Silêncio e cruz, as marcas de santidade da Sagrada Família!!

 

 

 

santa familia

Dentro do tempo litúrgico do Natal celebramos neste domingo a solenidade da Sagrada Família!! Nosso piedoso olhar que mantivera o foco no menino Jesus anunciado pelos anjos (Luc 2, 9) e adorado pelos pastores na noite de Natal, nesta liturgia é orientado a contemplar José e Maria, e neles, perceber que o santo mistério que envolve o nascimento do Filho de Deus é cuidado e “acalentado”, no seio de uma simples família humana!!

A Solenidade da Sagrada Família revela o paradoxo do mistério cristão! O Verbo que se fez carne e habitou entre nós (Jo 1, 14), o inefável mistério da encarnação do filho de Deus, veio a nós, cresceu e foi educado em uma família! A liturgia de hoje aponta este mistério: Deus revela-se na simplicidade da vida, nas lutas diárias de uma família, no aconchego de um lar, nas alegrias e desafios que vivem as famílias de todo o tempo! E Deus ali está. Escondido no silêncio, como foi durante boa parte do tempo em que Jesus de Nazaré esteve na presença de seus pais!

A Festa que celebramos de maneira alguma tira nosso foco do tempo litúrgico do Natal! É o próprio Natal que confere o sentido! No entanto ela apresenta algo de específico e de certa forma desafiante a todos nós discípulos de Cristo: Perceber o paradoxo cristão próximo de nossas vidas: E o isto significa? Indica reinterpretar o cotidiano como lugar de revelação! O silêncio de Deus muitas vezes sentido por nós e pelo mundo, como sua mais profunda palavra: “No principio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. Tudo foi feito por meio dele e sem Ele nada foi feito” (Jo 1, 1-2)!!

A família de Nazaré se torna para nós este lugar simbólico de revelação de Deus! Em primeiro lugar porque é expressão de toda a família. José e Maria vivem os dramas e as dúvidas semelhantes a toda família por nós conhecida! Os evangelistas não omitiram em seus relatos as provações sentidas pelo singelo casal de Nazaré que vão desde a concepção do menino, passando por sua vida pública, até sua morte de cruz: “ Eis que este menino foi posto para a queda e para o  soerguimento de muitos em Israel, e como sinal de contradição_ e a ti, uma espada traspassará tua alma” (Lc 2, 35)! (Certamente teríamos muitas outras passagens, porém esta sintetiza o que havíamos afirmado acima)!

Em segundo lugar porque a família de Nazaré leva consigo um sinal típico do verdadeiro discípulo de Jesus! O sinal é o silêncio. Ele sempre os acompanhou! O mesmo silêncio que estava no prólogo de João e que faz emergir o Verbo Divino, foi presença para os protagonistas desta Sagrada liturgia!! Mas de que silêncio estamos falando? Não de um silêncio que leva ao absurdo descrente da desesperança e fechado em si! O silêncio que marcou a vida de José e Maria era o silêncio dos contemplativos! Tanto José, como Maria souberam tirar o mais profundo desta experiência. Desta pedra bruta para muitos, fizeram seu mais precioso diamante! Eles sempre foram dois silenciosos em Deus! José nada falou, permaneceu sempre de “boca fechada”! Nós não conhecemos a voz de José, apenas sua obediência: “ José ao despertar do sono, agiu conforme o Anjo do Senhor lhe ordenara e recebeu em casa sua mulher” (Mt 1, 24)! Ela, contudo: “Conservava cuidadosamente todos esses acontecimentos e os meditava em seu coração” (Lc 2, 19)!!

Este sinal espiritual que assinalou a vida da Sagrada família de Nazaré! É a mais profunda revelação de Deus para todos nós! E também nossas para nossas famílias. Ele é indicativo de um outro! De um sinal que traçamos todos os dias quando começamos a fazer o que José e Maria eram mestres! O sinal da cruz! Silêncio e Cruz marcaram o caminho de José e Maria! Quando o menino nasceu ela o “envolveu em faixas deitado em uma manjedoura” (Lc 2, 12)! Em faixas no nascimento em faixas na hora da cruz!! A manjedoura, lugar onde os animais se alimentavam, foi  o primeiro altar para aquele que era o pão da vida descido do céu (Jo 6, 51)!!

