“Muito baixo e muito rico”

zaqueuXXXI Domingo Comum

(Sab 11, 22-12, 11; Sl 144, 2 Ts 1, 11-2; Lc 19, 1-11)

Senhor o mundo inteiro diante de ti, é como um grão de areia na balança, uma gota de orvalho que cai na terra, entretanto, de todos tens compaixão, porque tudo podes” (Sab 11, 22-23).

A parte inicial da primeira leitura da liturgia prepara-nos para a mensagem central do evangelho deste domingo: Nada está perdido para Deus. Nem mesmo as realidades mais insignificantes, menores, que para nós podem não representar a menor importância, para o Senhor serão sempre percebidas: pois, “amas tudo o que existe, e não desprezas nada o que fizeste” (Sab 11, 24). A liturgia deste final se semana se volta para um tema importante da fé cristã. Medita sobre os vestígios da bondade de Deus em sua criação. O fato teológico de Deus ter visto que tudo era bom (Gn 1, 10), assinala que nada que existe no criado, é indesejado da parte de Deus, ainda que a corrupção original a tenha maculado, o seu eterno amor, vem para resgatar o que ficou perdido: “é por isso que corriges com carinho os que caem e os repreendes, lembrando-lhes de seus pecados, para que se afastem do mal e creiam em ti, Senhor” (Sab 12,2).

O Evangelho de hoje narra a conversão do chefe dos publicanos Zaqueu. O nome Zaqueu significa o “puro” o “justo”, porém o conhecido personagem deste texto de Lucas, nada tinha destas qualidades. Era o chefe dos cobradores de impostos na cidade de Jericó e muito rico (Luc. 19, 2). O simples fato de pertença social à classe dos publicanos já o fazia odiado pelos judeus e lançava sobre este homem uma “mancha” de pecador público, “impuro” e seguramente “injusto”, mediante seu inescrupuloso ofício.

Mas Zaqueu não era apenas muito rico, era também muito baixo. Aqui a estatura física se equivale a estatura moral que tinha Zaqueu. Ambas muito baixas. Ninguém o iria perceber. Ninguém o iria reconhecer, afinal com uma moral daquelas, uma fama daquelas em meio a uma sociedade que privilegiava os ditos “puros e justos”, Zaqueu passaria está vida toda sem ser visto. Porém recordemos a primeira leitura: “Senhor o mundo inteiro é como um grão de areia (…) gota de orvalho (…) entretanto de todos tens compaixão (…) fechas os olhos aos pecados dos homens (…) e amas tudo o que existe” (Sab 11, 22-24)”. Isto é, onde existe amor, existe percepção. Onde existe compaixão, existe salvação. Onde Deus passa seus olhos, nada está perdido!

A baixa vida de Zaqueu foi alcançada pelo olhar do Altíssimo: “Pois o Senhor disse: não atentes sua aparência, nem a grandeza de sua estatura, pois o Senhor não vê, como o homem vê. Pois o homem vê o que está diante dos olhos e Deus vê o coração” (1 Sm 16, 7).

Zaqueu procurava ver Jesus, mas não conseguia por causa da multidão”. (Lc 19, 3). Para alguém que é pequenino não é fácil conviver com multidões. Imaginemos por exemplo um grande espetáculo musical. Os “baixinhos” devem chegar cedo e procurar os primeiros lugares para verem os grandes artistas, senão terão improvisar cadeiras, mesas ou as costas de um amigo para “ver” o espetáculo. Não era um espetáculo que Zaqueu queria ver, nem mesmo um artista. Para isso, este homem muito rico (Lc 19, 2), poderia até mesmo organizar. A Palavra diz que “ele procurava ver Jesus”. Por isso chegou cedo ao local e improvisadamente subiu em uma figueira para ver Jesus que iria passar por ali (Lc 19, 4). Entretanto ele foi visto por primeiro: O baixo Zaqueu de estatura e moral foi percebido pelo Filho do Altíssimo em meio a uma enorme multidão. “Desce depressa! Hoje devo ficar na tua casa. Ele desceu depressa e o recebeu com alegria” (Lc 19, 6). Desceu da árvore que havia lhe possibilitado “ver” a Vida.

