Quem ama não se abandona!!

amaVI Domingo da Páscoa

(At 15, 1.22-27; Sl 66; Ap 21, 10-14.22.23; Jo 14, 23-29)

Quem ama cuida e protege. A liturgia deste final de semana nos adverte ao cuidado. O tema do cuidado perpassa as leituras que ouviremos em nossas comunidades eclesiais. Cuidar exige algumas regras já esquecidas por nós: Pede atenção, presença, zelo, amizade, etc…

Como é bom quando chegamos em uma cidade e a vemos bem cuidada: limpa, arborizada, iluminada, com flores nos quintais e nas janelas das casas. Causa-nos um bem estar e uma vontade de permanecer muito tempo por ali. E além do mais uma cidade bem ‘cuidada’, revela que seu povo a quer bem. A sua gente ama estar vivendo ali naquele lugar porque o cuidou e a amou. Revela também que o povo que a cuida, realiza este belo gesto de cidadania porque, por algum motivo um dia também se sentiu cuidado e amado, e por isso retribui gratuitamente àquilo que um dia recebeu.

Será que amamos as nossas cidades? Cuidamos dos pequenos detalhes para que ela seja um lugar que nos humaniza? O Apocalipse de são João tinha uma visão muito bela sobre a cidade. E sobre seus cuidadores também:

Ele então me arrebatou em espírito sobre um grande e alto monte, e mostrou-me a cidade santa, Jerusalém, que descia do céu, de junto de Deus (…) seu esplendor é como o de uma pedra preciosíssima, uma pedra de jaspe cristalino” (Ap 21, 10-11).

Ele vê uma cidade na qual todos nós pelo batismo ganhamos o dom de sua cidadania:  Aponta para nosso futuro, nossa eterna moradia no céu. Mas sua beleza já deve ter um começo aqui nesta terra: Na cidade terrestre que somos todos nós!

O Apocalipse revela ainda os nomes daqueles que de alguma forma “cuidaram” para que esta cidade celeste se tornasse tão bela como é: Amaram-na tanto que deram sua vida por ela, tornando-se sua muralha fundamentos: “A muralha da cidade tem doze alicerces, a sobre os quais estão os nomes dos doze apóstolos do cordeiro” (Ap 21, 14).

Em Antioquia, uma das mais importantes cidades da antiguidade cristã, os apóstolos cuidaram para que a unidade e a comunhão, não fosse perdida “ por alguns dos nossos, sem mandato de nossa parte, saindo até vós, perturbaram-vos, transtornando vossas almas com suas palavras” (At 15, 24).

A perturbação posta em Antioquia da Siria girava em torno da lei. Alguns queriam impor aos povos vindos do helenismo que para eles serem salvos era-lhes necessário observar algumas normas da lei mosaica. Aqui a circuncisão.

Esta primeira tensão surgida no limiar do cristianismo entre “cristãos judaizantes e cristãos vindos do paganismo” foi superada no amor e na concórdia, com o auxílio da graça: “ pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não vos impor nenhum outro fardo além destas coisas necessárias: que vos abstenham da carne imoladas aos ídolos, do sangue, das carnes sufocadas, e das uniões ilegítimas. Fareis bem preservando-vos destas coisas” (At 15, 29).

A reunião em Antioquia é reveladora de um profundo cuidado dos apóstolos para com a Igreja: Amor pela unidade na diversidade e cuidado pastoral para com os novos filhos: Não impor fardos desnecessários para tocar a graça de Deus. Algo é claro sempre temos de deixar para abraçar com liberdade a fé cristã. Aqui os apóstolos queriam preservar os novos filhos de antigos costumes que já não eram mais necessários à nova vida em Cristo.

São João no evangelho deste domingo nos oferece o que fundamenta nossas atitudes de cuidado para com as coisas que nos cercam: A razão é última é o amor:

Se alguém me ama guardará minha palavra e meu Pai o amará e a ele viremos e nele faremos morada ” (Jo 14, 23).  Aquele que ama, cuida e guarda. E mais, se torna morada do próprio amor. É algo muito profundo o que o evangelista nos diz.

