“Diante do Cordeiro com vestes brancas e palmas nas mãos, a santidade torna melhor o mundo” (Ap 7, 10)

 

 

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Solenidade de todos os Santos

(Ap 7, 2-9; 9-14; Sl 23; 1 Jo 3, 1-3; Mt 5, 1-12)

O livro do Apocalipse abre a liturgia da Palavra desta solenidade com uma visão: “Vi um anjo que descia do oriente com o selo do Deus vivo” (Ap 7, 2)!! As visões, os sonhos, a numerologia, a linguagem simbólica permeia a literatura apocalíptica. Ela é rica destes sinais e por isso parece incompreensível para muitos ainda!!  Celebramos hoje a festa litúrgica de todos os santos: Tal qual acontece no gênero apocalíptico a santidade de vida é também marcada por visões, por sonhos, pela linguagem simbólica e mística e claro, também por um pouco de incompreensão:  a busca pela santidade se encontra sempre as “avessas” de certos parâmetros de normalidade de vida cristã que podem se cristalizar com o tempo podendo passar do “estado normal para um estado morno”!!

Quando o apóstolo João tivera as visões na redação do livro do Apocalipse: os santos eram mártires: “eram aqueles que vinham da grande tribulação; lavaram as suas vestes e alvejaram-nas no sangue do cordeiro” (Ap 7, 14)! É uma imagem impressionante, a santidade para os primeiros cristãos significava o martírio: um testemunho de fé tão forte que comprometia toda a vida, imitar a Cristo significava, dar a própria vida por Ele! Muitos foram os mártires no início do cristianismo, o apocalipse fala de “uma grande multidão que ninguém podia contar, de todas as raças, tribos, povos e línguas. Estavam de pé diante do trono Cordeiro, trajados com veste brancas e com palmas na mão” (Ap 7, 10)! O simbolismo desta visão joanina fala de uma realidade que nos espera no futuro,  mas que no presente já experimentamos, e que é o fundamento de toda vida que por graça,  quer aventurar-se pelos caminhos da santidade: “ o estar em pé diante do cordeiro, com veste branca e palmas na mão” (Ap 7, 10)!

Outra imagem forte do texto: Os santos são aqueles que permanecem diante do Cordeiro. A visão evoca comunhão, amizade e intimidade: “ Eu e o Pai somos um” (Jo 10, 30)! Mas não basta apenas estar em pé contemplando o Senhor, é preciso também ter “veste brancas”! No tabor o Senhor apareceu aos discípulos transfigurado, “suas vestes tornaram-se resplandecentes, extremamente brancas (…) que nenhum lavadeiro na terra poderia alvejar” (Mc 8, 3). As vestes brancas são sinais de santidade,  da pureza, da vida nova em Cristo! Elas se tornaram brancas depois de serem lavadas no sangue do Cordeiro! Só porta uma veste “alva” que derramou também seu sangue por Cristo! Não é apenas uma “roupa nova” é uma “vida nova” que nasceu da cruz de Cristo!! Além das vestes, os santos levam também “palmas nas mãos”: elas são o sinal da castidade!! A castidade é amiga da santidade!! Na antiguidade não estava ligada apenas a moral sexual! Imprimia e significava que toda a vida deveria estar voltada para Deus! Era comparada a “fronesis ”, isto é a virtude da “prudência”, que os filósofos tanto buscavam! Ser casto no mundo antigo era um testemunho de docilidade, obediência e pureza de coração!!!

Os símbolos que marcaram a santidade nas primeiras eras do cristianismo, continuam presentes e atuais em nossos dias!! Ainda é preciso estar em “ pé diante do Cordeiro”: A intimidade e comunhão com o Senhor são imprescindíveis neste itinerário de vida!! A “veste branca”, a pureza de vida em nossos tempos é um grande testemunho!! Sem falar das “palmas”! É mais do que nunca necessário levá-las às mãos e coração, testemunhando ainda que no silêncio nossa consagração que vêm do batismo ao Senhor!!

Mas a santidade é também visão! Mais do que isto é ver a partir de Deus!

