana e lançar-se nas “águas profundas” e “largas” da vida cristã. Ninguém é “preservado” da força transformadora da liturgia eclesial, a não ser que “tape os ouvidos” ou “não queira ver”, os sinais que o Senhor deixa nos mistérios que celebramos durante o ano litúrgico.

Por isso podemos ainda afirmar, que durante o ano litúrgico acontece sempre uma experiência pascal em nossa vida. Haverá sempre um “nascer e morrer” cotidiano, provocado pela “escuta atenta da Palavra” e “elevado na Eucaristia”, paixão, morte e ressurreição do Senhor.

Celebramos neste domingo a Solenidade de Jesus Cristo rei do Universo. É uma imagem cósmica da realeza de Cristo e que Paulo apóstolo soube traduzir teologicamente a todos nós: “ Ele é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação, pois por causa dele, foram criadas todas as coisas no céu e na terra (…) Tudo foi criado por meio dele e para ele” (Cl 1, 15-16). Vale ressaltar que todo o hino cristológico paulino, avançando um pouco dos evangelhos sinóticos, da realce de um reinado de Cristo com o mundo, com as realidades terrenas e celestes, apontando para a “cristificação” de toda a realidade criada, onde Ele é o “alfa e o Ômega”, principio e fim de todas as coisas.

A imagem da realeza que o evangelho nos oferece é bem mais paradoxal. Ela é a “antessala” da visão cósmica Paulina. É diversa, não contrária. Nela Cristo não se encontra como o Senhor do Universo, nem está sentado em um trono, como um dos reis poderosos deste mundo: “meu reino não é deste mundo” (Jo 18, 36). É visto na mais improvável condição real: Preso a uma cruz! E como se não bastasse tamanha humilhação, acompanhado por dois ladrões. Que classe de soberania é está a que Cristo foi elevado? Que súditos são estes postos um à sua direita e outro a esquerda de sua cruz? Que poder Jesus Cristo manifesta diante do povo que “olha e zomba” (Lc 23, 35) de seu sofrimento? Que realidades humanas este último domingo da liturgia nos convidam a serem transformadas dentro nós?

O evangelho de Lucas, atualiza, os anúncios da paixão feitos pelo Senhor no caminho de Jerusalém: “Era preciso que o filho do homem padecesse, fosse rejeitado pelos anciãos, pelos escribas e pelos sumos sacerdotes” (Mc 8, 2). São Lucas narra o episódio dizendo: “Os chefes zombavam de Jesus. Salve-se a si mesmo, se de fato, é o Cristo de Deus (…) os soldados também caçoavam dele (…) se és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo” (Lc 23, 36.37). É incrível notar a “impotência” que o Senhor expressa, com seu silêncio. Calado sofre todas as zombarias, os escárnios e as humilhações. Recorda-nos Is 53: “ Ele foi oprimido e ferido, mas não abriu a boca. Como cordeiro levado ao matadouro, mas não abriu sua boca”.

Mas é claro que além da ofensas e humilhações sofridas, há também uma afirmação essencial que sai da boca, ora dos chefes, dos soldados romanos e até mesmo de um dos malfeitores: “Salva-se a si mesmo, se és o Cristo” (Lc 23, 38). Não é a primeira vez que aparece está indagação nos evangelhos. Lá no início, no deserto das tentações ela já fora dita. No entanto naquele momento não nos lábios dos chefes, romanos, ou do ladrão, mas de um outro personagem da história humana: “Se és o filho de Deus, manda que estas pedras se transformem pães” (Lc 4,4). O relato das tentações em que Satanás interpelando Jesus no deserto nos oferecerá passagem para entendermos o mistério do reinado de Cristo na Cruz. Como no deserto, na cruz, Jesus revela que não veio fazer sua vontade: “não terias poder sobre mim, se não te houvesse dado do alto; por isso, quem me entregou a ti, tem maior pecado” (Jo 19,11).