Lembremos das cidades quando bem cuidadas como expressam o interior de sua gente. Por analogia a palavra do Senhor fala algo semelhante. Devemos ter este santo cuidado com a cidade que somos nós. Nela habita a graça do Espírito de Deus que a ilumina e a orna com todos os seus dons. O autor do Apocalipse continua vendo em sua visão uma cidade impressionante: “ a praça da cidade é de ouro puro como cristal transparente. Não vi nenhum templo nela, pois o seu templo é o Senhor, o Deus todo poderoso, e o Cordeiro. A cidade não precisa de sol ou da lua para iluminar, pois a glória de Deus a ilumina, e sua lâmpada é o Cordeiro” (Ap 21, 23).

Mas como fazer com que este templo, este edifício espiritual que somos nós continue irradiando o amor de Deus, que é sua grande beleza? Como não esquecer aquilo que realmente somos chamados a viver? São João nos responde:

Mas o Paráclito o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que vos disse” (Jo 14, 26).

O próprio Senhor cuidou para que nossa cidade não ficasse abandonada e esquecida. Como é triste ver cidades que se abandonam. Mas triste ainda é conhecer pessoas que se vão se abandonando com o tempo. O abandono gera o esquecimento. Mas o Paráclito nos recorda e nos acorda para o que realmente fomos chamados: A sermos morada do amor!!!

“Onde reina o amor, ai Deus está!”

 

 

 

como vos amei

V Domingo da Páscoa

(At 14, 21b-27; Sl 144; Ap 21, 1-5; Jo 13, 31-33a. 34-35)

 

Talvez algum dia em sua vida, você já tenha se perguntado o lugar onde Deus habita: Onde terá feito Ele sua morada? No coração do homem? No céu? Aqui neste mundo um tanto corrompido para sua habitação? Na Igreja? São perguntas que crentes e até mesmo os agnósticos se fazem no cotidiano. No entanto estes sérios questionamentos humanos, revelam uma ânsia que habita no coração dos homens: O da presença de Deus no tempo e em nossa vida.

Neste V domingo da Páscoa a Igreja nos levará a meditar sobre a possibilidade desta presença: daquele que é eterno no tempo, do transcendente nas realidades imanentes, daquele que é O santo, nas belezas e contradições da realidade humana.

O livro dos Atos dos Apóstolos responde a estes questionamentos a partir do mistério pascal. Para Paulo e seus discípulos este ingresso na vida divina se dá através de uma passagem. Exige caminho abertos. Paulo afirma para nossa surpresa que esta “porta” se abre até mesmo por meio de sofrimentos: “é preciso que passemos por muitos sofrimentos para entrar no Reino de Deus” (At 14, 22). Não devemos pensar que nosso Deus tenha feito sua morada nos sofrimentos. Nem por isso, afirmar o contrário, como pensavam hebreus e gregos na época e como pensamos ainda hoje: o sofrimento, a cruz, não é morada de Deus, mas a partir da cruz, se torna uma porta de ingresso a vida em Deus: O mistério do sofrimento que poderia parecer ausência de Deus e final de estrada, volta a ser caminho aberto pela fé: “Contaram-lhe tudo o que Deus fizera por meio deles e como havia aberto a porta da fé para os pagãos” (At 14, 27).

O tema da morada de Deus encontra no Apocalipse de João uma síntese litúrgica impressionte: Na visão do apóstolo esta “habitação”, transcende nossas categorias de tempo, espaço, e lugar, sem que para isto algo da realidade divina venha a ser perdido: O apocalipse une as distâncias que muitas vezes nós culturalmente separamos:  Na sua visão aparecem “novos céus e uma nova terra” (Ap 21, 1). As duas realidades aparecem renovadas, e ainda : “ Vi a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu, de junto de Deus, vestida como a esposa enfeitada para o seu  marido” (Ap 21, 2).

Claro é uma belíssima afirmação sobre a Igreja, esposa de Cristo, mas é também afirmação sobre cada fiel. Cada batizado vive a experiência da aliança, de uma relação com Deus, que agora “desce” isto é, permanece sendo eterno e divino, mas na graça da Encarnação “in-habita” na esposa e no esposo, nos homens e na Igreja: “ Esta é a morada de Deus entre os homens. Deus veio morar entre eles. Eles serão o seu povo e o próprio Deus estará com eles” (Ap 21, 3).