No evangelho deste final de semana, Jesus subiu no monte e de lá viu as multidões!! E o que Jesus viu? Pobres em espírito (Mt 5, 3) e neles toda a liberdade para o Reino! A pobreza é sinal de desapego, liberdade e de amor! Quem nada tem como próprio tudo pode dar! Subindo a montanha Jesus viu na pobreza, um dom, nós devemos subir em Cristo, nesta montanha espiritual para ver também tudo a partir dele! Ele viu que os “puros de coração verão a Deus”( Mt 5, 8)!!

Quem são eles, os puros de coração, os aflitos, os com fome e sede de justiça, que elencam as Bem Aventuranças: Aqui o livro do Apocalipse também nos auxilia, e revela que a santidade também é uma marca. Estes são todos os que foram marcados com um sinal em sua fronte: “ não danifiqueis a terra, o mar e as árvores, até que tenhamos marcado a fronte dos servos do nosso Deus” (Ap. 7, 3)!!

Num mundo que dá todo o privilégio as marcas exteriores: nas roupas, no corpo, na estética! A santidade imprime também sua marca! São Francisco foi marcado pelo Senhor e deixou uma grande marca na história, Santa Teresinha foi marcada por grande sofrimento e nos deixou um caminho lindo espiritual, Santa Teresa de Calcutá, marcada pela dor, amou e marcou nosso tempo com o cuidado dos mais pobres entre os pobres!! São muitos os exemplos!!

Todos eles tinham pequenas armas nas mãos: A visão do cordeiro, a veste branca e palmas nas mãos. E você que marcas a vida te deu!! De alegrias ou sofrimentos, não importa! Importa tomar as mãos estas singelas armaduras e com elas deixar no mundo também marcas do eterno!! Pode custar muito, doer muito, mas sempre valerá a pena. A santidade torna muito melhor o mundo que vivemos!!

http:///www.youtube.com/watch?v=aqeZTE1Dalk

“É sempre preciso ver de novo”

bartimeoXXX Domingo Comum

(Jr 31, 7-9; Hb 5, 1-6, Mc 10, 46-52)

Neste XXX domingo do tempo comum a liturgia da Igreja apresenta a cura do cego Bartimeu. O episódio acontece antes do ingresso triunfal de Jesus em Jerusalém. Jesus está em caminho com seus discípulos a capital, porém antes entra em Jericó e ali é interpelado por um forte grito: O clamor envolve um sentimento: a compaixão!!

A compaixão moveu sempre o coração de Jesus: Ele se compadece dos famintos, dos doentes (Mt 14, 14),  do filho pródigo (Lc 15,20), dos pecadores (Mt 9, 36), enfim, este sentimento habitava o interior de Jesus e logo o impelia para que se voltasse inteiramente ao sofrimento alheio!! A compaixão sentida por Cristo, tão logo o conduzia ao milagre e as curas! Mas primeiro nascia a compaixão!

No mundo que vivemos marcado pelo pragmatismo nas relações interpessoais, a compaixão vai perdendo espaço!! No lugar dela esta a “pressa” e a “preocupação por si mesmo”! O tempo medido e controlado onde as coisas não podem sair fora do “combinado”! A compaixão ao contrário exige um tempo diferente! É o tempo da escuta, de estar ao lado do outro, de ouvir seu grito, de “perder tempo”, de dedicar-se, de compadecer-se com a dor, de reaprender a “arte” da solidariedade!!

Isto serve para o mundo secular, mas também para nossos planos de Evangelização!! Eles estão por demais marcadas pela “técnica” e menos pela “arte”!! São Gregório Magno no Séc. VI, escreveu uma grande obra: Regula pastoralis (Regra Pastoral)! Nela definia a atividade pastoral como a “Ars est artium regimen animarum”: Traduzindo o autor: o cuidado com as almas é a arte das artes!!

Talvez tenhamos de redescobrir isto: Fazer com que nossa evangelização toque mais fundo o coração e menos na cabeça!!! Exemplificando: Quando você tem a oportunidade de ver uma grande peça de teatro, ou uma famosa sinfonia, um grande filme no cinema, você faz experiência do coração. A arte é um sinal de como a liturgia deve ser: A arte provoca em cada um de nós a experiência do belo, do transcendente, ela nos eleva!!! A liturgia e a evangelização devem proporcionar o mesmo!!! Para isso precisa de novo ouvir e perceber que o milagre vêm seguido da compaixão. E dom de ser compassivo acontece quando “o individuo” é percebido, notado por nós, como o foi por Jesus!!

