“A Lei, perto dos olhos, mas longe do coração”

a leiXXII Domingo Comum

(“ Dt 4, 1-2. 6-8; Sl 14; Tg 1, 17-18. 21-22.27; Mc 7, 1-8.14-15.21-23”)

Com certeza você já escutou o seguinte ditado: “Longe dos olhos, mas perto do coração”. É muito conhecida esta frase! Ela serve para muitas coisas na vida cotidiana: Amizades rompidas, romances rompidos, ironias entre conhecidos,  etc!. Invertendo os predicados percebemos que ela se encaixa na liturgia deste final de semana, quando a palavra de Deus nos convida a refletir sobre a observância da “lei de Deus”! O próprio Jesus se dirige aos fariseus e escribas de seu tempo citando Isaías 29, 13: “ Este povo honra-me com os lábios, mas seu coração esta longe de mim. Em vão me prestam culto, as doutrinas que ensinam são apenas mandamentos humanos”(Mc 7, 6-7)!!

Muitas vezes nos encontramos assim! Repetimos atitudes farisaicas! Conhecemos a lei, as normas, ela está perto de nossos olhos, julgamos apressadamente pessoas, apontamos erros! Com facilidade percebemos o “cisco que está no olho de nosso irmão e quando não percebemos a trave que está no teu olho”(Mt 7, 3)! E por que estas atitudes persistem em nos acompanhar? Porque algumas vezes a “lei esteve próxima de nossos olhos, mas longe do coração”.!!

O evangelho deste final de semana começa com uma indagação da parte dos fariseus e escribas acerca dos discípulos de Jesus: Esta indagação logo se transforma em um sério problema: “Por que não se comportam os teus discípulos segundo a tradição dos antigos, mas comem o pão com mãos impuras?” (Mc 7, 6) Isto é sem lavar as mãos até o cotovelo e sem passar pelo processo do banho purificador!! Bom, do ponto de vista da higiene pessoal estavam certos e modernos os fariseus e escribas! Não comendo com as mãos sujas, evitavam que muitas contaminações e doenças os atingissem. O problema foi transferir isto, para uma atitude moral: Pensando que purificando as mãos antes das refeições estariam evitando uma contaminação moral!! Lendo engano da parte dos fariseus!! Por isso Jesus os responde: “ Este povo honra-me com os lábios, mas seu coração esta longe de mim”(Mc 7, 6).

Também nós às vezes como aqueles antigos fariseus querendo solucionar problemas que são profundos em nossa vida, optamos por alternativas superficiais: Achamos que para questões profundas, bastam saídas exteriores: “lavamos também nossas mãos facilmente”!Lendo engano agora nosso!!! E de certa foram repetimos o mesmo casuísmo farisaico e permaneçamos com mãos limpas, mas com o coração impuro!

Jesus quer levar-nos ao mais profundo!! Quer levar seus discípulos a uma experiência de fé libertadora, e esta fundada nos aspectos mais belos da lei: “amarás o teu próximo como a ti mesmo. A caridade não pratica o mal contra o próximo. Portanto a caridade é a plenitude da lei” (Rm 13, 10)!!

Ele sabe que a que verdadeira purificação é aquela que começa a partir de dentro! Do coração humano. Lá sim que a Lei do Senhor deve levar luz, pois é também lá, em nosso interior que se encontram raízes dos nossos pecados, e de nossos aspectos negativos, a “trave de nosso olho”, que não queremos ver, mas que esta ali, e bem sabemos, quando menos esperamos estes aspectos senão observados, se transformam em “geisers” e poderão vir à tona com muita força!!

