Pedro e a mediação humana na salvação!!

Duccio-di-Buoninsegna-Vocazione-di-Pietro-e-AndreaFesta de São Pedro e São Paulo

(At, 12, 1-11; Sl 33;  2 Tm 4, 5-6; 17-18; Mt 16, 13-19)

Neste final de semana celebramos em toda a Igreja as festas litúrgicas de São Pedro e São Paulo, nossas colunas!!! A coluna no corpo é um bem precioso. É ela quem dá a sustentação para a cabeça e a mantém suspensa!!! Quando apresenta desvios, (escolioses), o corpo todo sofre: são as famosas dores de coluna que atingem uma imensa parcela da população mundial!!! A Igreja, que também é Corpo de Cristo elegeu também suas colunas: São Pedro e São Paulo!!! E foi na cristalina profissão da fé destes dois provados discípulos que o Senhor: “edifica sua Igreja” (Mt 16, 19).

Nosso Senhor quis edificar a sua Igreja sobre colunas humanas. É o grande paradoxo da fé!!! Seria mais fácil e seguro se Cristo mantivesse as “chaves do Reino dos céus” (Mt 16, 19) em suas mãos, mas Ele o entregou!!! Como entregou a Tradição da fé aos sucessores dos apóstolos: “Transmiti-vos em primeiro lugar aquilo que recebi: Cristo  morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras. Foi sepultado, ressuscitou ao terceiro dia, segundo as escrituras. Apareceu a Cefas (Pedro) e depois ao doze…(…) Em ultimo lugar apareceu também a mim(Paulo) como a um abortivo” (1 Cor 15, 3-5).

Celebrar a solenidade destes dois mártires da primeiríssima geração cristã é celebrar a mediação humana e salvífica  da fé cristã!!! Todos temos certa desconfiança quando a dimensão humana colabora com  a divina na espiritualidade cristã. Percebemos hoje propagar-se cada vez mais em nossos tempos e até em nossa Igreja uma espiritualidade do “alto”, que “tenha a obrigação” de solucionar e responder de imediato a todas as sombras existentes na alma humana!!! Esta forma de viver a espiritualidade cristã não reconhece  uma sentença muita antiga na tradição católica que diz: “ que aquilo que não foi assumido pelo Verbo não foi redimido” (Gregório de Nissa, Gregório de Nazianzo, Capadócia; Sec. IV) !!! Isto significa para a espiritualidade cristã que: Cristo assume conosco todas as sombras que temos de nossa condição pecadora e de nossas fragilidades humanas e estas ambigüidades enquanto “oferecidas e não escondidas” da graça do Verbo, de modo algum são entraves para nossa união com o Senhor, mas se integradas tornam-se  um belíssimo caminho de santificação!!!

De certa forma o que serve para a espiritualidade cristã, serve também para a Igreja!!! Nossas colunas Pedro e Paulo, responsáveis por manterem “a cabeça em pé” e não permitirem os desvios no corpo eram colunas humanas!!! No entanto tornaram-se pedras vivas edificadas em Cristo: “ achegando-se a Ele, a pedra viva rejeitada pela humanidade, mas diante de Deus eleita e preciosa. Do mesmo modo, também vós pedras vivas, constitui-vos em um edifício espiritual…um sacerdócio santo( …)” (1 Pd 2, 5 ss)!!!

Neste final de semana, o Evangelho é desta solenidade é permeado de perguntas e de respostas!!!! Nem sempre foi assim! Muitas vezes Jesus deixou seus discípulos um pouco desconcertados, sem respostas imediatas!! “Es tu realmente aquele que há de vir?”( Mt 11, 2s); “Mestre onde moras? ”(Jo 1, 39). Mas nesta liturgia”às perguntas propostas por Cristo a seus discípulos, lhe são dadas devidas respostas! À primeira: “Que dizem os homens ser o Filho do Homem?” Respondem, “uns afirmam que é João Batista, Elias, outros, Jeremias ou um dos profetas” (Mt, 16, 14)!! Os discípulos não estão de todo equivocados na resposta dada!!! A pergunta de Cristo é profunda, aponta para sua filiação, sua origem mais profunda!!! O mistério que abarca toda a sua vida e que seus discípulos estão mergulhados.

