“No dia da Páscoa remova pedras em sua vida!”

cristo pascoa

Domingo de Páscoa

( At 10, 34.37-43; Sl 117; Cl 3, 1-4; Jo 20, 1-9)

Depois de celebrarmos com toda a reverência possível o tríduo Pascal em nossas comunidades, chega para nós o grande ‘Dia’ da Ressurreição do Senhor. O salmo responsorial desta liturgia reafirma a singularidade da festa de hoje enquanto convida toda a assembléia a repetir, trazendo a memória esta verdade: “Este é o dia que o Senhor fez para nós, alegremo-nos e nele exultemos” (Sl 117).

Celebrar a Páscoa do Senhor é reafirmar este “Dia” sem ocaso, que trouxe luz e sentido sobre os nossa vida. Porém, nem sempre os nossos “dias” têm sido marcados pela luz, pela alegria e pela esperança. Para muitos irmãos (a), os seus dias recebem o sinal das trevas, da dor e do medo. São “dias intermináveis, que mais parecem noite”, mas que hoje são chamados a voltar à sua luz original. O prólogo do evangelho de João diz: “a luz brilha nas trevas, mas as trevas não a apreenderam” (Jo 1, 5).

O ‘dia’ que celebramos alegremente hoje é um dia de vitória. Vitória do bem sobre a mal, vitória da luz sobre as trevas. Não na forma ‘maniqueísta’, mas na perspectiva da recapitulação soteriológica. E o que significa exatamente está vitória? Há um texto muito antigo que data o II século do cristianismo que pode iluminar esta meditação: “ O Senhor entrou onde eles estavam, levando em suas mãos a arma da cruz vitoriosa. Quando Adão, nosso primeiro pai, o viu e exclamou para todos os demais, batendo no peito e cheio de admiração: ‘ o meu Senhor está no meio de nós (…) Eu sou o teu Deus, que por tua causa me tornei teu filho; por ti e por aqueles que nasceram de ti, agora digo com todo o meu poder, ‘Sai’; e os que jaziam nas trevas: ‘ vinde para a luz’; e aos entorpecidos: ‘ levantai-vos’” (Autor anônimo II se´c.). E ainda em outra parte do texto: “ Vê em minhas costas as marcas dos açoites que suportei por ti, para retirar de teus ombros o peso do pecado. Vê minhas mãos fortemente pregadas a árvore da cruz, por causa de ti (…) adormeci na cruz e por tua causa a lança penetrou-me no meu lado como Eva surgiu do teu, ao adormeceres no paraíso. Meu lado, curou a dor do teu lado, meu sono, te arrancou do sono da morte” (Idem acima). O grande ‘dia’ que hoje celebramos recebe profundo significado da tradição da Igreja: é um ‘dia’ assumido, (‘assumpto’) pelo “Verbo eterno”! E o que o Cristo assumiu enfim por todos nós, para nos brindar com esse “novo dia”? Exatamente foram assumidos nossas trevas, nossas imperfeições, nossos pecados, nossos sofrimentos Nele, tudo aquilo que antes fora escuridão e noite para nós, tornou-se luz no silêncio salvador da árvore da cruz. O apóstolo Paulo na carta aos Efésios afirmava: “ E é pelo sangue deste que temos a redenção dos pecados, segundo a riqueza de sua graça (…) para levar o tempo à plenitude a de em Cristo recapitular todas as coisas as que estão nos céus e as que estão na terra” (Ef 1, 8.10).

Para que nós pudéssemos subir de novo “para buscar as coisas do alto, onde está Cristo sentado a direita do Pai” (Cl 3, 2); O Senhor primeiro realizou um movimento de descida a mansão dos mortos. Nossa subida à luz sem ocaso foi conquistada pela descida de Cristo às nossas mais escondidas situações de trevas e morte, para que este dia brilhasse enfim para nós.

O evangelho deste final de semana é também marcado pelos símbolos da luz sobre a noite. No evangelho de João a noite sempre significou o ‘mal’ em oposição à luz que vêm de Deus. O texto fala que Maria Madalena foi ao túmulo, “no primeiro dia da semana bem cedo quando ainda estava escuro” (Jo 20, 1). A imagem é rica de simbolismos: a cena se dá na alvorada de uma manhã. O sol está nascendo, por isso se percebe ainda na natureza os sinais das trevas e da noite. Uma noite muito longa para os discípulos de Jesus, sentida não só nas ‘horas passadas’, mas também na alma.

