A renúncia, oferta da liberdade!

topic-3XIII Domingo do Tempo Comum

(1 Rs 19, 16b-19-21, Sl 15; Gl 5, 13-18; Lc 9, 51-62)

 

Neste final de semana a liturgia dominical nos convida a aprofundar um tema muito singular em nossos tempos: O problema da liberdade:  A propósito, você se considera uma pessoa livre? A sua liberdade lhe faz uma pessoa livre? Você sabe o que significa realmente ser livre?

O problema da liberdade não é nada novo na humanidade. Os gregos já se perguntavam sobre ela. Na Grécia antiga somente os filósofos eram homens realmente livres: a liberdade para eles era uma espécie de ascensão intelectual: A especulação filosófica, o saber, o conhecimento realizava uma “purgação espiritual de realidades materiais que só serviam para aprisionar a alma humana”. Por isso o homem deveria “subir”, através do conhecimento se libertando das prisões corporais.

Os gregos não estavam de todo equivocados. É certo que o saber filosófico, nos dá “asas para voar”, e o conhecimento nos liberta de concepções rudes e míticas acerca da vida. Mas a liberdade que o cristianismo propõe não se situa somente no intelecto! Em outras palavras a liberdade cristã não é dirigida apenas aos homens e mulheres de cultura. Ela se orienta a todos, aos mais simples dos homens, pois oferece uma liberdade que não está apenas na ‘cabeça’, mas no interior: Onde o próprio Deus habita: “Tarde te amei, ó beleza tão antiga e sempre nova. Tarde te amei! Eis, tu eras em mim e eu fora te procurava: eu, informe, me lançava sobre as belezas dos corpos (….) tu eras em mim e eu não era em ti” (Agostinho, Confissões, X,27).

O santo que acima citamos, é um dos personagens que mais aprofundaram o tema da liberdade na perspectiva cristã. Agostinho, como nos fala o texto das Confissões acima, buscou, procurou, sem reservas a liberdade. No entanto fora de si mesmo: Ora no saber intelectual, ora nos prazeres, até ter sido encontrado por Cristo, que lhe revelou uma experiência de liberdade, que coincide com a imagem impressa de Deus dentro de cada um de nós: “Fizeste-nos para ti Senhor e inquieto está nosso coração, enquanto não repousar em ti” (Conf, 1,1).

É desta rica tradição envolvendo o tema da liberdade que a liturgia da Igreja nos fala deste domingo.

O apóstolo Paulo na segunda leitura recorda aos cristãos da Galácia: “É para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gl 5, 1) Esta palavra é sem dúvida impressionante! Por vezes pensamos que a vida cristã não se conjuga com a liberdade! Tratamos o cristianismo como uma filosofia moral, cheia de regras e normas na qual a experiência cristã ao invés de libertar o coração do homem, o oprime e o cristão passa a se tornar um moralista, sempre apto a julgar e com menos aptidão para amar! Mas o apóstolo nos recorda: ‘Foi para a liberdade que Cristo nos libertou’. De que liberdade então Paulo estaria falando? Aos cristãos da Galácia, o apóstolo quer recordar que a Graça batismal e não a Lei mosaica é que os liberta e salva. Havia naquele período cristãos ainda ligados ao judaísmo que desejavam impor ao cristãos vindos do ambiente helênico as mesmas normas da lei exigidas aos judeus: “Ficai pois firmes e vos deixei amarrar de novo ao jugo da escravidão” (Gl 5, 1).

Mas com isso, devemos afirmar que no cristianismo não exista uma moral? Ou, aonde exista uma moralidade cristã, não há espaço para a liberdade? Claro que não, e Paulo bem o sabia. Ele percebia que no interior do coração humano havia uma tensão, uma dualidade, uma oposição entre carne e espírito que a somente observância da lei não era capaz de libertar. E ainda, que a liberdade diante da lei não deveria ser pretexto para uma vida cristã amoral, onde tudo passa a ser permitido. Pensar assim seria estar “amarrado” a uma lei interior da carne e não da Graça do Espírito Santo, a que nos liberta verdadeiramente: “Portanto, procedei segundo o Espírito. Assim, não satisfareis aos desejos da carne. Pois a carne tem desejos contra o Espírito, e o Espírito tem desejos contra a carne” (Gl 5, 17).

A liberdade interior cristã nos chama para uma moralidade de elevação e consagração, inclusive dos desejos! Eles são pontos diante de Deus a partir da lei da Graça, por isso elevados e oferecidos não reprimidos.

Um outro lugar da liberdade cristã se dá no seguimento de Jesus. Ali, caminhando ao seu lado como os discípulos vamos experimentando como é possível ser livre!