Lembremos que no início do Evangelho de Mateus, esta realidade já esta presente!!! Logo após o final da genealogia de Jesus: “ Jacó gerou José, esposo de Maria da qual nasceu Jesus chamado Cristo” (Mt 1, 16); o evangelista narra o  anúncio do mistério da Encarnação a José em sonhos: “ José, filho de Davi, não temas receber Maria tua mulher , pois o que nela foi gerado, vem do Espírito Santo” (Mt 1, 20). O Pai adotivo de Jesus, não permanece sem respostas!!! É auxiliado pelo anjo que lhe revela o em sonhos, o grande mistério que o visita naquele momento!!!

Em certo sentido há uma aproximação nesta liturgia entre José filho de Davi e Pedro filho de Jonas!!! Há ambos fora revelado o insondável mistério de nossa fé cristã!!! O capitulo XVI é a espinha dorsal do evangelho de Mateus!!! E o que faz Pedro ser Coluna da Igreja é que de fato lhe fora revelado por Deus Pai a verdadeira identidade de seu Filho: “ e ninguém conhece o Filho senão o Pai, e ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Mt 11, 27)!!! Este “dom” de “conhecer” o mistério do Filho foi dado a Pedro, por Deus Pai!!! Pedro responde em Cesárea de Filipe, há algo muito grande!!!: “E vós quem dizeis que eu Sou”; “Tu és o Cristo o Filho do Deus vivo” (Mt 16, 16)!!

Não fora “nem carne, nem sangue”, que lhe haviam revelado isto!!! A carne e o sangue haviam dado a resposta meramente exterior, posta antes por seus discípulos!!! Equiparando Jesus aos profetas!!! Pedro responde da parte de Deus!!! Ele não vê o mistério, mas crê!!! Assim como Tomé que estende a mão e toca as chagas de Cristo e professa “ Meu Senhor e meu Deus” (Jo 20, 19)!!! É Pedro que é “tocado pela graça em seu coração” e por isso pode confirmar a fé por si!!! E como a fé possui sempre duas vias, uma pessoal e outra eclesial ele confirma também a fé de seus irmãos na Igreja!!! Jesus reconhece em Pedro um “Bem aventurado”, e de fato ele o é, pois os “puros de coração verão a Deus”. (Mt 5, 8).

Voltemos ao início de nossa meditação!!! A salvação possui também uma mediação humana!!! ‘Tudo é Graça, mas se supõe a natureza’!!! Pedro é coluna da Igreja. No corpo humano a ‘coluna’ possui ainda outra importante função!! Ela liga, a cabeça ao corpo!!! Tudo passa por um cuidado salutar com a retidão da coluna!!! Assim também hoje somos convidados a orar por Pedro!!! As origens cristãs já testemunham esta solicitude: “ Enquanto Pedro estava mantido na prisão, fazia-se incessantemente oração a Deus, por parte da Igreja, em favor dele” (At 12, 5)

É por isso que Jesus lhe entrega as chaves do Reino dos céus!!! Pois em sua profissão de fé a Igreja é religada ao Cristo como o Corpo a Cabeça!!!

Queremos renovar hoje nossa unidade a Pedro, a Paulo, a João, a Bento a Franscisco, nossos Pedros!!! E confirmar uma fé Cristã unida a sua Igreja!!!

 

 

 

 

“Em Cristo é preciso fazer travessias e chegar à outra margem”

pescaweb-blogXII Domingo do tempo comum

(Jó 38, 1.8-11; Sl 106; 2 Cor 5, 14-17; Mc 4, 35-41)

Na semana passada nosso país perdeu um de seus maiores compositores: Fernando Brandt parceiro musical de Milton Nascimento. Com Milton, Brandt compôs clássicos inesquecíveis de nossa música popular. Todos temos em nossa memória algumas de suas canções. No final dos anos 60 compuseram juntos “Travessia”, belíssima canção que em um de seus versos diz: “ Sonho feito brisa, vento vem terminar” .

