“Foi para a liberdade que Cristo nos libertou (…), não vos deixei prender de novo ao jugo da escravidão” (Gl 5, 1)

 

livre

XVIII Domingo do tempo comum

(Ex 16, 2-4; 12-15; Sl 77; Ef 4, 17.20-24; Jo 6, 24-35)

 

A busca pela liberdade é um processo que acompanha o homem desde sempre! O ser humano deseja ser livre. É inerente a ele, “bater e romper os limites de suas portas fechadas” a fim de que encontre a liberdade tão sonhada!!! Alguns jovens, por exemplo, deixam a paz de suas famílias e se jogam na “estrada” para sentirem a liberdade como o vento cortar seus rostos!! Muitos casais depois de longos anos de vida matrimonial, preferem experimentar a aventura de uma nova relação, pensando que aquela antes duradoura, e para toda vida, estava com o tempo os impedindo “de serem livres”. Na vida religiosa, sentimos este mesmo impacto: As opções e votos feitos no calor do início da consagração, com o passar dos anos e o surgimento das primeiras crises (purificações), passam a idéia de que aquele chamado feito por Deus poderá ser deixado de lado, por uma nova opção!!!

Neste final de semana a liturgia nos fala de liberdade! Deus sim, Ele nos chamou para sermos livres: “Foi para a liberdade que Cristo nos chamou” (Gl 5, 1). O problema é que na maioria das vezes pensamos que ela está fora de nós!! E por isso sempre fora de nosso alcance quase como uma utopia!!!

Na primeira leitura deste final de semana ouviremos o relato da saída do povo de Israel da escravidão do Egito. É-nos um texto familiar. O povo é conduzido por Moisés e Aarão até a chegada a terra prometida!!! Lá se encontra a liberdade, sonhada, desejada por Deus, que desceu para libertar seu povo: “ Eu vi, eu vi a miséria do meu povo que está no Egito. Ouvi seu clamor por causa dos opressores; pois conheço suas angústias. Por isso desci a fim de libertá-lo da mão dos egípcios e fazê-los subir daquela terra a uma terra boa e vasta (…), que corre leite e mel.”( Ex 3, 7-8)!!! Uma promessa e tanto! Deus entra na história! Liberta seu povo dos longos anos de escravidão!

Na travessia do deserto o povo começa a murmurar contra Moisés e Aarão: “ Antes fôssemos mortos pela mão de Iahweh na terra do Egito, quando estávamos sentados junto à panela de carne e comíamos pão com fartura! Certamente nos trouxestes a este deserto para fazer toda esta multidão morrer de fome” (Ex 16, 3)!! O povo hebreu não havia compreendido ainda a palavra de Deus que ecoa do deserto!! Chega a esquecer a promessa: “desci a fim de libertá-los(…) e fazê-los subir a uma terra boa e vasta” (Ex 3, 7). O murmúrio a reclamação é um movimento próprio do coração em desolação! Talvez sua primeiríssima reação: romper com Deus, sentir-se traído e perder a memória de suas promessas. Assim fez o povo hebreu. Assim nós o fazemos!

A liberdade sonhada, a terra prometida já era o deserto!! Já estava presente nesta travessia com todas as suas privações. Não existe liberdade sem um processo de purificação, e este era o recado do deserto! Para entrar na terra prometida era necessário um tempo de purificação!!!

O Evangelho deste domingo continua a meditar sobre o discurso do pão da vida! Em plena sintonia com a leitura do livro do Êxodo, quando Deus alimenta seu povo com o pão do céu: “ Eis que farei chover pão do céu; sairá o povo e colherá a porção de cada dia, a fim de que eu o ponha à prova para ver se anda ou não na minha lei” (Ex 16, 4)! Dentre os processos de purificação que Nosso Senhor nos submete, está presente neste texto um dos mais impressionantes!!! O de permitir que Ele mesmo conduza as coisas!! Mesmo que ao nosso olhar pareça que está dando tudo errado!!! Ou melhor, um sentimento de que as coisas não estão saindo como havíamos planejado: “ quanto os céus estão acima da terra, tanto os meus caminhos estão acima dos vossos caminhos, e meus pensamentos acima dos vossos pensamentos” (Is 55, 9)!