E onde? Exatamente em uma situação paradoxal a liberdade: Ou naquilo que se entenda em nossos tempos o que seja a liberdade: A liberdade se encontra na renúncia. Na capacidade de livremente escolher pelo maior e de renunciar com liberdade pelo que é provisório e efêmero. A liberdade cristã é um valor, que todos os discípulos de Jesus são chamados a perseguir.

Domingo passado Jesus dizia a seus discípulos: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Lc 9, 23). Por trás deste exigente convite, que as vezes nos assusta tanto, está uma definição de amor, que faz-nos compreender o lugar da liberdade cristã: Um amor ágape, de doação, e não um amor próprio que gera apegos. Um pessoa apegada jamais será livre. Uma pessoa que ama doando a vida, jamais se sentirá presa.

Retornando as perguntas iniciais: A sua liberdade tem lhe feito uma pessoa livre? Se ela tem servido para uma satisfação pessoal, centrada em si mesmo, penso que não! Se sua liberdade tem lhe dado capacidade de renunciar o provisório pelo Maior, e continuar amando, sim, estas no caminho da liberdade!

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Confissão e contradição, paradoxos da santidade!

Pedro!XII Domingo do Tempo Comum

( Zc 12, 10-11;13; Sl 62; Gl 3, 26-29; Lc 9, 18-24)

O evangelho deste final de semana se abre com uma aparente contradição: Jesus estava rezando em lugar retirado e os discípulos estavam com ele. O que nos revela o paradoxo de Jesus a sós com o Pai em oração e a companhia de seus discípulos?  Indica sobretudo o sentido desta liturgia dominical: Jesus quer revelar aos seus, sua mais profunda identidade, e este “conhecimento” sobre Ele, só é possível a partir da oração e intimidade com o Pai. Não basta apenas um saber sobre Jesus, é preciso reconhecer quem é Cristo, em sua divina identidade.

E como podemos conhecer a Cristo? Como Ele se revela a nós? Que etapas precisamos percorrer para reconhecer esta presença em nossa vida?

A liturgia da Palavra deste final de semana, nos adverte que existe neste itinerário de descoberta de Cristo, um dado relevante que nos oferece o senso comum. As pessoas, as multidões, as gentes, manifestam opiniões interessantes sobre Cristo: Se dedicássemos, algumas horas de nosso dia e perguntássemos as pessoas o que pensam sobre Cristo, teríamos com certeza opiniões muito boas. Algumas destas se aproximariam muito de seu mistério, outras ficariam apenas na superfície.

Jesus após orar, questionou também seus discípulos, a respeito de sua verdadeira identidade: “Quem diz o povo que eu sou?” (Lc 9, 19) Os discípulos responderam: “Uns dizem que és João Batista, outros Elias, mas outros acham que és alguns dos antigos profetas que ressuscitou” (19). As opiniões recolhidas pelos discípulos de Jesus estão de acordo com o cenário religioso da época. O próprio rei Herodes ouvira já semelhantes ideias sobre Jesus: “é João que foi ressuscitado dos mortos; é Elias que reapareceu e outros ainda: é um dos antigos profetas que ressuscitou e Herodes, porém, disse: A João, eu o mandei decapitar, quem é esse, portanto de quem ouço essas coisas? E queria vê-lo” (Lc 9, 8-9). Todas estas opiniões acerca de Cristo não estavam muito distante de seu íntimo mistério. Falavam de uma dimensão importante de sua vida e missão. Ele era um homem da Palavra, por isso, é comparado aos profetas: a João, o batista e a força e poder de Elias. As opiniões das pessoas revela uma visão parcial do mistério. Nós também, ainda que cristãos e seguidores de Cristo, sempre compartilharemos, uma visão parcial, não total do ser de Cristo, está nos será dada somente na eternidade: “agora veremos como espelho, de maneira confusa, mas depois, veremos face a face. Agora meu conhecimento é limitado, mas depois, conhecerei, como sou conhecido” (1 Cor 13, 12).

No entanto como as opiniões do povo sobre Jesus são parciais, Ele quis ouvir o que os seus discípulos dizem a seu respeito: “E vós quem dizeis que eu sou? Pedro respondeu: O Cristo de Deus”. (Lc 9, 20)

A inspirada resposta de Pedro é seguida por uma proibição e anúncio da paixão. E por que? Não era está a resposta que o Senhor esperava de seus discípulos? Não é está a confissão de fé mais central do cristianismo: Reconhecer que Cristo é Deus? Por que então agora o segredo? Por que este novo paradoxo? Porque Jesus, após ouvir a confissão Petrina, passa a fazer também a sua. Começa a revelar a seus discípulos que no caminho de reconhecimento de sua filiação divina, existe uma estação chamada cruz e renúncia de si mesmo. Não serão as últimas estações desta viagem ao centro do mistério do Senhor, mas senão passarmos por elas, como Ele por primeiro passou, não completaremos a nossa corrida (2 Tm 4, 7).