A vida espiritual é também uma constante travessia. O Senhor nos convida a irmos ora caminhando, ora navegando de uma margem a outra!!! Isso é sempre o mais definitivo no discipulado de Cristo. De certa forma é o que a liturgia deste XII domingo do tempo comum nos exorta: seguirmos a Cristo e no seguimento descobrirmos “Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem”. (Mc 4, 41).

Na liturgia deste final de semana as leituras nos convidam a fazermos também travessias. Jesus mesmo convoca seus discípulos a navegarem em direção a outra margem: “ e disse-lhes…ao cair da tarde, passemos para outra margem” (Mc 4, 35). Jesus percebe que já tempo de seus discípulos o reconhecerem também em meio as provações!!!  Nos domingos precedentes conheceram um Cristo poderoso sobre as doenças e as potências demoníacas. Haviam experimentado sua força taumaturgica, sua palavra curadora o seu poder. Porém não tinham sentido em si mesmo a fraqueza, o medo, a provação da fé!!! Para os discípulos os ventos do início da caminhada eram sempre favoráveis, e os conduziam a seguir Jesus onde ele encontrasse: “E da Judéia, de Jerusalém, da Idumeia …dos arredores de Tiro Sidônia, uma grande multidão, ao saber de tudo o que ele fazia, foi a ele” (Mc 3,8).

No entanto Jesus percebe que é chegada à hora de fazer travessias, passar para outra margem!!! Ainda mais em si tratando que esta, se dará sobre o “mar”. O “mar” na mentalidade bíblica sabemos é rico de simbolismos!!! Ele (o mar) embora sujeito ao domínio de Deus, permanece sempre um mundo cheio de mistérios e perigos: Era a habitação de monstros: “poderás pescar o Leviatã com o anzol e atar-lhe a língua com uma corda” (Jó 40, 23); em virtude da profundidade de seus abismos, da amargura de suas águas, tornava-se a mais eloqüente e eficaz figura imagem das forças do mal! E será através deste inimigo natural do homem que Jesus ensinará seus discípulos a importância de fazer travessias para crescer na vida espiritual!! E por quê esta pedagogia tão desconcertante? Por que às vezes o caminho do sofrimento se torna o meio para o crescimento? Por que a vida espiritual nos apresenta estas dolorosas travessias? Por que o Senhor deseja que, superando as tempestades de nossa vida, nos tornemos mais livres, despojados, e percebamos que é somente Ele que importa!!! Muitas vezes levamos em nossas “barcas”, muitas “bagagens”, seguranças, que acabam por nos fazer apegados a “sonhos feitos de brisa”! E estes sonhos e apegos, não se sustentam!!! Por vezes estão relacionados às próprias imagens de Deus que estamos cultivando e que diante das tempestades da vida, se desfazem com a força dos ventos contrários!!! O Senhor quer neste final de semana fazer-nos perceber que Ele esta na barca da nossa vida!!! No comando das coisas, e se permite que sejamos tentados, é para que o reconheçamos e saibamos que: “ Não dorme, nem cochila o vigia de Israel, o Senhor é o teu guarda, o Senhor é como sombra que te cobre” (Sl 121, 4).

A Palavra de Deus nos apresenta outro aspecto interessante a nossa meditação: Algo que acontece sempre quando estamos vivendo um período de provação, como os discípulos estavam em sua travessia!!! Neste momento é natural que surjam dentro de nós perguntas: “Mestre estamos morrendo e não te importas?” (Mc 4, 38). Mas o que percebemos nesta liturgia, é que, quem faz as perguntas é o próprio Deus!!! É Ele mesmo quem fala “do meio da tempestade” (Jó 38, 1)!! E talvez esteja ai, nosso maior desafio! Ouvir nosso Deus falar quando pensamos que Ele definitivamente se emudeceu!!! No Evangelho “dormia” enquanto os seus pereciam!!!

