“A fé, a gratuidade e a cura” (Lc 7, 7)

imagesIX Domingo do tempo Comum
(I Rs 8, 41-43; Sl 116; Gl 1, 1-2.6-19; Lc 7, 1-10)
A liturgia deste final de semana enaltece a gratuidade na fé cristã. Ser gratuito em nossos tempos não é tarefa fácil para ninguém. Estamos jogados em uma cultura em que o que vale são os interesses escusos: A política por exemplo há muito deixou de ser “arte de governar” e tem se mostrado a nós como “busca pelo poder custe o que custar”. Percebemos esse “vírus do interesse” também nas relações humanas, nos namoros, no matrimônio: Quando falta a gratuidade, a generosidade, se descontrói também a confiança nas relações afetivas mais profundas. Acaba por sobrar apenas a desconfiança, os interesses, e com eles sofrimentos que podiam ser evitados se nos deixássemos conduzir pelo caminho da gratuidade humana e divina.
Mas este “vírus” se encontra infelizmente também na Igreja. O Papa Francisco tem nos alertado a toda hora sobre o perigo de uma de suas manifestações mais comuns: o carreirismo clerical: “quem acompanha Jesus com um projeto cultural, usa esta estrada para subir na vida (…) o cristão deve seguir a Jesus por amor” (Homilia Santa Marta, 28/05/2013). O santo Padre ao denunciar o perigo do carreirismo eclesiástico o define como subproduto da cultura mundana. O Evangelho sempre nos conduz por um outro caminho: “Contudo entre vós não deve ser assim: aquele que quiser ser o primeiro, seja o servidor de todos” (Mc 9, 35).
Ainda que nós discípulos de Jesus vivamos imersos em uma cultura impregnada por projetos pessoais onde a gratuidade e os valores evangélicos estão quase sempre na “contramão” do que vemos por ai. A Palavra do Senhor irá sempre nos desinstalar, tirando-nos da zona de conforto de viver uma experiência de fé cristã mais sob o signo da gratuidade e do serviço e menos sob o pragmatismo dos interesses.
Neste domingo a liturgia da Palavra fala de gratuidade, pois recorda que a experiência de fé, de experiência e intimidade com Deus, não pode ser posta dentro de categorias culturais. A cultura é claro é importante para a fé. Não deve ser de nenhuma forma descartada. Mas não deve limitar a experiência humana de Deus: Lembramos que no diálogo de Jesus com Nicodemos o Senhor o disse: “O vento sopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes onde vai, assim é aquele que nasceu do espírito” (Jo 3, 8).
O texto de João é interessante para nós. Estamos diante de um diálogo noturno entre um fariseu, (príncipe dos fariseus) e Jesus. O diálogo será entre a Lei, a tradição judaica que entendia a relação com Deus limitada a questões de raça e cultura com a ‘nova lei’, aquela que nasce do Espírito que sopra onde quer. O pequeno fragmento de João prepara-nos prepara para a 1 leitura deste domingo, onde o rei Salomão rezou no templo, dizendo: “Senhor, pode acontecer que até um estrangeiro que não pertence ao teu povo, Israel, escute falar do teu grande nome, de tua mão poderosa e do poder do teu braço (…) Senhor escuta do céu onde moras e atende teus pedidos” (1 Rs 8, 41-43). O que Salomão intui já nesta sua súplica ao Senhor é que a cultura, a tradição e o templo são importantes sim, mas como mediação para a experiência profunda de Deus. Não devem tornar-se a condição primeira, pois cairíamos todos na tentação de nos tornarmos ‘dominadores da ação de Deus’ e não os ‘servidores gratuitos’ desta sublime missão.
Paulo o apóstolo das gentes sentiu este perigo também em sua pregação: Na carta aos cristãos da galácia os exorta a não se deixarem seduzir por profetas anunciadores de um outro evangelho: “Não que haja outro evangelho, mas alguns vos estão perturbando e querendo mudar o evangelho de Cristo. Pois bem mesmo que nós ou um anjo vindo do céu vos pregasse evangelho diferente daquele que vos pregamos seja excomungado” (Gal 1, 7. 8) A palavra excomunhão é forte aqui! O cristianismo sempre que pôde a evitou. Mas é compreendida no contexto: Haviam cristãos vindos do mundo judaico que ainda persistiam em impor aos gentios observâncias e normas da lei mosaica. O que deve ser excomungado é a presunção de colocar a graça de Deus dentro de nossas categorias. Ele é sempre graça de Deus para nós.
O santo Evangelho deste domingo, apresenta uma belíssima manifestação de gratuidade diante de Deus. Um centurião romano intercede por um servo que lhe era muito estimado junto a Cristo. A situação do servo era dramática: “estava doente, a beira da morte” (Lc 7, 3). O encontro entre o oficial romano e Cristo é mediado por um grupo de anciãos. A mediação é simbólica: ela lembra-nos que a lei (anciãos) é mediação e não fim em si mesma. Ela é caminho para que a cura aconteça. Os anciãos reconhecem o oficial romano como um bom homem: “O oficial merece que lhe faças este favor, porque ele estima nosso povo” (Lc 7, 4). O versículo reconhece a bondade no homem. Os próprios anciãos testemunham isto a Cristo. O texto é significativo para nós. Ele traz à tona algo que estamos esquecendo. Que existe traços de bondade e gratuidade no coração humano. Que podemos encontrar “homens de boa vontade” (Lc 2, 14) ainda perto de nós e de nossa fé e também fora de nosso ambiente eclesial. São Justino mártir (Séc. II) nos lembra que o Verbo Divino espalhou suas sementes também em outras culturas.
O mais impressionante neste evangelho será a relação entre o centurião e Jesus. Os romanos tinham suas religiões e seus cultos. Consideravam divino o imperador. Mas sua religiosidade era marcada pela forma pagã do “ut des”: que significa “eu te dou para que me dês em troca”. Não havia gratuidade, existia sim um jogo de barganha com Deus. O centurião do Evangelho nos ensina bem outra coisa. Ele dirige-se a Deus com uma fé gratuita: Em primeiro lugar não pede por si! Pede por seu escravo! Depois sua oração é tão pura e generosa que comove o coração de Jesus: “ Senhor, não te incomodes, pois não sou digno de que entres em minha casa. Nem mesmo me achei digno de ir pessoalmente ao teu encontro. Mas ordena com a tua palavra e meu empregado ficará curado” (Lc 7, 7).
A fé do centurião é a fé dos humildes, dos pecadores que sentem-se indignos, dos pequenos que abandonam-se fielmente na tua Palavra. Ela é gratuita pois não espera nada em troca, apenas confia. Que Deus possa entrar também em nossa casa e que lhe sejamos muito generosos na acolhida. Que nossa fé seja sempre gratuita, e confiante que Deus está cuidando de tudo.

