“Finalizar situações e encher o coração de Deus”!!

esperancaI Domingo do advento

(Jr 33, 14-16; 1Ts 3, 12-4, 2; Lc 21, 25-28. 34-36)

Começamos neste final de semana um novo tempo litúrgico!  A liturgia de certo modo é símbolo de nossa vida. Ela (liturgia), da significado ao tempo! Que quer dizer isso? Oferece ao tempo uma qualidade simbólica na qual a simples sucessão de momentos, se transforma em ótimas oportunidades de graça e encontro com Deus!

O tempo do advento é um destes significativos momentos! Nele como a própria palavra propõe entramos com toda a Igreja em um itinerário espiritual a fim de aprofundar uma importante “virtude cristã”: a esperança!!

No mundo que vivemos o “tempo” tem lá suas próprias características: Ele é frio e pragmático! Assim deixa de ser o lugar do encontro com o Senhor, recinto da esperança, “teofania” do cotidiano e se torna apenas a sucessão, o “tempus fugit”, que devora as nossas vidas, retirando dela a beleza, o sentido e a presença terna de Deus!

Os tempos litúrgicos nos são dados pela Igreja para isso! Para redescobrirmos que para além do peso da rotina e do cotidiano Deus se faz presente!!

O primeiro domingo do Advento nos convida a uma profunda meditação sobre uma parte do tempo: o “fim”!! Nós nem sempre queremos encará-lo de frente, por que sempre o associamos ao término de tudo, a conclusão de todas das coisas. Porém não são estes os únicos sentidos do “fim”! Ele pode ter também significados positivos. Por exemplo, na vida cristã existem coisas que devemos finalizar para sermos melhores e mais santos.  A palavra de Deus deste final de semana vêm ajudar-nos a “ver” um lado positivo do fim! Exortar-nos que para “encher o coração de Deus”, muitas vezes é preciso finalizar situações que têm tornado o nosso coração pesado pelas preocupações do mundo, da riqueza e dos prazeres da vida (Lc 8, 14)!!

Este primeiro domingo a liturgia lança um olhar de esperança sobre o fim: Você certamente deve ter como “eu”, muitas situações em sua vida que necessitam de um ponto final e após um recomeço em nova frase!  Quem não gostaria de aproveitar o tempo do advento para finalizar vícios, contas a pagar, aquele relacionamento que só tem desgastado minha vida e por medo da solidão insisto em algo que não tem o menor futuro! Quem não gostaria de aproveitar o advento para como fala a primeira leitura de hoje, renovar as promessas de Deus em sua vida: “ Naqueles dias, naquele tempo, farei germinar para David um germe de Justiça que exercerá o direito e a justiça na terra” (Jr 33, 15)!

É desta forma que a Palavra de Deus se relaciona com o tempo! Como o lugar teofânico, isto é, como “casa de Deus”, morada de sua manifestação. Quem sabe se não devemos reaprender a lidar com o tempo desta forma, “carpem diem”, aproveitar o tempo para a oração, para os pais “perderem mais tempo com os filhos e menos com a televisão, os amigos compartilharem suas vidas sem ajuda das redes sociais!!

O advento é espera, mas também conversão! O Evangelho deste final de semana fala muito disto: Anuncia sinais no céu, estrelas e na terra e que estes provocaram angústia e medo nas nações: “ as nações estarão em angústia, inquietas (…). Os homens desfaleceram  de medo, na expectativa do quê ameaçará o mundo habitado (…)” (Lc 21, 26)!!

O medo e a angústia são sentimentos nossos ligados a algo que está para acontecer: Ligados ao futuro, ao desconhecido. No entanto a Palavra de Deus nos admoesta a enfrentar estas situações com esperança:  “Quando começarem a acontecer estas coisas, erguei-vos e levantai vossa cabeça, pois esta próxima vossa libertação” (Lc 21, 28)!!

É assim mesmo. Toda a profunda libertação, a transformação interior não chega até nós sem um pouco de angústia! É preciso ter de pagar um pouco este preço, para tornar-se livre! Pense como não deve ser duro e angustiante o processo de libertação da dependência química!  Os que viveram isto em sua vida e compartilham com outros narram fatos impressionantes de “dor e medo”. No entanto depois de atravessarem este mar revoltoso e ondas fortes (Lc 21, 26), experimentam um profundo sentimento de liberdade!