Mas é também em nosso interior que podemos fazer a grande experiência com o Senhor!! É lá que habita o Espírito de Deus como em um templo: “Não sabeis que sois santuário de Deus, que seu Espírito habita em vós” (1 Cor 3, 16)!  E se como bem disse o Senhor Jesus: “O que sai do homem, é isso que o torna impuro (…) com efeito, é de dentro do coração humano que saem as intenções malignas: prostituições, roubos, assassínios, adultérios, ambições desmedidas, maldades, malícia (…) “ (Mc 7, 20-21)!! Jesus logo percebeu que para estas inclinações que nos habitam, não bastam apenas “lavar mãos”!!! É necessário um banho mais profundo!!  Se por um lado temos estas potencialidades ao pecado, temos também a partir do seu Espírito as plenas condições de superá-los: Quando nos deixamos “banhar” por dentro, com os frutos do Espírito que nos foi dado no dia de nosso batismo: “ Mas o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, autodomínio” (Gl 5, 22)!!

Assim passamos a viver a lei de Deus diante de nossos olhos e do coração!! Lá que ela deve sempre estar! Não bastam mãos limpas, sem coração puro! É preciso que ambos caminhem juntos! No caminho de Jesus, vamos descobrindo que: Não é o exterior de determina o que está dentro! É o contrário. É o interior, é uma vida de intimidade com o Senhor, de interioridade, que determina o que está fora!

Nesta semana dia 28, a Igreja celebrou santo Agostinho. Ele foi um homem que descobriu a interioridade espiritual! E conduziu toda a sua vida assim: “Tarde te amei ó beleza tão antiga e tão nova.Estavas dentro de mim e eu fora, e aí te procurava. Estavas comigo e eu não contigo. Clamastes, chamastes e rompestes minha surdez” (Confissões, X) !

Que neste final de semana, peçamos ao Senhor que Ele nos purifique por dentro! Cure nossa alma de tantas potencialidades para o mal!!!

Que a gente não “lave nossas mãos” diante do sofrimento de nossos irmãos! É fácil julgar o outro!! Quando vemos só o exterior, o que passa, o aparente!!! Não esqueçamos que Jesus vê lá dentro!! E vê muita beleza possível!!

Que a lei do Senhor brilhe sempre em nosso coração. São Tiago na segunda leitura nos ajuda a compreender isto: “Com efeito a religião pura e sem mancha diante de Deus e dos homens é está: “assistir os órfãos e viúvas em suas tribulações e não se deixar contaminar pelo mundo” (Tg 1, 27)!!

 

A memória do coração e o seguimento!!

imagesXXI Domingo do tempo Comum

(Js 24, 1-2; 15-17.18b, Ef 5, 21-32, Jo 6, 60-69)

A memória sempre fez parte dos povos na antiguidade!! Recordar fatos, tradições era dado importante da vida cotidiana para os antigos!! O conhecimento era muito relacionado a memória!!! As crianças, por exemplo, decoravam as obras dos poetas, os escritos dos filósofos, os mitos, as tradições dos pais! Muito do saber no mundo antigo chegou até nós pela oralidade!! O que dá um crédito enorme a palavra dita e transmitida de geração a geração!!

A cultura bíblica é marcada também pela memória! Ela é parte integrante e unitiva!! Em muitos momentos “recordar as obras de Deus” foi o que sobrou para que o povo de Israel retomasse seu caminho em direção ao Senhor!!

A liturgia deste final de semana nos fala da importância da memória nas nossas decisões por Deus!! Recordar é memorizar no coração, aquilo que ouvimos um dia sobre nosso Senhor! E se por vezes as crises nos geram uma espécie de amnésia espiritual, a recordação pode nos devolver a lembrança de que Deus nunca nos abandonou!!

Maria foi um grandíssimo exemplo sabemos: “Maria, contudo, conserva cuidadosamente todos esses acontecimentos e os meditava em seu coração” (Lc 2, 19).

