“Quem sabe o que é melhor para nós?”

Texto-motivacional-Motivao-para-crescerXXVI Domingo Comum

(Nm 11, 25-29; SL 18; Tg 5, 1-6; Mc 9, 38-43.47-48)

A primeira leitura e o Evangelho deste final de semana nos apresentam quatro personagens que são símbolos de uma realidade muito presente em nossa vida de fé: Dois serão indicativos de maturidade, os outros dois de certa “adolescência” na vida espiritual!

A adolescência como a juventude é tempo de transição! Tempo de ir solidificando coisas, projetos pessoais, sonhos, tempo de conquistar espaços e também de ser reconhecido: Uma das principais características deste tempo é que o jovem gosta que o reconheçam que o valorizem, por seu trabalho, por sua criatividade, gosta de ser “olhado” de estar em evidência!! Sempre escutamos em nossas paróquias uma antiga frase: “Ninguém dá espaço para nós jovens”! O que revela é uma grande verdade!! Mas que aponta uma necessidade de seu tempo! Pois ele precisa deste reconhecimento como estímulo positivo para seu amadurecimento!

Do outro lado está a maturidade!! É o tempo de colher muito do que foi semeado na juventude!! Apresenta-se de forma diferente: se caracteriza pela doação de vida, pela renúncia, por não necessitar tanto ser olhado, mas olhar!! É neste aspecto bem menos narcisista que a adolescência e juventude! Ambos processos de vida nós encontramos também no caminho espiritual. E ao parece a liturgia deste final de semana aponta também este caminho!!

Na primeira leitura o livro de Números nos fala de que Deus desceu na nuvem e falou a Moisés: “Retirou um pouco do espírito que Moisés possuía e deu a 70 anciãos” (Nm 11, 25)! Incrível o que esta passagem significa: Deus não desce sobre nós, somente para dar, mas também para tirar!! Ali retira o espírito de Moisés e concede a outros!! Moisés é um sinal de maturidade, pois sabe perder, renunciar, reconhecer a obra de Deus em outros!! É preciso maturidade espiritual para isto: “Assim que repousou sobre eles o espírito, puseram-se a profetizar, mas não continuaram” (Nm 11, 26)!!

O outro personagem não menos importante deste texto bíblico é Josué! Ele foi um grande homem! Ele sucederá mais tarde Moisés na condução do povo hebreu para terra prometida: “ Depois da morte de Moisés servo do Senhor, Iahweh falou a Josué (…): ‘ Moisés meu servo morreu; agora, levanta-te! Atravessa este Jordão, tu e todo o  povo, para a terra que dou aos israelitas.” (Js 1, 1ss)!

Mas foi o mesmo Josué que quando jovem têm uma reação típica de quem esta ainda amadurecendo na vida e no espírito! Repreende a Moisés dizendo: “Moisés meu Senhor manda que se calem!”(Nm 11, 28)! Com esta abordagem Josué revela ainda não “ver”, o que o homem de fé madura já antevia: Que o foco ou a centralidade da profecia, da unção, da graça santificante, não esta no escolhido e sim naquele que escolhe: Em Deus mesmo!! Moisés já sabia disto, Josué ainda não! Logo, por isto, é admoestado por seu mestre: “ Tens ciúmes por mim? Quem dera que todo o povo do Senhor fosse profeta, e que o Senhor lhe concedesse o seu espírito!” (Nm 11, 29)! A réplica mosaica é perfeita e atual! O homem amadurecido na fé sabe sair de cena e que não é o centro das coisas, sabe reconhecer que seu tempo esta passando e que outros virão em nome de Deus e continuaram sua obra! Obra da qual é um simples servo inútil! (Lc 17,7)!!

No Evangelho a cena quase se repete! Até por que, “este jogo de perde e ganha”, é próprio de nosso tempo! Nós lideranças eclesiásticas, temos muitas dificuldades de abrir e reconhecer a graça e o “sucesso” se revelando também sobre outros!! Com freqüência ouvimos as arcaicas disputas na evangelização entre movimentos e pastorais, padres mais tradicionais e progressistas, construtores e contemplativos! Uma tensão sempre importante na Igreja mas que as vezes só nos traz desgastes, perda de energia,  feridas e o que bem pior, manifestam um pecado tão nosso: de que a beleza do anúncio que  outro esta fazendo, ainda nos incomoda muito!! O que revela que somos muito imaturos ainda!