Maria ao chegar ao lugar viu que a pedra havia sido retirada do túmulo. Não viu o corpo, nem as marcas da crucificação, apenas que a pedra havia sido removida. Ela, Madalena, já tivera uma experiência pedras removidas em sua vida. Primeiro em sua direção: “Na lei, Moisés ordena apedrejar tais mulheres” (Jo 8, 5). Depois uma grande pedra fora removida de seu próprio coração pelo Senhor: “Nem eu te condeno. Vai e de agora em diante não peques mais” (Jo 8, 11).

A experiência da ressurreição que somos convidados a fazer neste tempo especial se caracteriza por esta força: De remover muitas pedras em nós. Pedras que não nos deixam “ver” a luz. Pedras que não nos deixam perdoar, e nos impedem de amar a Deus e sermos por Ele amados. Talvez o grande problema humano dos nossos tempos, seja o estranho sentimento de orfandade que nossa sociedade experimenta. Foi colocada sobre nós a pedra da incredulidade em Deus e por isso não acreditamos mais também no homem. É preciso correr novamente até o túmulo como Maria, Pedro e João e ‘ver’ que a pedra foi rolada.

Estes três discípulos foram testemunhas dos sinais da ressurreição: “ Viu as faixas de linho deitadas no chão e o pano que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não posto com as faixas mas enrolado num lugar à parte” (Jo 20, 7).

Os sinais vistos no túmulo de Jesus são as marcas de seu sofrimento. Para subir ao Pai, Cristo primeiro desceu, esvaziou-se de sua condição divina (Fl 2, 6). Esta descida de Cristo até a nossa morte, nos trouxe a vida. Sua noite de trevas e silêncio nos garantiu este “dia sem fim!”. Para muitas pessoas os dias ainda se parecem difíceis de ser vividos. São muitos os desafios e dores humanas que precisam ser superados. Mas Ele tomou sobre si, nossas dores e nossos pecados. Os sinais no túmulo, as marcas em seu corpo, nos recordam o valor que tem a sua cruz.

 

‘Bendito o que vem em nome do Senhor’

Jesus em JerusalémSolenidade de Domingo de Ramos

Neste domingo com a celebração da solenidade de Ramos entramos com toda a Igreja na “grande semana” ou “semana Santa”. O Evangelho da Paixão que ouviremos em nossas liturgias marcam o desfecho desta solenidade que tem seu ponto alto na morte de Jesus: “Desceu o corpo da cruz, enrolou-o num lençol e colocou-o num túmulo escavado na rocha, onde ninguém ainda tinha sido sepultado” (Lc 22, 53).

Se a leitura da paixão é marcada pela dor, pela solidão, sofrimento, angústia, silêncio e morte, o evangelho lido fora da Igreja terá outro acento: Será de alegria, festa, multidão gritos de aclamação e reconhecimento. Porém todos estes sentimentos e manifestações estão voltados para a mesma pessoa: Jesus Cristo.

Por isso esta liturgia ilumina têm muito a iluminar nossa vida. Pois a vida cristã tem também esta impressão. Ela não é feita somente da festa e do aplauso, tem de ser “temperada” com a Cruz e a solidão.  Mas não deve ser acolhida por nós cristãos como um “estoicismo” rígido e rigoroso, impossível de ser vivido. O início da semana santa aponta para este equilíbrio que existe na vida cristã, e que é nos oferecido exatamente na Cruz de Cristo. Ela une e integra estas duas pontas do cristianismo: a dor e amor, sofrimento vivido com gratuidade, a solidão e o reconhecimento, etc.

Na primeira leitura encontramos uma bela imagem desta realidade: O profeta Isaías no cântico do servo apresenta-nos um discípulo que se deixa purificar por Deus. Não lhe oferece muitas resistências: “ O Senhor abriu-me os ouvidos, não lhe resisti nem voltei atrás.” (Is 50, 5). Nem mesmo quando esta purificação se encontra com o sofrimento e a humilhação: “Ofereci as costas para me baterem e as faces para me arrancarem a barba; não desviei o rosto de bofetões e cusparadas (…) mas o Senhor Deus é meu auxiliador” (Is 50, 7).