O evangelho apresenta outra manifestação da presença de Deus. Agora torna-se presente no amor. Mas qual amor o evangelista quer apresentar? Os hebreus conheciam muito bem o primeiro mandamento: “Não te vingarás. Nem guardarás ira contra os filhos do teu povo, mas amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Lv 19,18). Jesus fala de um mandamento novo: “amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 13, 34). Que mandamento novo é este que o Senhor quer revelar a seus discípulos sobre o amor: Poderia haver algo mais novo e precioso que o primeiro mandamento? Sim.

O amor ao próximo era importantíssimo para Jesus e seus discípulos. Mas este se orientava em primeiro lugar para os filhos do teu povo (Lv 19,18), depois aos estrangeiros, viúvas, os pobres. O mundo helênico cultuava também compreensões sobre o amor: o amor Eros por exemplo buscava no amor ao uma compensação, algo que lhe faltava, muitas vezes reduzido a experiência do prazer. A filia grega procurava no amor a amizade e a sabedoria, a civilidade e a convivência na cidades. No entanto Jesus esta falando do amor enquanto doação. Há este amor chamamos ágape. É esta a pérola do “novo mandamento”: amai-vos uns aos outros, como eu vos amei”. (Jo 33, 34b). A acolhida do amor do primeiro mandamento, recebe do Senhor esta profunda implicação: “amar, como ele nos amou”. E como então Jesus nos amou? São João nos recorda: “Antes da festa da páscoa, sabendo Jesus que chegara sua hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim”. (Jo 13, 1). Jesus amou-nos como Deus nos ama: Amou-nos até o fim.

Ao falar do novo mandamento, o Senhor deixa-nos outra forma de sua presença. No amor de uns pelos outros, que não é apenas eros e filia, mas doação (ágape) até o fim. Esta é uma porta que tem de estar sempre aberta entre nós. Amar, como Ele nos amou! Amar esquecendo de si, e encontrando-se no outro. Esta é a passagem que somos chamados a fazer nesta santa páscoa. Que ele fez, que tantos santos já fizeram e que você é convidado a fazer também!!

 

 

“Em Cristo bom pastor, nossa unidade, pertença e intimidade”

joao-jesus009IV Domingo da Páscoa

(At 13, 14. 43-52; Sl 99; Ap 7, 9. 14-17; Jo 10, 27-30)

A liturgia da Igreja sempre no IV domingo da Páscoa nos chama a atenção para uma das imagens mais impressionantes sobre Cristo: A figura do bom Pastor. O tema é recorrente nas antigas culturas, estando sempre associado a figura de um rei ou chefe chamado a governar sua nação como um ‘pastor cuida de suas ovelhas’.

A imagem de Deus como pastor não escapa também a literatura do Antigo Testamento. Conhecemos o Salmo 23, o Sl 99 e as fortes exortações encontradas no livro de Ezequiel sobre os maus pastores de Israel, preocupados apenas em apascentar a si mesmos.

Dos tantos enfoques que esta imagem recebeu na Sagrada Escritura, uma das mais interessantes é a que nos fala da unidade. O pastor sempre foi visto na bíblia como um elo de unificação de povos dispersos: “Vou reuni-los de toda a parte (…) para os tornar a trazer a sua pátria, para as montanhas de Israel, para um único povo… Eles não serão durante mais  tempo dois povos e nunca mais se dividirão em duas partes” (Ez 37, 15-17.21)

Os discursos de Jesus sobre o pastor agarram-se também a esta visão unitiva, alargando decisivamente o raio desta promessa: “ Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil, também a elas devo conduzir e elas escutarão a minha voz, então haverá um só rebanho e um só pastor” (Jo 10, 16)

Cabe-nos neste momento algumas perguntas sobre como se estabelece a unidade de Jesus bom pastor para com seu rebanho? Em que se funda? E a partir dela, alcançarmos outro dado espiritual muito importante na figura do bom pastor: a intimidade entre o Pai e o Filho o Filho e nós.

O Salmo da liturgia de hoje reflete: “Ele mesmo nos fez e somos seus, nós somos seu povo e sua herança” (Sl 99, 2). O versículo acaba por nos trazer uma ideia de posse e pertença. Afinal, somos então isso diante de nosso Deus: uma posse? Deus nos possui, assim como possuímos um objeto em nossas casas? Dele usamos por um tempo, quando envelhece ou se corrompe o descartamos e adquirimos um outro? É isto o que o salmista afirma? Ou estará falando de uma outra relação com o Senhor: a pertença?