João evangelista é neste evangelho o protótipo do jovem que esta amadurecendo na fé e na vida: Ele recebeu dois  “pseudônimos” pela Sagrada Tradição: O “discípulo amado” (por sua intimidade com o Senhor, sua mansidão, etc.), mas também ficou conhecido como o “filho do trovão”! Aqui neste momento falou bem mais alto o ‘barulho do trovão’ que a ‘mansidão do amado’!

Ele também chama a atenção de Jesus sobre um homem que estava exorcizando em nome de Jesus: “ Mestre, vimos um homem expulsar demônios em teu nome, mas nós o proibimos por que não nos segue.”( Mc 9, 38)!!

Uma outra característica da imaturidade na vida espiritual se manifesta diante da possibilidade do poder!! Um neo-convertido é sempre assim: entusiasta, dinâmico, positivo nas decisões, no entanto às vezes, lhe falta o tempo da semente cair em terra boa e sobreviver as pedras do caminho, aos espinhos e as perseguições que a vida cristã impõe! João neste momento era imagem disto: Estava encantado com o poder extraordinário de Jesus, com seus milagres e curas e não admitia que outros que não seguiam a seu grupo,  fossem participantes deste poder espiritual: “(..) nós o proibimos porque não nos segue” (Mc 9, 38)!

A réplica de Jesus esta do lado da maturidade cristã!!: “ Não o proibais, pois ninguém faz milagres em meu nome para depois falar mal de mim. Quem não é contra nós é a nosso favor.” (Mc 9, 39-40)!! Jesus é livre, tão livre que reconhece no gesto de dar um copo de água, em nome de Cristo, é sinal de graça!! (Mc 9, 41)!!

Logo depois ensina o caminho para a maturidade de fé: Ele é quem sabe o que é melhor para nós!

A maturidade espiritual é um caminho onde as perdas valem mais que os ganhos: “ Quem quiser pois salvar a sua vida, a perderá, mas o que perder sua vida por causa de mim e do  Evangelho, a salvará” (Mc 8, 35)! Nós estamos muito habituados a mentalidade do mundo, e muitas vezes queremos repeti-la na vida cristã! Mas isso não é possível: “ Ninguém põe remendo novo  em roupa velha” (Mt 9, 17)!! A cultura secular nos diz que  ganhar, acumular, vencer sempre, isto sim é válido, no entanto Jesus nos convida ao difícil itinerário das perdas: Elas é que valem, elas é que nos deixam livres! Se tivermos que levar alguma coisa! Levamos o que vai lá dentro de nós, o que a traça e a ferrugem podem corroer ! Este é o tesouro que somos chamados a levar!!

A maturidade espiritual é feita deste caminho: No Evangelho deste final de semana Jesus diz: Se nossa mão, nosso pé e até mesmo nosso olho servirem de escândalos, e nos impedirem de entrar na “Vida”, melhor é tirá-los (Mc 9, 42 ss) !! Claro, sabemos: Jesus não quer a mutilação de nenhum de nossos membros! Aqui são símbolos de apegos tão inerentes a nossa vida, que já se tornam partes de nosso corpo!! Abrir mão deles muitas vezes é tão difícil quanto seria uma insana mutilação!!

A maturidade na fé segue esta trilha! Compreende que para entrar na “Vida”: em uma comunhão e amizade profunda com o Senhor, exige as perdas, porque é processo de amar, mais que ser amado, olhar mais que ser olhado e servir mais que querer ser servido!!

Percamos algumas partes de apegos por amor,  que em nós foram se cristalizando tanto e tomando forma de corpo! Fiquemos hoje com parte da segunda leitura de são Tiago: “ Vossa riqueza apodreceu e as vossas vestes estão carcomidas pelas traças. Vosso ouro e  vossa prata estão enferrujados e a ferrugem testemunhará contra vós e devorará as vossas carnes” (Tg 5, 1-6)

Deus é quem sabe o que é melhor para nós!!