No evangelho deste domingo Jesus quer conduzir seus ouvintes para uma experiência de liberdade maior! ‘A liberdade interior e espiritual’. Logo após o milagre da multiplicação dos pães próximo a Cafarnaum, as multidões continuam acorrendo a Cristo. O que os leva a “perseguirem” o Senhor são as ‘obras’ que Ele faz: “Em verdade, em verdade vos digo, vós me procurais não porque vistes os sinais mas porque comestes dos pães e vos saciastes” (Jo 6, 26)!! Jesus deseja que discípulos e multidões ‘subam’ de seguimento em torno de obras e milagres (que também são necessários), para uma proximidade com o Senhor fundado no amor!!! Aqui reside o começo da liberdade espiritual. Seguir Jesus por causa de Jesus: “Respondeu-lhes Jesus: ‘ A obra e Deus é que creiais naquele que ele enviou’”. (Jo 6, 29)!! Fora disto a experiência espiritual cristã se veste de pagãnismo: Por exemplo a religião romana era baseada no “do ut des”, eu dou para que tu me dês!!! Uma troca de favores com os deuses! O cristianismo vai nos lança em águas mais profundas!!! Nossa relação com o Senhor é permeada pela gratuidade: “do quia caritas”: eu dou por amor!!!

Esta é a liberdade que Cristo quer nos conduzir neste final de semana: Subir das obras à fé, dos sentimentos para o amor: “ Disseram-lhe: ‘Senhor dá-nos sempre deste pão!’ Jesus lhes disse: Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim, nunca terá fome e o que crê em mim nunca mais terá sede’” (Jo 6, 34)!!!

Isto serve também para o que elencamos no início de nossa meditação!! As crises matrimonias, existenciais e de vida religiosa, que no princípio parecem indicar um fim: São na verdade o começo!! O que pode parecer o tempo de novas opções de vida, são na verdade a hora de Deus!!! O tempo de passar dos sentidos para o amor, do rompimento para uma maior entrega nas mãos do Senhor!!! Quem vem a mim nunca mais terá nem fome e nem sede!!!

 

“ Abrir os olhos e ver nos cinco pães e dois peixinhos onde inicia o milagre”

 

 

5 pães

XVII Domingo Comum

(2 Rs 4, 42-44; Sl 144; Ef 4, 1-6; Jo 6, 1-15)

Neste domingo a liturgia da Igreja insere o evangelho de João dentre as três leituras!!! Providencialmente iremos refletir nos próximos quatro domingos o discurso do Pão da Vida no evangelho de João!!! A primeira parte que meditaremos neste domingo fala do milagre da multiplicação dos pães!!! É bem conhecido este texto por todos! Ele lembra de um lado a pequenez de apenas 5 pães e 2 peixes e de outro a abundância do milagre realizado por Cristo próximo da páscoa judaica ao saciar a fome de 5 mil homens!!!

E este celebre texto de João nos faz pensar também na fome do mundo!! O evangelho deste domingo nos seus primeiros versículos nos diz que Jesus, sentou-se em uma montanha (que é um lugar simbólico na Escritura, onde Deus sempre se revelou), “ergueu os olhos e viu uma grande multidão que via a seu encontro” (Jo 6, 5). Por curiosidade a passagem omite a fome da multidão, no entanto Jesus interroga Filipe: “Onde vamos comprar pão para que eles possam comer? ”(Jo 6, 5)

O Senhor ao erguer os olhos percebe a fome das multidões!! É uma imagem impressionante! Erguer os olhos e olhar o outro, ver para além de si mesmo !!! É certamente um belo ensino que o Senhor nos oferece nesta liturgia: não olhar-se demais, preocupar-se demais consigo e suas coisas, nem ousar fechar, ou desviar os olhos diante dos sofrimentos dos menores de meus irmãos (Mt 24, 14),  mas dirigir o seu olhar e perceber que há “fome”. A fome é reveladora de muitas realidades no homem: Revela que há algo nele que não está preenchido e ainda permanece vazio!!! Pode ser muitas vezes o estomago e é claro da fome do “pão nosso de cada dia nos dais hoje” (Mt 6, 11), a Igreja e seus discípulos devem manter seus olhos sempre atentos as necessidades dos mais pobres.  Mas pode ser fome de vida plena!!! Fome do próprio pão da Vida que é Cristo! Foi isso que Nosso Senhor percebeu ao erguer seus olhos: “Jesus viu uma numerosa multidão e sentiu compaixão por que eram como  ovelhas que não tinham pastor” ( Mc 6, 34).