Isaias ainda nos oferece outras interessantes informações acerca deste seu misterioso servo que tocam também seus sentidos: Deus o deu ‘língua adestrada’. Fico pensando no significado disto. E da sua atualidade. Nós desaprendemos há muito a ‘adestrar nossas palavras’, a purificar nossa língua. É mais confortável ‘adestrar a outrem’, corrigir os erros dos outros. O segundo aspecto ligado a sensibilidade do servo está ligado ao que ouve: “ ele me desperta cada manhã e me excita o ouvido, para prestar atenção como um discípulo” (Is 50, 4). O servo escuta cada manhã a Palavra de Deus. E a boca fala o que está em seu coração: Como nós estamos purificandoo nossa sensibilidade para que ela se torne ponte espiritual para mim e meus irmãos?

No Evangelho Jesus se dirige à Jerusalém. É seu ingresso triunfal. Quando se aproxima de Jerusalém a multidão o recebe: “aos gritos e cheia alegria, começou a louvar a Deus por todos os milagres que tinha visto. Todos gritavam: ‘Bendito o Rei, que vem em nome do Senhor!’” (Lc 19, 37-38).

A euforia é generalizada. Todos aclamam ao Rei. É aquela parte importante da vida dos discípulos: que é também feito da festa, da alegria, e da esperança messiânica.

No entanto se faz necessário a busca do equilíbrio, de ‘juntar as pontas’. O verdadeiro discípulo de Jesus sabe que a vida não é só festa e exterioridade. Ela deve ser permeada pelos significados que a Cruz oferece: Paulo no antiqüíssimo hino aos Filipenses nos ajuda a integrar esta outra ponta do mistério: “ Jesus Cristo existindo em divina condição, não fez do ser igual a Deus uma usurpação, mas Ele esvaziou-se” (Fl 2, 6-7). O esvaziamento de Jesus daquela Divina condição (omoousia), é afirmação de que o discípulo de Cristo é convidar a cotidianos esvaziamentos. Lá no silêncio e na oração, encontrar Cristo e a si mesmo. A semana Santa tem somente este endereço. Seu desfecho será a cruz e nossa salvação.

Dia 19 de março celebramos alguém que viveu intensamente isto. Que são José que viveu no silêncio e na fé, nos ensine a trilhar este caminho que termina na santidade.

“ A miséria e a misericórdia” (Santo Agostinho, in Comentário ao Evangelho de São João, 33)

mulher_adulteraV Domingo da Quaresma

(IS 43, 16-21; Sl 125; Fil 3, 8-14; Jo 8, 1-12)

Continuando nossa caminhada quaresmal a liturgia da Palavra deste domingo nos apresenta o encontro misericordioso de Jesus com a mulher adúltera. A cena é muito conhecida de todos. Conhecemos as palavras, os gestos de Jesus em prol desta personagem do Evangelho e até costumamos repetir as mesmas palavras de Cristo em alguns momentos em que amigos(a) nossos(a) se vêem em situações semelhantes a que se encontrou aquela mulher. Com facilidade já nos utilizamos das mesmas palavras de Cristo: “quem dentre vós não tiver pecado que atire a primeira pedra” (Jo 8, 8). Quem de nós já não citou este versículo, tirando-o do peito, como quem tira um coelho da cartola, para amenizar tensões envolvendo pecados e pecadores?

No entanto sabemos: a palavra, o texto bíblico que a liturgia propõe para este final de semana é bem maior do que nossas interpretações corriqueiras sobre ela. Ela quer apontar uma verdade sobre Jesus e sobre o homem. Da parte de Cristo, recordar para toda a Igreja sua forma de olhar, amar, compreender e julgar o ser humano. No que toca ao homem, lembrar, que o pecado entrou no mundo: “ eis que por um só homem, o pecado entrou no mundo e, pelo pecado, a morte, assim a morte passou a todos os homens, porque todos  pecaram” (Rm 5, 12).

A Palavra de Deus deste final de semana quer aprofundar em nós uma bela inspiração que há muito, tiverá santo Agostinho ao comentar o texto acima: “O Senhor condenou o pecado, não o homem. É necessário estar atento para não separar no Senhor, a verdade da bondade. O Senhor é bom e reto” (In, Comentário ao Evangelho de São João, 33).