 

“Tornar-se pequeno”!

523d4__20140319209XXV Domingo Comum

(Sab 2, 12.17-20; Sl 53; Tg 3, 16-4,3; Mc 9, 30-37)

Na segunda parte do evangelho de são Marcos, Jesus se encontra a caminho de Jerusalém. Deixa de ser o homem poderoso em obras, curas e palavras e se torna o mestre que instrui seus discípulos sobre o caminho de Cruz! É uma mudança de rota. O caminho que Jesus começa a orientar seus discípulos é o de “descida e esvaziamento de si”!! Não é um itinerário tão fácil assim de percorrer!!! Para os discípulos e as multidões, a porta vai se tornado cada vez mais estreita (Mt 7,13). A cada novo anúncio da paixão, os discípulos do Senhor, que antes manifestavam alegria e segurança por estarem próximos de um homem poderoso em obras e palavras( Lc 24, 19) agora, passam a demonstrar, outros sentimentos: escândalo, incompreensão, medo, e até mesmo a decepção!! As palavras de Cristo passam a ser duras demais (Jo 6, 61). Jesus mesmo foi percebendo a mudança no coração de seus discípulos e chega a dizer-lhes: “Isto vos escandaliza?” (Jo 6, 61); “ Não quereis também vós partir?” (Jo 6, 67)!!

A reação dos discípulos de Cristo é o reflexo de uma ação antes anunciada pelo “Filho do Homem”. Seja com Pedro no domingo passado, que repreende o Senhor logo após o anuncio da paixão, ou no texto que lemos no evangelho de hoje, onde alguns discípulos começam a discutir pelo caminho sobre quem será o maior (Mc 9, 34), revelam uma profunda verdade sobre o homem: O de que, diante da possibilidade de um sofrimento, geralmente desviamos nossa atenção para um lugar comum, que nos ofereça um alivio momentâneo! Onde encontraram os doze seguidores de Jesus este lugar imaginário? Em um diálogo sobre qual seria maior entre eles!! E por que os doze tomam este caminho? Por que depois do anúncio da eminente “fragilidade” daquele que os discípulos haviam posto todas as suas esperanças, sonhos, desejos e expectativas, algo dentro deles havia sido ferido, de certo uma percepção um tanto ilusória sobre o messias, que é desvelada pela proximidade da paixão de Cristo!

A segunda parte do Evangelho de são Marcos, revela a todos nós, um divisor de águas na compreensão do real mistério sobre Cristo! Sem apresentar ilusões sobre seu destino na Cruz, Cristo passa agora a “instruir” os seus, que o caminho de seu seguimento, terá agora de ter uma boa dose de amor, entrega e fidelidade da parte dos que o seguem!!

É o começo do processo de encontro com o que é verdadeiro em nós e em nossas expectativas. É o momento de ir purificando dentro de si mesmo quaisquer ilusões sobre o seguir a Cristo! É o início de um tempo melhor! Que muito embora possa parecer “duro”, pois arrancar algumas máscaras é sempre doloroso, nos torna livres, gratuitos e acima de tudo confiantes no Filho eterno do Pai!

O livro da Sabedoria nos ajuda a mergulhar neste mistério! Fala do sofrimento do Justo: O apresenta como alguém que por seu simples modo de vida “incomoda”: “Cerquemos o justo, porque nos incomoda e se opõe as nossas ações” (Sab 2. 12)! É um incomodo necessário, daquele que nos acorda! E faz com que a partir dele, examinemos nossa conduta!