A relação de pertença é distinta da ideia de posse. Nós pertencemos a Deus, como um rebanho a seu pastor, como os filhos a seus pais, como os esposos se pertencem, sem que haja a necessidade de um possuir ao outro. A pertença prevê  a liberdade, a posse nem sempre.

Onde então se funda nossa pertença ao bom pastor que neste final de semana recordamos? No conhecimento. O evangelho deste final de semana fala: “as minhas ovelhas escutam a minha voz, eu as conheço e elas me seguem” (Jo 10, 27). Interessante pensar que este vínculo passe pelo conhecimento. No entanto sabemos o significado que este termo recebe na Escritura. Não é o mesmo que tinha na mentalidade grega. Conhecer biblicamente falando não indica apenas um saber empírico ou uma verificação. O homem na Escritura não era definido somente como “animal racional”. É sim imagem e semelhança de Deus, assim, sua existência somente se realiza na busca amorosa por seu criador. Isto se torna mais compreensível para nós se lembrarmos as relações familiares:  Um pai conhece seu filho no profundo. Não basta para um pai saber que o filho é uma unidade de corpo e alma racional. Ele conhece o filho por que o ama. É nisto que se dá a pertença, no vínculo de amor e onde há amor ai está a liberdade, entre pai e filho. O filho pertence ao pai porque sente-se amado, cuidado, mas não possuído e portanto livre.

Domingo passado líamos em nossa liturgia a aparição de Jesus ressuscitado no mar de Tiberíades. Ao final deste belo texto de João, ouvimos o dramático diálogo entre Jesus e Pedro. Jesus por três vezes pergunta sobre o amor de Pedro: “Tu me amas?”  Pedro responde ao Senhor: “Tu sabes, tu sabes tudo, sabes que te amo” (Jo 21, 17). O diálogo acaba por nos revelar duas realidades importantíssimas de nossa relação com o bom pastor. Primeiro: o conhecimento manifesto no “sabes tudo, sabes que te amo” depois a intimidade entre Pedro e Jesus naquele “tu” indicando amizade, comunhão e afeto entre eles.

Por que Pedro ama, conhece no profundo Cristo, como é por Ele conhecido. “Tu sabes tudo”. Eis a resposta ao saber bíblico. Eis aí a nossa pertença ao bom pastor, como advertia o sl 99: “Nós somos o seu povo e seu rebanho”.

O evangelho reabre outra interessante “porta” entra nós e Jesus, e entre Ele e o Pai: A porta da intimidade. Talvez a intimidade esteja entre os temas mais confusos destes nossos tempos. Por ter sido apresentada com algumas deformações em consequência disto, mal exercida. Jesus no evangelho de João falou muitas vezes sobre isto: Ele soube viver como ninguém o dom de ser íntimo.  Primeiro com seu Pai: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10, 27); “ quem me vê, vê o Pai” (Jo 14, 9); “como o  Pai me conhece eu conheço o Pai eu dou a minha vida pelas minhas ovelhas” (Jo 10, 15), etc. Mas também conosco, com seu rebanho: “ quem come minha carne e bebe meu sangue permanece em mim e eu nele” (Jo 6, 54); “ eu conheço minhas ovelhas e elas me seguem” (Jo 10, 27); de forma esplêndida na oração sacerdotal de Jesus : “ Pai santo, guarda-os em teu nome que me deste, para que sejam um como nós” (Jo 17, 11) e “ Eu lhes dei a conhecer o teu nome e lhes darei a conhecê-lo, afim de que o amor com que me amaste esteja neles e eu neles” (Jo 17, 26).

Neste domingo do Bom Pastor que está “porta” se reabra entre nós. Que Jesus possa dizer a cada um de nós o que disse a Pedro: “segue-me”. O seguiu sem temor, por que o conhece e o ama.

Que no coração daqueles que exercem o pastoreio de Jesus na Igreja, os presbíteros, reacenda a razão fundamental deste ministério: a pertença, e intimidade que nasce de um profundo conhecimento e amizade com nosso Bom Pastor. Que possamos pedir ao Senhor da messe que envie mais operários dispostos a como Paulo, João e tantos outros a este “segue-me” que tocou o coração do apostolo Pedro, pois reconheceu a “voz” de seu pastor.