Josué na primeira leitura reúne em Siquém uma assembléia dos notáveis de Israel!! Juízes, Magistrados e Anciãos, os detentores do poder, mas também da tradição e da cultura do povo! E os faz um questionamento fundamental: Uma pergunta que os liga a sua história, a sua tradição, a um elo, que não se fixa no agora, mas que os joga em um tempo em que experimentaram uma relação muito próxima com seu Deus : “ Sê firme e corajoso por que farás este povo herdar a terra que a seus pais jurei dar-lhes (…) Não te apartes dela, nem para a direita nem para a esquerda (…) que o livro da lei esteja sempre nos teus lábios, medita nele dia e noite (…)” (Js 1, 6. 8)

A pergunta de Josué é a seguinte: “ Se vos parece mal servir ao Senhor, escolhei hoje a quem servir; se aos deuses da mesopotâmia ou aos deuses dos amorreus?” (Js 24,15)!!

A pergunta de Josué acaba por nos provocar outro questionamento: Quando pode nos parecer mal servir ao Senhor? Por que, em alguns momentos de nossa vida a decisão de servi-lo parece tão pesada? Por que vivemos em um mundo que supervaloriza o aqui e o agora em detrimento da memória!! Os sentimentos presentes em detrimento da fidelidade, o bem estar momentâneo em razão de uma pequena dose de sacrifício, o superficial em relação ao amor!

Josué com sua família fez sua escolha: “ Quanto a mim e minha família serviremos ao Senhor” (Js 24, 16) !!

E o povo recorda naquele momento o que estava guardado no coração: “Longe de nós abandonarmos o Senhor para servirmos a deuses estranhos (…) Pois o Senhor, nosso Deus Ele mesmo nos tirou, a nós e a nossos pais da terra do Egito, da casa da escravidão (…)” (Js 26, 16). Esta foi a profissão de fé do povo de Israel!! Qual a sua?

No Evangelho veremos uma outra profissão de fé: Também fundada na memória do coração. Sabemos que a palavra recordar: “ re-cordis”; significa: ter novamente no coração, ou renovar no coração,  uma palavra, uma experiência profunda vivida que ao ser recordada se atualiza!!! Lembrem que fazemos isto sempre na Celebração Eucarística!! : “Fazei isto em minha memória” (Lc 22, 19)!!

O evangelho deste domingo encerra o discurso do Pão da Vida! Com Jesus estão seus discípulos!! E com discípulos um murmúrio, uma reclamação: Dizem os discípulos: “ é dura demais esta palavra; quem consegue escutá-la?” (Jo 6, 60) A mesma pergunta que fizemos  em Josué, repetimos agora: Quando a palavra de Deus passa a ser dura de ser ouvida? Quando não conseguimos mais escutá-la? Em que circunstância de nossa vida esta Palavra deixou de ser doce como o mel? (Sl 119, 11)

Talvez quando passamos a tratar a Palavra de Deus como carne, aqui entendida como oposição ao Espírito!!! Quando ela deixa de ser para nós “espírito e vida” (Jo 6, 62); quando deixamos de crer, de conservar e meditar a Palavra no coração como ensina Maria!! Ela então se torna “carne”!! Sem novidade, sem vida, sem amor!!!

O Problema sabemos não esta na “escuta da palavra”, mas no “ouvido que há escuta”! Não é a “palavra que é dura”!!! E sim o coração que foi se endurecendo!!

A Palavra de Deus se torna dura, quando seu ouvinte não se deixa mais atrair pelo Pai!! “ Ninguém pode vir a mim a não ser que seja concedido por meu Pai” (Jo 65)!! Quando ele esquece, perde a memória de que a fé é um diálogo e um dom!! Não um voluntarismo onde tudo depende de mim e de minha vontade!! Mas acima de tudo uma graça concedida pelo Pai!

Pedro que em nosso imaginário sempre pareceu ser um homem de cabeça dura, nos grandes momentos de sua vida com o Senhor, acabou por nos fazer ver seu grande coração: No evangelho de hoje como em Cesárea de Filipe (Mt 16, 13-19), ele professa a fé!: “ E vós também quereis ir embora? Simão Pedro respondeu: a quem iremos Senhor? Só tu tens palavras de vida eterna” (Jo 6, 68) !!