Para alguns Padres da Igreja, a ‘figueira’ era um símbolo da árvore do bem e do mal que estava no jardim. (Gn 2, 7). Zaqueu desceu depressa da árvore do pecado na qual esteve por muito tempo perdido e subiu na árvore da vida que é Cristo! Ele nos ensina que é preciso descer, tirar as sandálias, descer do salto alto que nos encontramos muitas vezes e por isso não conseguirmos ver Jesus passar!

Zaqueu desceu verdadeiramente. Ele antes de baixíssima estatura moral, foi capaz da mais alta e nobre atitude evangélica: “Senhor, eu dou a metade de meus bens aos pobres, e se defraudei alguém, vou devolver quatro vezes mais” (Lc 19, 8). A generosidade havia tomado o coração de Zaqueu que se viu agora rico para Deus e restituiu em abundância por que muito foi perdoado. Zaqueu antes o impuro público, foi “purificado” por Cristo, pois o Filho do homem veio procurar e salvar o que estava perdido (Lc 19, 10).

“Nossa prontidão da fé depende do grau de sinceridade que temos diante de Deus”!

fariseu-e-o-publicanoXXX Domingo Comum

(Eclo 35, 15b-17.20-22ª; Sl 33; 2Tm 4, 68.16-18; Lc 18, 9-14)

Poderíamos para a liturgia deste final de semana recordar alguns passos dos evangelhos que seriam bem acolhidos para esta meditação, por ex: “ Quero a misericórdia e não o sacrifício” (Mt 9, 13); “derrubou os poderosos de seus tronos e elevou os humildes” (Lc 1, 52); “não vim chamar os justos mas os pecadores” (Lc 5, 32); “não são os sãos que precisam de médico mas os pecadores” (Mt 9, 21) e um dos versículos do Evangelho deste final de semana: “ quem se eleva será humilhado e quem se humilha será exaltado” ( Lc 9, 14). Todos estes trechos dos evangelhos nos auxiliam em muito à nossa reflexão e oração para este domingo, pois expressam a centralidade da mensagem do Senhor à liturgia dominical: Falam de nossa relação com Deus e de quão sincera e verdadeira ela deva ser. Com nosso Senhor não se brinca, com Ele não há necessidade de fingimentos ou simulações, diante Dele não precisamos encobrir sombras e pecados, pois tudo naturalmente é chamado à luz :” ai de vós fariseus, limpais o exterior do copo e do prato mas vosso interior está cheio de rapina e malícia “ (Lc 11, 39).

Santo Agostinho comentando o Evangelho deste domingo diz: “tendo se extraviado do caminho e sem saber para onde se dirigia, foi para a casa do médico, onde podia ser curado. Mas mostrava ao médico os membros sadios e escondia as feridas que tinha no corpo. Deixa Deus cuidar das feridas, não tu; pois se por vergonha, quiseres cobri-las tu, não te curará o médico. Enfaixa-as e as cura o médico, depois de aplicar nelas o medicamento (…) De quem tentas escondê-la? De quem tudo conhece? “(Sermo, Agostinho).

No Evangelho deste final de semana ouviremos a parábola do fariseu e do publicano. É mais um texto em que Lucas ressalta o coração de sua mensagem, centrada na misericórdia do Senhor. A introdução abre e explica o sentido do texto: “Jesus contou uma parábola para alguns que confiavam na sua própria justiça e desprezavam os outros” (Lc 18, 9). Atitudes corriqueiras de “ontem, de hoje e de sempre”, na espiritualidade cristã. Todos incorremos no risco do mal julgamento, de antecipadas condenações, de pré-conceitos sobre pessoas de nosso próprio círculo afetivo e religioso, quando passamos a entificar a condição de pecado (do qual todos participamos) ao pecador, isto é, quando definimos no íntimo alguém com a seguinte afirmação:” Ele é um pecador” e não “Ele têm (como todos temos) o pecado”.  Será sempre problemático entificar ou definir pessoas tanto para o bem, quanto para o mal. Santa Teresa de Calcutá corrigia “na hora” a quem exaltasse por demais suas virtudes, apesar de possuí-las, dizendo que poderia no outro dia cair em pecado. Ela como uma santa que foi, tinha consciência de sua frágil condição e por isso, se abandonou totalmente na misericórdia do Deus que muito amou.