“Quando um cordeiro é mais forte que um dragão, quando o vencido se torna o vencedor”

11291157_JtbDSIII Domingo do Tempo Pascal

( At 5, 27-32.40; Ap 5, 12-16, Jo 21, 1-19)

Lemos no livro do Apocalipse a mística visão de João de uma multidão de anjos e de um cordeiro imolado ao qual é “digno de receber o poder e a riqueza, a sabedoria e a força, a honra a glória e o louvor” (Ap 5, 12).

A linguagem simbólica no Apocalipse por vezes serve para equivocas interpretações, quando na realidade o gênero literário a qual pertence este livro pode ser facilmente assimilado por todo cristão. O autor escreve no desafiador contexto da perseguição romana a primitiva Igreja católica dispersa na Ásia menor. O ambiente cultural helênico, a moral hedonista assumida pelos romanos, davam aos primeiros cristãos uma sensação de que tão logo seriam “engolidos ou incinerados”, pelos valores e mentalidade do “grande dragão” (símbolo dado ao império Romano): “ E viu-se outro sinal no céu, eis que era um grande dragão vermelho que tinha sete cabeças e dez chifres(…) e sua cauda varreu a terça parte das estrelas do céu” (Ap 12, 3).

A primeira geração cristã se deparou com esta dura batalha: De um lado um grande dragão, feroz e violento, que perseguia com poder e violência a Igreja e de outro a primeiríssima geração cristã que se tornou vitoriosa proclamando em alta voz: “ A salvação pertence ao nosso Deus, que está sentado no trono do cordeiro” (Ap 7, 10), e acabou vencedora desta batalha não sem terem suas vestes lavadas e alvejadas no sangue do Cordeiro. (Ap 7, 14).

Como no início da era cristã, temos também a sensação de estarmos sendo sacudidos e engolidos pelos dragões de nosso tempo. Há uma sútil perseguição cultural no ar, como havia também no limiar do cristianismo, com o objetivo de esvaziar os valores introduzidos pela cruz de Cristo em nossa sociedade. Novamente os cristãos de nossa era, se vêem diante de uma semelhante batalha entre aqueles que seguem o cordeiro e os que aderem a força do dragão!

Por isso, perguntas se impõem a nós: De que lado estamos? Que valores queremos continuar defendendo? E onde realmente se encontra nossa força?

O evangelho deste domingo também nos adverte a uma luta: Esta ligada ao reconhecimento do ressuscitado em nosso meio. Se o livro do Apocalipse se utilizava de linguagem alegórica e simbólica para falar de realidades concretas, os evangelistas tomavam imagens comuns da vida para falar de realidades espirituais. No texto deste domingo, Jesus ressuscitado aparece outra vez aos discípulos às margens do lago de Tiberíades. A aparição e o reconhecimento serão progressivos.

Paira no ár entre os discípulos de Jesus um certo sentimento de desconfiança. Voltaram à Galileia, região onde foram encontrados por Cristo e também para suas antigas profissões. Pedro diz “vou pescar”. Os discípulos aderem a “voz” de sua mais nova liderança: “também vamos contigo ” (Jo 21, 3). Aconteceu que naquela inteira noite de pesca nada apanharam. O ár sombrio e desolador que pairava sobre aqueles 7 discípulos agora se amplia. Se antes estava ligado a recente morte de Jesus e a luta espiritual provocada por seu reconhecimento, agora atinge também sua vida ordinária, seus cotidianos trabalhos. A crise cresce no coração daqueles homens.

Quando estava amanhecendo, Jesus já estava de pé na margem (Jo 21, 4). É forte esta imagem. Jesus fez já sua travessia. Se encontra na outra margem. O mar, sempre indicou uma figura secular na antiguidade. Sempre foi símbolo com suas fortes e ameaçadoras ondas, da lutas humanas. Foi imagem também do mal, do desconhecido. A aparição de Cristo na outra margem revela que Ele venceu as potências do mal, as ondas revoltosas da morte, as forças do mundo e agora aguarda os seus discípulos no outro lado.