A cena se realiza próxima a páscoa: “estava próxima a páscoa a festa dos judeus” (Jo 6, 4). A Páscoa é celebrada no hemisfério norte nos inícios da primavera!!! Depois da fria temporada de inverno ter castigado as pastagens, as flores e os frutos, surge à primavera e é devolvida a beleza e a alegria da natureza! Neste tempo se dá a páscoa! O evangelista assinala isto dizendo: “Havia muita relva naquele lugar” (Jo 6, 10)! E neste contexto de renovação espiritual, Jesus multiplica os pães!!!

O evangelho nos apresenta três personagens: Filipe, André e o menino israelita que apresenta os pães e os peixes ao Senhor!! Todos têm o seu lugar nesta primeira parte do discurso do pão da vida!!! Ao apóstolo Filipe Jesus faz a pergunta essencial: “Onde vamos comprar pães para que eles possam comer?”(Jo 6, 5) Jesus não faz uma pergunta retórica a Filipe, apesar de que já anteveja a solução: “ Disse isso para pô-lo a prova, pois sabia muito bem o que ia fazer” (Jo 6,6)!!! Filipe simboliza um tipo de discípulo de Cristo que conhecemos muito bem! Ele é o homem racional! : “ Filipe lhe diz:’ mostra-nos o Pai e isso nos basta’. Diz-se Jesus: Há quanto tempo estou convosco e tu não me conheces Filipe?” (Jo 14, 8) Jesus com certeza conhecia muito bem a Filipe mas Filipe ainda não! Precisava de um sinal maior, para passar da figura a realidade, da natureza à graça, do temporal para o eterno!!! Por isso é um conhecido nosso, pois temos algo de Filipe em nós! Este discípulo é a imagem do homem racional: Logo após a pergunta de Jesus sobre como alimentar multidão, ele têm respostas prontas: “Duzentos denários de pão não seriam suficientes para que cada um recebesse um pedaço de pão” (Jo 6, 7). Responde com ponderação, como os homens racionais!!! Eles são importantes e interessantes também, pois ajudam muito a equilibrar fé com racionalidade!!! A ponderar problemas, a refletir com calma, mas é preciso fazer a páscoa da fé!!! É ela que multiplica os pães e que permite o milagre!

O outro é André!!! André significa homem!! E ele será o símbolo do novo homem em Cristo!! O homem espiritual: “ o homem psíquico não aceita o que vem do Espírito de Deus. É loucura para ele; não pode compreender, pois isso deve ser julgado espiritualmente. O homem espiritual, ao contrário, julga a respeito de tudo e por ninguém é julgado, pois quem conhece o pensamento do Senhor para poder instruí-lo” (1 Cor 2, 14-15)!!

Ele vê o menino aproximar-se com “cinco pães e dois peixinhos”(Jo 6, 9)! Foi André também que “viu o messias”(Jo 1, 41) e anunciou a seu irmão Pedro! É um homem de profunda sensibilidade espiritual! Como falou de Cristo a Pedro, apresenta o menino a Cristo!!

Para os padres da Igreja os cinco pães recordavam a lei. Os cinco livros do Pentateuco!! E os dois peixinhos o mandamento do amor: “ o meu mandamento é este que vos ameis uns aos outros assim como Eu vos amei” (Jo 15, 12)! Era o que faltava a lei!!!:“ Não pensem que vim abolir a lei e os profetas, mas dar-lhes pleno cumprimento” (Mt 5, 17).

A vivência da lei mosaica passava pelo duro inverno do legalismo farisaico!!! Faltava-lhe o “vinho novo do amor”( Jo 2, ss). Foi o que André viu nos cinco pães e dois peixinhos do menino oferecido a Jesus!!!!  O milagre começou a acontecer no pouco elevado e oferecido com amor: “ Tomou Jesus os pães e, depois e depois de dar graças, distribui-os aos presentes, assim como os peixinhos, tanto quanto queriam”(Jo 6, 11)!!