Jesus ao falar aos discípulos o caminho da renúncia e da cruz, acabou por revelar um outro lado de sua identidade. Virou a página de um livro. Na primeira página, a confissão petrina cheia do Espírito Santo, no verso, o significado desta revelação: Como Ele, deve sofrer muito, ser rejeitado, ser morto e ressuscitar ao terceiro dia (Lc 9, 22), aquele que quiser segui-lo, deve acolher também esta santa contradição: “Eis que este menino foi posto como queda e para o soerguimento de muitos em Israel, e como um sinal de contradição” (Lc 2, 34).

A divina contradição, o paradoxo da revelação de Cristo será sempre este: Para aqueles que não acolherem o mistério de Cristo com todas as suas estações, a cruz, a renúncia, o sofrimento, será sempre um sinal queda! Estes permaneceram com a confissão de fé, com um lado do mistério. É bem mais que a opinião das pessoas, mas não o Cristo total. Àqueles que ousam perder sua vida, por Ele, num mundo onde todos querem ganhar, aqueles que renunciam a si, por Ele, num mundo onde todos querem possuir tudo, entenderam que a santa contradição do Evangelho!

O Perdão reconstruindo a vida!

WhatsApp-Image-20160610XI Domingo Comum

(2 Sm 12, 7-10.13; Sl 31; Gl 2, 16.19-21; Lc 7, 36-50)

Neste final de semana a liturgia da Palavra apresente o tema do perdão. Dar e receber perdão a outrem é um grande dom de Deus e rico em significados. O perdão cura, reconcilia, refaz amizades, reconstrói vidas antes despedaçadas, é caminho para criar uma urgente cultura de respeito nestes nossos tempos de tanta intolerância religiosa, política e social a qual estamos todos mergulhados. Mas há algo que perpassa o símbolo do perdão e parece estar presente na liturgia deste santo domingo: O perdão refaz caminhos e vidas antes perdidas!

A vida é difícil de ser definida. Sabemos ao menos que viver é caminhar. Muitos destes são feitos por trilhas seguras ao lado do bem, da justiça e da paz. Se trilhamos bons caminhos é porque outros nos preparam e nos ensinaram que se andássemos por esta estrada, andaríamos na Verdade. Mas algumas pessoas acabaram por fazer estradas equivocadas. Tomaram caminhos que com o passar do tempo foram destruindo sua dignidade. A razão do porquê destas escolhas não nos cabe julgar. No perdão não há espaço para julgamentos precipitados, há sim lugar para compreensão e acolhida. Muitos que se perderam em seus caminhos, talvez não tenham tido a oportunidade de ‘ouvir’, os conselhos que ouvimos, outros, preferiram optar por uma ‘experiência de liberdade’ que com o tempo se desgastou e se tornou seu próprio isolamento.

São caminhos e histórias conhecidas por todos nós. Caminhos e vidas que foram sendo reconstruídas pela graça do encontro com o Senhor. Ele estará sempre por “detrás” da reconstituição destas vidas antes perdidas mas ‘escondidas e reencontradas Nele’ (Col 3, 3).

Neste domingo a Palavra brinda nossa alma com esta reflexão: Em Deus podemos retomar caminhos antes de perdição e pecado que nos levavam a morte mas que pela graça do perdão foram envolvidos e Nele protegidos : “ Sois para mim proteção e refúgio, na minha angústia me haveis de salvar e envolvereis minha alma no gozo, corações retos, cantai jubilosos” (Sl 31, 11)

O evangelho neste domingo nos mostra a reconstrução muito singular de um caminho de vida antes equivocado. Fala do encontro de uma mulher reconhecida como pecadora com a misericórdia de Cristo. Não foi a primeira vez que este tema fez parte dos evangelhos, conhecemos outros textos similares a este: (Jo 4 ss; Jo 8, 1-11), mas em são Lucas a toda uma especificidade. Lucas como nenhum outro evangelista trouxe à tona o discipulado tão especial e próprio das mulheres.