A primeira leitura é uma imagem disto!!! Deus recorda a Jó, como em um clamor quem Ele é, e que esta cuidando de todas as coisas. Lembra a seu escolhido, que os inimigos naturais: “o mar e as ondas” são obras suas e não sucumbirão a Jó: “Quem fechou o mar com portas… quando marquei seus limites e coloquei portas e trancas, e disse: até aqui chegarás, e não além, aqui cessa a arrogância de tuas ondas” (Jo 38, 8ss)

Da mesma foram é Jesus quem faz a grande pergunta do evangelho de hoje: “Por que sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?” (Mc 4, 40). Depois de se sentirem  ameaçados pelas ventos contrários e as ondas que enchiam a barca, Jesus se ergue!!! E aquele antes em silêncio e dormindo na barca, ordena o silêncio e a calma ao mar e aos ventos!!! É assim também que acontece em nossa vida! Ele permanece conosco em meio às tempestades cotidianas que nos alcançam!!!  É-nos necessário aprender a ouvir nosso Senhor falar em meio as nossas tempestades!!! Elas são como aqueles sinalizadores que orientam os navegantes em alto mar, que corrente se deve tomar!! Por isso nos servem os momentos de prova!!! Não devem jamais ser desperdiçados por nós, ou desprezadas por nossa incompreensão!  São as horas de Deus em nossa vida!!!

São os profundos momentos de nossa espiritual travessia! A outra margem significa uma experiência mais profunda com o Senhor! Os discípulos aprenderam a pedagogia da confiança! Nós devemos aprender do “bom escriba que tira deste tesouro coisas novas e velhas” (Mt 13, 52)!!!

E ainda colhendo a mensagem do poeta, lembrar que a vida cristã não deve ser levada como “um sonho feito de brisas”, mas como uma casa construída sobre a rocha:  “ caiu a chuva, vieram as enchentes, os ventos deram contra a casa, mas a casa não caiu, pois estava construída sobre a rocha” (Mt 7, 27).

Neste domingo, não tenha medo de fazer as travessias de sua vida!! Elas são indicativas do amor que estamos entregando em nossa vida de fé!!! Solte sua  voz na estrada e  queira parar somente em Deus!!!

‘‘Enquanto estivermos ao lado de Deus, o tempo estará sempre ao nosso lado’’

XI Domingo comum

(Ez 17, 22-24; Sl 91; 2 Cor 5, 6-10; Mc 4, 26-34)

relogio-tempo

tempo de nascer, tempo de morrer, tempo de plantar e tempo de arrancar o que foi plantado” (Ecl 3, 2)

A liturgia deste final de semana traz a nossos sentidos a dimensão do tempo na vida cristã. Ele, ‘o tempo’, este companheiro inseparável do homem desenha sua existência, seus projetos, desejos, sonhos e claro nossa amizade com o Senhor. Todas as coisas acontecem no tempo e todas elas para ‘virem a ser’, precisam muitas vezes de um bom tempo de espera e confiança!!!

Há um momento para tudo e um tempo para todo propósito debaixo do céu”, diz o livro sagrado (Ecl 3, 1), mas sabemos que conosco nem sempre é assim. Temos pressa, vivemos quase sempre correndo e reclamando de nossa falta de tempo para nossos afazeres diários!

Na verdade nos encontramos mesmo é na contramão do tempo: vivemos sempre é na ‘ansiedade’, sua mais conhecida contradição; pagamos todos seus tributos, nos angustiamos, nos pré-ocupamos de coisas e dos muitos compromissos tão somente para encontrar maneiras de fugir daquilo que o tempo pode nos oferecer: o silêncio curador da alma, a paz do coração e um bom momento de oração!!!