A multiplicação dos pães é sinal profundo da Eucaristia! Pois após o milagre da multiplicação o alimento não se esgota!!! Significando que este é o Pão da Vida, que saciou aqueles cinco mil homens!!! Que no tempo da Igreja é entregue aos apóstolos, simbolizados nos 12 cestos!!!

Neste final de semana, peçamos ao Senhor, que ele mantenha nossos olhos abertos para perceber seus sinais entre nós, sua presença escondida no Pão eucarístico!! Que a partir da Eucaristia nossos olhos permaneçam abertos e iluminados para que possamos ver a “fome”no mundo!!! Fome do pão nosso!!! E fome do pão da vida!!! Um alimenta o outro!!!

http:///www.youtube.com/watch?v=PnJAIMvgb1Q

“Pastores dabo vobis iuxta cor meum”; “Eu vos darei pastores segundo o meu coração” (Jr 3, 15)

 

 

 

Jesus Bom Pastor

XVI Domingo Comum

(Jr 23, 1-6; Sl 22;  Ef 2, 13-18; Mc 6, 30-34)

 

Neste XVI domingo do tempo comum a liturgia da Igreja aponta para a figura do pastor!!  Ele será na Palavra DE deus que ouviremos a imagem da bondade de Deus que reúne: “Eu mesmo reunirei o resto de minhas ovelhas de todas as trevas” (Jr 23, 3ss); que sente compaixão: “ assim que desembarcou viu uma grande multidão e ficou tomado de compaixão por eles, pois estavam como ovelhas sem pastor” (Mc 6, 34) ; e une opostos: “ Ele é nossa paz (…) derrubou o muro separação e suprimindo em sua carne a inimizade (…) e de reconciliar a ambos com Deus em um só corpo, por meio da cruz, no qual matou a inimizade” (Ef 2, 14, 16).

Boas contradições são as características da Palavra nesta liturgia!!! Como o são também em nossas vidas! Somos tão marcados por oposições, sombras, por caminhos que a vida nos conduz por vales escuros, onde do outro lado da dor, sentimos a mão forte do bom pastor, e exatamente ai, interior destas contradições podemos repetir como o  salmista: “nenhum mal temerei, pois estas junto a mim, teu bastão e cajados me deixam tranqüilos” (Sl 22, 4)

Mas afinal qual o sentido destas oposições na vida espiritual? Que significados elas teriam para aqueles que exercem o ministério pastoral? Elas ainda que sombrias são caminhos de Deus, que livram os pastores de uma vida voltada somente para si!!! Pois bem sabemos que a vida é encontrada, quando perdida em Deus, na renuncia de si!!! Os pastores e cristãos que batem a porta (Ap 3, 20) do olhar sobre o outro e não sobre si mesmo, superam o perigo do narcisismo pastoral e espiritual tão presente em nossos dias.

O profeta Jeremias na primeira leitura deste domingo fala disto: “ai dos pastores que dispersam as ovelhas do meu rebanho”(Jr 23, 1);  E há também um texto correspondente em Ezequiel que torna compreensível o lamento de Deus sobre os maus pastores: “ai dos pastores que apascentam a si mesmos! Não devem os pastores apascentar o seu rebanho?” (Ez 34, 2).

Que motivo levou os profetas Jeremias e Ezequiel a tornarem-se “clamor” de Deus em direção ao perigo de maus pastores: A Palavra de Deus e a vocação a qual foram chamados!!  De serem Pastores dabo vobis iuxta cor meum (Jr 3, 15), isto é pastores segundo o coração de Deus, que apascentam seu rebanho com conhecimento e prudência(Jr 3, 16): “ conheço minhas ovelhas e as minhas ovelhas me conhecem, como o Pai me conhece e eu conheço o Pai. Eu dou minha vida pelas minhas ovelhas” (Jo 10,14-15).

Eis que nesta passagem do evangelho de João se apresenta um dado lingüístico importante para nossa meditação: o verbo conhecer na cultura bíblica, quando aplicado a Deus, significa amar. O pastor é aquele que ama suas ovelhas por isso é capaz de livremente oferecer a vida por elas: “Ninguém a tira de mim, mas Eu a dou livremente”(Jo 10, 18). O pastor segundo o coração de Deus é aquele que não faz de sua vida um espelho, refletindo a si mesmo, ou pastoreando a si e sim é a porta,(Jo 10, 9), aberta a Deus e aos homens!!!