Jesus nos ensina muito bem isto nesta liturgia! Ele tem um objetivo: seguir com seus discípulos a Jerusalém. Porém enquanto está a caminho, muitas situações o interpelam. Ele não muda sua rota, seus objetivos, mas é capaz de sensibilizar-se sempre diante da dor de quem encontra no caminho!

Em Jericó um cego de nome Bartimeu o fez parar: Ele estava sentado a beira do caminho à porta da cidade, mendigando! Esta era a situação de Bartimeu: “a beira do caminho, cego e mendigando”! Como os tantos “Bartimeus” que encontramos todos os dias em situações semelhantes em nossas cidades. Passamos por eles, ora os vemos, ora fechamos nossos olhos para não vê-los. A compaixão cede lugar à indiferença, que é sua oposição!! A palavra do Senhor neste final de semana quer “fazer-nos ver de novo”!! Quer curar um tipo de cegueira que tem fechado nossos olhos e coração à dor de nossos irmãos!

O cego Bartimeu apesar de sua desfavorável condição demonstra grandeza!! Ao ouvir que Jesus estava passando começou a gritar: “Jesus filho de Davi, tem compaixão de mim”! (Mc 10, 47)! Bartimeu não poderia perder esta oportunidade em sua vida! Não poderia deixar que o “filho de Davi”, passasse em vão, por sua vida sem que o visse!!! O percebesse!! O clamor de Bartimeu, foi ao coração de Jesus, e Ele por instantes interrompeu seu caminho para estar com um desprezado, esquecido por todos e a beira do caminho!

Na evangelização, às vezes esquecemos-nos daqueles que se encontram a beira do caminho!! Estamos atentos a um grande grupo que encontramos em nossas paróquias, comunidades e movimentos eclesiais. Mas há também os “da beira do caminho”, que clamam também por nossa percepção e compaixão!

O evangelho nos fala também da insistência de Bartimeu. Muitos queriam calar sua voz! “Mas ele gritava ainda mais, Senhor tem compaixão de mim” (Mc 10, 49)!! Foi o grito, que parou Jesus! E logo fez que o chamasse! O grito o clamor fez Jesus “escutar, ver e aproximar-se de Bartimeu”.

Será que estamos ouvindo o clamor dos ‘Bartimeus’ que estão à beira do caminho, nas ruas de nossas cidades? Jesus aproxima-se do cego e o pergunta: “Que queres que te faça?”(Mc 10, 51)! Bartimeu responde: “Mestre que eu veja” (Mc 10, 52)! Os olhos de Bartimeu foram abertos e ele o seguiu pelo caminho!!!

A cura da visão deste homem é simbólica para todos nós!! Também precisamos “ver de novo”! Precisamos reaprender a escutar novamente o grito de dor de nossos irmãos. Não somente com os ouvidos, mas também com o coração!! Superar o mal de todo indiferentismo que ainda possa existir dentro de nós! A cura de Bartimeu é na verdade também nossa!! Ele passou a ver a Deus e o seguiu. Nós precisamos ser curados, para “ver de novo nossos irmãos que sofrem”! Ouvir sua dor, aproximar-se, e dizer a estes o que Jesus compadecido disse a Bartimeu: Irmão (a), Que queres que te faça? Em que posso te ajudar?

Que o bom Deus realize em nossa vida este milagre! Da cura do coração e depois da visão: Precisamos sempre ver de novo!!!

 

“Amar e servir, os lugares ao lado de Cristo”!!!

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(Is 53, 10-11; Sl 32; Hb 4, 14-16; Mc 10, 35-45)

A liturgia da Palavra deste final de semana nos recorda um dos binômios mais profundos do cristianismo: amar e servir! Ele é a própria imagem de Jesus Cristo presente em cada uma das páginas do Evangelho!!  Jesus sabemos foi um profeta “taumaturgo”(poderoso em obras e em palavras), mas o “melhor” de sua mensagem não está no poder que tinha recebido do Pai em realizar milagres e sim na forma de como exerceu este poder, na forma servi:

“Se, portanto, Eu , o Mestre e o Senhor, vos lavei os  pés, também deveis lavar os pés uns dos  outros. Dei-vos o exemplo para que, como eu fiz, também vós o façais” (Jo 13, 14-15)!!