As leituras propostas para este final de semana estão permeadas pela questão do tempo, como esta também a evangelização, os processos pastorais e obviamente nossa relação com Deus. Todas estas realidades necessitam da espera e paciência, para amadurecer e dar frutos.

O evangelho de hoje nos apresenta duas parábolas sobre Reino dos céus. Na primeira o Reino é comparado:  “com um homem que lançou a semente na terra, ele dorme acorda e de dia e de noite, mas a semente germina e cresce sem que  ele saiba como” (Mc 4, 26).

Um texto rico de simbolismos!!! Pois fala de um homem semeador, da semente, do dia e da noite, e do germinar da semente!!! É uma imagem do reino de Deus, que acontece em nossa vida sem que muitas vezes sejamos os controladores de sua ação! Você talvez conheça os controladores de vôo. São funcionários das forças armadas que carregam consigo uma imensa responsabilidade: Eles passam horas e horas monitorando os vôos das naves em nosso país, suas partidas e descidas, sem que possa haver algum erro! É uma tarefa e tanto essa!!! De grande responsabilidade e preparo técnico!!! Estes funcionários carregam são responsáveis pela integridade física de muitas vidas.  Mas com o Reino dos céus acontecendo em nossa vida, nem sempre somos nós os controladores do  vôo da “graça”!!! Ela vêm gratuitamente e realiza seu germinar em nosso meio: “ como a chuva e a neve descem do céu e para lá não voltam, sem terem regado a terra, tornando-a fecunda e fazendo-a  germinar, dando semente ao semeador e pão ao que come, tal ocorre com a palavra que sai da minha boca: ela não torna em mim sem fruto” (Is 55, 10-11)

A parábola nos exorta também a confiança e a espera: são dons sabemos do Espírito Santo. E que muitas vezes, devemos ter a humildade de pedi-lo ao Senhor. Estas duas características em nossos tempos aparecem cada vez mais raras. Temos dificuldade de confiar no próximo, de entregar coisas nossas a seus cuidados, e essa relação, se transfere também para nossa amizade com Deus… Muitas vezes queremos tomar conta de tudo: às vezes gostaríamos que ele apressasse as coisas em nós: que nossos problemas fossem de imediato resolvidos, nossas dívidas pagas, que ele acelerasse nossa conversão e “extirpasse de nosso  coração todo o pecado”!!! No entanto com o Senhor, as coisas precisam de tempo!!! A parábola fala que o homem “adormece” e “acorda”, que vêm a noite e o dia, mas a semente germina e cresce. (Mc 4, 27).

Adormecer, acordar, noite e dia. Tornam-se aqui na parábola, sinais da confiança. E de que o Senhor esta cuidando das coisas!!! Adormecer e acordar na linguagem bíblica lembram morte e ressurreição!!! Para deixar morrer coisas dentro de nós, talvez ainda não o saibamos, mas nosso Deus bem o sabe: necessita de um bom tempo de espera e paciência!!! E confiança no Senhor!!!

Noite e dia, por sua vez, simbolizam as realidades espirituais que convivemos: A noite, aquela hora em que temos a sensação de que Deus silencia!! Em que sobressaem as dúvidas da fé, que antes eram tão sedimentadas!!!! A desconfiança, a fragilidade!!! O dia simboliza a iluminação da graça que a cada manhã se renova em nossa vida: “ pelo qual nos visita o astro das alturas, para iluminar os que jazem entre as trevas e na sombra da morte” (Lc 1, 79).

Esta primeira parábola recorda que o Senhor tem uma pedagogia com os seus discípulos e respeita nosso tempo, que é amoroso e paciente!!!! E que perfeitos são seus caminhos (Sl 18, 31).