O evangelho deste domingo fala da postura da família com a tradição de Israel: “ Seus pais iam todos a Jerusalém para a festa a páscoa” (Lc 2, 41)!! José e Maria eram piedosos judeus e honravam a herança recebida de seus pais! Foi o guardar e meditar profundamente esta piedade que deu sentido aos muitos silêncios na vida de José e Maria! Nesta ida a Páscoa uma outra vez o silêncio os visitou: “ Terminado os dias eles voltaram, mas o menino ficou em Jerusalém (…) E não o encontrando, voltaram para Jerusalém à sua procura” (Lc 2, 45)!

Os pais de Jesus são acometidos por um drama comum em nossos dias: O da perda momentânea de um filho durante as grandes aglomerações humanas! A festa da páscoa trazia judeus de todo o mundo conhecido a Jerusalém! Caravanas de todas as partes! E ai o menino é perdido! Perder um filho é uma experiência e tanto! Maria expressa este sentimento: “ Olha teu Pai e eu, aflitos, te procurávamos” (Lc 2, 47)!! Porém esta perda é sinal de uma perda mais profunda! O da perda de Cristo! De uma ausência sentida no âmbito de tantas famílias de nosso tempo! Quando sentimos que Cristo se perdeu de nossas caravanas, de nossas trajetórias familiares, nos sentimos perdidos! No entanto ela revela o mistério:  “ Três dias depois o encontraram no templo” (Lc 2, 46)!! Três como foram os dias da paixão, morte e ressurreição do Senhor!! Três dias para que o menino de 12 anos respondesse a aflição de sua mãe: “Por que me procuráveis? Não sabíeis que devo estar na casa de meu Pai? Eles, porém não compreenderam a palavra que lhes dissera” (Lc 2, 49)!!

Maria sabemos talvez tenha compreendido mais profundamente esta palavra quando em silêncio contempla o seu Filho no templo da Cruz! No inicio daquele outro terceiro dia: “Perto da cruz de Jesus, permaneciam de pé sua mãe” (Jo 19, 25)!!

Como vimos silêncio e cruz marcaram a vida de José e Maria! Foram suas marcas de santidade! Na alegria de celebrarmos a festa desta família, pensemos juntos: Quais os sinais que temos encontrado em nossas famílias? Que sinais temos deixado para nossos filhos e nossa sociedade? Como estamos educando nossos filhos? Quando permitimos que o silêncio visite nossa casa, desligue nossa televisão, nossos tablets, celulares e com este amigo (silêncio), retornemos ao Senhor!!

Que a família comece e termine sabendo onde vai”!!  E reencontremos Jesus nas caravanas de nossa vida!! Feliz Natal !!!

 

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“Duas saudações e duas mulheres cheias do Espírito Santo e uma salvação”!

visitacao-de-mariaIV Domingo do advento

(Mq 5, 1-4; Sl 79; Hb 10, 5-10; Lc 1, 39-45)!

Chegamos ao quarto domingo do advento e a liturgia apresenta a visita de Maria a sua prima Isabel! É um encontro cheio de significados! Duas mulheres e duas saudações que transformaram toda a existência humana! A primeira saudação feita a Maria pelo anjo Gabriel, define a menina de Nazaré como a “cheia de graça”!  É como um “sobrenome” dado a mãe do Senhor, pelo próprio céu, revelando sua mais profunda intimidade e “que conceberia e daria a luz um filho, a quem porás o nome de Jesus” (Lc 1, 29)! A segunda, de Maria a Isabel, antecipa o “pentecostes”, pois a enche do Espírito Santo, e a faz confirmar o já anunciado por Gabriel, que ela é: “Bendita és tu entre todas as mulheres e bendito o fruto do teu ventre”(Lc 1, 42)!!