E do outro lado do mar o ressuscitado começa a mudar a história dos discípulos. Eles que se sentiam vencidos, passam a encontrar naquele que a poucos dias também havia sido “derrotado” o sentido para retomar sua vida. E exatamente em sua antiga profissão em seu cotidiano. Talvez esteja ai para nós um mistério a ser desvelado acerca do nosso reconhecimento do ressuscitado. O encontraremos vivo entre nós em nosso cotidiano também, naquelas simples tarefas de nosso dia a dia.

Jesus os pergunta: “Jovens tendes algo para comer ? Eles responderam não” (Jo 21, 5). Tanto a pergunta como resposta, estão plenas de significados: A sensação de sentir-se derrotado, desolado, diz-nos que nada se pode oferecer. Então Cristo diz: “Lançai a rede a direita da barca e achareis” (Jo 21, 6). Certamente recordaram os discípulos das palavras de Jesus que dizia: “ e ao que bate se lhe abrirá” (Mt 7, 7). A palavra diz: “ Lançaram pois a rede e não podia puxá-la para fora, por causa da grande quantidade de peixes” (Jo 21, 7).

Quem de nós não tem a impressão de que as existam forças, potências, dominações culturais e espirituais que jogam tanta gente mar a dentro e que nossas redes não serão tão fortes para “puxá-las” para fora destas situações. Mas o  evangelho nos alenta: “ Simão Pedro subiu ao barco e arrastou a rede para a terra. Estava cheia de cento e cinquenta e três grandes peixes; e apesar de tantos peixes, a rede não se rompia” (Jo 21, 11).

Hoje a palavra de Deus nos questiona: De onde vêm a nossa força? Onde ela está “ancorada”? Ela se apoia na força dos dragões de nosso tempo ou da entrega oferecida de um cordeiro imolado? Nossa força vêm do Senhor. É Nele que lançamos nossas redes e Nele que não serão jamais rompidas. Mas enfim o que garante que a “barca de Pedro” pode agora navegar sobre os mares da vida, superando todas as ameaças, lançando redes e sendo sinal de salvação para “milhares de milhares, milhões de milhões” (Ap 5, 11)?

Esta garantia nos foi dada por um vínculo de amor acolhido por Pedro. Ele ao lado de Cristo são os protagonistas deste texto do evangelho: “ Jesus perguntou a Pedro: ‘ Simão filho de João, tu me amas mais do que estes? Sim, Senhor, tu sabes que te amo. Jesus disse, apascenta meus cordeiros” (Jo 21, 15).

Pedro não é chamado por seus dotes especiais. Era apenas um simples pescador. Mas por um amor maior do que estes. Maior que o mundo podia lhe oferecer. Jesus que já o havia lhe entregue as chaves, agora ensina Pedro a abrir as portas. Ele se torna o pastor das ovelhas, por que as ama em Cristo Jesus.

Assim reconhecemos em que lado Pedro está. Do lado dos discípulos do cordeiro, de todos que colocaram suas esperanças sem reservas no vencido que se tornou nosso vencedor.

Perdão e misericórdia, as chaves que abrem portas!

the-incredulity-of-saint-thomas-caravaggioII Domingo da Páscoa

( At 5, 12-16; Sl 117; Ap 1,9-13.17-19; Jo 20, 19-31)

O quadro do pintor italiano Caravaggio, chamado ‘Tomé o incrédulo’, ilustra parte de nossa meditação desta liturgia. Estamos celebrando neste II final de semana do tempo Pascal, o Domingo da Misericórdia.  Caravaggio a pedido de um nobre amigo pintou a obra em 1601. Sua finalidade era retratar duas realidades presentes na renascença: a dúvida e a admiração! Por isso usava sempre em suas obras um forte contraste entre a ‘luz e sombra’. Basta observar sua pintura para perceber a oposição cromática. O ‘Tomé Incrédulo’ de Caravaggio tem muito a dizer ao nosso tempo. Também hoje muitos se encontram entre a luz e as sombras, a dúvida e a admiração na busca por deixar-se tocar por Deus.

O domingo da Misericórdia nos oferece esta oportunidade. Na obra as rugas na testa de Tomé’ recebem uma forte luz. É a luz de quem ao tocar as marcas dos pregos do Senhor (Jo 20, 25), foi enfim iluminado. A luz brilhou nas trevas diz São João (Jo 1, 5). E iluminou aquele discípulo antes marcado pela incredulidade, mas que ao por o dedo na marca dos pregos só pode dizer: “Meu Senhor e meu Deus” (Jo 20, 29).