O outro “lado da moeda” do ministério de Jesus esta no ato de amar!! Ele vive seu ministério entre os seus no amor: “Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13, 1). O cristianismo não conhece palavra melhor de anunciar o evangelho que:  amando o próximo, os inimigos, até mesmo seus perseguidores: “ Se amais somente os que vos amam que recompensa tereis? Não fazem os publicamos a mesma coisa?”(Mt 5, 46)!

Mas o que vêm a ser realmente o amor na pregação de Jesus Cristo? Em primeiro lugar não é o amor romanceado e amaciado das séries e novelas de hoje, onde impera muitas vezes apenas sentimentalismo e o direito a uma satisfação pessoal e egoísta. Nem mesmo uma resignação quase estóica, onde não há espaço para nenhuma gratuidade e alegria e tudo se torna muito rígido e rigoroso. Não é este o amor que Jesus quis ensinar a seus discípulos!

O amor que o Senhor revelou a seus amigos é o amor doação. Talvez a melhor maneira de compreensão desta forma de amar se encontre na doação dos pais pelos filhos. A satisfação dos pais se dá na realização pessoal de seus filhos. Para isso eles são capazes de empreender o maior esforço possível: gastam suas vidas, seu tempo, seu sono, suas economias, para que os filhos sejam felizes,  tenham saúde, educação e realização pessoal. Esta entrega de um pai pelo filho, não é de forma alguma mero estoicismo, antes, é uma doação feita com gratuidade e forma de expressão de amor. Amor que se realiza quando o outro se torna feliz!!! Este é um sinal do amor de Cristo pelos seus amigos: “ Ninguém tem maior amor do que  aquele que da a vida pelos seus amigos” (Jo 15, 13).

A grande novidade de Jesus é que Ele une estes dois pólos em seu ministério, a tal ponto de que amar e servir não podem mais ser entendidos separados um do outro!! Ele serve porque ama Ele ama sendo servidor:

Tende em vós os mesmos sentimentos de Cristo Jesus. Ele, estando na forma de Deus, não usou de seu direito de ser tratado como um deus, mas se despojou, tomando a forma de um escravo” (Fl 2, 6ss).

A liturgia deste final de semana toma este caminho: Conjuga amar e servir na mesma Pessoa. No entanto alguns de seus discípulos ainda não haviam compreendido tudo isto!! Tiago e João os filhos de Zebedeu tinham grandes pretensões. Eram desejosos de sentarem um a direita e outro a esquerda de Cristo. Almejavam lugares ao lado do Senhor! Jesus não repudia suas intenções, pois Ele não rejeita nossos desejos, mesmo que sejam precipitados. Ele na verdade acolhe-os e os eleva! A Tiago e João conhecidos como filhos do trovão, o Senhor oferece um caminho de elevação sim, mas este passa primeiro pela subida ao monte da Cruz. Mesmo lugar no qual Cristo foi elevado, e todos os discípulos o são!! Esta é a purificação necessária que nos coloca ao lado esquerdo e direito de Cristo, isto é, em um pé de igualdade a Ele, crucificados e elevados como Cristo:

Não sabeis o que pedis. Podeis beber o cálice que eu beberei e ser batizado com o batismo com que eu for batizado? (…) Todavia, o assentar-se a minha direita ou à minha esquerda não cabe à mim concedê-lo, mas é para aqueles aos quais isso foi destinado” (Mc 10, 39-40)

A via da cruz é sempre um paradoxo!!! Não é fácil compreendê-la!! No entanto é o caminho certo e seguro! É um itinerário de purificação, encarnação com Cristo e solidariedade com os irmãos!

Os outros dez começaram a indignar-se contra Tiago e João. A estes Jesus propõe o caminho do serviço: Não há grandes problemas em querer assumir lugares de governo na Igreja. Pelo contrário, o que se percebe hoje em nossos dias, é tantos com dons e carismas de condução e pastoreio que acabam por se esquivar destas “funções” por medo da responsabilidade que comportam!