O quarto domingo do advento nos traz esta belíssima imagem! Duas mulheres que tiveram suas vidas “atravessadas” pelo santo mistério de Deus! Duas mulheres que sinalizam para uma grande boa nova que se aproxima: O nascimento do salvador!: “o menino que vai nascer de ti será chamado santo, Filho de Deus”(Lc 1, 35)!! Duas mulheres apontando para dois mistérios da fé: Em Maria, o da concepção virginal: “ Como acontecerá isto, se eu não conheço homem algum? O Espírito virá sobre ti e o poder do altíssimo te cobrirá com sua sombra” (Lc 1, 35)! E em Isabel o fim da esterilidade: “ Também Isabel tua parenta concebeu um filho na velhice (…) era considerada estéril” (Lc 1, 36)!!

Mas o que mais nos chama a atenção nesta liturgia é que tudo se dá por meio da “escuta”! A palavra de Deus entra por nossos ouvidos e enche nosso coração! A liturgia evoca então o primeiro mandamento: “Ouve o Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor, amarás o Senhor teu Deus de todo o coração, de toda tua alma e com todas tuas força ” (Dt 6, 4-5)!!

Foi exatamente o que Maria ouviu da saudação do anjo! Foi o que transmitiu na saudação a Isabel! A “cheia da graça” encheu a vida de Isabel da graça do Senhor: “e Isabel ficou cheia do Espírito Santo”(Lc 1, 41)!!

O encontro entre as duas mulheres aponta para todos nós em anúncio de uma boa notícia!! O Natal que esta se aproximando é esta grande boa nova!! Nós ao contrário cada vez mais perplexos com as informações que nos chegam todos os dias por meio dos jornais, da TV, da internet! Notícias de corrupção, sujeira e escândalos políticos nos ambientes que deveriam ser para a sociedade sinais de “direito e a justiça”! Na verdade o que tem entrado em nossos ouvidos e o que é pior, tocado nosso coração, são mensagens difíceis, ligadas a violência e a falta de ética daqueles que foram escolhidos para nos representar!

A mensagem da Palavra é outra! E é ela que deve encher nosso coração do Espírito de Deus como o fez em Isabel! Não permita que seus ouvidos se tornem surdos a boa nova do Natal, nem que seu coração endureça e se torne descrente ao grande mistério que estamos nos preparando para celebrar!

Miquéias nos recorda o ambiente de onde vêm a nossa salvação! Mais que pensar em um lugar geográfico, fala de um espaço teológico! Se as, más e tristes notícias nos são “geralmente” trazidas por grandes poderosos! O profeta na primeira leitura desloca nosso olhar. A salvação vem de um pequeno lugar, de uma pequena cidade, pois: “ o reino dos céus é semelhante a um grão de mostarda que um homem tomou e semeou em seu campo, embora seja a menor de todas as hortaliças (…)” (Mt 13, 31ss)!!

Nós que somos discípulos da palavra precisamos também ir aprendendo a mudar o nosso foco! Reeducar nossa audição para o alto! De onde vem nossa salvação! O Sl desta liturgia nos diz: “ ó pastor de Israel prestai ouvidos. Vós que sob os querubins vos assentais, e vinde logo nos trazer a salvação” (Sl 79, 1)!!

As duras informações continuaram a chegar até nós! Mas elas não podem obstruir nossos ouvidos ao bem e a “Boa Nova da Salvação”!!

Miquéias nos diz: “ E tu Belém de Éfrata, pequenina entre os mil  povoados de Judá, de ti há de sair aquele que dominará em Israel. Sua origem vêm de tempos remotos desde os dias da eternidade” (Mq 5, 1)!!