Jesus no evangelho de hoje é a melhor imagem do que queremos falar!!! Logos após acolher o retorno dos discípulos da missão. Como o bom pastor que cuida de suas ovelhas as convida para um lugar deserto a descansar: “ O Senhor é o Pastor que me conduz (…) pelos prados e campinas verdejantes ele me leva a descansar (…) e restaura as minhas forças” (Sl 22, 1-2). O repouso se dá no deserto!!!(Mc 6,32). O deserto, o “ermo”, sempre foi lugar de encontro com Deus e renovação de vida espiritual para tantos profetas: (Ex 3, 2);  (1 Rs 19, 4),;(Sl 62, 2), etc!!! O próprio ministério de Jesus começa com a experiência no deserto: (Mt 4, 1-11; Lc 4, 1-13). O deserto é um dos grandes sinais de contradição da bíblia, pois sempre simbolizou opostos: provação e renovação, tentação e santificação, escuridão da fé e visão de Deus!! E para este lugar afastado, Jesus conduz seus discípulos para verem melhor:

Ao desembarcar, Jesus viu uma numerosa multidão e teve compaixão, por que eram como ovelhas sem pastor” ( Mc 6, 34). Eis o fruto do deserto!! ! Jesus viu!!! E teve compaixão!!! das multidões!!! A palavra compaixão é sinônima do vocábulo misericórdia!! Podem significar sofrer com, compadecer-se e ainda misértus, ter um coração em miséria, pela dor do outro!! Jesus vê as multidões e sente misericórdia!!! Nele se atualiza a profecia de Jeremias de dar pastores segundo o coração de Deus, e somente unidos a Ele, no ermo de nossos cotidianos, poderá retirar de nosso peito o coração de pedra e dar um novo coração: “ eu vos darei um novo coração e derramarei um espírito novo dentro de vós; arrancarei de vós o coração de pedra e vos abençoarei com um coração de carne” (Ez 36, 26).

Na segunda leitura Ef 2, 13-18 aparecem os opostos, e novamente as contradições reunidos em Cristo!!: “ Ele de fato é nossa paz de ambos os povos fez um só (…) suprimindo em sua carne a inimizade” (Ef 2, 14 ss)

A carne antes em Adão,(no homem) se era causa de inimizade e oposição entre Deus e os homens, e entre os povos!!! No mistério da encarnação se torna nossa salvação e nossa paz definitiva!!: “ aquele que não conhecerá pecado, Deus o fez pecado por causa de nós, afim de que por Ele nos tornemos justiça de Deus” (1 Cor 5,21).

Estas podem ser as “santas oposições e contradições” que os discípulos de Cristo são chamados a abraçar com ternura!! Um pastoreio exercido voltado para o Outro, que toque também em Cristo ao “ver” e sentir compaixão de suas chagas nas dores do próximo!!!

Peçamos ao Senhor que Ele nos conceda um coração assim, como o Dele: “ Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde coração e encontrareis descanso para as vossas almas” (Mt 11, 29)

 

 

 

 

“Em Cristo fomos amados desde a fundação do mundo”(Ef 1, 4ss)

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( Am 7, 12-15; Sl 84; Ef 1, 3-14; Mc 6, 7-13)

 

Você certamente conhece alguém que foi amado!!! Sem que essa pessoa precise lhe dizer, suas reações confirmam que um dia recebeu amor de alguém!!! Você com certeza conheceu uma criança que recebeu amor de seus pais!! Ela também não terá a necessidade de expressar verbalmente isto, mas seus gestos, sua alegria, a confiança que deposita em seus pais, a facilidade de relacionar-se e fazer amigos e mais tarde durante o processo de seu amadurecimento, a capacidade que terá de amar para além de si mesmo,  irá confirmar: esta criança recebeu amor. Nas relações humanas é assim: Ninguém poderá dar o que não têm!!! No amor, ninguém dá o que não recebeu!!! Se alguém foi amado, saberá retribuir aos outros com amor!!!