No evangelho Jesus se encontra no monte das oliveiras. São Lucas oferece importante informação sobre o significado deste lugar para Jesus: “ Durante o dia ele ensinava no templo, mas passava as noites ao relento, no monte chamado das Oliveiras. E todo o povo madrugava junto com ele no Templo, para ouvi-lo.” (Lc 21, 37). O monte das oliveiras era lugar de intimidade com Deus para Cristo. Com certeza lembramos-nos de sua oração e angústia suprema neste monte: (Lc 39-45). Será neste ambiente teológico que acontece a cena que meditamos neste santo domingo.  Na interpretação de santo Agostinho, o monte das oliveiras ganha um significado espiritual interessante: “Jesus foi para o monte das oliveiras, ao monte dos frutos, ao monte do óleo, ao monte da unção. Podia encontrar Cristo lugar para ensinar mais celebre do que este monte? O nome de Cristo, vem da palavra grega chrisma, que traduzido significa ‘unção’”(Agostinho, 33).

O Santo teólogo nos oferece uma brilhante luz para acolhermos com o coração este evangelho. O juízo que Cristo irá empregar à mulher adúltera nasce da unção que sua união com o Pai lhe confere. Não é somente um juízo humano e sim originário do coração misericordioso de Deus.

Na primeira leitura o profeta Isaias anuncia este novo êxodo, de libertação e cura do pecado do qual somente Cristo é a ponte possível: “ aquele que abre um caminho pelo mar, uma vereda entre as águas (…) Eis que farei coisas novas e já estão surgindo (…) Pois abrirei uma estrada no deserto e farei correr rios na terra seca” (Is 43, 16.18).

Foi o que aconteceu na vida daquela mulher em seu encontro com Cristo. É o que continua acontecendo em nossa vida, quando nos encontramos com sua misericórdia. Caminhos antes fechados e inundados por situações de pecado, áridos e ressequidos, se tornam de novo cheios de vida e alegria: “este povo eu os criei para mim e ele cantará meus louvores” (Is 43, 21).

No evangelho Jesus é posto a uma dura prova. Seus ‘opositores’, fariseus e escribas, lhe trazem um grave problema: Uma mulher surpreendida em situação de adultério para um possível julgamento de Cristo. De um lado a lei judaica determinava a lapidação para tal pecador: “ Se uma jovem virgem prometida a um homem, e um homem se deita na cidade e se deita com ela, trareis ambos à porta da cidade e os apedrejeis até que morram” (Dt 22, 23). Havia na verdade um interesse escuso, neste casuísmo judaico: Fariseus e escribas queriam na realidade que Cristo entrasse em alguma forma de contradição: Se Jesus aprovasse a lapidação, legitimava a interpretação legalista feita pelos seus opositores. Posicionando-se contra a lei, estaria também contra Moisés e contra o próprio Deus. Não seria mais reconhecido “luz do mundo, quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida” (Jo 8,12). Pois para judeus observantes, a Lei de era reconhecida como a “Luz”.

Jesus não entra na provocação farisaica, mas inclinando-se começa a escrever no chão. Não se sabe ao certo que traços escreveu no chão: Os padres da Igreja afirmavam que talvez tenha feito uma referência ao Jeremias: “Esperança de Israel é Deus, todos os que te abandonam serão envergonhados, os que se afastam de ti serão escritos na terra, porque abandonaram a fonte de água viva” (17,3). No entanto permanecem apenas hipóteses.

Erguendo-se diz a palavra fundamental, cheia da sabedoria e unção de Deus, mais penetrante que a ameaça das pedras que além de superar a provocação judaica, os atinge no alvo de suas consciências: “Quem dentre vós não tiver pecado seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra” (Jo 8, 7)! O Senhor Jesus certamente recordou naquele momento a fariseus e escribas e aos ouvintes sedentos de suas palavras que: “ não julgueis para não serdes julgados (…) Por que reparas no cisco que está no olho do teu irmão, quando não percebes a trave que está no teu? (Mt 7, 1-3).

Permaneceram ali, próximo ao monte das oliveiras e nas imediações do templo, Jesus e a mulher. Todos foram se retirando. No local apenas a miséria e a misericórdia. O pecador e aquele que pode perdoar os pecados. A fragilidade humana e a bondade divina. Agostinho em seu comentário diz: “ Mas ele que a pouco havia disperso os adversários dela com a voz da justiça, erguendo em direção a ela os olhos da mansidão lhe pergunta: Ninguém te condenou? Ela responde: Ninguém, Senhor. E ele: Nem eu te condeno. Nem mesmo eu, do qual pensa, que temias ser condenada, não encontrando em mim nenhum pecado. Nem eu te condeno. Mas como Senhor? Tu favorece então o pecado? Absolutamente não: Vai e de agora em diante não peques mais. O Senhor, condena o  pecado, mas não o homem.” (In comentário a São João 33, 6).