Belém é a menor de todas! É como a parábola do grão! Como é também a presença cristã no mundo! Ela deve ser humilde, pequena, despretensiosa, mas grande em Deus!! A mãe do Senhor é seu mais nobre sinal: “Meu espírito exulta de alegria em meu Salvador porque olhou para a humilhação de sua serva(…) Depôs poderosos de seu trono e elevou os humildes” (Lc 1, 48.52)! Nosso foco deve ser sempre este! Pequeninos em si mesmo, para que assim Deus possa ser tudo em nós!!

Enquanto nos aproximamos das solenidades do santo Natal, a liturgia da Igreja nos chama atenção para alguns aspectos: O primeiro deles se revela na Palavra deste domingo! Maria e Isabel são dois grandes símbolos para nós! O Concílio de Éfeso (381) havia definido Maria como a Théotokos (qeotokos). O termo literalmente significa a “portadora de Deus”! Este papel a mãe do Senhor representou com maestria! Sobe as montanhas da Judéia e “leva” a prima Isabel o que carrega dentro de si mesma: O Verbo feito carne! As duas naturezas, a divina no (Verbo Eterno) e a humana (no Filho), são geradas no Ventre santo e puro de Maria, como nós pela graça somos gerados no ventre da mãe Igreja! Se Maria é a portadora de Deus na perfeita união das duas naturezas, todos nós o somos pelo sacramento do batismo!!

Isabel é por sua vez imagem do discípulo! É mãe primeiro estéril, mas depois fecunda! É o sinal de todo discípulo que após receber a saudação da Igreja passa da esterilidade da fé para a vida da graça, na qual todas as coisas são possíveis! (Lc 1, 35)!

Neste santo Natal que nossos ouvidos se abram a boa noticia do Evangelho!! Que abrindo nossos ouvidos como Maria e Isabel se encha nosso coração do Espírito de Deus! Que deixemos que o Senhor mesmo conduza nosso foco para o lugar de onde vêm nossa salvação!! Que possamos repetir com o salmista: “ Iluminai a vossa face sobre nós, convertei-nos para que sejamos salvos” (Sl 79)!!

“Alegrai-vos, pois Ele esta no meio de ti”

63a2c2ec9f6a2abfe6795d1068267601III Domingo do Advento

(Sf 3, 14-18; Fl 4, 4-7; Lc 3, 10-14)

No terceiro domingo do advento a Igreja celebra a “alegria”! Alegramo-nos com a proximidade litúrgica do Natal do Senhor e com o significado que esta solenidade proporciona a nós cristãos! O terceiro domingo do advento revela por isso uma realidade em nada descartável na Igreja! O tema da “alegria” próprio deste domingo no cenário eclesial convida a Igreja a uma reflexão profunda de seu significado! Nossas Igrejas, nossos centros pastorais, nossas lideranças, nossos padres e religiosos (a), nem sempre nos tem oferecido um sinal desta alegria do Evangelho!! O domingo “gaudete”, que celebramos recoloca na liturgia e em nossas vidas aquela marca cristã que não pode ser apagada por nenhum desânimo, tristeza ou murmuração que a rotina eclesial possa impor a nossa vida de fé! Neste santo domingo, nós cristãos repetimos a oração paulina presente na segunda leitura: “ alegrai-vos no Senhor; eu repito, alegrai-vos no Senhor” (Fl 4, 4)!!

Viver é de certa forma fazer escolhas! Conhecemos muitas pessoas que escolheram viver amarguradas e amargas, “de mal com a vida”, como dizemos por ai! Estes nossos irmãos dão-nos a impressão que somos sempre os seus maiores devedores… E que o mundo que os cerca está “totalmente equivocado” e que a “verdade” é sua propriedade!! Esta é uma opção de vida de muitas pessoas! Às vezes consciente,  outras fruto de algumas frustrações, mas, no final das contas sabemos é sempre opção!!

No entanto existe um bom grupo de pessoas que escolheram outro caminho de vida: o da gratuidade! Elas partem de um principio simples e profundo: de que toda a vida é um “dom”! E como dom, é algo que foi doado de outrem! Estas pessoas passam então a encarar a sua existência como um presente e se tornam dons para outros!