São fins com sabor de novo recomeço!

Mas a palavra de Deus nos da ainda mais esperança diante destes sinais: Orienta-nos a erguer e levantar nossas cabeças! Não significa somente manter a cabeça em pé diante das adversidades da vida. Há nesta palavra algo ainda mais profundo: “erguer a cabeça”, no texto original: “ anakuyate”, indica erguer a parte mais superior do corpo!! Não indica apenas o membro do corpo, mas daquela parte mais elevada: a espiritual!! Que é a mais alta que possuímos. Este versículo do Evangelho quer apontar para esta realidade: As tribulações que a vida nos apresenta são momentos em que deve erguer-se em cada um de nossa alma! : “ Como Moisés ergueu a serpente no deserto, assim  é necessário que o Filho do homem seja levantado a fim de que todo o que nele crer tenha a vida eterna” (Jo 3, 14)!!

O Evangelho contribui ainda com nossa vida para este inicio de advento. Nos oferece duas indicações muito singulares à nossa espiritualidade. A primeira é a do cuidado com o que estamos levando no coração. Se estamos carregando “devassidão, embriaguez e preocupação com as coisas do mundo”(Lc 21, 34), o melhor é quem sabe aproveitar este tempo para dar um fim a estas coisas! Um fim libertador, pois sabemos bem lá no fundo, não somos nós que carregamos estes fardos, são eles que acabam nos carregando e nos prendendo como em um laço: “ não ajunteis tesouros para vós na terra(…), mas ajuntai tesouros no céu(…). pois onde esta teu tesouro ai estará também teu coração” (Mt 6, 21)!

A outra indicação do Evangelho para este santo tempo é a vigilância: “ Ficai acordados em todo o tempo e orando em todo o momento” (Lc 21, 36)!! O advento é um tempo de esperança! Quer colocar a virtude da esperança de novo em novas vidas às vezes tão atingidas pela desilusão!! Nós vigiamos e oramos sem cessar neste tempo por que a nossa esperança não decepciona (Rm 5, 5)!

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“Cristo Alfa e Ômega principio e fim”!!

 

Extrema humildade

XXXIV Domingo Comum

Festa de Cristo Rei

(Dn 7, 13-14; Sl 92; Ap 1, 5-8; Jo 18, 33-38)

Com a solenidade de Cristo Rei encerramos o Ano litúrgico. Esta festa litúrgica nos exorta à confiança de que tudo na criação se destina para Deus! Ele como diz o livro do Apocalipse é o “Alfa e o Ômega, diz o Senhor Deus, ‘Aquele que é Aquele que era e Aquele que vem” (Ap 1, 6)

Estas afirmações teológicas podem parecer contraditórias quando lembramos os eventos ocorridos na França na última semana, ou então a tragédia que devastou Bento Ribeiro em Minas Gerais. Nestes momentos sempre nos perguntamos: Mas afinal onde Deus estava? Porque permitiu que isso acontecesse? Ele não é o Senhor do Universo? Então porque não interferiu não permitindo que todas estas tragédias nos deixassem tão perplexos?

O “silêncio” de Deus diante de todos os eventos, na verdade é a expressão de sua mais autêntica palavra!! É um “ressoar” que atravessa o tempo de semelhante silêncio que Ele próprio sentiu no alto da Cruz, quando gritou: “Meu Deus meu Deus por que me abandonaste?” (Mc 15, 34)!!

O grito sentido pelas famílias que perderam tudo, seus bens, parentes, amigos, é “eco” do grito de Jesus na Cruz! O desespero de tantos jovens franceses que naquela sexta só pensavam em se divertir e ouvir boa musica na “elegante noite francesa” é “eco” do grito e silêncio de Jesus na Cruz!! Mas, a irresponsabilidade dos poderosos que exploram cada bem que a natureza nos concedeu de graça também é grito da Cruz de Cristo, como toda a tentativa de se utilizar de tradições de fé e do nome de Deus para justificar atos terroristas é também um grito de Cristo na Cruz!!

No entanto são dois os significados do grito de Cristo na Cruz e silêncio de Deus: Um é solidário, compassivo e sinal de seu amor até o fim: “(…) sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo amou-os até o fim” (Jo 13, 1)! Outro é o grito da negação, da repudia, no mesmo tom da fala ao discípulo Pedro ordenando-lhe que não use de espada contra Malco: “Embainha tua espada. Deixarei eu de beber o cálice que o Pai me deu?”( Jo 18, 10)!!