A liturgia toca este belo tema da vida cristã: Sermos verdadeiros e se transparentes com nosso Deus. Não nos sentirmos demasiados prontos e perfeitos, por que cumprimos todas as regras da fé. Não será está forma de justiça com o foco de luz lançado sobre meus méritos e obras que me salva, ou me faz melhor que os outros. Mas a bondade e misericórdia do Senhor: “O fariseu em pé rezava em seu íntimo. Ó Deus eu te dou graças porque não sou como os outros homens, ladrões, desonestos, adúlteros nem como este cobrador de impostos” (Lc 18, 11). É forte a imagem. Em primeiro lugar revela que nosso íntimo, necessita também de purificação e elevação. O íntimo é o lugar da consciência, mas também do coração. Santo Agostinho fala dele nas suas Confissões como a imagem de Deus no homem. Aqui, na vaidade deste fariseu, se tornou, o lugar de julgamento. Cuide-se de pessoas que aparentam muita intimidade com Deus, mas são incapazes de olhar o outro com misericórdia. Na realidade revelam olhar só a si mesmos.

Na sua oração começou muito bem. Louvando a Deus: “O Deus eu te dou graças”, porém terminou muito mal: “nem como este cobrador de impostos”. Não conseguir ver um outro a seu lado no templo. Viu somente o seu pecado!

A oração do publicano é bem outra: Batendo no peito rezou o Sl 50: “Meu Deus tende piedade de mim, que sou pecador” (Lc 18, 13). Foi verdadeiro e sincero diante de Deus. Não escondeu suas feridas. Era um pecador. Os publicanos eram considerados a escória de Israel. Os traidores de seu povo. Faziam as vontades dos exploradores romanos. Mas por sua verdade o Senhor afirma: “Eu vos digo, este último voltou justificado, o outro não” (Lc 18, 13).

Na segunda leitura Paulo fala de já estar pronto para ser oferecido em sacrifício. Aqui sua prontidão nada se parece com a do fariseu do evangelho. A “proximidade de sua partida” (2 Tm 4,6) é precedida por uma “luta”: “Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé” ( 2 Tm 4, 7). A fé cristã é também um combate. É o combate de sermos verdadeiros diante de Deus. Combate de não escondermos nada diante Dele. Nem nossas sombras, nossos pecados, nossas mentiras, nem nossa mais profunda intimidade. Mas isto é também combater. Muitas vezes contra nós mesmos. Quando você vai ao terapeuta, você não oculta os seus mais doloridos traumas, pois sabe que do outro lado está alguém, que ao escutá-lo, poderá apontar caminhos que curem suas feridas. Da mesma forma, quando você se dirige humildemente ao confessor, ou a seu diretor espiritual, você não necessita de ocultar suas mazelas, pecados ou feridas, pois sabe que do outro lado estará um Deus misericordioso que o justificará com seu perdão. Mas isto é as vezes dolorido, por isso o bom combate da fé. Nossa prontidão, nossa oferta depende de nossa sinceridade diante do Senhor.

 

A perseverança na oração, a santa teimosia de estar diante de Deus!

bracos-erguidos-a-deusXIX Domingo Comum

(Ex 17, 8-13; Sl 120; 2 Tm 3, 14-4,2; Lc 18, 1-8)

 

Em que momentos a vida já me convidou a manter os braços erguidos aos céus?  Quais os momentos que eles estiveram cansados e abatidos? Quando senti o socorro e a libertação de Deus em minha vida? Quando experimentei a sensação de abandono? Todos já estivemos próximos destes questionamentos. Nos são todos familiares: Já erguemos nossos braços clamando o auxílio de Deus, já desânimos no caminho, já experimentos sua mão salvadora e também cansamos de esperar sua força e sentimos em algum momento o seu silêncio em relação a nossa suplica! É natural todos passamos por isso, até mesmo os grandes santos viveram experiências semelhantes.