Jesus ergue-se e perdoa aquela mulher. Nele também se ergue a misericórdia sobre a miséria, o perdão de Deus sobre a culpa, a Vida sobre a morte. É o que celebramos neste final de semana.

Paulo na segunda leitura expressa isto de forma magnífica: “ Mas o que era para mim lucro tive como perda, por amor de Cristo (…) Por ele perdi tudo e tudo tenho como lixo, para ganhar Cristo e ser achado Nele. (…) não tendo como justiça aquela que vem da lei, mas aquela pela fé em Cristo” (Fl 3, 7.9).

Esta justiça de que Paulo fala, foi a mesma aplicada por Cristo sobre a mulher. E é a mesma que com amor e misericórdia Ele tem aplicado por nós. Não tenha medo de perder tudo por Ele, para ganha-lo!

“Um Pai em saída”!

O-pai-misericordioso-e-os-dois-filhosIV Domingo da Quaresma

(Js 5,9.10-12; Sl 33, 2 Cor 5, 17-21, Lc 15, 1-3.11-32)

No quarto domingo da quaresma (ano C) meditamos sobre a parábola do Pai misericordioso. O texto é muito conhecido e apreciado por tantos leitores na história. Até mesmo a arte reverenciou a beleza desta passagem evangélica. Pelas mãos de Rembrandt, o pintor holandês, o texto de são Lucas ganhou cores, olhares e significados novos. Na famosa pintura onde o Pai acolhe o filho em um forte abraço, às mãos do Pai sobre os ombros do filho são: uma feminina e outra masculina, recordando quem sabe o profeta Is 49, 15: “Porventura pode a mãe esquecer-se tanto de seu filho que cria, que não se compadeça dele. Mas ainda que se esquecesse dele, contudo eu não me esquecerei de ti”.

O evangelho deste final de semana se encontra no capítulo XV de Lucas. É reconhecido como o coração do Evangelho na parábola que revelam o coração misericordioso do Pai. No começo do texto São Lucas faz uma bela revelação sobre os seguidores de Jesus: Diz-nos que os pecadores e publicanos aproximavam-se de Jesus para escutá-lo, enquanto que os fariseus e mestres da lei criticavam Jesus: “Este homem acolhe os pecadores e faz refeição com eles” (Lc 15, 2).

Eis o versículo que abre toda a cena evangélica que a Igreja nos convida a meditar neste domingo. De um lado alguns “doentes e enfermos” que precisavam da cura para suas vidas de outro, aqueles que já se sentiam justificados pela lei: De um lado aqueles que escutam “Como poderei eu abandonar-te como a Adama, tratar-te como Seboin? Meu coração se contorce dentro mim, minhas entranhas comovem-se” (Os 11, 8). De outro: “ Ó Deus eu te dou graças porque não sou como o resto dos homens, ladrões, injustos, adúlteros, nem como este publicano ” (Lc 18, 12). Dois textos que manifestam duas formas bem distintas de ver a Deus a si mesmo. Duas imagens que nos introduzem ao texto que apresenta o excessivo coração misericordioso de Jesus.

Podemos dividir o evangelho deste final de semana em três pequenas histórias: Todas elas entrelaçadas na história que as une, a história do Pai. A primeira é o relato do filho mais novo (Lc 15, 11-19). Nesta o filho mais novo, pede sua parte da herança. Ele tinha este direito. A lei judaica previa que o primogênito recebesse dois terços da herança, enquanto o mais novo da família apenas um terço:  “ Reconheçerá como primogênito o filho da mulher da qual não gosta dando-lhe a porção dupla (…)” (Dt 21,17). E foi o que ele fez. Pegou todos seus haveres e partiu para uma longínqua região, onde gastou tudo. É uma história que costuma se repetir em nossos tempos. Tantos filhos que saem de casa,  deixam a segurança de seu lar, gastam todos os seus bens em uma vida desenfreada até que caem em si. Cair em si é uma graça. E é o começo do retorno.