E neste final de semana quando celebramos a solenidade de Cristo Rei todos estes tristes acontecimentos não devem nos roubar a esperança de que o Senhor é “Princípio e fim de todas as coisas”, que Ele continua no comando e que ao final, renovará todas as coisas: “ Eis que faço nova todas as coisas (…) Eu sou o Alfa e o Ômega o principio e o fim” (Ap 21,  5-6)!! E ainda: “ Deus limpará de seus olhos toda a lágrima e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor nem dor” (Ap 21, 4)!!

Celebrar esta solenidade é celebrar a esperança teológica afirmada acima no livro do Apocalipse!!

Mas por que ainda não temos a oportunidade de experimentar a plenitude do reino dos Deus entre nós? Devido é claro ao pecado humano! Há muitos termos que designam o significado de pecado na bíblia. Um deles seria algo como “ não atingir ao alvo”! Os homens ao construir reinos para si e não a partir de Deus, parecem estar “errando de alvo” !! A realidade do “pecado” faz isso conosco, muda nosso foco original e fez que passemos a construir reinos somente para este “mundo”, como se toda a realidade humana abarcasse somente o “aqui e o agora”!!

Um destes reinos é o da economia! O seu “deus” sabemos muito bem é o dinheiro! Para agradá-lo basta que o entreguemos muito “acúmulo” e “lucro”, e para isto é permitida toda forma de sacrifício, desde que faça com que a economia cresça e acumule mais e mais!! Quando vemos e obviamente nos entristecemos com a tragédia na barragem de Bento Ribeiro, no início de tudo isso, não está o Deus da Cruz de Jesus Cristo do “grito e do silêncio” e sim o “deus” do reino da economia! Este não pensa na natureza, pois não é obra sua, dela distorce apenas o “slogan” na qual “tudo nela se transforma” e a manipula para interesses egoístas e lucrativos!!

Outra distorção na idéia de reino é a tentação de alguns homens de querer edificar já entre nós toda a plenitude do Reino de Deus!! Com isso esquecem uma dimensão primordial:  a escatológica!! O reino de Deus é claro que em nosso mundo já manifesta seus sinais: “ Não se poderá dizer: Ei-lo aqui! Ei-lo ali, pois que o Reino de Deus está no meio de vós” (Lc 17, 21)! Mas deve ser sempre esperança futura: “Aquele que é, que era e Aquele que vêm” (Ap 1, 6)!!

Esta é a sua dimensão plena. Os homens que provocaram o ataque a França, na última semana, pensam que “a força de violência” edificar um reino de Deus entre os homens, desprezando esta segunda dimensão tão ou mais importante que a primeira!! Por isso, há muito que perderam seu foco e apesar de tantas vítimas inocentes, se assim intentavam agradar a Deus “erraram de longe o alvo”!!

No Evangelho deste domingo Jesus é interrogado por Pilatos. A cena é marcada por um diálogo em que o tema central é o “reino”!! Pilatos se dirige a Jesus primeiro lhe fazendo uma pergunta: “ Tu és o rei dos judeus?” (Jo 18, 34) e depois com uma resposta: “teu povo e os chefes dos sacerdotes te entregaram a mim. Que fizeste?” (Jo 18, 35)!!

A fala de Pilatos revela uma concepção de reino: “Teu povo e os chefes”!! Reduz o Senhorio de Cristo a esfera espacial de um povo, aqui o povo judeu!! Mas Jesus responde: “Meu reino não é deste mundo” (Jo 18, 36)!! Não se limita apenas ao tempo, ou a uma nação específica, ou ao dinheiro, conflitos em nome de Deus!! Estas são construções de reinos para o mundo. Cristo mesmo diz: “Meu reino não é daqui”(36)! Todo o que reduz o reino de Deus apenas ao “aqui”, não compreende o mistério da Cruz. Não conseguirá perceber que mesmo o silêncio de Deus diante da Cruz do Filho é sua mais absoluta presença e seu maior abraço ao mundo!!

No cap. 12 do evangelho de João encontramos uma passagem que nos ajuda a compreender como Jesus é rei: “ é agora o julgamento deste mundo, agora o príncipe deste mundo será lançado abaixo, e quando eu for elevado da terra atrairei todos a mim” (12, 32)!!