Hoje a liturgia nos fala da fé e da oração. Poderíamos nos perguntar quem está no primeiro plano. Quem toma a frente nesta divina hierarquia: é claro que é a fé. É ela que fundamenta a oração que a sustenta e a alimenta. São duas asas de um mesmo voo. Aqui fé e oração nos elevam, nos conduzem, nos consagram para o alto lá de onde vem nosso socorro: “Do Senhor é que me vem o meu socorro, do Senhor que fez o céu e fez a terra” (Sl 120).

A oração, os braços erguidos aos céus fora a garantia de vitória na batalha contra os amalecitas. Fora os braços erguidos de Moisés, sua intercessão, sua oração no alto da colina (Ex 17, 8), que fez com que Josué derrota-se os violentos amalecitas. Na travessia rumo a terra prometida era travada duríssima batalha. Em nossas muitas travessias que fazemos na vida até a pátria definitiva, nos surgem inúmeras batalhas. Como as enfrentamos? Será que ainda contamos com o auxílio do alto ou nossa autossuficiência nos garantirá uma vitória no final? Moisés hoje nos ensina que não: Nos exorta a abandonarmo-nos em Deus. Com os braços e coração ao alto!

Há muitas batalhas que enfrentamos dia a dia. Os amalecitas eram tribos nômades que assaltavam os peregrinos que atravessavam o deserto rumo a sua pátria. Hoje ainda nos deparamos com muitas formas de “assalto” que insurgem inesperadamente em nosso caminho: Há “saqueadores” que se lançam sobre as famílias, querendo roubar o valor da fidelidade entre os cônjuges, há “roubos” reais e simbólicos na ética e na política, convencendo os brasileiros que a mediação social é somente uma escada egoísta em torno dos próprios interesses, há sérias ameaças a todo estado de vida chamado a total entrega ao Reino de Deus, afirmando ser este um modelo superado em relação aos valores hedonistas do mundo de hoje. Esta são também batalhas que nos dias de hoje estamos tendo de enfrentar. Mas como as estamos encarando? Moisés sustentou a vitória de Josué contra os assaltantes amalecitas com seus braços erguidos para o céu. Quando fraquejava, Ur e Aarão, um de cada lado, sustentavam as mãos de Moisés (Ex 17, 12). E nós, enfrentamos nossas batalhas espirituais, os inimigos que querem nos roubar de Cristo, saquear nossos valores e princípios, nossa esperança no bem e na justiça com Deus como Moisés e seus companheiros?

O Sl 120, 1; responde esta singular pergunta: “Eu levanto meus olhos para os montes, de onde pode vir meu socorro? Do Senhor é que me vêm o meu socorro, do Senhor que fez o céu e a terra” (Sl 120, 1).

O nosso auxilio está no nome do Senhor (Sl 123), está é nossa resposta. Porém as vezes precisamos ouvi-la mais de uma vez… Repeti-la, para nós mesmos.

Na segunda leitura, Paulo exorta Timóteo com insistência: “proclama a palavra, insiste oportuna e inoportunamente, argumenta, repreende aconselha com toda a paciência e doutrina “(2 Tm 4, 2).

A oração é feita também de insistência e resistência! É uma forma positiva de teimosia, como a de um filho que súplica, pede, insiste e espera a resposta do Pai. A mesma “teimosia positiva” que mantinha os braços de Moisés ainda que cansados aos céus, revelando sua total confiança em Deus, é encontrada no evangelho de hoje na parábola de uma pobre viúva que insiste por justiça diante de um juiz não temente a Deus e nem aos homens (Lc 18, 3). Tudo mostrava que seu pedido não se realizaria. Por que um juiz não temente a Deus se importaria com uma pobre viúva? No entanto assim termina a narrativa da parábola: “Vou fazer-lhe justiça, para que ela não venha a agredir-me” (Lc 18, 5).