Jesus não desceu da cruz, ainda que lhe fosse possível, e nem transformou pedras em pães, ainda que tivesse todos os meios para multiplicá-los, por que quer revelar que seu reino não é deste mundo. E também, por querer ensinar de novo aos homens, que Ele rejeita a imagem messiânica que as vezes herdamos em nosso imaginário espiritual.

A concepção de rei-messias que temos interiormente, está fortemente ligada ao poder e a força e bem menos à obediência e ao serviço. Queremos alguém que transforme minhas pedras em pães, que me alivie da cruz e dos sofrimentos inevitáveis da vida, que seja a resolução de todos os meus problemas. Enfim que obedeça meus comandos e faça minha vontade. Infelizmente somos assim. Jesus Cristo não! Graças a Deus, não se prende a estas concepções. Se prende sim a Cruz, para aí, estar eternamente ao lado de nossas cruzes, nos ajudar a retirar as pedras que surgem em nosso caminho, consolando todas as nossas dores: “embora fosse de divina condição Ele não considerou o ser igual a Deus (…) mas esvaziou-se a si mesmo e assumiu a condição de escravo(…) humilhou-se e foi obediente até a morte e morte de cruz (…) Por isso Deus o sobreexaltou soberanamente” (Fl 2, 5. 7-8).

Que forma de realeza de Cristo celebramos nesta solenidade? Talvez o segundo malfeitor, o “bom ladrão” da história nos auxilie. Ele ao lado do crucificado percebeu sim sua realeza:” ele não fez nenhum mal” (Lc 23, 41). É um rei que toma nosso lugar, que assume aquele último lugar que era nosso, e oferecendo-se livremente abre-nos o paraíso: “ Jesus lembra-te de mim, quando estiveres no teu reino. Ele respondeu: Em verdade eu te digo, hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23, 43)

No reino de Cristo os últimos serão os primeiros! (Lc 13, 30)

 

É preciso seguir caminhando! É permanecendo firmes que ireis ganhar a vida! (Lc 21, 19).

passosXXXIII Domingo Comum

(Ml 3, 19-20; Sl 97; 2 Ts 3, 7-12; Lc 21, 5-19)

Você acredita que as pessoas em nosso tempo são constantes nos princípios assumidos até o fim?

Você pensa que a perseverança é uma virtude deste tempo? Você não tem a impressão de que nos dias de hoje, com facilidade as pessoas abandonam grandes ideais quando enfrentam crises duradouras? A Palavra de Deus deste domingo, toca um sério tema da vida cristã. Mais do que um tema, uma virtude essencial e em nosso contexto cada vez mais atual: a Perseverança. Esta audácia de manter-se firme diante dos sobressaltos da vida é para onde a liturgia conduz nossa meditação neste final de semana.

No evangelho do domingo, catástrofes são anunciadas: ruína completa do templo de Jerusalém, pseudoprofetas que se aproveitam da sensibilidade espiritual do povo, anunciando o final da história, nações em campo de batalha, tragédias naturais como: terremotos, fomes e pestes, seguidas de sinas assustadores vistos nos céus são anúncios de tempos muito difíceis. Mas não de um fim (Lc 21, 5, 6.7.10)

Diante de um quadro como este nada alentador Jesus mesmo dá uma resposta. Ele mesmo oferece uma saída: “antes porém destas coisas acontecerem, sereis presos e perseguidos (…) postos na prisão, sereis levados diante de reis e governadores por causa de meu nome. Esta será a ocasião em que testemunhareis a vossa fé” (Lc 21, 12-13).

A resposta que como cristãos somos convidados a dar nas grandes tempestades da vida é a da perseverança. A primeira geração cristã experimentou este “espinho na carne”. Lucas escreve àquela primeira geração que fora testemunha ocular da destruição do belíssimo templo de Jerusalém pelo Imperador Romano Tito em 70 dc que tinha uma enorme significado. Os primeiros cristãos são ainda na maioria homens vindos do judaísmo. O templo era o grande sinal de mediação, o lugar sublime do encontro com Deus para eles. Certamente sendo destruído, muita coisa estava indo abaixo nas suas vidas também. No entanto aquilo que parecia o fim da história, da tradição, foi se revelando como o grande começo.