Pedro recordou!! Sua resposta é expressão de um coração que lembra as maravilhas feitas pelo Senhor em sua vida!! “Só tu tens palavra de vida eterna”!! Ele esta recordando: “ As palavras que lhes falei são espírito e vida” (Jo 6, 63)!!

E você! A quem deseja servir? Consegue recordar os feitos do Senhor em sua vida?

Não vá embora!! Não é necessário!! Recorde, guarde no coração e refaça seu caminho em direção ao Senhor! Só Ele tem palavras de vida eterna!!!

 

“Feliz aquela que acreditou”(Lc 1, 45)

 

 

Nossa SENHORA

Festa da Assunção de Nossa Senhora

(Ap 11, 19 a; 12, 1-6, 10b; 1 Cor 15, 20-26; Lc 1, 39-56)

Neste final de semana celebramos a festa da Assunção de Nossa Senhora!! O dogma nos ensina que Maria foi assunta em corpo e alma aos céus!! A palavra assunção tem sua origem no verbo latino “assumptio”,  e muito bem designa o sentido do mistério que neste domingo celebramos: Assumptio,  significa é claro subir, ser elevado, mas indica também, assumir, tomar para si!! Nisto encontramos na Mãe do Senhor talvez nosso mais sublime exemplo!! Ela assumiu de forma plena estas duas dimensões pela qual foi elevada mais tarde!! O corpo e alma na mãe do Senhor, dimensões que muitas das vezes tratamos como dicotômicas e históricas inimigas se integraram na Mulher (Gn 3, 15 ss) e se tornam caminho possível para todo gênero humano!!

A liturgia da Assunção com muita propriedade nos deve convidar a olhar o alto: “ Se pois ressuscitastes com Cristo, procurais as coisas do alto, onde Cristo está a direita de Deus” (Col 3, 1)! Mas esta solenidade não se esquiva de apontar para uma assunção que começa de baixo!! Começa com outro mistério: encarnação do Senhor! . É exatamente no sim acolhedor de Maria que se abre a possibilidade de “suba” para a toda a humanidade: Santo Irineu de Lion, foi o primeiro teólogo que apresenta o lugar de Maria no contexto da salvação humana: “ Obedecendo, se fez causa de salvação tanto para si como para todo o gênero humano”; e ainda Irineu: “ O nó da desobediência de Eva foi desfeito pela obediência de Maria; o que Eva havia ligado pela incredulidade, a virgem Maria desligou pela fé” (Santo Irineu, in LG 633)!!

O sincero desejo de subirmos em direção a Deus, “aos céus”,  com Maria, não se constrói em uma espiritualidade que esconda aspectos que pareçam sombrios em nossa vida e por isso não assumidos!! A Assunção de Maria, pelo contrário diz que este caminho é possível! Pois joga nosso foco e esperança para a Ressurreição, sem que precise ser negado em nenhum momento as sombras, as cruzes, e até mesmo os pecados que nossa condição carrega consigo: “Cristo ressuscitou dos mortos, primícias dos que adormeceram (…) Como todos morreram em Adão, em Cristo todos receberão a vida” (1Cor 15, 20ss):  “Comparando Maria com Eva, chamam-na de ‘ mãe dos viventes’; e com freqüência afirmam: ‘Veio a morte por Eva e a vida por Maria’ (CIC, in Irineu de Lion, 633).