O justo embora sendo filho de Deus é também provado. O sofrimento de um justo permanece sempre um mistério para nós: Como é possível que alguém que sempre nos pareceu ser bom, honesto, afável, justo, fiel ao Senhor, modelo de vida para nós, venha a encontrar o sofrimento em sua vida? Onde estava Deus neste momento? Por que permitiu que isso lhe aconteça? Constantemente nos fazemos estas perguntas não por causa do justo: Não é o que lhe aconteceu que nos incomoda, mas a realidade mesma do sofrimento. Pode parecer confuso, mas é assim mesmo: Não compreendemos muito bem o mistério do sofrimento. Ele é visto ainda para nós como um “castigo”! Uma “pena”, que alguns não poderiam carregar!! Para outros às vezes até desejamos, um “sofrimentinho”, faz parte de nossos pecados, mas a “este não” a “mim jamais”:

Deus não o permita, isso jamais acontecerá” (Mt 16, 22)!!

O livro de Jeremias abre-nos uma porta, onde entra uma luz sobre o mistério do sofrimento. Fala de um cordeiro manso que é levado ao matadouro, sem saber o que tramam contra ele!! (Jr 11,19). Este texto fala claro de uma traição, de uma entrega. Mas também de uma confiança! O cordeiro é sempre um símbolo da docilidade, da espera filial em seu pastor que o livrará dos seus males: “Foi maltratado, mas livremente humilhou-se e não abriu a boca, como cordeiro conduzido ao matadouro” (Is 53, 7).

No Evangelho deste domingo Jesus caminhava através da Galiléia, porém não queria que ninguém soubesse (Mc 8,30)! E por quê? Qual o motivo deste segredo no itinerário de Cristo? Porque queriam matá-lo (Jo 7, 1)!! Por que os perigos de morte que Jesus sofria, vêem ao encontro de seu oferecimento: Como aquele cordeiro, que é traído, humilhado, mas também se oferece livremente ao sofrimento: “… ensinava a seus discípulos,(…) o Filho do homem será entregue às mãos dos homens e eles o matarão e, morto, depois de três dias ressuscitará” (Mc 8, 31)!!

Jesus sabia dos perigos que corria, mas sabia também que o salvará: “ Por isso o Pai me ama, porque dou a minha vida, para retoma-lá. Ninguém a tira de mim, mas Eu a dou livremente. Tenho o poder de retomá-la e de entregá-la” (Jo 10, 17-18)!!

A este anúncio de Jesus, os discípulos começam a discutir sobre quem afinal é o maior!! Talvez uma das discussões mais atuais de nosso tempo! Atualmente todos querem ser os maiores, os melhores em tudo: No futebol, no corpo, na economia, no poder, etc!! São ilusões de tempo!!

Jesus inverte a polaridade do poder!!! O maior em Cristo seja o servo de todos!! E após chama os doze e abraça uma criança e diz: “ Aquele que receber uma destas crianças por causa do meu nome, a mim recebe; e aquele que me recebe, não é a mim que recebe, mas sim àquele que me enviou” (Mc 9, 37)!!

Qual o caminho que Jesus propõe a partir de agora para seus discípulos e nós? Ao falar da cruz, Ele nos diz: tenham a confiança e a docilidade de um cordeiro, que evita até mesmo defender-se, pois tem confiança no Senhor!

Ao abraçar uma criança, nos diz: “ Que para confiar, é preciso tornar-se pequeno como esta criança!! A porta dos céus para quem têm um coração de criança, jamais será estreita!!!

 

“A renúncia e o caminho para liberdade!!”

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XXIV Domingo Comum

O lugar que ocupa a palavra renúncia em nosso mundo é cada vez menor! O significado que tem esta palavra no ambiente que vivemos poderia bem ser comparado com aquela ingestão de um alimento que ‘não nos caiu muito bem’!A palavra não “desce redonda”,  é recebida nos espaços seculares como “fora de moda, esquecida, difícil de ser assimilada e sinônimo maior de privação”!! Óbvio, vivemos em um tempo que não “dá a menor brecha a renúncia”, e aos valores ligados a ela: sacrifícios, esquecimento de si, doação, alteridade, etc !!! Nosso mundo corre por outros caminhos: Seus valores são antagônicos em relação aos que o termo “renúncia” significa. Esta palavra no mundo que estamos tem se tornado sinal de contradição!