Jesus contou esta parábola aos seus discípulos, para mostrar-lhes a necessidade de rezar sempre e nunca desistir (Lc 18, 1). A viúva nunca desistiu, ao contrário sempre insistiu. Mesmo considerando que:“durante muito tempo o juiz se recusou” (Lc 18, 4). Nós também caros irmãos, devemos rezar sempre. O mais importante na oração não é sua eficácia ou uma resposta imediata a nossos pedidos, como se Deus estivesse a nossas ordens. Não o mais importante é nossa perseverança, nossa presença diante de Deus. Mesmo que pareça estar demorando a nos atender. Ele já está agindo em nós.

Peçamos ao Senhor a santa teimosia da oração. Mantenhamos nossos braços erguidos aos céus e nosso coração ao alto!

“E nós, percebemos o quanto Deus tem nos curado?”

os-dez-leprososXXVIII Domingo do Tempo Comum

( 2Rs 5, 14-17; Sl 97; 2 Tm 2, 8-13; Lc 17, 11-19)

 

Neste final de semana a liturgia da Palavra aguça nossa sensibilidade para um aspecto importante da vida cristã que as vezes esquecemos: nossa capacidade de gratidão. Saber ser grato, perceber o bem que outros nos fazem é caminho profundo de santidade de vida. Santidade esta não marcada apenas pelos grande ideais acéticos ou construída nos mais autênticos sacrifícios, mas feita nos simples gestos humanos, de saber reconhecer o bem, o dom, a graça que alguém que proporcionou. A liturgia da Igreja soube traduzir teologicamente esta realidade, quando a cada celebração Eucarística convida seus fiéis a dizerem: “Na verdade é justo e necessário, é nosso dever e salvação dar-vos graças, sempre e em todo o lugar” (Prefácio, VI).

A mesa da Palavra deste domingo nos oferece a possibilidade de aguçarmos nossa sensibilidade espiritual para a gratidão. Este nobre e elevado sentimento se encontra em ambas leituras. No Evangelho, o Senhor Jesus segue seu caminho em direção a Jerusalém, percorrendo Samaria e Galileia, quando próximo de um vilarejo (que não conhecemos o nome) é abordado por dez leprosos que: “Pararam à distância, e gritaram: ‘Jesus, mestre, tem compaixão de nós!” (Lc 17, 13).

Nada está fora do lugar neste trecho do Evangelho. As palavras tem seu sentido: o caminho em direção a Jerusalém, as regiões que percorre (Samaria e Galileia), o vilarejo inominado, os dez leprosos. São Lucas se utiliza destas simbólicas imagens para transmitir uma mensagem profunda. No caminho à Jerusalém, Samaria e Galileia nos revelam que estrangeiros e judeus paganizados, (como eram conhecidos os galileus) são ouvintes da Boa notícia do Senhor. O povoado sem nome, aponta para condição social de seus “habitantes”, que também não tinham nome, eram reconhecidos como os dez leprosos. Apenas isto!

Os leprosos permaneciam assim: Nos povoados e vilarejos a porta das cidades. E quando avistavam que pessoas se aproximavam gritavam alto e a distância: “impuros, impuros”. Como quem diz: “Não se aproxime de mim”.

No entanto o grito fora diferente, como fora também a recepção: “Jesus, mestre tem compaixão de nós e ao vê-los, Jesus disse: Ide apresentar-vos ao sacerdote e enquanto caminhavam ficaram curados “(Lc 17, 13-14). Imagem linda esta: Jesus está nos curando no caminho! É como se apresenta nossa vida, sempre um caminhar. E ele está nos curando enquanto nos colocamos em caminho, basta recordar o Evangelho: “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me” (Mt 16, 5). Vale recordar que os próprios discípulos de Jesus eram no I século conhecidos como seguidores do “caminho”.

