“Onde está o teu tesouro ali estará teu coração” (Mt 6, 21)

TesouroXVIII Domingo do tempo Comum

(Ecle1, 2;2,21-23; Sl 89; Cl 3, 1-5.9-11; Lc 12, 13-21)

Neste final de semana a Palavra de Deus, exorta-nos acerca de nossa relação com os bens. Quem tem bens os possui. Os deve ter porque nos garantem um mínimo necessário para que vivamos com dignidade. Não é um mal, possuir bens, mal é quando os bens que temos passam a dominar nossa vida e nossa liberdade, guiar quaisquer de nossos projetos, quando passamos a ser possuídos pelos bens materiais. Aqui jaz um grande problema! Problema comum, tema cotidiano. Quantas pessoas que você conhece que apesar de possuir muitos bens não conseguem se realizar na vida? Quantas pessoas que ainda pensam que sua felicidade só será possível quando tiver riquezas? Quantos cristãos que diante da riqueza, prendem ali seu coração, trocando a felicidade e a liberdade do Reino dos céus, pela efemeridade dos bens nesta terra?

O livro do Eclesiastes que lemos na primeira leitura de hoje, é uma meditação filosófica judaica. Por este livro sagrado ser filosófico e muito reflexivo ele constata um sério perigo a quem se apega por demais aos bens materiais: “também isso é vaidade e grande desgraça. De fato, que resta ao homem de todos os trabalhos e preocupações que o desgastam debaixo do sol? Toda sua vida é sofrimento; sua ocupação um tormento. Nem a noite repousa seu coração” (Ecle. 2, 22).

O autor não é ingênuo. Infelizmente a sua percepção toca profundamente neste constante dilema. Os bens que tem a finalidade de estar a nosso serviço, se não administrados com liberalidade por nós, podem nos trazer muitos sofrimentos.

Na carta aos Colossenses, Paulo aconselha-nos a aspirar pelos bens. Porém aqui o apóstolo confere um significado diferente aos bens. Resignifica seu valor. Eis um problema de nosso tempo. Acabamos por dar muito valor ao que “vemos”. Ao “aqui e agora”, as riquezas deste mundo. São Paulo convida os cristãos a buscar as coisas do alto. E as coisas do alto para Paulo são O grande bem! Para ele, estas coisas são muito mais valiosas que os bens terrenos: “esforçai-vos por alcançar as coisas do alto (…) aspirais as coisas celestes e não as terrestres” (Col 3, 2). Nós é que as vezes empregamos um grande esforço, uma enorme busca por bens materiais. No entanto, este texto de são Paulo constata uma bela realidade. O apóstolo já descobriu algo que muitos de nós cristãos ainda “vemos somente por espelho” (Cor 13, 12). Para Paulo, o batismo significa o mistério pascal de Cristo. E nós, batizados, de certa forma morremos e ressuscitamos em Cristo Jesus: “pois vós morrestes e a vossa vida está escondida com Cristo, em Deus” (Col 2, 3). Esta vida escondida de Cristo agirá em nós, quanto mais permitirmos a ação sua morte, isto é, os frutos da paixão do Senhor. Por isso podia afirmar com tanta força: “para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro” (Fl 1, 21). Esta visão da “ante sala” que Paulo tinha de uma outra realidade, o faz considerar realmente um bem e um valor o que está no alto: “Onde está Cristo” (Cl 3, 1).

No evangelho deste domingo Jesus nos adverte ao risco da ganância. Ela é sentimento humano que se caracteriza por querer possuir tudo para si próprio, tudo que se admira.  Jesus diz: “tomai cuidado contra todo o tipo de ganância, pois mesmo que alguém tenha muitos bens a vida do homem não consiste na abundância de bens” (Lc 12, 15). Esta palavra de Cristo é profética e filosófica. Profética por que se olharmos o quadro da política atual em nosso país, encontraremos uma bela imagem disto. E filosófica, por que Jesus, como em Eclesiastes, como em Paulo, aponta para uma verdade central do homem: a vida do homem não consiste na posse de muitos bens!  A vida do homem consiste na realidade na busca daquele Bem que não passará jamais. As parábolas do tesouro e da perola preciosa, revelam que este é o grande bem que o homem necessita, o grande tesouro, o que lhe faz rico diante de Deus: “ o reino dos céus é como um tesouro escondido no campo. Um homem o encontra e o mantém escondido. Cheio de alegria ele vai vende todos os seus bens e compra aquele campo” (Mt 13, 44)!