No entanto, com certeza você também já se aproximou de alguém que não recebeu amor suficiente de seus pais, ou de outros!!! A descoberta será a mesma!! Com algumas exceções esta pessoa será um forte candidato a viver com desconfiança de Deus e dos outros. Terá dificuldade de confiar e amar o seu próximo!!! Pois sentir-se amado foi o que lhe faltou em um momento chave de sua vida, na infância, quando mais precisou para seu amadurecimento humano!!! A lacuna, o vazio, permanecerá!!! E somente a graça divina poderá preenchê-lo!!

Na liturgia deste final de semana, Deus nos fala da vocação que recebemos desde a fundação do mundo!!! A “vocação de termos sidos amados desde a fundação do mundo em Cristo”( Ef 1, 4). É para este chamado que se dirige a liturgia deste final de semana: “ Pai aqueles que me deste(…) para que contemplem a minha glória que me deste, por que me amaste antes da fundação do mundo” (Jo 17, 24).

No entanto ainda para muitos esta verdade ou é desconhecida, ou não é acolhida gratuitamente!!! E é também para estes que liturgia da Igreja se dirige!!!

Neste final de semana a palavra de Deus fala da vocação e do envio dos apóstolos!! O evangelho de Marcos recorda que: “Jesus chamou os doze e começou a enviá-los dois a dois, dando-lhes o poder sobre os espíritos impuros” (Mc 6, 13). Antes o Senhor já os havia chamado para estarem com Ele: “ E constituiu doze para que ficassem com Ele” (Mc 3, 14). Estão ai impressas às duas dimensões da vocação e discipulado cristão: estar com Ele, e após ser enviado!!!

Os discípulos de Jesus já haviam presenciado a força e a Palavra de Cristo!!! Até agora tinha sido somente Ele , Jesus a anunciar o Reino. Os discípulos, o seguiam, escutavam e aprendiam. Agora serão enviados, isto é, ao pé da letra, serão chamados apóstolos, de ouvintes, passam a ser anunciadores!!! E a realizar a mesma obra de Jesus Cristo na terra: “Como meu Pai me enviou, assim também vos envio a vós” (Jo 20, 21)

Como ninguém pode dar o que não possui!! Também os apóstolos não poderiam anunciar o Reino sem estarem plenos deste Reino dentro de si!!! E dos valores, da unção, da verdade que ele comporta!!! Por isso Jesus começa a enviá-los de dois a dois!!! São Gregório Magno via neste envio, a imagem das duas vias do amor: o amor a Deus e o amor ao próximo, significando que pregação e a missão era sempre a resposta do amor que os apóstolos haviam recebido de Cristo!!! A Palavra anunciada pelos doze concordava com sua vida!! Nisto residia também o poder sobre os espíritos impuros. (Mc 6, 7)!!!

O envio dos apóstolos ‘dois a dois’ revela outra verdade existente na missão apostólica!!! Ela não se encontra com o individualismo e sim com a comunhão: “ Onde dois ou mais estiverem reunidos em meu nome, eu estarei no meio deles” (MT, 18, 20).

Logo após a saída dos apóstolos Jesus os fará as seguintes recomendações: “não levem nada pelo caminho, a não ser um cajado, nem pão, nem sacola, nem dinheiro na cintura. Mandou que andassem de sandálias e que não levassem duas túnicas” (Mc 6, 8).

Este versículo diz muito sobre a essência da pregação apostólica: Ela não deverá estar fundada sobre aspectos externos apenas!! Eles serão também importantes!!! Mas não essênciais!! “Não levar nada para o caminho”, significa “levar o que vai dentro”!! No coração, na alma e na vida de cada missionário!! “ E ele replicou, Amarás o Senhor teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e a teu próximo como a si mesmo” (Lc 10,27)!!! Será isto que os apóstolos deverão levar para o caminho, pois será o mesmo que irão anunciar a todos os povos!!! Tendo esta experiência dentro de si, não terão necessidade de “dinheiro nas cinturas, nem duas túnicas, e irão permanecer com alegria nas casas que lhe acolherem!!! (Mc 6, 11).