Anúncios

“A Caridade e a Verdade”

icone_santissima_trindadeSolenidade da Santíssima Trindade

(Pr 8, 22-31; Sl 8; Rm 5, 1-5; Jo 16, 12-15)

“O Espírito Santo guiará seus discípulos a plenitude da Verdade derramando continuamente nos seus corações a caridade” (Santo Agostinho, in Comentário ao Evangelho se São João, Hom. 96)!”

No final de semana em que meditamos sobre a Trindade Una e Santa a liturgia da Palavra nos chama atenção ao problema da Verdade.  Ela aparece no Evangelho de são João na palavra de Jesus a seus discípulos: “ Quando pois vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à plena verdade” (Jo 16, 13). A discussão sobre a verdade atravessa a história e a filosofia. E é questão sempre atual e emergencial. Não se vive sem a verdade. Cada ser humano traz dentro de si algo de verdadeiro acerca da vida: quer ver a verdade no agir dos políticos, na Igreja, nos padres, na família, nos amigos. Todos vivemos ‘batendo a porta da verdade’ cotidianamente, ainda que nem sempre ela se abra a nós em plenitude. Eis onde reside o “problema” da verdade’: Em saber se a conhecemos e conhecendo-a, se, ainda somos capazes de nos deixar conduzir por ela.