“Seja insistente na sua oração”

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( Gn 18, 20-32; Sl 137; Col. 2, 12-14; LC 11, 1-13)

A Palavra do Senhor neste final de semana nos chama a insistência na oração. Você confia na sua oração? Você concebe perceber que “do outro lado” de sua oração quem o escuta é um Deus Pai e amigo? Você reserva tempo em sua rotina diária para falar com Deus? Todas estas nossas perguntas se resumem no seguinte problema: Nós, nossa geração, ainda sabe orar? Será que quando rezo, ainda sou capaz de perceber que há um “Tu” imenso, eterno, e ao mesmo tempo Pai e amigo próximo? São estas questões cotidianas da vida cristã que iluminam a liturgia deste final de semana. Domingo em que os discípulos de Jesus fazem um pedido profundo a seu mestre: “Senhor ensina-nos a orar, como João ensinou seus discípulos” (Lc 11, 1-2).

A pergunta dos discípulos revela a percepção que tinham do mestre: Jesus era um homem orante: “Jesus estava rezando em um certo lugar” (Lc 11,1).

A oração é um caminho que nos aproxima de Deus. Não é o único. Mas um caminho seguro. Ela não exige de nós intelecção ou ciência. Ela convida sim a uma atitude de confiança e abandono nas mãos paternas e bondosas de Deus. O Salmista desta liturgia expressa com exatidão esta informação: “Eu agradeço vosso amor, vossa verdade, porque fizeste muito mais do que prometestes, naquele dia em que gritei, vós me escutastes e aumentastes o vigor de minha alma” (Sl 137, 3).

O grito aflito do povo sempre bradou aos céus: “Eu vi, a aflição do meu povo e ouvi os seus clamores, por causa dos seus opressores” (Ex 3, 7). Na primeira leitura Deus ouviu também um grito de tormentos: Era o clamor dos habitantes de Sodoma e Gomorra, que fez o Senhor descer as cidades contaminadas para julgá-las: “Vou descer para verificar se as suas obras correspondem ou não ao clamor que chegou a mim” (Gn 18, 21). Sodoma pelos seus pecados estava condenada ao extermínio. Deus por isso iria condená-la. A imagem de Deus na primeira leitura é a de um justo juiz. Era uma concepção veterotestamentária. Porém a insistência de Abraão que estava junto de Deus: “Abraão ficou na presença do Senhor” (Gn 18, 22), foi necessária para que Deus não exterminasse o justo com o ímpio! Abraão é a imagem do homem orante: Ele é insistente, perseverante, as vezes atrevido: “Estou sendo atrevido em falar ao meu Senhor, eu que sou pó e cinza” (Gn 18, 28). Estas são características dos homens que esperam ainda na oração. E por que Abraão age assim? Porque: “ficou na presença do Senhor” (22), só permanece em sua presença, quem o conhece. Quem estabeleceu uma intimidade com Deus, quem é amigo. Este é um grande fruto que nos dá a oração: Aprendemos a conhecer o coração misericordioso de Deus: “Longe de ti agir assim, fazendo morrer o justo com o ímpio” (Gn 18, 25).

Ensina-nos a orar dizem os discípulos a Cristo no Evangelho. Eles não foram despertos para oração por que viram um método ou uma forma genial na maneira de  Cristo rezar: O que os tocou profundamente foi que Cristo rezava sempre: “ Jesus estava rezando num lugar” (Lc 11, 1), os  discípulos o viam orando. Bom mas Jesus ensinou aos discípulos a lição da oração. E ela começou com a palavra Pai, que de certo modo encerra todo fundamento da oração. Rezamos a um Deus que é Pai, por isso não somos órfãos na oração. A oração é um diálogo, um encontro com um Deus paterno. Jesus também é insistente na palavra Pai. Nos lábios de Jesus este termo tem um riquíssimo significado: Exprime a intimidade de uma criança invocando a ajuda de seu Pai. Como se estivesse dizendo: “Papai, paizinho”. Era este nível de intimidade que o termo Pai, ganhava nos lábios de Cristo. E foi esta relação que fez com que seus discípulos o pedissem: “Ensina-nos a orar”!