O tema da temporalidade continua na segunda parábola e na leitura de Ezequiel: Aqui o Reino de Deus é comparado a um pequenino grão de mostarda, mas logo que colocado na terra, morrer e dar fruto, se torna a maior das hortaliças  “e deita grandes ramos,  a tal ponto que as aves do céu se abrigam em sua sombra” (Mc 4, 32). A imagem é belíssima!! É um símbolo do mistério pascal de Cristo, que como o grão de mostarda foi posto na terra, morreu e deu muitos frutos!!! Mas é figura da Igreja também. A Igreja, esposa de Cristo, nasce pequenina, mas se tornou uma grande árvore que doa vida para seus filhos, seus ramos somos todos nós, seus frutos os sacramentos!!!

Mas podemos ainda ampliar a simbologia do texto, sem a necessidade de forçá-lo e pensar que este grão de mostarda somos também todos nós!!! Jesus disse: “ Pois eis  que o  Reino de Deus esta no meio de vós”( Lc 17, 21).  Sem desconsiderar a presença do Reino em Cristo e sua Igreja, há também uma “escondida” presença deste reino dentro de nós!!! Nós participamos também desta imensa graça que ser “sinal do Reino” no mundo, e como: Acolhendo em nosso íntimo a mensagem das parábolas do Reino. Vejam o que acontece com as sementes: ambas caem na terra, morrem e por isso produzem muito fruto!!! Mas por quê? Por que esta semente é o próprio Cristo!!!! Que foi semeado em nosso coração, e espera nossas pequenas mortes cotidianas com doçura e paciência!!!

No livro do profeta Ezequiel outra alegoria ajuda-nos a compreender o mistério do Reino em nossas vidas. A alegoria utilizada é a do cedro, uma das árvores mais exuberantes do oriente (Ver cap. 21, 7).

O próprio Senhor retira do cedro um simples “broto” da extremidade de seus ramos, e replanta sobre um “monte alto e elevado” (Ez 17, 23). O texto encerra dizendo: “que eu Iahweh, é que abaixo a árvore alta e exalto a árvore baixa, que seco a árvore verde e faço brotar a árvore seca” (24)

Esta imagem profética de Ezequiel pode inspirar muitas coisas a nós!!! No itinerário da descoberta do Reino, percebemos que é sempre tempo de nascer de novo. Permitir às vezes o mais difícil: deixar ele mesmo retirar algumas brotações que não para nada!!! Podemos parecer um cedro grande e vistoso, mas que pode estar “seco” por dentro. Lembremos que ele “abaixa a árvore alta e exalta a baixa” (24). Deixemos o Senhor realizar isto em nossa vida e tenhamos paciência com as demoras de Deus. Ele esta cuidando de nós.

Teresinha do menino Jesus sofria muito com as demoras do Deus em sua vida!!!  Ás vezes tinha pressa, queria que Deus lhe acelerasse seu processo espiritual, outras vezes nem tanto! Precisou também aprender a respeitar o tempo de Deus na brevidade de sua santa vida, permaneçamos com seu belo testemunho:

“ Logo, porém, compreendi o valor do tempo que me era disponível e decidi dedicar-me, mais do que nunca, a uma vida compenetrada e mortificada. Se digo mortificada, não é para levar a crer que praticasse penitências. Infelizmente, nunca fiz nenhuma. Muito longe de me assemelhar as belas que, desde a infância, praticavam toda sorte de mortificações, não sentia nenhum atrativo por elas(…) Mas em lugar disso, deixava-me regalar e tratar bem como filhote de passarinho, que não carece de penitência. Minhas mortificações consistiam em dominar minha vontade, sempre pronta a impor-se,(…) foi pela prática desses nadas que me preparei para ser a desposada de Jesus” (História de uma alma, Manuscritos autobiográficos, p. 164)

 

 

 

 

 

 

10 domingo comum (Gn 3, 9-15; Sl 129; 2 Cor 4, 13-18-5; Mc 3, 20-35) Nada pode romper nossa amizade com Deus!!!

pai_e_filhoDepois que celebramos as solenidades da Santíssima Trindade e Corpus Christi, retornamos ao tempo comum. Na liturgia da Igreja o tempo comum nos apresenta a seguinte característica: Propiciar aos fiéis o encontro com o Ressuscitado no cotidiano de nossas jornadas: “Seria como manter um profundo vínculo com um grande amigo, para além das festas, das celebrações, dos grandes encontros!!! Depois dos sentidos e fortes momentos, ela a amizade não “congela”, pelo contrário, no cotidiano passam a ser descobertos novos sinais, gestos e novas formas de presença e afeto, e no contexto litúrgico os grandes momentos vividos antes no tempo da quaresma,páscoa e solenidades serão agora aprofundados no Senhor que caminha ao nossa lado!!!