O problema de hoje é que a ‘mentira’ tem sido norma geral em muitos lugares na sociedade. Nem falemos sobre a política. Pensemos nas relações familiares por exemplo: quanto malefício faz a mentira no seio de uma família. Ela destrói as relações, a confiança entre os cônjuges, entre os filhos, os negócios, enfim. Nós não vivemos bem na mentira. Como diz o ditado popular: “Ela tem a perna curta”.  O que significa que tão logo se descobrirá a dor e as péssimas consequências de alguém ter optado por mentir: Foi por isso que Jesus afirmou: “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (Jo 8, 32).

Mas afinal de que Verdade Jesus está falando a seus discípulos? Será a mesma ideia de verdade apontada na história pelos grandes filósofos? O que realmente significa a afirmação: Eu sou a Verdade nos lábios de Nosso Senhor?

Para o evangelho de são João a Verdade, está bem aquém de um conceito intelectual como a entende a filosofia. Ela não é uma ideia. A Verdade em João é uma pessoa, é Cristo. E é somente quando nos deixamos conduzir por Ele que passamos a perceber que não necessitamos mais viver na mentira, e mais do que isso, descobrimos que ser guiados pela verdade é viver mais unido a Deus. Pois ela é uma pessoa que nos ama profundamente.

Mas como poderemos conhecer então está “Verdade” de que o Evangelho de são João apresenta? Por ela ser uma pessoa divina na Santíssima Trindade, somente outra das pessoas na mesma Trindade, poderá nos revelar: A pessoa do Espírito Santo: “Quando, pois vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à plena verdade. Pois não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido; e até as coisas futuras vos anunciará” (Jo 16, 13).

A Verdade do evangelho que o Espírito de Deus revela no coração dos discípulos de Cristo, supera um sério impasse dos cidadãos (a) de nosso tempo. Sentimos hoje o desenvolvimento da cultura do relativismo. Nela cada pessoa possui sua verdade ou toma para si parte dela. É um dilema de nossos dias e que nos desafia para a ética, para a moral e para os valores que o cristianismo nos propõe. Atrás desta concepção está uma ideia de verdade enquanto “fala de si mesmo” (Jo, 16, 12). Pensar assim é conduzir-se a si mesmo. Esta autonomia acabou por nos levar ao relativismo moral, onde nos sentimos cada vez mais perdidos.

O que o Espírito vem revelar e nos conduzir é para a plena verdade. Aquela que sempre irá afirmar : “ No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Tudo foi feito por meio Dele e sem Ele nada do que foi feito se fez. Nele estava a vida e a vida era a luz dos homens” (Jo 1, 1-3). O que Espirito Santo nos revela nesta solenidade quando fala da “plena Verdade”, é apontar o caminho por onde os homens devem deixar-se conduzir. Este caminho é a Verdade. Esta verdade é uma pessoa. E esta pessoa no guia na Verdade plena pois enche nosso coração de caridade: “ E não só isso, pois nos gloriamos também de nossas tribulações, sabendo que a tribulação gera  a constância, a constância leva a uma virtude provada, a virtude provada desabrocha em esperança, e a esperança não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espirito Santo que nos foi dado” (Rm 5, 8)

Igreja em saída, como o Pai me enviou, também eu vos envio!