Neste final de semana a liturgia nos fala do seguimento de Jesus e que neste seguir a Cristo nos é proposto a renúncia de si mesmo: “ Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me” (Mc 8, 34)!! No evangelho o termo é relacionado ao encontro e a vida !! Jesus diz a seus discípulos que aquele que perde sua vida por causa de mim e do evangelho a encontrará!! Portanto, nada de privações, mas ao caminho do

encontro consigo mesmo e com a Vida!!

O Evangelho começa com Jesus e seus discípulos em Cesárea de Filipe! Esta região era conhecida por sua aproximação com culturas pagãs!! Tudo indica que Jesus não era muito conhecido por ali. Pode se demorar com seus discípulos, sem que as multidões o absorvessem!! Neste contexto geográfico lhes faz duas importantes perguntas: “Quem dizem os homens que eu sou?”( Mc 8, 28)! E logo em seguida: “E vós quem dizeis que eu sou?”(Mc 8, 29). Ao primeiro questionamento, os discípulos responderam na linha dos profetas. A resposta estava parcialmente correta! Mas Jesus quer saber agora dos seus: E vós, quem dizeis que eu sou? “Pedro respondeu: Tu és o Cristo”(Mc 8, 29s)!!

Jesus não quis transmitir nada de teórico aos seus discípulos. Era muito prático em seus ensinamentos! Precisava saber o que pensavam os seus de sua identidade! É a mesma pergunta que continua nos fazendo e que continuamos respondendo: “E vós (cada um de nós), que dizeis que eu sou?”!

No entanto Jesus não negou a inspirada resposta de Pedro! Mas não ficou totalmente satisfeito! E começou a ensinar o significado preciso da resposta de Pedro: “Tu és o Cristo (Messias)”. Surge em nossa memória a continuação do sermão da montanha: “Nem todo aquele que diz Senhor, Senhor, entrará no Reino dos céus, mas aquele que põe em prática a vontade de meu Pai” (Mt 7,21)!! Eis o sentido profundo da resposta de Pedro e nossa: “Começou a ensinar que o Filho do homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos chefes dos sacerdotes e pelos escribas, ser morto e, depois de três dias ressuscitar”(Mc 8, 31)!!

Tudo o que Pedro não esperava! Primeiro que o filho do Homem viesse a sofrer: No livro de Dn (7, 13-14), o Filho do homem aparece glorioso, sobre as nuvens e vencedor dos inimigos!! A imagem que Pedro tinha do “filho do homem”, era ligada a glória, ao poder e ao reconhecimento!! Aqui Ele deve sofrer muito. Depois ser rejeitado, pelos anciãos, chefes dos sacerdotes e escribas: Nós, de fato com alguma resignação, aceitamos o sofrimento causado por alguma doença ou perda de entes queridos!! Amigos geralmente se fazem presente nestas horas, demonstram apoio, solidariedade, afeto e proximidade. Mas ser rejeitado é bem outra coisa!! É experimentar a humilhação, o esquecimento e até mesmo a indiferença! São sentimentos que não queremos encontrar.  Jesus viveu em si esta prova: Foi rejeitado pelo poder político (anciãos), religioso (Sacerdotes) e intelectual (escribas)!! Uma real situação que não combinava com o messianismo que Pedro professou!! Ele precisava aprofundar sua fé em Cristo e nós também!!

Pedro ficou profundamente chocado! Repreendeu Jesus: Foi a primeira vez no evangelho que alguém repreende Cristo!! O que disse naquela ocasião a Cristo permanece no mistério, podemos apenas imaginar. A Bíblia de Jerusalém é contundente, afirma: “ e começou a recriminá-lo”(Mc 8,  32) !! Isto significa, compará-lo a um criminoso!! Incrível o que a revelação de Cristo causou no coração de Simão Pedro! Há instantes professava a fé no Messias, agora o recrimina: O que esta por trás desta inconstância de Pedro? O que o fez mudar tão fácil de opinião? O que fez Pedro apóstolo descer do céu ao inferno em minutos: “Afasta-te de mim, satanás, por que não pensas as coisas de Deus, mas dos homens”(Mc 8, 33)!