O ambiente do texto se passa em uma ceia. O tema do banquete, da ceia, era importante para os judeus. Em certo sentido o estar a mesa para os hebreus, o cear juntos, foi sempre recordação da Páscoa. A ceia carrega consigo, uma simbólica da libertação e salvação, por isso era um momento primordial para qualquer observante da Lei. Neste cenário, cotidiano e corriqueiro, mas ao mesmo tempo santo e pascal é que acontece uma pessoal experiência de salvação e libertação. Em certo sentido, de travessia também, como o entendiam os judeus. Era chegada para aquela “mulher pecadora” a terra prometida. Ela podia agora tocar e agradecida, derramar lágrimas por que sua páscoa, sua libertação, chegou agora em sua vida, não pela observância da lei, que a condenava, mas pelo dom do perdão, que lhe acolheu e reconstruí toda sua vida. O perdão de Cristo escreveu uma nova lei no dentro de seu coração. Na segunda leitura, o apostolo Paulo expressa esta verdade, da qual também experimentou: “ Eu vivo, mas não eu, é Cristo que vive em mim. Esta minha vida presente na carne, eu a vivo na fé, crendo no Filho de Deus que me amou e por mim se entregou” (Gl 2, 20)

No outro lado da cena, está o anfitrião do banquete. Ele é o fariseu Simão. Sua reação em relação a ‘mulher pecadora’ é diversa a que teve Jesus: Ele demonstra algo do qual carregamos alguns traços. Quem de nós diante de pessoas com a vida publicamente comprometida em caminhos de pecado, de erro, de violência, não julga e condena de antemão? Quem de nós, não toma o caminho da aparência ao invés o do coração? Este foi o critério do fariseu. Ele faz o julgamento a partir do pecado da mulher e não da dignidade de sua pessoa:

Vendo isso o fariseu que o havia convidado ficou pensando:  se este homem fosse um profeta, saberia que tipo de mulher está tocando nele, pois é pecadora” (Lc 7, 39).

Em contrapartida ao pensamento de Simão, Jesus responde com a parábola dos dois devedores perdoados: “Certo credor tinha dois devedores; um lhe devia quinhentas moedas de prata, o outro, cinquenta. Como não tivessem com que pagar, o homem perdoou os dois. Qual deles o amará mais? Simão respondeu, acho que é aquele ao qual perdoou mais!” (Lc 7, 41-43).

A parábola é uma bela imagem da mulher e de Simão o fariseu. Ela é figura daquele credor que devia muito, quinhentas moedas de prata, mas que teve sua dívida perdoada. Que diante do perdão de Jesus, teve o seu pecado remido, e sua vida reconstruída. E respondeu ao Senhor amando-o mais: “ Por esta razão eu te declaro: teus pecados estão perdoados porque ela mostrou muito amor” (Lc 7, 47). Simão é o credor das cinquenta moedas! Ele deve pouco, mas como um fariseu, apegado a lei, pensa já ter sido justificado, por isso pode julgar e condenar. E não consegue perceber que também precisa do perdão de Cristo para salvar-se. Paulo na segunda leitura diz: “ Sabendo que ninguém é justificado por observar a lei de Moisés, mas por crer em Jesus Cristo(…) assim fomos justificados pela fé em Cristo e não pela prática da lei” (Gl 2, 17).

O gesto de agradecimento da mulher é belo e impressionante: “ ela trouxe um frasco de alabastro com perfume, e ficando por detrás, chorava aos pés de Jesus; com lágrimas começou a banhar-lhe os pés, enxugava-os com os cabelos, cobria-os de beijos e os ungia com o perfume” (Lc 7, 37-38)

O gesto demonstra um rito da mais elevada intimidade e adoração diante do Senhor. Chorando, banhando-os com suas lágrimas, ungindo e perfumando os pés de Cristo, a mulher agora amada e perdoada por Deus reconstrói sua vida. Se antes ela havia deitado seus pés nas estradas do pecado e da morte, agora se prostra diante dos pés daquele que é o “Caminho”! Por isso, todos estes fortes e simbólicos gestos. O perdão restituiu sua vida, e sua trilha agora será seguir os “ belos pés do mensageiro da paz” (Is 53).

“Permita que Jesus toque em suas mortes, para transformá-las em vida”

Naim jovemX Domingo do Tempo Comum

( 1 Rs 17, 17-24, Sl 29, Gl 1, 11-19, Lc 7, 11-17)

Neste final de semana nos deparamos na liturgia com uma cena bastante cotidiana. Apesar do drama que ela significa, não podemos deixar de considerá-la de certo modo comum. O Evangelho fala de uma vida que “desabou”: Quem tem a ‘rica’ oportunidade de escutar pessoas, certamente já ouviu relatos muito semelhantes ao que sentiremos no relato de Lucas. O texto fala da ressurreição de um jovem. É exclusividade de Lucas. Nós conhecemos outros relatos de ressuscitados: a filha de Jairo (Mc 5, 21); Lázaro (Jo 11), mas este em particular realça o coração de Cristo, cheio de humanidade, que se compadece da dor de uma pobre mãe viúva que está vendo sua vida “desmoronar” diante da perda de seu único filho.