PentecostesSolenidade de Pentecostes

( At 2, 1-12; SL 103; Jo 20, 19-23; 1 Cor 12, 3-4,7, 12-13)

A imagem dos discípulos com as portas fechadas no cenáculo por causa do medo é muito significativa para nós cristãos que hoje celebramos a festa do Espirito Santo. O medo provoca reações diversas em nós. Algumas estão ligadas a mecanismos de defesa: Por não sabermos ao certo qual a causa de nosso medo, procuramos formas de segurança, defesa e refúgios que durante algum tempo nos servem como proteção contra os perigos que nos ameaçam. Todos as pessoas sentem ou já sentiram algum medo em sua vida. Ele é normal e até em alguns momentos revelam prudência. Por exemplo, em nossos dias está cada vez difícil sair à noite, pois existe um medo real lá fora que nos ameaça chamado violência urbana. Como sabemos existir medos reais fora de nós, existem também medos que vivem dentro de cada um e que da mesma forma nos fazem sofrer.

Há pessoas com medo da solidão, da morte e do futuro. Há outras que sofrem com o mal da depressão, do pânico e da ansiedade tão presentes em nossos dias. O que podemos constatar disto tudo é que por trás de sentimentos que envolvam o “medo” existe um boa dose de falta de confiança.

A confiança é o ato de confiar, se entregar, se abandonar há algo que cremos ser verdadeiro. A confiança está muito ligada ao dom da fé. A carta aos Hebreus nos recorda de sua importância: “ A fé é a garantia dos bens que se esperam, a prova das realidades que não se vêem. Foi ela que valeu aos antigos seu belo testemunho” (Hb 11, 1).

O apóstolos manifestaram um medo real e objetivo que estava do lado de fora das portas do cenáculo. Era o medo da violência e da perseguição por parte dos judeus que há poucos dias haviam “articulado” a condenação de Jesus. Este “temor” fez com que os apóstolos do Senhor, se protegessem, se refugiassem na casa com “portas fechadas”. Este medo tirou dos discípulos aquela confiança que antes haviam depositado Nele: “ O nazareno que foi um profeta poderoso em obras e palavras, diante de Deus e diante do povo” (Lc 24, 19). E que à tarde do primeiro dia da semana ( Jo 20, 19), voltou a morar no coração dos apóstolos.

A liturgia desta festa de Pentecostes nos mostra, que muitos de nossos medos são superados quando algumas portas dentro de nós se abrem: A maioria dele moram lá dentro mas os projetamos lá fora. O evangelho deste domingo é uma bela resposta a isto. Jesus se põe no meio deles e lhes diz: “ a paz esteja convosco, tendo dito isso, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos ficaram cheio de alegria por verem o Senhor” (Jo 20, 20). O estado de alma que se encontravam os apóstolos do Senhor passou por uma profunda mudança. E ela aconteceu no interior do coração dos seguidores do Senhor. Do antigo medo, das “portas antes fechadas” para a alegria. Os discípulos ao verem “as mãos e o lado”, os sinais da páscoa do Senhor, fizeram também a sua passagem, a sua páscoa: Saíram da paralisia que muitas vezes nos impõe eventos de medo, para a alegria da confiança no ressuscitado.

Os apóstolos reunidos no cenáculo simbolizam a Igreja nascente. Ela é este corpo de Cristo com muitos membros que o apostolo Paulo nos adverte na segunda leitura: “ Com efeito, o corpo é um, e não obstante tem muitos membros, mas todos membros do corpo (…) Assim também acontece com Cristo. Pois fomos todos batizados num só Espirito, para ser um só corpo, judeus, gregos, escravos e livres”.(1 Cor 12, 12).

A imagem alegórica que Paulo dá a Igreja denominando-a “corpo” é muito sugestiva para a solenidade de Pentecostes. Pois quando pensamos no corpo, pensamos também no movimento. Pensamos nos seus membros chamados a fazer com que este se movimente. Os antigos pensavam que o corpo era animado por uma alma. E era esta força espiritual que dava o movimento a todo o corpo.