A cruz de Cristo, sua glorificação apresenta elementos novos à realeza: o perdão, a renuncia de si mesmo, a pobreza! Enfim componentes que os reinos do mundo não descobriram, no entanto é o que nos atrai sempre mais para Cristo!!

 

 

Mesmo que tudo diga o contrário, Deus esta cuidando de todas as coisas!!

amendoeira1XXXIII Domingo Comum

(Dn 12, 1-3; Sl 15; Hb 10,11-14,18; Mc 13, 24-32)

Nossas grandes perguntas existenciais nascem em meio às nossas mais sentidas crises! Nossas profundas questões de fé também! Crises, dúvidas, tempos de “escuridão dos sentidos”, são momentos duros, difíceis de atravessar, ninguém os quer por perto, mas são  necessários à nossa adesão aquela “palavra que jamais passará”!!

A palavra “adesão” lembra “adesivo”, isto é, um produto que “cola”, que se fixa a algum corpo e dali não sai tão facilmente! As crises, as difíceis travessias que muitas vezes fazemos a contra gosto na vida, devem produzir em nós esta forma de ligação a Cristo tal qual um “adesivo” é ligado a um corpo! Os tempos de tribulação devem ser para os que crêem tempos de espera e fidelidade e também momentos propícios para o amadurecimento e crescimento da fé!

Na liturgia deste final de semana a Igreja esta nos fazendo as seguintes perguntas: Como você vive os tempos de crise e dúvidas na sua caminhada cristã? De que maneira você os encara? Como o fim? Como uma sensação de total abandono? Ou como um kairos em que Deus esta possibilitando a você uma profunda purificação na sua vida de fé? E quando tudo aquilo que você deu crédito na vida, desmorona. Ainda é possível para você manter as virtudes da fé, esperança e caridade?

Todas estas questões estão respondidas na belíssima litúrgica da palavra deste final de semana!!

O profeta Daniel na primeira leitura fala de um “tempo de angústia, como nunca houve até então” (Dn 12, 1). As previsões do profeta não são nada satisfatórias. Lembram nossos telejornais anunciando ‘os tempos de recessão econômica, de violência urbana, de tragédias climáticas’, enfim de notícias que servem para deixar-nos aflitos e perplexos com nosso amanhã! Mas Daniel lembra ‘angústia’. Este sentimento é um termo recorrente na bíblia. Ela é aquele “aperto no peito, aquele desconforto” que sentimos quando alguma coisa em nossa vida saiu de sua normalidade. Algo foi para longe de “nossa administração” e por isso nos angustiamos! Perdemos em certa medida o controle das coisas!!

Mas a angústia na realidade sempre esta apontando algo positivo! Mesmo que num primeiro momento todas as coisas estejam desmoronando. Ela pode estar antecipando uma “nova aurora” na vida!! Daniel esta falando deste tipo de “angústia”. De uma angústia que tem a ver com um novo nascimento! Se primeiro nosso profeta anunciou “um tempo de angústia, como nunca houve (…), desde que as nações começaram a existir” (Dn 12, 1). Ele também anuncia um amanhã de esperança: “nesse tempo, teu povo será salvo, todos que se acharem inscritos no livro”(Dn 12, 2)! O sofrimento é sempre dialético! Ele surge e a primeira impressão que nos deixa é que tudo ruiu. No entanto, o mistério do sofrimento traz consigo um outro lado, que não vemos, mas que já esta  presente! São Paulo soube definir como poucos esta relação que existe entre a “angústia e renascimento a morte e a ressurreição: “ sabemos que a criação inteira geme e sofre as dores de parto até o presente. E não somente ela. Mas também nós, que temos as primícias do Espírito, gememos interiormente, suspirando pela redenção de nosso corpo. Pois nossa salvação é objeto de esperança; e ver o que se espera não é esperar” (RM 8, 23-24)!

O apóstolo nos ajuda a encarar os tempos de escuridão e dúvidas que surgem “sem aviso prévio” em nossa vida! Não somos só nós que estamos sofrendo no momento. É algo maior, é toda a criação que esta sendo recapitulada por Cristo, e neste processo “geme e sofre como dores de parto”, para um novo nascimento, quando seremos tudo em Cristo: “ Ali não há mais grego nem judeu, circunciso nem  incircunciso (…) escravo, livre mas Cristo é tudo em nós” (Cl 3, 11)!!