O evangelho começa com a descrição de dois “cortejos”. Tal qual duas procissões: a primeira é a de Cristo e multidão que entram na cidade de Naim. A cena evoca lugar comum do evangelho de Lucas: a salvação que chega a casa, a cidade, a vida de pessoas que tinham tudo perdido: “Hoje a salvação entrou nesta casa, porque ele também é um filho de Abraão. Com efeito o filho do homem veio procurar e salvar o que estava perdido” (Lc 19, 9-10). A segunda é um cortejo fúnebre de um jovem que como de costume se encaminha para fora das portas da cidade: “coincidiu que levavam a enterrar um morto, filho único de mãe viúva e grande multidão da cidade estava com ela” (Lc 7, 12).

As duas procissões marcam dois movimentos: o primeiro, o da vida que Cristo traz ao entrar na cidade e no coração das pessoas. O outro, é o movimento da pesar, de quem tudo perdeu, mas que de maneira alguma tem sua “dor” perdida do olhar compassivo de Cristo: “O Senhor ao vê-la sentiu compaixão e disse-lhe não chores” (Lc 7, 13). Não são movimentos antagônicos. São sim complementares, pois a misericórdia em Cristo é o novo nome de Deus (Papa Francisco).

O Olhar de Cristo diz muito a todos nós: “ao vê-la sentiu compaixão”! O milagre começa já neste momento: no olhar misericordioso que Jesus têm pela dor do outro. Nós no ambiente pragmático, veloz, competitivo que vivemos, estamos nos tornando “míopes” a dor do próximo. Passamos por tanta gente nas ruas, jogados nas filas dos hospitais, na solidão e abandono e estas situações de dor já não nos afetam. E por que? Por que também este olhar compassivo de Cristo está morrendo dentro de nós. Ele precisa também que o toque de Deus o abra para que “eu veja de novo” (Lc 18, 42).

A compaixão humana em Jesus o leva a realizar o gesto divino:” Aproximou-se, tocou o caixão, e os que o carregavam pararam. Então Jesus disse: “Jovem, eu te ordeno, levanta-te” (Lc 7, 14).

Tocar no morto, ou no seu caixão era sinal de impureza no judaísmo. Tanto que os mortos eram enterrados fora da porta das cidades. No entanto o “toque de Jesus no caixão”, revela seu mistério santo ao ponto de toda a multidão professar: “um grande profeta apareceu entre nós e Deus veio visitar o seu povo” (Lc 7, 16).

A nós esta imagem têm muito a dizer. Todos temos lá nossas mortes. Esta mãe que vê sua vida desmoronar ao perder seu único filho, é retrato de situações de dor conhecidas de todos nós. O Senhor ao tocar no caixão que conduzia seu filho “morto” para fora da cidade, toca na realidade na sua vida. Ela também morria na morte do filho e revive com sua ressurreição: “ O que estava morto sentou-se e começou a falar e Jesus a entregou a sua mãe” (Lc 7, 15).

Neste final de semana a liturgia está nos convidando a sermos devolvidos a Vida, como aquele jovem foi entregue a sua mãe. No entanto nós ainda preferimos esconder nossas ‘mortes’ dentro de caixões, escuros, frios e fechados. Enquanto nossas ‘dores’ permanecem guardadas, corremos o risco de morte espiritual com elas. Mas se tomarmos a santa decisão de abrir portas e deixarmos que Jesus entre nesta “cidade” e toque a “barra de nossos dores e mortes” a vida divina nos será devolvida. O jovem do evangelho sentou e voltou a falar. Falar da dor é sempre princípio de cura e ressurreição para muitos de situações amplamente doloridas. Não temamos em mostrar nossa dor ao Senhor. Santo Agostinho citando o pensador latino Terêncio diz: “ Nada do que é humano me é estranho” e nem ao Senhor. Nada, nenhuma situação precisa ser estranha a Cristo! Ele nos conhece no profundo e sabe do que necessitamos. Nós não necessitamos mais de nos apresentarmos diante de Cristo como as antigas cidades. Elas eram cercadas de imensa muralha que as protegiam dos inimigos. Nós não! Abramos as portas e deixemos que entra também a salvação em nossa casa!!

Vós tirastes minha alma dos abismos e me salvastes, quando estava já morrendo” (Sl 29, 4)!