Eis que aqui entra em cena o significado da palavra renúncia, que havíamos apenas enunciado acima! O vs 32 de nosso evangelho dominical diz: “ Dizia-lhes abertamente” (Mc 8, 32)! Falava agora às claras sobre sua paixão! Antes apenas por parábolas: Certamente Pedro não recordou da parábola da semente, que cai na terra e é sufocada por espinhos (Mc 4, 1-7), ou do grão de trigo que cai na terra e se não morrer permanecerá só, mas se morrer produzirá muito fruto (Jo 12, 24)!! É neste momento que surge para nós o caminho de liberdade que oferece a renúncia cristã! Ela não é privação, mas escolha pelo melhor!!

Na terceira parte deste evangelho Jesus fala às multidões e seus discípulos: “Se algúem que me seguir, negue-se a si mesmo, tome sua cruz e me siga” (Mc 8, 34)! A frase é forte e densa! Negar-se a si mesmo é proposto por Cristo para o seguimento: Liberdade e renúncia não são termos tão antagônicos quanto pareçam. São na verdade complementares!! É esta unidade que Jesus esta propondo a seus discípulos, sejam verdadeiramente livres e encontrem a Vida! Só é possível renunciar a si mesmo pelo Reino, quando existe uma experiência de liberdade interior, provocada pela graça! Lá no profundo é possível fazer a escolhe pelo “bem maior”! E da mesma forma, a liberdade não existe sem a dinâmica da renúncia! Ela nos faz livres, sem nos privar, amar sem prender! Claro são processos de pequenas mortes, muitas vezes doloridas como a do grão de trigo, que não quer ficar só, mas morrer e produzir muito fruto!!

A profissão de fé em Cristo feita por Pedro se encontra nesta belíssima dinâmica de dar a vida! Cristo é o Messias, que renunciou a si mesmo, tomou sua cruz e nos salvou!!! Ele é o primeiro: “ Estando em forma de Deus, não usou de seu direito de ser tratado como Deus mas se despojou(…) rebaixou-se, tornando-se obediente até a morte, à morte sobre uma cruz” (Fl 2, 5, 8)!

Que o Senhor nos ensine a alegria das pequenas renúncias pelo Reino!! Vale a pena fazer a experiência da liberdade, que passa por uma negação, que nada têm de privação, mas encontro com aquele que é maior!!!

“Aprende a conhecer o coração de Deus nas Palavras de Deus” (Gregório Magno, in Ep IV)!

Mc-731-37XXIII Domingo do tempo Comum

(Is 35, 4-7 a, Sl 145, Tg 2, 1-5, Mc 7, 31-37)

Estamos começando o mês de setembro e durante todo este mês a Igreja nos chama à leitura e meditação da Palavra de Deus!!! Setembro é o mês da Bíblia. É marcado por dois santos muito grandes na Igreja que se dedicaram ao estudo, à meditação e tradução da Sagrada Escritura. No dia 03 celebramos São Gregório Magno e no dia 30 São Jerônimo!!

Gregório e Jerônimo são duas “altas montanhas” que podemos subir sem medo quando tratamos do tema da Palavra. Foram dois grandes comentadores, estudiosos e contemplativos do texto sagrado. Deles temos duas profundas observações (dentre outras), que nos chamam a atenção para nossa meditação:  São Jerônimo afirmou: “Ignorar as Escrituras é Ignorar a Cristo”(in, Prólogo do comentário sobre Isaías) e São Gregório Magno: “ Aprenda a conhecer o coração de Deus nas palavras de Deus, para que tendas com maior ardor às coisas eternas, para que tua mente ascenda com maior desejo ao amor de nosso Criador” (in, Ep. IV, 31)!!

Quem sabe possamos fazer de nossa atenta Lectio Divina (leitura orante), um belo itinerário para conhecermos cada vez mais o “coração de Deus”, durante este mês!