As leituras deste final de semana nos apontam ainda mais para o mistério que celebramos: O evangelho de (Lc 1, 39-56),  narra a visita de Maria a sua prima Isabel!! A narrativa começa falando de uma subida: “Naqueles dias Maria pôs-se a caminho para a região montanhosa a uma cidade de Judá”. A suba da mãe de Nosso Senhor (Lc 1, 43), recorda-nos tantas outras: A de Abraão no Moriá (G 22, 1-18), a de Moisés (Ex 3ss), de Elias no monte Horeb (1 Rs 19ss), enfim a montanha sempre foi o lugar das profundas experiências com o Senhor!! Maria sobe para visitar sua prima Isabel que como ela estava grávida! Ela às pressas sobe para servir!! A experiência com o alto em Maria se faz no serviço, como sempre foi em sua vida, atualiza a resposta que antes havia dado ao anjo: “eis aqui a serva do Senhor” (Lc 1, 38)! E no monte da cruz de seu Filho, outra vez se faz serva como mãe da nova humanidade: “Filho eis tua mãe” (Jo 19, 25)!!

Após o diálogo entre Maria e Isabel, recordando a unidade entre Antiga e Nova Aliança, Isabel faz uma das afirmações mais contundentes sobre a mãe do Senhor: “Feliz é aquela que acreditou, pois o que foi dito da parte do Senhor será cumprido” (Lc 1, 43)!!

Maria é a mulher que acreditou!!! Esta é uma informação importante para esta solenidade!! Mas em que coisa crê Maria para que por meio dela a humanidade retome  a direção do Senhor!! Suba com ela aos céus:  Ela “Acreditou que o Senhor faz grandes por mim” (Lc 1, 49). E é testemunha pessoal da maior delas: “ e o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1, 14)! Mas continua acreditando que o Senhor manifesta a força de seu braço exatamente em nossas contradições e sombras!!

O hino Magnificat é um belíssimo testemunho da força de Deus em nossas fraquezas!! Por isso Isabel proferiu: Feliz é aquela que acreditou!! Em Maria e a partir dela na humanidade redimida por seu Filho, a promessa do Magnificat se concretiza, a cada momento no Corpo de Cristo! A solenidade da Assunção começa, quando Maria reconhece que “meu salvador olhou para a humilhação de sua serva” (Lc 1, 48)! De que dispersou os homens de coração orgulhoso, e eleva os humildes, que depõe os poderosos de seus tronos, de que cumula de bens os famintos e despede ricos de mãos vazias (Lc 1, 53)! Existe no cântico de Maria uma oposição que revela o coração de Deus! E que ela tão profundamente soube entoar!! É a revelação de uma solidariedade amorosa do Senhor com as realidades fragilizadas da vida humana que integradas e oferecidas, tornam-se  o lugar onde Nosso Senhor pode manifestar a força de seu braço!: “ Por isso de boa vontade me gloriarei de minhas fraquezas, afim de que repouse sobre mim o poder de Deus” (2 Cor 12, 7)

O cap. 12 do Apocalipse de São João reforça ainda mais a força de Deus na aparente fragilidade da mulher!!! Começa narrando dois sinais que curiosamente aparecem no céu!!: “ uma Mulher vestida de sol, tendo a lua sob seus pés e sobre a cabeça 12 estrelas” (Ap 12, 1) Texto de um simbolismo belíssimo: A mulher vestida de sol, é a Igreja vestida de Cristo, vestida do “ Sol invencível”o nome de Cristo na Igreja primitiva!

A coroa de 12 estrelas lembra os mártires que coroam a Igreja com sua fidelidade!! Eis  a força da mulher!!

O outro sinal é tremendo e poderoso: “Um grande dragão, cor de fogo, com sete cabeças e dez chifres e com sua cauda arrastava um terço de estrelas do céu” (Ap 12, 3)!! No entanto o autor do livro do Apocalipse afirma que o dragão parou na frente da mulher! (Ap 12, 4); que esta para dar a luz!!

Aos olhos humanos o dragão parece ser muito mais forte que a mulher!! Ela é vestida de sol!! Eis sua armadura!! Eis a nossa!! : “ revesti-vos da armadura de Cristo, para poderdes resistir as insídias do diabo, pois nosso combate não é contra sangue ou carne (…) mas contra os dominadores deste mundo de trevas, contra os espíritos do mal, que povoam regiões celestiais (…) deves vestir a armadura de Deus” (Ef 6, 12)!!