A oração cristã deve nos conduzir a isso! Ao reconhecimento de nossa filiação Divina. É algo muito grande e ao mesmo tempo muito simples. Na parábola que encerra o evangelho Jesus retoma a palavra Pai. Este pai é também um juiz: Deve julgar um pedido. Porém quem pede agora é o Filho: “Será que algum de vós que é Pai, se o Filho lhe pedir um peixe lhe dará uma cobra?” (Lc 11, 12). Claro que não, lhe dará somente coisas boas! A oração que Jesus quer renovar hoje em nós é esta: Ele Pai na oração escuta-nos como um pai e nos concede o Espírito Santo!

“O amor, o único necessário !!!”

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( Gn 18, 1-10, Sl 14; Col 1, 24-28; Lc 10, 38-42)
“O amor, o único necessário !!!”
Neste final de semana a liturgia da Palavra convida a Igreja a meditar sobre aquele único e necessário no seguimento de Cristo. Evangelho e primeira leitura falam de acolhimento. Talvez seja este o “único necessário”, o aspecto mais elevado na dimensão cristã: acolher o mistério de Deus em nossas vidas. Paulo apóstolo aos colossenses afirma: “A estes Deus quis manifestar como é rico e glorioso entre as nações este mistério, a presença de Cristo em vós, a esperança da glória” (Col 2, 27).
Na primeira leitura a acolhida de Deus é feita por Abraão. O Senhor se manifesta junto a um carvalho na forma de três homens. A imagem é impressionante. O carvalho, lembra-nos a antiga árvore do bem e do mal no édem e por consequência a inimizade com Deus. Os três homens prefiguram o mistério do Deus Uno e Trino, mas o que chama-nos atenção no rico texto do de Gênesis, é posto na ‘boca’ de Abraão: “ Assim que os viu, correu ao seu encontro e prostrou-se por terra. E disse: ‘ Meu Senhor, se ganhei tua amizade, peço-te não prossigas viagem sem parar junto a mim teu servo (…) Pois foi para isso mesmo que vos aproximastes de vosso servo” (Gn 18, 3-6). Abraão aqui é o sinal de uma dimensão singular na tradição bíblica: O da acolhida do “Outro”. Para os povos da Antiga Aliança, o peregrino, o estrangeiro era imagem de Deus, por isso devia ser acolhido em casa. Abrir a própria casa a este viajante, era acolher o próprio mistério de Deus que o visitava. Dentro dos pedidos que Abraão faz aqueles três ‘misteriosos’ homens, está o dom da amizade. Nossa acolhida ao Senhor, abrir nossa casa e vida a Ele, deve conduzir-nos a uma relação de amizade com o Senhor. Esta amizade é refeita junto a uma árvore (carvalho), antes símbolo do mal, da queda e da inimizade com o Senhor, aqui, figura da cruz da Cristo, árvore da Vida: “Abraão, porém ficou de pé, junto deles, debaixo da árvore, enquanto comiam” (Gn 18, 8)
O tema da acolhida continua inspirando a liturgia no Evangelho deste domingo. Jesus é acolhido não como estrangeiro ou peregrino, mas como um hóspede amigo. A casa é de Marta, Maria e Lázaro, íntimos discípulos de Jesus. Mas esta casa é símbolo da Igreja, pois a comunidade eclesial é chamada no mundo a servir e contemplar. Duas dimensões não antagônicas senão complementares do que falta ao Corpo de Cristo (Col 2, 24).
A cena é bastante conhecida: Jesus acolhido na casa de Marta e Maria. No entanto percebemos que são distintas a forma de recebimento do Senhor: “Maria sentou-se aos pés do Senhor e escutava sua Palavra. Marta porém ocupada por muitos afazeres” (Lc 10, 39-40). Na narrativa de Lucas, duas imagens interessantes do discipulado. A primeira mulher, senta-se e escuta sua palavra. Maria já havia estado ao pés de Cristo outrora. Ela era aquela mulher que havia sido curada de uma vida de pecados. Havia feito uma profunda experiência da misericórdia do Senhor, de seu incondicional amor. O discipulado em Maria consistia então em fitar os olhos naquele que muito há amou: “Então Maria, tendo tomado uma libra de um perfume de nardo puro, muito caro, ungiu os pés de Jesus e os enxugava com os cabelos” (Jo 12, 1). Marta é símbolo da mulher. É atenta, prestativa, tem percepção do todo. Como a Igreja, deve estar atenta, serviçal, perceber as necessidades do santo povo de Deus, ser cada vez mais diaconal. Ambas discípulas se complementam não se opõem. Não deve haver contradição entre o serviço e contemplação, sempre unidade.
Mas olhando está belíssima cena do Evangelho de Lucas, nos perguntamos então: Onde está aquele único necessário de que fala Jesus? Qual é a melhor parte que Maria descobriu, e por isso reconhecida por Cristo?
A melhor parte não está num lugar, ou em uma posição corporal. Em pé, ou sentada! Não! A melhor parte não despreza nem serviço ou contemplação. Antes as unifica. A melhor parte é aquela mais elevada. O texto original descreve a melhor como: “”, isto é como “amor”!
A melhor parte, descoberta por Maria é uma atitude interna. Ela é uma ‘boa dose de amor’ que devemos colocar em tudo aquilo que fazemos na Igreja. O amor deve mover nosso serviço aos irmãos. Quanto não está por trás de nossos ministérios, eles tornam-se infecundos e cansativos. Passamos a encontrar pessoas verdadeiramente abnegadas em nossas comunidades mas as vezes muito estressadas. O mesmo para a vida contemplativa. Se não for uma decisão cotidiana por amor, podemos nos tornar rigoristas e muito exigentes com os outros. A melhor parte é esta: O amor!
“Compreendi que o amor é tudo! Então num transporte de alegria delirante, encontrei finalmente minha vocação, minha vocação é o amor” (Santa Teresinha, História de uma Alma)