Passando agora da arte para a liturgia, a palavra de Deus é tão expressiva neste domingo quanto à magnifica obra de Caravaggio. Ela é também cheia de contrastes, de luzes e de sombras que nos levam ao encontro com a misericórdia de Deus.

Estamos no ambiente das aparições do ressuscitado. O lugar é agora o ‘túmulo vazio’, mas uma casa. Ai a noite e com as portas fechadas por medo estão os discípulos do Senhor, menos Tomé!

Jesus entrou e pondo-se no meio deles disse: ‘A paz esteja convosco’. Depois mostrou-lhes as mãos e o lado. (Jo 20, 20) O ressuscitado faz ver a seus discípulos as marcas dos pregos. Nelas as consequências de seu intenso sofrimento. Desde os flagelos e humilhações até a morte de cruz. Mas “pondo-se no meio deles” (Jo 20,20) diz: ‘ A paz esteja convosco’!

O desejo de paz e não de ódio ou ressentimento, foi abrindo portas no coração daqueles discípulos. A primeira porta foi a da vida sobre a morte. A mais importante, mais densa, mais profunda. Na segunda leitura de nossa liturgia o autor do livro de Apocalipse diz: “ Não tenhas medo. Eu sou o primeiro e o último, aquele que vive. Estive morto mas agora estou vivo para sempre. Eu tenho a chave da morte e da região dos mortos” (Ap 1, 17-18). Mostrando as marcas da cruz aos discípulos, Jesus apresenta esta ‘chave’ que abriu para sempre a nós a porta que nos leva a sua vida. A sombra da morte foi iluminada pela luz de Cristo.

Outra porta que nos foi aberta foi a porta do perdão e da misericórdia. Talvez esta tenha sido a causa da grande alegria dos discípulos naquela noite. Jesus Ressuscitado ao soprar sobre os seus o Espírito Santo os chama ao perdão: “Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados, a quem não os perdoardes, eles lhes serão retidos” (Jo 20,23). Aquele que passou pelas mais intensas dores ‘ofereceu a outra face’ (Lc 6, 29), desejou a paz e o perdão. Todos temos nossas chagas e dores que foram sendo acumuladas durante nossa vida: traições, decepções, perdas de pessoas queridas, sofrimentos inesperados. Estas situações nos marcam também. São os ‘pregos’ que nos unem ao sofrimento de Cristo. Mas podem tornar-se portas rígidas e fechadas senão recordarmos este mandado do Senhor: “ a quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados” (Jo 20, 23). O perdão abre portas é dom do Espírito, mas o ‘medo’ de perdoar cria abismos e muralhas. Algumas nações resolvem suas tensões construindo imensas muralhas entre si. Jesus misericordioso nos convida a construir pontes.

Perdoar é mais difícil sabemos. Exige um pouco de morte e de renuncia si mesmo, para doar de novo. A morte de Jesus carrega consigo este poder sobre de destruir o toda forma de manifestação do mal’ e nos chama a cultura da paz e do bem. Soprando seu Espírito sobre nós, Ele no chama a nova criação, da qual é o principio e o fim. (Ap 1, 17)

Retornamos um pouco mais ao Tomé de Caravaggio, às suas dúvidas e contrastes. Ele não estava com os discípulos quando Jesus veio (24). O anuncio feito pelos seguidores “vimos o Senhor” não o satisfez! Ele precisava ver e tocar. Por isso ele lembra os homens de nosso tempo. Pois para a nossa geração, não basta somente o anúncio de outros. É necessário este tocar. Mas de que ‘toque’ estamos falando no caminho espiritual que são Tomé nos ensina? Não de uma prova científica, não é de provas que os homens de nosso tempo precisam para crer. É de um tocar existencial. Tomé ao por o dedo nas marcas do Senhor, era curado das suas chagas. Ao tocar nas marcas deixadas pela cruz no Cristo, era sanado de todas as marcas existentes em sua vida. Uma porta se abriu na vida de Tomé. A porta da irresistível misericórdia de Deus!!