A força da “mulher” é ser revestida de Cristo!! Nossa força também!!! O combate da “mulher” é contra muitas potencias: espirituais e materiais!!  O nosso também!! O dragão parece ser muito mais forte, deseja devorar seu filho!! (Ap 12, 5). Mas parou diante da “mulher”!!! Este filho somos nós!! Sempre gerados na Igreja e no ventre de Maria!!

Os dragões que combatemos são muito fortes!! Alguns fora de nós, forças espirituais que querem devorar a presença de Deus em nossa vida: Ferir nossa santidade, nossa busca, nossos jovens, nossas famílias, nossas vocações enfim, são inúmeros os dragões!!! Existem alguns dentro de nós!! São tremendos também!! Mas estes podem estar do nosso lado. Podemos até mesmo aprender com eles!! E a partir deles, enfrentar com mais serenidade os que estão fora!! Parecem indomáveis, mas se postos à luz de Cristo se tornam caminho de nossa subida aos céus!!

Maria os enfrentou!! Ela era sem pecado sabemos, mas integrada na sua fé!! A vida que levou com José testemunha isso !!! Que corpo e alma, luz e sombras, podem ser integrados, que dragões de fora e de dentro poderão ser enfrentados!!! Que as fragilidades assumidas são as reais subidas às montanhas do Senhor!!

Que nesta solenidade da Assunção! Não tenhamos medo de nossas fraquezas nem de dragões!!! Eles param diante da mulher vestida de sol!! Você também foi revestido de Cristo!! Este sol da justiça também te iluminou!! Viva como filho da luz e não mais de trevas!! E subamos com Maria a montanha mais alta!!! A montanha do Senhor!!!

“É possível o encontro com Deus, mesmo que só restem cinzas”

quarta_feira_cinzasXIX Domingo comum

( 1 Rs 19, 4-8; Sl 33; Ef 4, 30-5, 2; Jo 6, 41-51)

Neste XIX domingo do tempo comum surge na cena litúrgica o profeta Elias!! Ele um dos mais importantes personagens da Antiga Aliança, ao lado de Moisés representam para o povo de Israel a “Lei e os profetas”! Seu nome (O Senhor é Deus),  é lembrado em vários momentos no Novo Testamento: é testemunha da Transfiguração do Senhor (Mt 17, 14ss; Mc 9, 4ss; Lc 9, 30ss), Jesus chega a ser comparado a Elias (Mt 16,14; Mc 6, 15), João Batista caminhava na frente do Senhor com o Espírito de Elias (Lc 1, 17)! Testemunhos que atestam a considerável importância deste profeta!

No entanto o poderoso profeta surge nesta liturgia dominical em extrema fragilidade!!! Ante a ameaça de morte que Jezabel lhe havia imposto: “Que os deuses me façam este mal (…) se eu não tiver feito de tua vida o que fizeste da vida deles” (1Rs 19, 2), Elias foge para deserto afim de salvar sua vida:

Quanto a ele, fez pelo deserto a caminhada de um dia e foi sentar-se debaixo de um junipero”(1 Rs 19, 4) E é ali que manifesta sua extrema dor. Chega a pedir ao Senhor que lhe tire a vida: “Agora basta Senhor! Retira-me a vida, pois não sou melhor que meus pais” (1Rs 19, 5)! Você já deve ter estado com pessoas que diante de enormes sofrimentos manifestaram este desejo!! De que sua vida seja abreviada: Já deve ter escutado: “Se é para passar por tamanha dor seria melhor não mais viver ”!!!