Com toda a certeza o apostolado expressa muitas realidades!!! Por onde passa “expulsa muitos demônios e cura numerosos doentes” (Mc 6, 13). Mas neste final de semana de forma alguma esqueçamos uma de suas mais sublimes verdades: Aquela anunciada pelo apóstolo Paulo na carta aos Efésios: “ Nele fomos escolhidos antes da fundação do mundo para sermos santos e irrepreensíveis diante dele no amor” (Ef 1, 4). Todo o anúncio da Palavra de Deus é sempre uma devolução desta verdade!!! Que somos amados desde toda eternidade!!! O anúncio leva-nos a esta descoberta!!! E esta revelação, expulsa todo o mal e cura numerosos doentes, do grande mal da sociedade atual: de não sentir-se amados (a) por Deus!!!

 

“Crer para além das aparências, as fraquezas que revelam a força de Deus”

OXYGEN Volume 10XIV Domingo Comum

(Ez 2, 2-5; Sl 122; 2 Cor 12, 7-10; Mc 6, 1-6)

Do profeta Ezequiel personagem da 1ª leitura, temos algumas informações que parecem importantes: Sabemos qual a sua filiação e função religiosa:  “Veio a palavra ao sacerdote Ezequiel, filho de Buzi, na terra dos caldeus, junto ao Rio Cobar. Ali pousou a mão de Deus” (Ez 1, 3)!!!

Esta foi a sorte de Ezequiel!!  Desde seu nascimento investido da condição sacerdotal!!! Por isso responsável por oferecer o sacrifício no templo!!!  A função mais nobre do culto!!! No entanto o texto litúrgico de hoje não destaca o sacerdócio de Ezequiel e sim um chamado e uma nova missão, esta sim dada por Deus e não pela herança familiar: “Filho do homem, põe-te de pé que vou falar contigo. Enquanto eu falava, entrou em mim o espírito e me pôs de pé (…) enviar-te-ei aos israelitas, a esses rebeldes, (…) Os filhos insolentes e de coração duro”!!! (Ez 2, 1-3ss)

Talvez fosse melhor para Ezequiel continuar a viver seu sacerdócio cultual!!!  Desfrutar do prestígio cultural de ser reconhecido por oferecer o sacrifício pelos pecados de seu povo!!! Porém o Senhor entrou na sua vida e mudou seus planos!!!

Deus o dá um novo nome!!! Um recomeço em sua história de vida: O chama de Filho  do homem (2, 2), isto é filho de Adão, da terra!!! E neste esvaziamento de Ezequiel, o Senhor encontrou espaço para ungi-lo e fazê-lo profeta, não mais com sacrifícios vazios, mas com a palavra, quer escutem ou deixem de escutar, (2, 5) a um povo de coração duro. (2, 3)

No evangelho deste final de semana encontramos outra historia familiar!!! Porém não trazendo a mesma sorte de Ezequiel!!! A referência familiar que identifica Jesus de Nazaré é bem outra!!! Ele não pertence a “casta sacerdotal”, nem vive em Jerusalém!!! Sua família vive em Nazaré, onde cresceu!!! O primeiro capítulo do Evangelho de São João não traz as melhores informações sobre esta cidade: “Perguntou-lhe Natanael: Pode vir coisa boa de Nazaré”(Jo 1, 46)!!

A liturgia deste final de semana nos faz perceber que a história de Jesus de Nazaré é também permeada pela presença do esvaziamento, aqui encontramos uma correspondência com o texto da primeira leitura!!   E ambos, Jesus Cristo e o profeta Ezequiel irão se deparar com uma situação semelhante entre seus ouvintes: a de enfrentar a dureza de coração dos próprios compatriotas:

“ E não pode realizar ali nenhum milagre, a não ser curas de enfermos, impondo-lhes as mãos. E admirou-se da incredulidade deles” (Mc 6, 5-6)

Somos convidados como discípulos de Cristo a “olhar” para além das aparências. Reconhecer os sinais do mistério no ordinário da vida!!!  Muitos habitantes de Nazaré não conseguiram chegar a esta visão do mistério presente em Cristo!!! Jesus depois de retornar a sua “pátria”, começa a ensinar na sinagoga no dia de sábado. (Mc 6, 2)!!! A reação dos numerosos ouvintes é de admiração!!! Esta admiração, não produziu a adesão do seguimento ao Senhor e sim uma série de questionamentos!!! Todos eles reveladores de um “nó cego” que muitos de nós trazemos em nossa história de fé!!!  A árdua tarefa de reconhecer a dinâmica da encarnação do Senhor em nossas vidas!!! Do esvaziamento que também estamos submetidos por nosso seguimento a Cristo, na Nazaré de nossas vidas, na simplicidade e no silêncio que ela pode comportar!!!

