Fiel nas pequenas coisas, para ser fiel também nas grandes. O testemunho cristão e a relação com o público e o privado

 

 

 

 

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XXV Domingo Comum

(Am 8, 4-7; Sl 112; 1 Tm 2, 1-8; Lc 16, 1-13)

A liturgia deste domingo traz ao centro de nossa reflexão um tema sempre áspero e polêmico: como administrar os bens que nos são confiados? Como posicionar-se diante dos bens que possuímos? Como se usar dos bens sem dominar a outrem e nem por eles se deixar possuir? É um tema que perpassa toda a Escritura, toca de fundo a fé cristã que ousa dar um significado de comunhão e liberdade frente aos bens materiais.

No início do cristianismo o desconhecido autor da “Epistola a Diogneto”, já delineava a relação cristianismo e bens mateiras com a seguinte proposição: “os cristãos sendo pobres, enriquecem a muitos, são privados de tudo e em tudo têm abundancia” (Diogneto, V,1). O célebre texto do II séc., demonstra o lugar do cristianismo no mundo: Este lugar é e deve ser sempre paradoxal: Nada possuindo, nenhum poder em si, podem sim enriquecer a muitos. Mas como dar razão a uma expressão tão contraditória? Recordando as palavras de Jesus do Evangelho dominical: “Não podeis servir a dois Senhores: com efeito ou odiara um e amará a outro” (Lc 16, 13). É desta afirmação de liberdade e prontidão que se pauta a vida cristã. E será ela que irá garantir nossa liberalidade no uso dos bens.

Neste domingo a Palavra de Deus nos traz a parábola do administrador prudente. Nosso Senhor segue seu caminho em direção à Jerusalém, é o caminho de cruz, de renúncia que Ele faz ao lado de seus discípulos. Este itinerário é geográfico e existencial. Está implícito nestas “veredas” passos e renúncias que nós discípulos somos chamados a interiormente acolher. Aqui a relação com os bens, com o dinheiro. Mas não só na vida privada, também na esfera pública. Tem sido há muito, áspero para os cristãos abordar temas relativos ao público, ao mundo, à sociedade, à dignidade da pessoa humana, à política sem se deixar julgar por preconceitos ideológicos. Mas é preciso. E o Senhor quer colaborar com seus discípulos também em um testemunho de vida que una a vida privada cristã com um testemunho público.

Na segunda leitura o apostolo Paulo é porta voz desta afirmação quando pede aos cristãos que orem por suas autoridades: “eu recomendo, pois, antes de tudo, que se façam pedidos, orações, súplicas e ações de graças, por todos os homens, pelos reis e todos que detêm autoridade, afim de que levemos uma vida calma e serena, com toda a piedade e dignidade” (1 Tm 1-3). O apostolo não quer acomodar o “fermento” do evangelho às autoridades. Pelo contrário, o ambiente em que foi escrito a epístola era de total hostilidade da parte dos romanos para com os cristãos. Seu pedido reconhece que o cristão não deve orbitar em um círculo fechado e isolado do mundo. O cristianismo é para ser “luz no mundo”, isto é iluminar as realidades ainda sombrias, e mais, na oração paulina está presente uma importante súplica: por uma vida calma e serena, com piedade e dignidade.

A importância de um bom testemunho cristão tanto no espaço privado como no público está presente na continuação da parábola deste domingo, na afirmação do Senhor ao dizer: “quem é fiel nas coisas mínimas, é fiel também no muito, e quem é iníquo no mínimo, é iníquo também no muito. Portanto, se não fostes fiéis quanto ao dinheiro iníquo, quem vos confiará o verdadeiro bem? “(Lc 16, 11). O versículo acima supera qualquer possibilidade de um dualismo moral, muito comum entre todos nós cristãos: O que sou na Igreja, nos movimentos eclesiais, nas pastorais é uma coisa. No entanto como tenho agido em casa com minha família, como tenho exercido minha profissão, que empregador sou para meus funcionários as vezes é bem outra… Esta forma de dualismo, é muito sutil. Quase não a percebemos, mas ela existe em nosso meio, e muitas vezes é sinal de escândalo para os pequenos. Voltamos a força da palavra de Jesus: “Quem é fiel nas coisas mínimas, é fiel também no muito” (Lc 16, 11).

Santo Agostinho tece um belíssimo comentário acerca desta difícil passagem de são Lucas: “essas são as verdadeiras riquezas. As outras somente a injustiça as denomina assim. Se as tens, não te reprovo: recebeu uma herança, teu pai ficou rico e as legou a ti. As adquiriste honestamente. Tu tens a casa cheia como fruto dos teus trabalhos, não te reprovo. Contudo, não as chame de riquezas, porque se fazes isso as amarás e, se amares, perecerás com elas (…) não as chame de riquezas, porque não são verdadeiramente(..) Portanto as verdadeiras riquezas, são aquelas que possuídas não a podemos mais perder” (Sermo 111, 3-5).

Como equilibrar em nossa vida o pessoal e o comum, o privado e o público? Como superar este sútil dualismo moral que todos nos encontramos imersos, de pequeninas corrupções, por vezes sem darmo-nos conta? O Evangelho aponta um caminho: “Não podeis servir a dois Senhores, ou odiará um e amará o outro ou se apegará a um e desprezará o outro: não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Lc 16, 15-16). Há um só Senhor. Somente Deus é o Senhor e não o dinheiro. O seu Senhorio deve pautar nossa relação com os bens materiais e não o contrário. Sabemos que isto é difícil. Será sempre um convite a conversão para todos. Há um banco em nosso coração, onde depositamos nossos bens, espirituais e matérias também. Se ele for conduzido para o amor, nos levará a comunhão e a partilha.  Se for lugar de egoísmo, nos levará a dominação do dinheiro!

 

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Um comentário sobre “Fiel nas pequenas coisas, para ser fiel também nas grandes. O testemunho cristão e a relação com o público e o privado

  1. Excelente a reflexão Pe. Jo, vou aproveitá-la bastante pois estava preparando uns rabiscos, desde o início da semana, e me deu grandes subsídios. Obrigado. Abraços. Paz!

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