O Evangelho narra que enquanto caminhavam, aconteceu que ficaram curados “Um deles, ao perceber que estava curado, voltou e glorificando a Deus em alta voz” (Lc 17, 14). Eram dez os leprosos libertos, apenas um percebeu. A sensibilidade para a gratidão, para a ação de graças, para o reconhecimento, está muito ligada à percepção de que Deus está nos curando sempre! Muitas vezes acabamos por nos tornar um tanto “ingratos”, não por que Deus não está curando-nos de tantas situações e moléstias que se sobressaem em nossa vida, mas por que, estamos perdendo a sensibilidade de perceber Deus agindo muito em nossa vida. Por vezes é questão de percepção e uma pequena dose de sensibilidade espiritual. O homem curado da lepra, doença que afeta e deforma a parte externa da pele, revela um mundo interior nobre e elevado.

O Evangelho ainda nos revela algo sobre o sofrimento e a dor: Estes são capazes de unir pessoas dividas por princípios étnicos, religiosos, culturais. A dor e o sofrimento coloca todos em um mesmo nível. Pessoas passam a ser reconhecidas bem mais pelo mal que sofrem, do que pelo nome ou condição cultural que possuem. Vá há um hospital e constate: “aqui os pacientes de câncer, nesta outra ala, os aidéticos, nesta …etc”. A palavra de Deus neste final de semana não esconde está sutileza que a exclusão muitas vezes aponta: “E este era um samaritano” (Lc 17, 16). “E os outros nove onde estão?” (Lc 17, 17). A pergunta feita por Jesus nos serve: E os outros nove quem eram? Talvez judeus, com alguma certeza galileus, mas que enquanto nivelados no mesmo sofrimento, perderam seus nomes e identidades culturais.

Sejamos muito gratos a Deus. Ele está nos curando sempre. Sejamos muito gratos ao Senhor e peçamos a sensibilidade espiritual para como Jesus, ver dentro das pessoas. Superemos com a graça de Deus qualquer tentação de classificar ou excluir pessoas por condições sociais, raciais, culturais e étnicas: O Evangelho é para todos!

A maturidade da fé está na gratuidade!

aumenta-a-nossa-feXXVII Domingo Comum

(Hab 1, 2-3; 2;2-4; Sl 94, 2 Tm 1, 6-8.13-14; Lc 17, 5-10)

Na segunda leitura desta liturgia, Paulo exorta a Timóteo a reavivar a chama do dom de Deus que recebeu pela imposição da mãos. Que dom é este? O que precisa ser renovado, reavivado na vida do discípulo Timóteo? O dom da fé. A fé é dom, a fé é graça, que toca nossa vida por muitas mediações: Pode ter sido a família que nos introduziu desde cedo na vida de fé. Podem ter sido amigos que se tornaram mediadores de nossa vida cristã, pode ter ocorrido um grande retiro que sacudiu positivamente nossa vida, podemos um dia ter visto uma bela Igreja aberta, e o ambiente sagrado tocou lá dentro de nossa alma, ou até mesmo uma grande crise, um drama existencial, um momento difícil que abriu as portas para a presença amorosa de Deus em nós. As mediações são muitas, as situações diversas, mas jamais esqueçamos: tudo é Graça (1Ts 5, 1), ou tudo pode ser acolhido como graça de Deus!