No mundo católico você certamente conhece estas duas versões de escolhas de vida!! O que este domingo quer nos exortar é a de que o caminho que a gratuidade propõe está bem mais sintonizado com a Palavra de Deus!!

O profeta Sofonias na primeira leitura apresenta o lugar onde esta ancorada nossa alegria: Para ele a alegria não é uma realidade exterior, que esta fora de nós, como se tivéssemos que buscá-la além de nós mesmos! Para o profeta a alegria “parte de dentro”, em nosso meio. Na visão de Sofonias a alegria é uma realidade interior: “Alegra-te exulta de todo o coração cidade de Jerusalém! (…) O rei de Israel é o Senhor, ele está no meio de ti, nunca mais temerás o mal”  (Sf 3, 15)!!

A alegria que nasce de dentro evoca uma realidade muito importante para o contexto bíblico! Ela é sinal de fecundidade! A esterilidade moral e espiritual que vivia Israel chegará ao fim com a renovação de suas promessas: “ O Senhor teu Deus esta no meio de ti, o valente guerreiro que te salva, ele exultará de alegria por ti, movido por amor” (Sf 3, 17)!!

Não só no contexto bíblico, mas também no cotidiano percebemos que pessoas felizes são sempre muito fecundas!!  Religiosos(a) felizes, são fecundos, casais felizes são fecundos nos seus filhos, mas capazes de fazer de seu matrimônio lugar de benção e graça a outros, padres felizes, acabam atraindo em torno de si, muita gente, por que se tornam expressão da profecia de Sofonias, de que: “ O Senhor esta no meio de ti”! E é Ele que conduz todas as coisas! Ter o Senhor “no meio”, “dentro”, no “íntimo”, transmite a idéia de que a pessoa esta “investida” da graça e concebeu no coração a Palavra da Vida, e é esta a causa de nossa alegria e, por conseguinte superação da esterilidade espiritual, razão de tantas amarguras e múrmuros na vida cristã de nossos tempos!

A carta aos Filipenses continua a meditação sobre a alegria!!  A epistola paulina retoma o tema onde optar pela gratuidade é uma escolha de vida!! Não há espaço para lamentos e murmurações na vida cristã: “Não vos inquietei com coisa alguma, mas apresentai as vossas necessidades a Deus, em oração e súplica, acompanhadas de ação de graças” (Fl 4, 6)!!

O apostolo reconhece que a vida cristã é também encontro com a Cruz, com a possibilidade do sofrimento, com a rejeição e renúncia, mas, exorta sua comunidade a permanecer na alegria e na bondade: “ alegrai-vos, que a vossa bondade seja conhecida de todos os homens! O Senhor está próximo!” (Fl 3, 4)!!

No evangelho encontramos novamente João Batista!!  Ele sabemos é testemunha da alegria divina desde sua concepção: “Pois apenas a tua saudação chegou ao meu ouvido, eis que o menino estremeceu de alegria em meu seio” (Lc 1, 44)!! Sua mãe Isabel antes estéril, concebendo na velhice, sinaliza que não existe esterilidade aos que põe sua confiança no Senhor: “ Louvai cantando ao nosso Deus que fez prodígios e portentos, publicai em toda a terra suas grandes maravilhas, exultai cantando alegres, porque é grande em vosso meio o Deus santo de Israel” (Is 12, 5-6)!

Qual afinal o testemunho de gaudio que o precursor nos oferece nesta liturgia? Se a imagem de João Batista transmitida fielmente pelos evangelistas sempre esteve   associada ao profeta ascético do deserto, exigente, sem meias palavras e poucos sorrisos! Onde está a afinal alegria que o Batista aponta?

A alegria de João mora em primeiro lugar em seu ministério profético! Em outras palavras, na missão que recebeu de Deus! A alegria de João é a alegria da espera, daquele de que afirmou: “Não ser digno de desamarrar a correia de suas sandálias” (Lc 3, 16)!