O problema não esta em desejar lugares de honra, mas sim no porque se quer desejá-los! Aos irmãos Tiago e João, Jesus apresenta o caminho da cruz. Aos outros dez, a via do amor e do serviço: “ Sabeis que  aqueles que vemos governar nações as dominam, e os grandes as tiranizam, entre vós não será assim, aquele que entre vós quiser ser grande seja o vosso servidor” (Mc 10, 43-44)!

Aqui se encontra o núcleo desta palavra: Seja grande, mas antes servidor! A grandeza centrada e si mesmo com facilidade se transforma em tirania, enquanto que o ministério exercido no serviço aos irmãos se torna uma forma de configurar-se a Jesus, que não veio para ser servido mas para servir! (Mc 10, 45)

Mas por que Jesus escolhe este caminho para si e para os que o seguem? Por que Jesus prefere para seus discípulos o “lava pés”, aos lugares de honra? Porque o ministério do serviço, do último lugar, esconde na realidade um “mistério”!! Os doze ainda não haviam compreendido. Precisaram beber o cálice e serem batizados com o mesmo batismo de seu mestre! Precisaram ser “descortinados no alto da cruz”, para perceberem que no servir está o amor!!!

Quando o Senhor exorta seus discípulos dizendo: “ quem quiser ser o maior, seja o vosso servidor” (Mc 10, 45). Ele esta também dizendo: “Tendo amado os seus amou-os até o fim” (Jo 13, 1)!

Esta nos ensinando ainda outra coisa muito singular: os lugares, as honras, as grandes aspirações eclesiásticas, não tem sentido sem o servir!!! E na mesma medida, todo discípulo que descobriu o caminho do “lava pés”, entendeu também o seu verdadeiro lugar na Igreja!!  Este esta sentado ao lado de Cristo!!

Descobriu também que o ministério do servir, não é um lugar menor na Igreja. É o único lugar que os cristãos devem estar!!! Pois lá Cristo está amando novamente naquele que serve!!!

Compreendi que o amor encerra todas as vocações e que o Amor é tudo, então com imensa alegria exclamei: encontrei finalmente a minha vocação, a minha vocação é o Amor. No coração da Igreja minha mãe serei o amor” (Santa Teresinha do menino Jesus)

 

Que herança queremos receber?

Jesus-e-o-jovem-ricoXXVIII Domingo Comum

(Sb 7, 7-11; Sl 89; Hb 4, 12-13; Mc 10, 17-30)

O tema referente às heranças toca as relações familiares desde sempre. Na maioria dos casos quando entra a questão do direito às heranças as relações familiares acabam se revelando. A sujeira que passou por décadas debaixo do tapete da casa vem à tona e com ela discórdias, divisões, acusações, pois todos se sentem no direito de receber a sua parte! Todos querem uma fatia deste bolo, pois para muitos será a única forma de dar uma “melhoradinha na vida sem ter de empregar menor esforço”.

Na liturgia da Palavra deste final de semana nos fala também sobre o tema da herança! A herança recorda que alguém deixou para você algo que é um “tesouro, um bem precioso”, e de forma gratuita. Por isso todos os que são por direito herdeiros de alguma coisa, deveriam antes de “pensar em si ou em sua parte”, recordar com respeito aquele que gratuitamente deixou algo de si para outros!

O evangelho de Marcos lembra-nos o episódio do jovem rico. É uma pérola literária de são Marcos. Aquele jovem que com grande dignidade ao aproximar-se de Cristo revela sua educação e ao mesmo tempo a dignidade do Senhor (na idade média este texto foi traduzido no lugar de jovem: ‘um homem nobre’…), pois se ajoelha diante do Senhor e lhe dirige uma pergunta que soemente alguém com grandes princípios poderia fazer: “Bom mestre que farei para herdar a vida eterna?”(Mc 10, 17)! O “homem nobre” do evangelho pergunta sobre algo profundo e que raramente pode ser ouvido neste mundo!! Sobre a vida eterna. Perguntamo-nos muitas vezes sobre as coisas que passam, sobre as preocupações do amanhã, sobre o aqui e agora. O jovem pergunta sobre a maior herança humana: a Vida eterna.