Por sua vez, o evangelho, afirma que os Nazarenos conheciam Jesus!!!: “ Não é este o carpinteiro, o filho de Maria, irmão de Tiago, Joset Judas e Simão? (Mc 6, 3). No entanto perguntas permanecem sem respostas: “De onde lhe vêm tudo isto? E que sabedoria é esta que lhe foi dada?

A pergunta sobre a origem mais profunda de Jesus permanece no silêncio: “De onde lhe vêm”, esta sabedoria, estes milagres, esta autoridade?, ( Mc 6,2), enfim ao que parece, aos nazarenos a questão sobre o filho do carpinteiro, esbarra não em dúvidas, mas em certezas!!!: “ Não é este o filho…, sua mãe não é está, seus irmãos…??? (Mc 6, 3)!!! Os nazarenos estavam cheios de certeza sobre Jesus!!! Nós não estamos muito longe dos compatriotas de Cristo!!! Muitas vezes nos encontramos assim também!! Com muitas certezas sobre Cristo!! E sobre nossa vida de fé!!! É preciso que aconteça conosco a mesma intervenção que Deus fez em Ezequiel!! : “Entrou em mim o espírito e me pôs de pé”!! .(Ez 2, 1) Deixar o prestigio sacerdotal e voltar a ser filho do homem, para que o Senhor construa a sua casa em nós : “ Se o Senhor não construir a sua casa em vão trabalham os construtores” (Sl 127, 1)!!!

O mistério da encarnação revela não a força de Deus, mas sua fraqueza!!! E isto ainda é escândalo para muitos!!! Seria muito melhor nos depararmos sempre com a potência de Deus, do que crermos para além das aparências!!! O aparente sobre Jesus (não entenda-se o docetismo), revelam um esvaziamento maior e mais profundo do que o de Ezequiel!! : “ Ele estando na forma de Deus, não usou de seu direito de ser tratado como um deus, mas se despojou, tomando a forma de um escravo, tornando-se semelhante aos homens e reconhecido em seu aspecto como homem” (Fl 2, 6-8). Aqui reside sua verdadeira origem!!! E ao mesmo tempo sua condescendência por todos nós!!!

A segunda leitura: 2 Cor 7-10, fala de uma realidade que complementa nossa meditação!! O apóstolo fala do mistério das fraquezas humanas!!! É um texto para ser meditado em muitos momentos em nossa espiritualidade pessoal:

“ (…) foi me dado um aguilhão na carne um anjo que satanás para espancar”(2 Cor 7, 7). Uma experiência dura para Paulo, ao ponto de pedir por três vezes a libertação deste “mal”. No entanto, o Senhor o responde: “Basta-te a minha graça” (2 Cor 7, 9). Para Paulo não lhe é dada uma resposta plena de certezas e tranqüilidades!! O Senhor lança o apóstolo na “noite da fé” e da “confiança”!!!

E foi o melhor para o Paulo!!! Não o livrou da experiência da dor, para nosso maior escândalo, mas esteve com ele lhe dando forças: “ Mas o Senhor esteve ao meu lado e me revestiu de forças, afim de que por mim a mensagem fosse plenamente proclamada e ouvida por todas as nações” (2 Tm 4, 17).

Na liturgia de hoje os três personagens são símbolos de uma fraqueza reveladora da força de Deus: Ezequiel, perde o status sacerdotal, para ser filho do homem e falar como um profeta: “ Filho do homem põe-te de pé, pois vou falar contigo” (Ez 2, 1); Paulo descobre não sem dores que: “com todo ânimo devo gloriar-me de minhas fraquezas, para que pouse sobre mim a força de Cristo” (2 Cor 2, 9); E no mistério da encarnação de Cristo sua fraqueza: “não usou do  direito de ser tratado como Deus, mas se despojou” (Fl 2, 5ss), e por conseguinte a nossa única força!!!

Não tenhamos medo de nossas fraquezas, nem nos escandalizemos com elas. Tememos antes nossas certezas!!! Estas sim podem esconder um coração endurecido!!! “ E ali não pode fazer nenhum milagre” (Mc 6, 5)!!!