O mesmo se aplica a nossa vida. Quando experimentamos grandes tempestades em nossa vida espiritual, familiar, social, de imediato temos a impressão de que estamos em um beco sem saída. Quantos são os pais de família levados ao mais profundo desespero quando veem seus empreendimentos falir? Quantas são as pessoas atingidas por tragédias naturais (por. ex; terremotos na Itália), que puseram a prova a presença de Deus? Quantos de nós quando ligamos nossa Tv e diante de tantas notícias de violência urbana, corrupção em nosso país não nos perguntamos: Por que Deus permite todas estas coisas? Por que não intervém definitivamente? Por que não separa a impiedade da justiça humana? Por que não resolve enfim nossos problemas?

As perguntas que se colocavam os primeiros cristãos diante das contradições da história, são semelhantes às que hoje fazemos? A resposta que o Senhor Jesus ofereceu aquela primeiríssima geração cristã e vibrante, continua atual em nossos tempos?  A sociedade mudou, transformou-se, o mundo mudou, evoluiu muitíssimo, mas permanecem questões no coração humano que somente poderão ser compreendidas se colocadas sob o olhar da cruz de Cristo! O velho adágio cartusiano nos é muito propicio à esta meditação: “ stat crux dum volvitur orbis” ou “enquanto o mundo gira a cruz permanece”.

E é a Cruz de Nosso Senhor que acaba por dar sentido a todas estas coisas, pois na Cruz encontramos também contradição: “pois a linguagem da cruz é loucura para os que se perdem, mas para os que foram salvos, é uma força divina” (1 Cor 1, 18). Na loucura da cruz encontramos o silêncio e a solidariedade, a mais absoluta fraqueza ao lado da força, o símbolo da perdição ao par da salvação. A Cruz do Senhor é acolhedora de todos as perguntas humanas acerca do sofrimento e ausência de Deus. O crucificado responde no “silêncio dizendo” até onde Deus foi capaz de se unir a todos nós: “ Deus amou tanto o mundo que deu seu Filho unigênito, para que todo aquele que crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3, 16).

Porém todo o fim revela algo positivo. É sinal de algo que não apenas se consome. Não somos materialistas. O fim se acolhido no mistério da Cruz, pode ser transformador também. Haverá sempre realidades na nossa vida que precisam ser finalizadas para serem transformadas.  Páginas que necessitam sem viradas. Como é bom dar fim a um vício, como é salutar não insistir (enquanto é tempo) em experiências que só fazem sofrer . Como é bom finalizar um ano bem, na presença do Senhor da história.

Para todas estas coisas vale a Palavra do Senhor deste domingo: “É permanecendo firmes que ireis ganhar a vida” (L 21, 19)

 

A santidade, o futuro do presente dos cristãos!

todos-os-santos_thumb7Festa de todos os Santos

(Ap 7, 2-4.9-14; Sl 23; 1Jo 3, 1-3; Mt 5, 1-12)

Na segunda leitura da festa litúrgica que ora celebramos o apóstolo João nos traz interessante afirmação sobre a santidade: “Sabemos que, quando Jesus se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é” (1 Jo 3, 2). A frase joanina é posta no futuro. A santidade de vida vive na tensão entre o “eu real” e o “eu ideal” na acolhida da presença de Deus em nós. O presente e futuro se encontram nesta inquietação positiva convidando a cada momento da vida o seguidor de Jesus Cristo dar uma resposta sempre mais profunda a sua vocação universal à santidade. (Gaudium et Spes, 5).