Daniel explicita este mesmo processo desta belíssima forma: “ os que tiverem sido sábios, brilharão como o firmamento e os que tiverem ensinado a muitos homens os caminhos da virtude, brilharão como as estrelas, por toda a eternidade” (Dn 12, 3)!

A partir da Palavra de Deus: Como você deve viver os tempos de angústia e escuridão em sua vida de fé? Como um tempo em que tendo a sensação de ter perdido o comando das coisas, lembre que Deus está no controle e preparando algo muito melhor para sua vida com Ele!

O evangelho de Marcos 13, 24-32, radicaliza mais ainda momentos de crise e desolação na vida dos discípulos. Jesus anuncia tempos em que: “depois da grande tribulação, o sol, vai escurecer e a lua não brilhará mais, e as estrelas começarão a cair do céu e as forças do céu serão abaladas” (Mc 12, 25)!! O evangelista fala de uma tribulação que atinge a própria criação. O céu, o sol, a lua e as estrelas são símbolos sempre do divino. Na antiguidade apontam sempre para a morada e o poder de Deus! E também eles serão transformados! Mas se existe um “temeroso” anúncio na tribulação, há também uma grande revelação de bens futuros que iram acontecer:  “ assim também, quando virdes acontecer essas coisas, ficai sabendo que o Filho do homem está próximo, às portas. Em verdade vos digo, esta geração não passará até que tudo isso aconteça. O céu e a terra passarão, mas minhas palavras não passarão” (Mc 12, 29-30) !!

Na realidade neste final de semana a liturgia esta nos chamando atenção para um “desfecho de todas as coisas”! Sim nós estamos a caminho do final do ano litúrgico. E como na liturgia as coisas seguem um ciclo. Na vida também. A liturgia será sempre símbolo da vida! E ela (liturgia), esta nos exortando a duas realidades que são partes essenciais da vida cristã. Uma é a da “finitude”. Nós não somos “imortais”, ainda que a sociedade atual queira a todo o custo convencermo-nos que sim. É exatamente por isso que estamos desaprendendo a passar pelo sofrimento como algo que pode ser muito bom. Pois no mundo atual não há mais lugar para “perdedores”! A outra realidade é a da esperança: Da virtude teológica da “Esperança”. Que também nossa sociedade se interessa muito que ela venha a desaparecer de nosso cotidiano. Pois ela quer reduzir tudo ao “aqui e agora”. Tudo!! Mas a virtude da Esperança anuncia que este “tudo” esta para ale do que vemos. Diz que o mundo está nas mãos de Deus,  se encaminha e se realizará somente Nele!!!

Queridos confiemos “tudo” aos cuidados de Deus. Sem querer controlar as coisas:

Quanto aquele dia e hora, ninguém o sabe, nem os anjos do céu, nem o Filho, mas somente o Pai”!!

O Salmo deste domingo encerra esta meditação nos convidando a uma atitude que devemos ter nos “duros, mas precisos tempos de provação”: “Ó Senhor sois minha herança e minha taça, meu destino está seguro em vossas mãos! Tenho sempre o Senhor ante meus olhos, pois se o tenho ao meu lado não vacilo” (Sl 15, 5)!!

O que têm saciado nossa sede e fome?

jesus-e-a-samaritanaXXXII Domingo Comum

(1 Rs 17, 10-16; Sl 145; Hb 9, 24-28; Mc 12, 38-44)

Do que mais sentimos fome? Do que você tem sede? O que precisa ser preenchido em nós? Por que sinto esta sensação de vazio em mim? Por que existe uma séria diferença entre alimentar-se e encher-se de coisas, nutrir-se e enfastiar-se!!

Nós muitas vezes nos enchemos de comidas e coisas que nos deixam a sensação de que apenas um aparte de nós esta satisfeita, uma dimensão material, corporal, porém, há algo, outra parte de, que continua sedenta!!

E por que isto acontece? Porque no fundo todos temos um apetite, um desejo, uma necessidade interior “de um alimento que não pereça”(Jo 6, 50), de sermos saciados no interior, no coração, e enquanto não tocamos esta experiência, permanece na alma humana a estranha sensação de que algo ainda não foi preenchido!!