Para o filho mais jovem, este seu cair em si teve uma razão. Não parece ter sido o fato de ele ter “torrado sua herança”, ou de estar muito arrependido de seus excessos… Na verdade a causa foi que sentiu fome. Fez de tudo para saciar sua necessidade, até mesmo alimentar-se das sobras do alimento dos porcos. “Mas foi a “fome” que o fez cair em si: “ Então caiu em si e disse: ‘quantos empregados do meu pai têm pão com fartura, e eu aqui, morrendo de fome’ (Lc 15, 17). No final dos anos 80 os Titãs ganharam o coração de muitos jovens semelhantes ao filho mais jovem da parábola com uma canção muito profunda. No refrão cantavam: “Você tem fome de que? Você tem sede de que?”! Foi a fome de pão com fartura que o fez voltar. Mas ela apontava para uma outra que somente o pai misericordioso poderia lhe dar. É a mesma fome que continua levando muitos jovens a deixarem pais, casas, irmãos e a buscarem alimentos em lugares onde não podem ser encontrados.

A segunda história é a do Pai (Lc 15,20-24). É a história da excessiva misericórdia de um Pai em saída. Sempre. Ela começa quando do retorno do filho mais novo a casa, e se expressa no momento em que avistou o filho, na reação interior que o Pai teve, e que o evangelista não omitiu em seu relato: “ seu pai o avistou e encheu-se de compaixão” (Lc 15, 20). É um olhar semelhante lançado sobre outro jovem do evangelho: “ fitando-o, Jesus o amou” (Mc 10, 21). É o olhar de Deus sobre os pecadores, um olhar de misericórdia, um olhar do “Deus de ternura e de piedade, lento para a cólera, rico em graça e em fidelidade, que guarda sua graça a milhares, tolera a falta, a transgressão e o pecado, mas a ninguém deixa impune” (Ex 34, 6-7). Mas qual a razão que move a iniciativa deste Pai em relação à volta de seu Filho? Porque a festa, o novilho gordo, o anel, a túnica nova e a sandália nos pés de quem estava tão “sujo” e “marcado” pelo pecado? Porque, este seu filho: “estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi encontrado” (Lc 15, 24). Por que para o evangelho da misericórdia que perpassa todo o santo texto de Lucas: “haverá mais alegria no céu por um pecador que se arrepende, do que por noventa e nove justos que não precisam de arrependimento” (Lc 15, 7).

A história do Pai, o coloca em saída. Antes que o filho reconhece-se sua culpa. Ele já o avistará com olhos e coração, e já se lançara a seu pescoço cobrindo-o de beijos.

Por fim chegamos então à história do filho mais velho (Lc 15, 25-32). Sete versículos de um drama comum em nossos tempos. O drama da retribuição, tão caro para a lei de Israel. A teologia da retribuição reconhecia que aquele que viveu como justo, deverá receber uma justa retribuição segundo a vida que levou. Para aquele que viveu como um pecador, que a sua paga corresponda à forma de vida escolhida.

O relato do filho mais velho começa ao som de festa. Após chama um servos e pergunta:  o que estava acontecendo? A resposta do servo é rica de significados. Responde: “é teu irmão”. Ele voltou, foi recuperado com saúde. Para o “servo”, o filho mais novo, foi sempre o “teu irmão”. E esta é a verdadeira herança!

A reação do filho mais velho é bem diferente da que teve seu pai: “Ele ficou com muita raiva e não queria entrar”(Lc 15, 27). O Pa ao contrário encheu-se de compaixão! Ele, murmurava (Lc 15, 2). Mas há uma razão para isso. O filho mais velho tem no coração a teologia da retribuição e assim a expressa: “Há tantos anos te sirvo, e jamais transgredi um só dos teus mandamentos, e nunca me deste um cabrito para festejar com meus amigos. Contudo veio “esse teu filho”, que devorou teus bens com as prostitutas, e para ele matas um novilho cevado!” (Lc 15, 29-20).

Ele jamais havia transgredido um só dos mandamentos, e estava certo em viver assim. Porém deixou de reconhecer seu próprio irmão na hora de sua dor: “esse teu filho”. O Pai em saída do evangelho deste domingo, não deixa seu filho sem explicação e resposta: “esse teu irmão estava morto e tornou a viver; ele estava perdido e foi reencontrado” (Lc 15, 32).

A herança maior que o Pai quer que os filhos recebam é a da filiação. Pois foi esta que perdemos com o pecado. Era desta que o filho mais novo “teve fome”. E é esta fome que a humanidade continua a ter. Ela é saciada no abraço do Pai, na volta para casa, na festa de uma alegria que só termina no céu.

A segunda leitura de hoje fala de reconciliação. E diz: “ Pois era Deus que em Cristo reconciliava o mundo consigo, não imputando aos homens suas faltas e pondo em nós a palavra da reconciliação”(2 Cor 5, 18). Uma bela imagem da parábola da misericórdia.