O Senhor o responde a partir dos mandamentos! Era uma concepção do judaísmo que: “conhecer e amar os mandamentos” bastava para ganhar esta nobre herança!:

Não mates, não cometas adultério, não roubes, não levantes falso testemunho, não defraudes ninguém, honra teu pai e tua mãe” (Mc 10, 20)!

O jovem responde  dizendo  que era um observador da lei desde moço!! Mas ainda algo lhe faltava! Às vezes o que nos falta para ingressarmos de “peito e coração aberto” no mistério do Reino de Deus, não são as muitas coisas que devemos renunciar!!! É até muito fácil abrir mão das muitas tarefas, coisas, que só nos absorvem e estressam! O mais difícil é renunciar ao único!!É neste único que muitíssimas vezes prendemos o nosso coração! O “homem nobre” do evangelho, talvez tenha esquecido que o primeiro mandamento começa dizendo: “Iahwéh nosso Deus é o único, portanto amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração” (Dt 6, 4)!!

Continuando o diálogo com o jovem, Jesus realiza um dos gestos mais impressionantes do evangelho:  “Fitando-o Jesus o amou e disse ”(Mc 10, 21). Jesus sabia que estava diante de um homem especial! Ele não era de maior ou de menos importância que os “pescadores” do evangelho que vieram a se tornar depois seus discípulos! Mas certamente era alguém, diferenciado. Com uma boa formação cultural e social! Pois havia feito uma singular pergunta.  Amando-o Jesus lhe disse: “Uma coisa só te falta” (Mc 10, 21b)! Não muitas, mas apenas uma! Por que o amor é para ser dado aquele que é o “Único”:

Vai, vende teus bens, dá aos pobres e depois me segue” (Mc 10, 21b)! Lembremos que o jovem aproximou-se de Cristo por um elevado motivo: herdar a vida eterna! E este é um grande bem, pois é o próprio Cristo e que para ganhar esta herança vale apena abrir mão daquilo que é único para nós, e que deve estar tomando o lugar de nosso Único!!

O jovem do Evangelho é um símbolo de nossas vidas. Existem amores, apegos a bens ou pessoas. Egoísmos que temos e que não temos coragem de deixar! São nossos únicos que na verdade não possuímos mas nos possuem! Jesus ao propor que este jovem venda seus bens quer conduzi-lo a uma experiência de liberdade que temos de ter enquanto discípulos de Cristo, de sermos inteiramente dele. (Dt 18,13)

Na primeira leitura o livro da Sabedoria fala de um grande tesouro. Chega a afirmar que: “ a pedra mais preciosa, todo ouro, ao seu lado é um pouco de areia, junto dela a prata vale menos que o barro” (Sb 7, 9)! O autor esta falando sobre o grande bem que é a Sabedoria que vêm de Deus! Sua Palavra seu logos! Já é aqui um símbolo de Cristo. E este é o bem de que somos herdeiros! Pois este não passa. É um tesouro no céu!!

Surge outro importante personagem no Evangelho. Agora é o discípulo Pedro! Um homem de personalidade simples, até mesmo rudimentar, diferente do “jovem rico”!

A questão de Pedro é profunda: “Eis que deixamos tudo para te seguir” (Mc 7, 29)!! Na verdade esta fala gostaria de expressar outra coisa: “E nós, que iremos receber em troca deste seguimento”, que recompensa virá”! Pedro não era homem de muitos bens, mas acaba se revelando não tão gratuito! Como o jovem ele ainda não havia percebido que o que já havia recebido! O bem é Cristo e a herança a vida eterna. Por estes bens, vale apena deixar: “casa, irmãos e irmã, mães, pai, filhos ou terras por minha causa e do evangelho” (Mc 7, 30)!!

Não é deixar de amar estas coisas. Mas é amá-las a partir do “único sumo Bem”! É ele dá sentido e liberdade a estes “amores”!! E muitas vezes é preciso humanamente falando deixar algumas coisas! O filho tem de deixar o Pai e a mãe, senão não cresce! Não amadurece. Não se identifica como um outro! É preciso também deixar o apego de irmãos e irmãs, para estar sempre aberto a receber os outros irmãos (a) que o Senhor vai “concedendo na missão”! É preciso deixar também “terras”! Para muitos ter uma casa, um campo, um sítio, é uma prisão! Nossa terra é o céu meus irmãos! Esta é nossa maior herança!!!!