Talvez tenhamos de nos perguntar: de que alimento afinal precisamos? E qual é então, o apetite e o desejo humano? João da Cruz o místico carmelitano em uma de suas grandes obras: “Subida ao monte Carmelo”, nos ajuda na compreensão deste mistério: “ Por isto tendo Deus pena dos que com tanto trabalho e à custa própria, andam a satisfazer a sede e a fome do apetite nas criaturas, diz-lhes: ‘ Todos que tendes sede’ causada pelos apetites, ‘ vinde as águas, e ‘todos os que não tendes dinheiro’ da própria vontade e apetites ‘ apressai-vos; comprai de mim e comei; vinde e comprai de mim vinho e late’ (paz e doçura espiritual) sem dinheiro’; ‘ Vinde e ouvi-me, e comereis o bem que desejais e a vossa alma se deleitará com os manjares substanciosos ” (In livro I, Cap. 7, 3)!!

São João da Cruz cita o celebre texto do profeta Is 55 1ss, exortando-nos a buscar um alimento que possa saciar aquela ‘sede e fome’ que somente Deus é capaz de suprir: é disto que fala a liturgia deste final de semana: Fala de fome, de sede, de generosidade e entrega de tudo o que se têm! Mesmo que o “tudo” sejam apenas duas moedinhas!!

O profeta Elias na primeira leitura é o símbolo do homem sedento! Ao lado dele esta uma viúva e seu filho!! A cena não aspira nenhuma abundância econômica. Na verdade grande indigência: “ Favor traze-me um pouco de água para beber” (1 Rs 17, 11); “ Traze-me também um pedaço de pão”! Pede-lhe Elias! Claro, o texto lembra-nos outro encontro, motivado por “fome e sede”! Jesus ao encontrar a samaritana lhe diz: “ Dá-me de beber” (Jo 4, 7)!!

A viúva ao responder revela sua condição de vida: “ não tenho pão cozido, tenho apenas um punhado de farinha numa vasilha e um pouco de azeite numa jarra (…) vou preparar este resto para mim e meu filho; (..)comeremos e depois esperaremos a morte” (1 Rs 17, 12)!! Na verdade é muito pouco o que tenho e sua “sede e fome”, são muito grandes!! Não tenho como te saciar!!! E ainda mais, tenho que alimentar meu único filho: Ela bem poderia ter assim respondido a Elias!! Mas não, confiou na palavra do profeta e no gesto de partilhar o pouco fez a profunda experiência de Deus!!! Teve sua fome e sede saciada, durante muito tempo!!

A vasilha de farinha não se esvaziará e a jarra de azeite não acabará, até o dia em que Deus enviar chuva sobre a terra. Ela partiu e fez como Elias dissera, e comeram, ela, ele e o filho por muito tempo” (1 Rs 17, 16)! A viúva de Sarepta que como a samaritana era uma mulher pagã!! E que antes parecia tão “amarga”, “esperando a morte”, descobre em Deus o verdadeiro alimento! Como a samaritana que pede a Cristo: “ Senhor dá-me desta água, para que não tenha mais sede” ( Jo 4, 9)!!

Ambas as cenas são na realidade imagens de uma verdade mais profunda e que dá sentido a nossa liturgia!! Jesus é quem no alto da Cruz diz: “Tenho sede” (Jo 19, 28)! E na verdade é Ele mesmo que tem sede de nós!! Ele que está atrás de nossa “fome e sede” pelos desertos de nossa vida!! Nós ao contrário continuamos procurando um alimento material, saciando apetites que não preenchem nossa interioridade!!!

Ouçamo-lo dizer no “deserto da Cruz” a nós: “Tenho sede de você”!!

Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados, pelo peso de vossos fardos e eu vos darei descanso” (Mt 11, 29)!!

No evangelho deste domingo encontramos outro aspecto importante desta liturgia: Ela aponta também para a generosidade! Jesus esta observando como a multidão lançava suas pequenas moedas no tesouro e como os ricos lançavam muitas moedas (Mc 12, 41)! Percebe uma “pobre viúva”, lançando apenas duas moedinhas!! Esta pobre viúva do evangelho deu mais que todos!!! Ela depositou no templo a sua vida! Ela é um símbolo de alguém que teve a fome e a sede saciada por Deus!! E descobriu que tudo que têm é dele!!!

“ Porque todos ali deitaram do que lhes sobrava, mas esta, da sua pobreza, deitou tudo o que tinha, todo seu sustento” (Mc 12, 44)!