“Chegou perto dele, viu e sentiu compaixão”!!

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( Dt 30, 10-14; Col 1, 15-20, Lc 10, 25-30)

Neste final de semana a liturgia apresenta o tema central e radical da ética cristã: As duas vias do amor. Por isso que como abertura a primeira leitura elegeu, um fragmento apaixonado da Lei afirmando: “ Converte-te para o  Senhor teu Deus  com todo o teu coração e com toda tua alma” (Dt 30, 11) .

A exortação do livro do Deuteronômio que hoje ouviremos é um convite a que possamos, conhecer, amar e encarnar na própria vida a Palavra de Deus. Não deve ser visto como um empreendimento árduo e impossível para o homem. O ‘esforço’ de amar com todo o coração, não é algo de outro mundo, inacessível a nós, é sim uma mensagem que está escrita dentro coração, próxima a nós todos, como na profecia de Jeremias : “ Porei minha lei no fundo de seu ser e a escreverei em seu coração. Então serei seu Deus e eles o meu povo” (Jr 31, 32).

É o mesmo que sugere Jesus ao mestre da lei da parábola do Samaritano que da liturgia deste domingo: “ Vai e faze tu o mesmo” (Lc 10, 37). É quase inútil tecer algum comentário sobre este riquíssimo texto do evangelho de são Lucas tão luminoso e essencial. Todos desde o mais simples leitor ao mais ‘culto’ conseguem igualmente capitar a carga amorosa e ao mesmo tempo provocatória desta parábola. Os personagens presentes, sacerdote e o levita são aqui uma expressão de um culto árido e infértil, distante da genuína tradição profética de Israel: “Eles odeiam aquele que repreende à porta e detestam aquele que fala com sinceridade. Por isso, porque oprimis o fraco e tomais dele um imposto do trigo” (Am 5, 11). Paradoxalmente, o samaritano “raça condenada” e idólatra, é aqui transformado em modelo de vida que une Lei e amor.