Presente e futuro são os construtores da santidade. O “eu real”, limitado ao tempo, às fraquezas, às misérias, aos medos, às dúvidas é assistido e auxiliado pela graça santificante do Senhor. Não está abandonado a si mesmo, nem preso no círculo fechado do “aqui e agora”, mas vivendo da Palavra de Deus é abertura ao futuro: “Caríssimos, desde já somos filhos de Deus, mas nem sequer se manifestou o que seremos” (1 Jo 3,1). O que seremos é o sinal da esperança cristã, mas que já tem seu início ou sua primícia no tempo presente, nas vicissitudes do “eu real”.

O livro do Apocalipse sublinha também está realidade, quando na interessante visão de um anjo que subia de onde nasce o sol, proíbe a destruição do criado: “não façais mal à terra, nem ao mar, nem às arvores, até que tenhamos marcado na fronte os servos do nosso Deus” (Ap 7, 3). A visão contém uma profunda esperança, seja para a circunstância em que foi escrita, marcada pela exterminadora perseguição romana aos cristãos, seja para hoje. Nós cristãos deste tempo, quando marcados pela dor e sofrimento, pelo peso da realidade hostil que nos cerca, queremos saídas messiânicas e triunfais como descrita acima. Mas o anjo que vêm do nascente, como o “o sol nascente que vêm nos visitar” (Lc 1, 67), coíbe a destruição do criado, pois anuncia uma visão futura: “Depois disso vi uma multidão imensa de gente de todas as nações, tribos, povos e línguas, e que ninguém podia contar. Estavam de pé diante do Cordeiro; trajavam veste brancas e traziam palmas na mão” (Ap 7, 9).

A visão do anjo pois mais que pareça simbólica e enigmática, traz impressa um senso de realismo consigo que nos impressiona. Pois fala por meio dos símbolos algo que é notório para a vida cristã. A realidade, o real, é bem maior do que vemos ou tocamos. O real está presente em uma totalidade temporal e divina. Ele é Cristo e tudo a Ele pertence.

O Evangelho das Bem aventuranças que ouviremos nesta solenidade aponta também para a salutar tensão entre presente e futuro na vida cristã. Cada bem aventurança anunciada pelo Senhor no monte, encontra sua plena realização no futuro. Isto no entanto não esvazia a força que tem cada “beatitude” ensinada por Cristo às multidões. O que seremos no futuro em Deus, já o somos ainda que “como um embrião” no presente. O “eu ideal” que almejamos pela graça de Deus alcançar, só será possível quando o “eu real” pecador e frágil se dispõe a um estado de vida que queira tornar o ordinário lugar de elevação e santificação.

O caminho oferecido para isso é sempre as Bem aventuranças. Elas contém aquele germe, aquela potência de vida divina, que tanto santos e santas aventuraram-se a viver. Mais do que isso, as Bem aventuranças são a melhor “biografia” de Jesus Cristo. Ele é por excelência o único “Bem aventurado”, o pobre: “o filho do homem não tem onde reclinar a cabeça” (Mt 8, 20); o aflito : “ Meu Pai se for possível afasta de mim este cálice” (Mt 26, 4); o manso: “ Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim que sou mando e humilde de coração” (Mt 11, 28); o que tem sede e fome de justiça: “ Tenho sede” (Jo 19, 28); o misericordioso: “ misericórdia é que quero e não os sacrifícios” (Mt 9, 13); o puro de coração: “ Ninguém jamais viu a Deus a não ser o filho unigênito, que está no sei do Pai” (Jo 1, 18); os promotores da paz: “ Porquanto Ele é nossa paz” (Ef 2, 14); os perseguidos: “ O Filho do homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sacerdotes e pelos anciãos” (Lc 9, 22).

Não esqueçamos porém que as bem aventuranças mais do que serem contempladas por nós devem ser vividas. São desafiadoras sabemos, contraditórias com a “chuva” de valores que o mundo nos propõe. Mas quem não aventurar-se, quem não lançar-se, quem não jogar-se de coração no que significam, não poderá vivenciar a alegria de já aqui conduzir sua vida como um bem aventurado. As bem aventuranças são o nosso futuro do presente, são o que seremos um dia!!