Na Igreja isto se repete. É o Espírito que movimenta a Igreja. Pois Ele é a alma do corpo místico de Cristo. Isto quer dizer que: Tanto mais o corpo estiver unido a sua alma, mais se movimentará. E quanto mais a Igreja e seus membros estiverem unidos e abertos ao Espirito Santo, mais a Igreja evangelizará, anunciará. Pois a evangelização é o movimento do corpo de Cristo.

Jesus em Pentecostes disse aos discípulos: “Como o Pai me enviou também vos envio(…) Dizendo isso soprou sobre eles e lhes disse: Recebei o Espírito Santo” (Jo 20, 21-22).

Neste final de semana nós celebramos o sopro de Deus! Pentecostes é isto. É um vento forte e impetuoso que encheu toda a casa onde se encontravam (At 2, 2). É um vento que enche a casa, a Igreja e a vida de seus fiéis. Pentecostes  é celebrar Igreja em saída, vencendo os medos e se abrindo as portas da misericórdia do Senhor. Peçamos nesta feliz solenidade que o Espírito Santo sopre também em nós, em nossas comunidades, em nossos medos, em nossos ossos ressequidos pelo tempo e fechamento ao dom de Deus que é seu Espírito: “  Assim fala o Senhor Iahweh a estes ossos: Eis que vou fazer com que sejam penetrados pelo Espírito e vivereis. Porei em vós o meu Espírito e vivereis” (Ez 37, 5-6).

Na festa da Ascensão o mistério da elevação do corpo!

image003Solenidade da Ascensão do Senhor

( At 1, 1-11 ; Sl 46, Ef 1, 17-23, Lc 24, 46-53)

Na festa da Ascensão o mistério da elevação do corpo!

Neste final de semana celebramos a festa da Ascensão do Senhor. A festa da “subida” do Cristo ressuscitado para estar a direita do Pai: “ A partir de agora Cristo está à direita do Pai. Por direita do Pai entendemos a glória, a honra da divindade, onde aquele que existia como Filho de Deus antes de todos os séculos como Deus e consubstancial ao Pai se sentou corporalmente depois de encarnar-se e de sua carne ser glorificada” (João Damasceno, in de Fide Orthodoxa, 1,2).

É a festa do retorno ao Pai e não do abandono. É a solenidade da unidade e não da dispersão. É o mistério da espera e não do pragmatismo.

Com certa facilidade somos levados as vezes a pensar que a Ascensão do Senhor é um “tchau” solene do Senhor ao mundo e a história! Não a Ascenção é exatamente o contrário. Ela na verdade é um “tempo espiritual” para a plenitude do corpo. Pensemos por exemplo em dois corpos, dois objetos: Uma pedra, com determinado peso e uma pequeno balão plástico cheio de gás hélio. A física irá nos afirmar que: um dos corpos será elevado o outro devido a seu peso deverá descer rapidamente ao chão. O balão inflado com gás hélio tende a resistir a força contrária da gravidade, por isso se manterá por mais tempo no ar e até poderá subir: O exemplo é muito simples, pequeno, medíocre e não explica totalmente o mistério que celebramos, mas quem sabe possa ajudar a refletir sobre: a elevação de um corpo aos céus.

É muito difícil para todos nós pensarmos a “suba” de um corpo, com as categorias que temos de espaço e de tempo. Mas a Ascenção do Senhor foi eminentemente importante para que nossos corpos antes pesados demais por causa da carne maculada no pecado de Adão, viesse a ser a partir da graça “plenificados” no Espírito Santo, tornando-se templo de Deus.