O doutor da lei havia perguntado a Jesus: “Quem é meu próximo?” (Lc 10, 29), trazendo à tona a questão muita debatida no rabinísmo, ascético e rigorista. Jesus, no final da parábola, relança a mesma pergunta mas de forma bem diversa: “Na tua opinião qual dos três foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes? (Lc 10, 36). O salto oferecido pelo Senhor é impressionante. Assim, Jesus, os convida a superar qualquer especulação intelectual e evasiva sobre o conteúdo mais original da lei: O amor ao próximo. Para o judaísmo, a realidade do próximo, estava vinculada a herança mosaica: Era meu próximo somente alguém de minha prática religiosa, aqui o observante da lei. Nosso Senhor, na figura do bom samaritano, amplia a questão a todos indistintamente.  Bem mais do que querer solucionar o problema do próximo, se fazendo apenas questionamentos: Quem é meu proximo? É preciso fazer-se próximo a quem se encontra abatido pela vida, na beira das estradas: “Mas um samaritano que estava viajando, chegou perto dele, viu e sentiu compaixão. Aproximou-se dele e fez curativos, derramando óleo e vinho nas feridas” (Lc 10, 33).

Na segunda leitura temos o belíssimo hino cristológico de Paulo aos Colossenses. Nele o apóstolo faz uma afirmação importantíssima sobre Cristo: “Cristo é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda criação, por Ele todas as coisas foram criadas” (Cl 1, 15-16). O tema da imagem é sempre atual. Nele estão inscritos o mistério profundo da criação: Orígenes dizia, que Deus Pai no ato amoroso da criação tinha diante de si apenas a imagem do Filho, Verbo eterno de Deus. E nessa imagem criou todas as coisas. O tema da imagem, recorda-nos que o homem é sua imagem e deve refleti-la no mundo. E ainda a simbólica da imagem, revela a pratica da fé e da ética cristã: Que imagem de Deus que temos afinal? Esta concepção, será sempre definidora de nossa pratica cristã. Se ela se apresenta a nós legalista como a daquele mestra da lei, com muita probabilidade, agiremos assim com nossos irmãos. Mas se ela for a de um Deus próximo: “a palavra de Deus está bem ao teu alcance, está em tua boca e em teu coração, para que possas cumprir” (Dt 30, 14), seremos próximos e misericordiosos com aqueles que foram abatidos e assaltados pela vida. Hoje aprendamos do bom samaritano o segredo da lei inscrita no coração: “chegou perto, viu e sentiu compaixão” (Lc 10, 33)

“A Pedra firme que existe em nós!”

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(At 12,1-11; Sl 33; 2 Tm 4, 6-8.17-18; Mt 16, 13-18)

O evangelho deste final de semana revela que a fé cristã foi erigida sobre uma “pedra”. A pedra é apenas um símbolo. Ela lembra a fé de Pedro. Ela recorda que nossa fé, nossa existência, nossa vida, nossas decisões devem ser edificadas sob algo que sólido e seguro. O apóstolo Pedro, nem sempre foi esta pedra segura. Nem São Paulo. Ambos também “tiveram sua experiência de fé um dia balançada”. São Pedro, por exemplo, teve medo enquanto caminhava sobre as águas e começou a afundar (Mt 14, 30); São Paulo declarava a existência incomoda de um espinha na carne, uma provação que o acompanhou durante sua missão. (2 Cor 12, 7)

Com certeza todos já vivemos momentos em que sentimos um silêncio da parte de Deus que nos trouxe a sensação de que a “pedra que existe dentro nós”, tivesse se esfacelada e se transformada em simples em areia.

Isto é algo comum na vida dos amigos de Cristo. Mas ao mesmo tempo é sinal de algo importante que celebramos na solenidade dos santos mártires Pedro e Paulo. Mostra-nos que a fé cristã é um conhecimento do mistério de Cristo e do mistério de si mesmo. Quanto mais o conhecemos, mais o amamos e menor será o nosso medo. A liturgia de hoje, revela-nos também que a fé cristã é uma construção. O próprio Jesus a define como tal: “ Todo aquele que escuta minhas palavras e as põe em prática, será semelhante a um homem prudente, que construiu a sua casa sobre a rocha, vieram as chuvas, correram os rios, sopraram os ventos e deram sobre a casa e a casa não caiu, pois estava construída sobre a rocha” (Mt 7, 24-25).