A liturgia deste domingo fala exatamente disso: Da fé e de suas muitas mediações, por vezes paradoxais e surpreendentes. O profeta Habacuc, na primeira leitura é nosso primeiro exemplar: Ele fora testemunho da deportação do povo de Deus para o exilio babilônico. Uma experiência dolorosa que tingiu o povo de Deus com as cores da dor, do sofrimento e da escravidão. Sempre nos difíceis momentos da vida em que nos confrontamos com o mistério do mal, como o vivido pelo profeta, surge em nós a pergunta sobre Deus e sua presença: Mas onde Ele estava? Por que permitiu este sofrimento? Por que nos sentimos abandonados? Habacuc, traduziu estas interrogações com o seguinte clamor: “Até quando clamarei Senhor, sem me atenderes? Até quando devo gritar a ti (…) sem me socorreres? Por que me fazes ver iniquidades (…)? (Hab 1, 2-3). O clamor que brada aos céus do profeta, não fica sem resposta! Os nossos tormentos, “noites escuras” da fé também não. Num primeiro momento, enquanto imersos na experiência da dor nada conseguimos ver, mas há uma pedagogia divina que se revela no profundo destas coisas: Tudo deve ser acolhido como graça, ora são momentos profundos de Deus ora movimentos de crescimento da nossa experiência espiritual: Ter fé não significa que viveremos de agora em diante ilesos, ou que não seremos mais visitados pelo sofrimento ou a dor. Ter fé no Senhor significa, que Ele nos ama e permanece conosco também nestes momentos. Habacuc expressa isto com uma afirmação categórica: “Quem não é correto, vai morrer, mas o justo viverá por sua fé” (Hab 2, 4).

No Evangelho mais uma vez o tema da fé nos encontra. Os apóstolos pedem ao Senhor: “Aumenta a nossa fé” (Lc 17, 5). Quem de nós diante de uma tempestade existencial não pensou ou repetiu já este versículo? É natural que brote dentro de nossa alma uma súplica como essa dos apóstolos. Desejamos lá no íntimo ser salvos de nossos dramas e dores. E quanto mais rápido for a cura, melhor. Ninguém deseja um sofrimento voluntário. Porém o Senhor responde: “Se vós tivésseis fé, mesmo pequena como um grão de mostarda, poderíeis dizer a esta amoreira: arranca-te daqui e planta-te no mar, e ela vos obedeceria” (Lc 17, 6). Jesus não responde de imediato o pedido dos apóstolos. Ao contrário, o amplia, o aprofunda, o resignifica. Não está em jogo a quantidade, senão a qualidade, não está em jogo uma grandeza, mas sim a autenticidade desta experiência fé. A tal ponto que sendo pequena como um grão de mostarda, é capaz de arrancar uma árvore que possui uma raiz fortíssima (amoreira) e replantá-la no mar, algo que somente a fé é capaz de fazer: “Por que para Deus nada é impossível” (Lc 1, 37).

Porém a eficácia da fé, o poder de ação da fé, jamais deve ser tomada por nós como um passe de mágica. Recordamos é sempre graça, mas, também o silêncio de Deus, a resposta não imediata de nossas suplicas não deve ser compreendido como ausência de Deus. Muitas vezes isso acontece na vida de nossos irmãos cristãos. Por conta de certa imaturidade espiritual confundem fé com magia ou superstição. E não é a mesma coisa, nem tampouco se assemelham. Fé é uma experiência amorosa e gratuita com um Deus que nos ama imensamente, mas nem por isso deve estar sempre a nosso disposição. Aos nossos serviços. Esta é na verdade uma idéia de deus infantil e paganizada e que as vezes repetimos por ai!

Na da continuação do Evangelho isto está claro: A parábola fala de um patrão que orienta seu empregado aos cuidados dos animais e do campo. Ao retornar do trabalho, o patrão que a nossos olhos não parece nada generoso, justo ou solidário, pois nem mesmo sente o dever de agradecê-lo: “Será que vai agradecer ao empregado, porque fez o que lhe havia mandado?” (Lc 17, 9). Claro que à nossa cultura a parábola lembra ser pouco solidária. Mas aqui ela é apenas uma figura, um sinal do que quer significar: Quer falar de um aspecto importantíssimo sobre a fé. A fé deve ser gratuita! Nossa relação com Deus, nossa fé em Deus não deve se pautar nos méritos: Eu te dou para que tu me dês. Assim pensavam os fariseus!! Jesus não quer esse nível “primitivo” de relação com Ele. Quer sim que se exista algum mérito que seja o amor. Por isso diz: “ Assim também vós: quando tiverdes feito tudo o que vos mandaram, dizei: Somos servos inúteis; fizemos o que devíamos fazer” (Lc 17, 10). Aqui mora o caminho para a maturidade da fé!