“ Uma coisa só te falta: o que te resta por fazer que é bom as já à margem da lei que a lei não dá, que não se encaixa dentro da lei, é próprio dos possuidores da verdadeira vida. Em uma palavra aquele que tinha cumprido toda a lei desde a infância e que disse de si coisas grandes e soberbas (…) Na realidade, não ambicionava de verdade a Vida, como parecia deduzir-se de suas palavras (…) com certeza podia se esforçar por fazer muitas coisas, porém era incapaz de fazer aquela única coisa, aquela obra de salvação, dar de seu único.” (Clemente de Alexandria, in. Qui dives salvetur).

 

“Deus não quer o Homem só!!” (Gn 2, 18)

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(Gn 2,18-24; Sl 127, Hb 2, 9-11, Mc 10, 2-16)

A solidão é um sentimento que ninguém gosta muito de experimentar! Vive-se fugindo dela! Nossa sociedade é “especialista” em encontrar “paliativos” que nos dêem a sensação de que não estamos a sós no mundo! Que estamos sempre rodeados por muita gente, por muito barulho, por muitos “amigos”!!

É só analisarmos quantas curtidas terão nossas postagens no Facebook! Se são muitas, ok!!! Ficamos felizes, se poucas… humm,  uma desconfiança vai crescendo e nos fazendo pensar que não somos assim tão “queridos” como pensamos!!

Deus sabe da dor da solidão e Ele mesmo percebeu desde as origens que não era bom para o homem estar só! (Gn  1, 18). E então modelou do solo, todas as criaturas, para que o homem as nomeasse!!

Este simbólico gesto de Deus, não pode passar desapercebido por nós nesta meditação!! Contém um significado interessante! Está no principio de superação de toda a solidão humana: Primeiro Deus forma todas as aves dos céus e todas as feras selvagens do solo. (Gn 2, 19). (Como antes havia “plasmado” Adão da argila do solo!) (Gn 1, 7)! Isso é indicativo para todos nós! Revela que todos os seres animados têm algo em comum conosco!! Temos todos uma mesma “origem”, como lembra uma bela canção de Renato Teixeira, somos “farinhas do mesmo saco e galinhas do mesmo ovo” (Irmãos da Lua)! Este princípio de identidade na narrativa de Gênesis é no símbolo o “solo, a argila”, mas na ordem divina é o próprio Deus que nos criou com suas mãos!

Deus conduziu todas as criaturas para que o homem as chamasse: “ cada qual devia levar o nome que o homem lhe desse(…). E o homem deu nome à todos os animais(…)” (Gn 2, 20)!!

Ao dar nome as criaturas, começa um processo de identificação para o criado, e também para o homem! Dar nome é: chamar, identificar e diferenciar-se também! O nome revela isso: identidade e diferença: Pedro não é Paulo e pato não é ganso!! Nós vivemos hoje sob o signo das “paradas pela diversidade”, que na verdade, acabam por não respeitar muito o que é realmente diverso, procuram incutir uma cultura do todo, do homogêneo, sem respeitar que existem particularidades e valores em todas as sociedades, que devem no mínimo ser respeitados!

O homem percebeu que não é semelhante aos animais! E continuou estando só! No mundo acontece o mesmo! Somo muitas vezes preenchidos por muitas coisas, pessoas, animais de estimação, dispersões, festas, mas muitas vezes lá continuamos a sós! Por que a solidão sentida, não é resolvida por coisas externas! Elas ajudam até a aliviar a dor! Mas o problema continua ali!! Pois mistério da solidão está ligado a “semelhança”, a identificação e a diferença!!