Em segundo lugar sua espera é o próprio Cristo! Não há nada maior que o Cordeiro de Deus para João! Nada se antepõe a Cristo! Diante da vinda do messias, tudo é posto para o segundo plano! Esperar nos bens, na injustiça para com os pequenos como faziam os cobradores de impostos, ou nos altos salários como esperavam os soldados, agora não é mais necessário!! A alegria não consiste mais nestas coisas!! E sim “naquele que virá e é mais forte que eu” (Lc 3, 15)!

Por fim a alegria de João enquanto espera é a mesma nossa! Nós também esperamos e nos alegramos por isso! Esperar não é fácil. Há muitos que cansam de esperar desanimam e param no caminho! Nós não! Não cansemos de esperá-lo. Nossa espera é fundada no amor! Esperamos aquele que amamos! Quem espera amando não desanima!! “Ele nos batizará no Espírito Santo e no fogo” (Lc 3, 16)! Esta forte imagem presente na pregação do Batista nos serve hoje de palavra de confiança! Conosco esta o Espírito Santo, o paráclito, levando ao fogo, nosso desânimo, cansaços, e algumas reclamações cotidianas!

A espera ainda que possa parecer demorada é na verdade purificadora! Deve ser vivida com gratuidade, ela é o fogo que queimará em nós toda a palha, do pecado, da injustiça, do desânimo, da escolha daqueles que não optaram pela gratuidade de vida!

Esta é alegria de João Batista! No final seremos o bomTrigo de Deus!!!

 

 

 “João a Voz no deserto que prepara o Caminho ”!!

desertoII Domingo do Advento

( Baruc 5, 1-9; Sl 125; Fl 1, 4-6.8-11; Lc 3, 1- 6)

João não era a Palavra, o “Verbo Eterno”, dela era somente uma voz, um som clamando no deserto! Quando interrogado pelos sacerdotes e levitas sobre sua identidade respondeu sem exitar: “ Eu sou a voz que clama no deserto, endireitai o caminho do Senhor” (Jo 1, 22)!!

Neste segundo domingo do advento somos convidados a meditar sobre nossa real identidade! Sobre quem realmente somos? Em outras palavras, sobre o significado que têm afinal nossa vida cristã? Para responder a estes questionamentos a palavra de Deus nos oferece o caminho percorrido pelos profetas e de modo especial o itinerário de João Batista, o precursor do Senhor!

A identidade é aquilo que existe de mais profundo em nós! Não é o que aparece na superfície ou somente em nossa exterioridade: Nossa identidade é aquele “eu” mais profundo que na maioria das vezes não conhecemos completamente: Santo Agostinho, por exemplo, foi testemunha da descoberta desta presença no interior do homem: “ Deus mais interior que minha própria intimidade” (Conf, III, 6)!! Esta notícia de Agostinho nos ajuda a mergulhar em um dos aspectos mais profundos da identidade humana. Que no mais profundo de nós mesmos, nos lugares mais “escondidos e desconhecidos” de nossa existência habita o Senhor!! O Sl 138 é uma das maiores afirmações da presença de Deus em nosso intimo e de nossa profunda identidade humana:

“ Iahwe, tu me sondas e conheces, de longe penetras meus pensamentos(…)

Conhecias o profundo do meu ser, meus ossos não te foram escondidos quando era modelado, em segredo, tecido na terra mais profunda (…)” (Sl 138, 1.15)!!

O Evangelho deste final de semana diz algo sobre a personalidade de João Batista! Ele é alguém que vive no deserto! É neste lugar que a palavra de Deus foi dirigida a João (Lc 3,2)! O deserto no contexto bíblico é bem mais de que apenas um lugar geográfico com características que lhe são próprias como: a escassa presença das chuvas e da vegetação rasteira! Na Escritura é lugar de encontro com Deus! Lugar de purificação e solidão! E acima de tudo espaço de travessia! O povo de Israel sabemos foi conduzido por Deus no deserto até a terra prometida: “ Ele guiou o seu povo no deserto porque seu amor é para sempre, e deu a terra deles como herança” (Sl 136, 16)!