A liturgia da Palavra neste final de semana fala de sinais e gestos que estão sintonizados com o mês da Bíblia! Desobstruir caminhos, abrir olhos e ouvidos, pois o Senhor vem para salvar! (Is 35, 4). Estamos vivendo uma profunda crise política e econômica no Brasil e em nosso estado!! Sentimos ouvir que os caminhos de muitos estão se fechando: o medo, a insegurança vai se erradicando no coração de tantos de nossos irmãos!! São tempos difíceis, mas tempos em que a Palavra nos convida a abrir ouvidos e coração ao Senhor!

A primeira leitura é um testemunho de esperança: “Dizei as pessoas deprimidas; criai ânimo, não tenhais medo, Vede é vosso Deus (…), é ele vem para nos salvar” (Is 35,4)!! O medo a insegurança nos cegam muitas vezes!! Torna-se difícil “Ver”, pois a visão se ofusca na desolação!! No entanto o profeta compara esta vinda do Senhor com olhos que se abrem e vêem de novo e ouvidos que se descerram e se desobstruem, e mais, esta vinda toca também caminhos antes desertos e sem vida: “ brotarão águas no deserto e jorrarão torrentes no ermo. A terra árida se transformará em lago”(Is 35, 7)!!

O Evangelho deste final de semana narra a cura de um homem “Surdo”!! A construção do relato impressiona, pois remonta algo da criação: “trouxeram então um homem que falava com dificuldade e pediram que Jesus lhe impusessem a mão”(Mc 7, 32)!! Impor as mãos pode significar teologicamente muitas coisas: Transmitir o poder apostólico, curar os enfermos, expulsar o mal, etc!!! Mas do simples ponto de vista das relações humanas, significa “tocar, fazer-se próximo do outro, compadecer-se”!! Importante recordar que as doenças eram consideradas pela lei uma impureza, uma maldição: Jesus neste simbólico gesto revela aquilo que o profeta Isaías, anuncia na primeira leitura: “Dizei aos corações deprimidos, criai ânimo e Vede é vosso Deus” (Is 35, 4)!! Um Deus capaz de “tocar nas dores humanas” e lhe devolver a vida: “O Senhor abre os olhos aos cegos o Senhor faz erguer-se o caído” (Sl 145, 8)!

Claro que este Evangelho é também uma grande provocação a nós! Evangelizadores: padres, pregadores, homens chamados na Igreja para anunciar esta “Boa Nova”! Voltando ao relato de Marcos: “Jesus afastou-se com homem da multidão”(Mc 7, 33)! Existem situações vividas, dores humanas, que necessitam de “tempo”,  de “escuta”, de “proximidade”, de “toque”. Nossa evangelização muitas vezes têm sido pragmática e previsível: Olha com toda boa vontade para o todo!!! Mas esquece a parte! Jesus, atraía as multidões, mas se fazia um com seus discípulos!! A coletividade é necessária no processo de evangelização, mas não menos a subjetividade de cada indivíduo!

E hoje no Evangelho da cura do surdo!! Jesus é o primeiro a “ouvir” a surdez, “o vazio da Palavra”, daquele homem!! O gesto é lindo e simbólico, lembra como já havíamos dito acima a criação!!

colocou os dedos nos seus ouvidos, cuspiu com a saliva tocou a língua dele”(Mc 7, 33)! No relato da criação, Deus modelou o homem com a argila do solo, insuflou nas suas narinas um hálito de vida e o homem se tornou um ser vivente (Gn 2, 7)!! Aqui Jesus com os dedos tocou os ouvidos daquele homem! O dedo de Deus,  lembram os padres da Igreja sempre foi figura do Espírito de Deus!! O mesmo que “soprou” para que o homem viva, agora “toca” os ouvidos para que ele ouça de novo a Palavra de Deus!! E ouvindo começe a falar sem dificuldade!!(Mc 7, 34)!! É o que Jesus quer realizar hoje em nossa vida: “Tocar nossos ouvidos”!! Somos nós que precisamos ouvir de novo a Salvação de Deus (Is 35, 4)! Para escutarmos sem pressa a dor de nossos irmãos!! O abre-te, “efatá”, é também para todos nós!!  Naquele homem que foi curado de sua surdez, Jesus hoje cura nosso coração!!

Aprendamos como São Gregório a conhecer o coração de Deus nas Palavras de Deus!!