A narrativa do gênesis nos afirma: “que o homem não encontrou uma auxiliar que lhe correspondesse” (Gn 2, 20)! Por mais que os animais estivessem ao seu redor, não se identificou totalmente a eles!! Por isso após um sono profundo “tomou uma das costelas (…) Depois da costela que tirará do homem, Deus modelou a mulher e a trouxe ao homem” (Gn 2, 22)! E o homem exclamou: “ Esta sim é osso de meus ossos e carne de minha carne”(Gn 2, 23)! O homem identificou-se com alguém que lhe era semelhante: “ossos dos meus ossos, carne de minha carne”, mas ao mesmo tempo diversa: Ela será chamada mulher! (Gn 2, 23)!

A solidão é superada quando se é respeitado estes dois pólos: a semelhança e a diferença, o si mesmo e o totalmente outro! Por isso o matrimonio é uma imagem de Deus que levamos conosco: “e eles se tornaram uma só carne” (Gn 2, 25)!!

Ele revela na união do homem com a mulher, na identidade e diferença, aquilo que devemos encontrar também o Senhor: Há um caminho de esposamento, de aliança que somos chamados a ter com nosso Deus!! Há Ele somos semelhantes, mas Ele é também um Outro, que preenche qualquer solidão humana!! Nele jamais ficamos sós!

O Evangelho deste final de semana fala também do mistério do matrimônio: Nele Jesus é interpelado pelos fariseus sobre uma questão referente à lei: “ É permitido ao marido repudiar sua mulher ?” Jesus responde com uma pergunta: “Que vos ordenou Moisés?” (Mc 10, 2-3)! A lei garantia uma carta de divórcio em caso de adultério!! (Dt 24, 1). Mas isto não basta a Jesus. Ele quer aprofundar o mistério do matrimônio! Os fariseus ao contrário querem se autojustificar e tomar o caminho mais fácil!

Jesus fala que Moisés permitiu a carta de divórcio por causa da dureza de coração (Mc 10, 4)! No texto grego original o termo é a “esclero cardia”, isto é: uma esclerose do coração! Conhecemos pessoas quem sofre de esclerose muscular: Como que infelizmente o corpo se degenera, sofre, como as articulações se contorcem! Jesus esta apontando para um processo de enrijecimento do coração, que leva a aceitar que esta aliança venha a ser dissolvida!

Há situações que são inevitáveis no matrimônio! Não há como evitar uma separação! Tão grande são os processos de divisão, de mágoas, às vezes de traição, que levam claro a um afastamento!!

Mas Jesus continua apontando o mistério: “ Desde a criação ele os fez homem e mulher. Por isso o homem deixará o seu pai e sua mãe e se unirá a sua mulher, e os dois serão uma só carne, não se separe o que Deus uniu”(Mc 10, 6-9)!

“Jesus não estabelece nenhum mandamento, ele acentua apenas que Deus criou o homem e a mulher à sua imagem e os destinou um ao outro. A criação consiste na união de ambos. É uma dádiva de Deus aos seres humanos: no amor conjugal, o homem e a mulher participam do ser uno de Deus. Na sua união física é lhes dado experimentar o fim de toda a criação: tornar-se uma com Deus. Mas a união física aponta também, uma união espiritual (sacramental)! Por ser essa a razão mais profunda de sua união, o homem não deve separar o que Deus uniu! Jesus esta falando do sentido do casamento. O que se tornou “uno”, na diferença, deve continuar unido!”(Grun, Anselm)!

O mesmo em nossa relação com Deus! Deus nos uniu a Ele! Nada poderá separar : “ Se Deus está conosco quem será contra nós? Que não poupou seu único filho e o entregou por todos nós” (Rm 8, 28)!!

O mistério da cruz, é a via da não dureza de coração no matrimônio!! A cruz participa de toda união conjugal e lhe confere o sentido sacramental!! Na entrega de Cristo na Cruz, ambos, homem e mulher se entregam em uma só carne e se unem a Deus!!!

Sabemos claro são tantos os desafios e renúncias que este belíssimo sacramento revela!!! Rezemos juntos neste final de semana, pelo sínodo das famílias! Que possamos descobrir sempre mais o sentido profundo do matrimônio e encontrar caminhos de misericórdia para aqueles que por inúmeros motivos fraquejaram no processo!

São Francisco de Assis, que celebramos neste final de semana. Ajude-nos a amar o criado diferenciando-se dele e a Deus com toda alma e coração!!!