Mas o deserto (ermo) se apresenta sempre como um ambiente muito hostil e até mesmo agressivo! São poucos os seus habitantes! E foi lá que João foi forjado! No deserto ele foi “afinando” sua voz! Aprendeu a sintonizá-la com a voz de Deus, escutando-o, orando, fazendo penitência! Na solidão deste ambiente ele aprendeu a discernir a “Voz do Verbo divino”, para apesar de toda a contradição que possa nos parecer: preparar caminhos primeiro passando pelo deserto!!

Não foi apenas o precursor que esteve no deserto. Jesus foi conduzido pelo Espírito Santo ao deserto: “ Jesus, pleno do Espírito Santo, voltou do Jordão e era conduzido pelo Espírito através do deserto durante quarenta dias, e tentado pelo diabo” (Lc 4, 1)!! A pregação de Jesus foi “temperada”, por estes 40 dias onde venceu as tentações do inimigo no deserto para depois vencê-lo definitivamente na Cruz!

Voltando a João Batista, o período de deserto foi muito importante para ele: Formou sua identidade: Um homem concebido no ambiente do deserto, na solidão, diante do “quase nada” que este lugar pode oferecer, amadurece com certeza despojado das vaidades que a “cidade” poderia oferecer: “João se vestia de pêlos de camelo e se alimentava de mel silvestre” (Mc 1, 6)! O deserto foi o “tempo da graça” de João, para que soubesse no profundo quem realmente “era”, e quem era o Deus que anunciava as margens do Jordão!!  Por isso Ele proclamava de si: “ Depois de mim vêm aquele que é mais forte do que eu(…) eu não sou digno, abaixando-me, desatar a correia das sandálias (…) Batizei com água. Ele, porém, vos batizará com o Espírito Santo(…)”(Mc 1, 7-8)!!

Mas como o precursor tendo apenas vivido no deserto, pôde preparar caminhos, estradas, cortar colinas e preencher vales? Como alguém que não conhecia os caminhos, pode preparar um povo para conhecer o “Caminho”? Porque, em primeiro lugar toda esta disposição em receber o Senhor, aconteceu nele: “ No dia seguinte, ele vê Jesus aproximar-se dele e diz: ‘Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. Dele é que eu disse: ‘ Depois de mim vem um homem que passou adiante de mim, porque existia antes de mim” (Jo 1, 29)!!! O deserto preparou o coração de João para “ver” o messias! E o forjou para que nenhuma vaidade, nem pretensões humanas, nem narcisismos espirituais fizessem que João Batista em algum momento se sentisse maior que a sua “Voz”!!

Do Verbo eterno, João é somente a “voz”. Isabel sua mãe foi testemunha desta beleza do Evangelho ainda no ventre materno: “Pois quando a saudação chegou aos meus ouvidos a criança estremeceu de alegria em meu ventre” (Lc 1, 44)!!

Neste segundo domingo do advento, João nos ensina que devemos nos preparar para a vinda do Senhor! Certamente há muitas estradas que precisam ser endireitadas em nossa vida, muitos vales, depressões, que precisam sem preenchidos pela graça de Deus. Há muitas colinas e montes de orgulho e soberba, que precisam ser rebaixados para acolher o Verbo na humildade e na pobreza!!

Ele nos ensina se definindo como a “voz” e não a “Palavra”!  Ensina-nos tendo preparado dentro de si no deserto este caminho interior! Tendo rebaixado todas as colinas de orgulho e soberba para acolher aquele que “se esvaziou de si mesmo”(Fl 2, ss)! Em João a humildade do precursor, reconhece a humildade do messias!!

Que as vias sinuosas e os caminhos acidentados que ainda podemos nos encontrar, sejam endireitados, para que todos possam ver a salvação de Deus!! (Lc 3, 5)