Nós jamais voaremos agora como pequenos balões que sobem aos céus, mas a força do alto derramada em nossos corações, nos ajudará a enfrentar e resistir a potências que querem nos jogar para baixo. O apóstolo Paulo na segunda leitura fala de algo semelhante: “Ele manifestou a força em Cristo, quando o ressuscitou dos mortos e o fez sentar a direita dos céus, bem acima de toda autoridade, poder, potência, soberania ou qualquer título que se possa mencionar neste mundo ou no mundo futuro. Sim ele pôs tudo a seus pés e fez dele, que está acima de tudo a cabeça da Igreja que é seu corpo” (Ef 1, 20-23).

A solenidade do Senhor também não deve ser vista como uma despedida de Cristo. Em geral as despedidas são acompanhadas sempre por uma dispersão posterior. No mistério deste domingo o que a Palavra revela é que a ‘elevação’ de Cristo aos céus provocou na realidade a comunhão dos discípulos de Jesus. Se durante os simbólicos 40 dias de suas manifestações pascais o Senhor se fez presença viva: “ Foi a eles que Jesus se mostrou vivo depois de sua paixão, com numerosas provas. Durante quarenta dias, apareceu-lhes falando do Reino de Deus” (At 1, 3). O seu retorno à direita do Pai, não significou ausência e sim uma nova forma de presença também do seu corpo, agora revestindo os apóstolos reunidos na Igreja, que é sacramento do corpo de Cristo: “Não vos afasteis de Jerusalém, mas esperai a realização da promessa do Pai, da qual vós me ouvistes dizer: João batizou com água; vós porém, sereis batizados com o Espirito Santo dentro de poucos dias” (At 1, 4-5).

A elevação de Cristo e de seu corpo místico que é a Igreja não pode ser acolhida de forma pragmática. Os próprios apóstolos cederam a esta tentação: “ Senhor é agora que vais restaurar o Reino de Israel?” (At 1, 6). Este questionamento feito pelos apóstolos ao Senhor é emblemático: revela um olhar sobre Deus e sobre nossa esperança um tanto simplificados.  O mistério da Ascenção, convida-nos a elevar nossa visão sobre o mistério: Ele é a antecipação da visão de um futuro. É a semente desta visão, mas já plena do seu futuro. Na carta aos efésios o apóstolo Paulo exorta-nos: “que ele abra o vosso coração à sua luz e, para que saibais qual a esperança que o seu chamamento vos dá, qual a riqueza de sua glória que está na vossa herança com os santos e que imenso poder ele exerceu sobre nós” (Ef 1, 18-20).

Saber as horas, conhecer os momentos é a velha tentação de Adão que retorna agora na boca dos apóstolos. Também nós muitas vezes queremos tudo saber, queremos que o mal se resolva, queremos uma intervenção na história da parte de Deus e em nossa vida que não lhe cabe. Ela já foi realizada no mistério pascal. E agora é levada a sua plenitude pela presença em seu corpo místico que é a Igreja, que anuncia e testemunha Cristo no meio de nós: “ Mas recebereis o Espirito Santo que descerá sobre vós, para serdes minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e na Samaria e até os confins da terra” (At 1, 8) .

A solenidade da Ascenção do Senhor é também elevação do nosso corpo. Muitas vezes o sentimos cansado e pesado como uma pedra. Outras, percebemos que tantas forças inimigas da cruz de Cristo o puxam para baixo, fazendo  com que ouça e obedeça as vozes da carne. Mas nosso corpo tem já o seu destino. Ele é destinado para as coisas do alto: “buscai as coisas do alto, que são de cima, onde está Cristo assentado a direita de Deus. Pensai nas coisas que são de cima não nas que estão na terra. Porque já estais mortos e a vossa vida está escondida em Cristo Jesus” (Col 3, 1-3).

Apesar de vivermos sob uma cultura que supervaloriza o corpo como espaço destinado somente para o prazer. Nosso corpo não destina-se somente a este fim. Ele também é chamado a subir a ser revestido de Deus. Mas como? : “ Eu enviarei sobre vós aquele que meu Pai prometeu. Por isso permanecei na cidade, até que sejais revestidos do alto” (Lc 24, 49).