A ideia da fé como construção é importante. As colunas que celebramos neste domingo tiveram suas vidas construídas pela graça de Deus. Tiveram de enfrentar provações e imitar seu mestre também no sofrimento e perseguição. Faz parte da edificação da fé dentro de si, a provação e a rejeição. Na primeira leitura temos um belíssimo testemunho: Pedro se encontra preso por Herodes na proximidade da festa da páscoa. Há um sentido espiritual no fato: Como Jesus, Pedro é preso próximo a páscoa. No momento de sua libertação está dormindo entre dois soldados. O evento, lembra-nos a grande libertação realizada por Jesus que “dorme” na cruz entre dois ladrões: “Naquela mesma noite Pedro dormia entre dois ladrões (…) Eis que apareceu o anjo do Senhor e uma luz iluminou a cela. O anjo tocou o ombro de Pedro e disse: ‘levanta-te depressa’, as correntes lhe caíram das mãos” (At 12, 5.6-7).

O anjo que toca os ombros de Pedro e lhe diz ‘levanta-te depressa’, recorda que a cruz que levamos nos ombros é já libertação e salvação de todo e qualquer cárcere que o homem se encontre.

A experiência que Pedro faz do cárcere não é solitária. Ela é acompanhada pela oração dos irmãos: “Enquanto Pedro era mantido na prisão, a Igreja rezava continuamente a Deus por ele” (At 12, 5). No corpo de Cristo é assim, os membros participam sempre, seja nos momentos de dor, seja nos momentos de provação e sofrimentos, os irmãos marcam sua presença. Ora física, ora espiritual, a Igreja da qual Pedro se tornou ‘rocha’ é formada por outras pedras vivas que somos todos nós: “sois vós também quais pedras vivas, edificadas como casa espiritual para serdes um sacerdócio santo, afim de oferecerdes um sacrifício espiritual, aceitável a Deus por Jesus Cristo” (1 Pd 2, 5).

No entanto o evangelho de hoje narra um momento especial na vida de Pedro. O instante em que a ‘pedra viva’ que estava nele, veio enfim a luz. E por isso pôde iluminar e confirmar também os irmãos na fé. Em Cesárea de Filipe, Jesus interroga seus discípulos por duas vezes acerca de sua identidade: No primeiro questionamento quer saber a opinião das pessoas sobre Ele! Os discípulos respondem que as gentes definem a Cristo como um profeta, João Batista, Elias ou Jeremias. Na segunda interrogação, Jesus pergunta aos discípulos: “ e vós quem dizeis que eu sou? Simão Pedro respondeu: ‘Tu é o messias, o Filho do Deus vivo” (Mt 13, 15). A partir desta afirmação inspirada pelo alto: “Feliz es tu, Simão filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu pai que está no céu” (Mt 13, 17), que vem à luz para nós a identidade profunda do discípulo pescador: Ele passa a ser chamado Pedro “Kefas” e com isso sua inescrutável missão: “ Por isso eu te digo que tu es Pedro e sobre esta Pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la” (Mt 13, 18).

Simão Pedro torna-se está Pedra, está rocha na fé, não por méritos humanos, mas por iniciativa divina. A pedra de construção que se tornou o apóstolo Pedro foi sendo lapidada passo a passo na amizade com seu mestre. No bom combate da fé cristã ( 2 Tm 4, 7). Esta pedra também mora dentro de cada um de nós. Ela nos foi dada no dia de nosso batismo e recorda-nos que também nossa vida cristã é um combate, uma corrida, um caminho de salvação não construído na areia, mas na rocha que é o Senhor:

“Aproximai-vos dele, a Pedra viva, rejeitada pela humanidade mas eleita e preciosa aos olhos de Deus” (1 Pd 2, 4)