“Lembremos a Jó que chegou a amaldiçoar seu nascimento” Pereça o dia que me viu nascer! Esse dia se torne trevas” (Jó, 3, 3ss). Todos estes “gritos” revelam a força que exerce na alma humana a dor, o medo, a insegurança, a depressão; doença maior de nosso tempo e que leva tanta gente que conhecemos a situações limites de sofrimento e ausência de sentido. Parece que nosso profeta, foi vítima de algo semelhante. No entanto Deus ouviu seu clamor: “Esse infeliz gritou a Deus e foi ouvido, e o Senhor o libertou de toda angustia” (Sl 33, 7), como ouve e se aproxima de todos os que sofrem as terríveis chagas da alma: “o anjo do Senhor vem acampar ao redor dos que o temem, e os salva” (Sl 33, 8)!

Elias experimentou isso. O que o salmo desta liturgia dominical canta: “ Mas eis que um anjo tocou-o e disse: ‘levanta-te e come!’!! (1Rs 19, 5)!! No limite da dor de Elias, o anjo do Senhor vem acampar e salvar, no limite das dores humanas, um anjo do Senhor é enviado por Deus a nós!! Para nos levantar do sono, da passividade, da apatia que a dor não compartilhada com o  Senhor pode nos causar!!!

Elias estava fraco!!! Na alma e no corpo!!! Precisava comer: Alimentar-se, fortalecer-se é uma das primeiras reações que se deve ter no enfrentamento de doenças sejam fisiológicas ou psíquicas! Foi o que o anjo do Senhor disse a Elias: “come!! Ele “abriu os olhos” e viu um pão assado embaixo das cinzas e um jarro de água” (1 Rs 19, 6)! A imagem plena de significados!!! Elias que antes fora agraciado por Deus por tantas visões proféticas, agora vê “pão,  água” e cinzas!! Vê o ordinário da vida!! Certamente se vê naquelas cinzas!! E a partir delas “começa a refazer sua vida” Talvez para muitas pessoas que conhecemos, seja preciso também “abrir os olhos”e ver que o alimento esta perto!! Que o Senhor  quer se deixar encontrar, debaixo de todas as cinzas que possa estar sua vida, que o anjo do Senhor esta lhe dizendo: “Provai e vede quão suave é o Senhor. Feliz de quem nele encontra refúgio”(Sl 33, 9)!!!

No outro lado da liturgia, continuamos a meditação Joanina sobre o pão da vida!! E continuamos meditando sobre o alimento!!  O pão que Elias encontrou debaixo das cinzas é figura deste pão que Jesus apresenta!!

Elias após comer, andou 40 dias e 40 noites até chegar ao Horeb a montanha de Deus!!! Nós enquanto nos alimentamos do pão descido dos céus subimos a uma montanha ainda mais alta!!! Subimos não na montanha do Senhor, mas Nele mesmo, que desceu do Céu para nos elevar! (Jo 6, 41)!!

Há uma profunda semelhança entre estes alimentos: Ambos nascem das cinzas! O pão de Elias, não esta muito distante do pão vivo descido do céu! (Jo 6, 51)! Este nasce das cinzas que ficam da cruz de Cristo!! Que não estava no madeiro, mas no coração dos discípulos: “Jesus aproximou-se e pôs a caminhar com eles; seus olhos estavam impedidos de reconhecê-los”(Lc 24, 16) ! A tristeza da alma, a perda de esperança cega a visão!!! Os discípulos como Elias abriram os olhos e reconhecerem Jesus ao partir o pão: “ E uma vez a mesa com eles, tomou o pão, abençoou-o, e depois partiu-o e distribuiu-o a eles. Então seus olhos se  abriram e reconheceram” (Lc 24, 30-31)!!!

Os discípulos reconheceram Jesus pão da vida!! Reconheceram que quem come deste pão viverá eternamente! E não morrerá jamais! Ele será a vida do mundo!!

E nos ensinam que Jesus esta perto de nossas dores! Que envia seu anjo para nos consolar! E transforma nossos lutos e lágrimas em alimento da vida eterna!! (Ap 21, 4)