Neste final de semana a liturgia esta nos convidando a meditar exatamente sobre isto: A respeito de uma amizade que não termina e nada dissolve e que nada nem nenhum mal poderão arruinar: “Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo a espada( …. )por isso estou convencido de que nem a morte nem a vida, nem os  anjos…nem qualquer outra criatura poderá nos separar do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus , nosso Senhor” (Rm 8, 35-38)

Na primeira leitura, temos o relato da queda: O capítulo III do livro do Gênesis nos coloca diante do grande drama humano, a entrada do pecado no mundo e com ele suas conseqüências. O que antes era pura amizade e sintonia entre o homem, Deus e o cosmos, se torna com a “queda”, divisão, acusação e irresponsabilidade!

Existirá certamente outras conseqüências frutos da desobediência primeira, no entanto nesta liturgia gostaria de aprofundar as citadas acima, pois parecem mais próximas de nossos contextos eclesiais.

Divisão, acusação e uma boa dose de irresponsabilidade não serão capazes de sustentar nenhum vinculo afetivo!!! A narrativa de Gênesis nos fala que: “O Senhor Deus chamou a Adão, dizendo: ‘onde estas’?” (Gn 3, 9). A pergunta não evoca apenas um ‘lugar’, mas uma situação existencial!!! Adão vivia na intimidade com o Senhor: “ouvi teus passos no jardim, e fiquei com medo…e me escondi” (Gn 3, 10). Algo ficou perdido em Adão!!!! Mas ele não quer assumir nenhuma responsabilidade: reação típica de pessoas que sabem que tocaram algo ilícito, ou quem sabe de crianças, quando ‘fazem uma arte em suas casas’, imediatamente elegem um culpado: “geralmente um irmão mais velho”. O pecado faz isso em nós, nos torna infantis!!!!

Adão encontrou um culpado: “a mulher que me deste como companheira, foi ela que me deu o fruto da árvore e comi” (Gn 3,12). E, por conseguinte a mulher acusa a serpente: “enganou-me e comi” (Gn 3, 13).

É claro que não podemos desconsiderar aqui a artimanha da “serpente” e do mal nela simbolizados!! Na antiguidade ela sempre foi identificada com a esperteza e a astúcia, mas a liberdade de escolha é sempre humana! Ambos, homem e mulher foram seduzidos, mas cederam, caíram nas promessas de terem “olhos abertos” e “serem como deuses”. Era uma promessa e tanto esta, ter ‘olhos abertos’, significava, conhecer!!! Pois o conhecimento vinha por meio da visão, é um ingresso cultural grego no texto de gênesis!!! Por outro lado, conhecer a todas as coisas, tornar-se onisciente era destino somente dos “deuses”. Nossos primeiros pais caíram na armadilha da onisciência em nome de uma liberdade total, que os separou da amizade com Deus e, por conseguinte fragmentou uma unidade antes experimentada com a mulher, que se torna rival e com a criação, simbolizada na serpente: “ Porei hostilidade entre ti e a mulher, entre tua linhagem e a linhagem dela, ela esmagará a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gn 3, 15).

E então, o que restará ao homem agora dividido em si mesmo, com o Senhor e com a criação? Que respostas encontrará aquele chamado a ser ‘imagem e semelhança’, a estas ‘inimizades’, que habitam agora em seu coração? Poderão homem e mulher tornarem-se “companheiros” de novo, amigos? A resposta é positiva!!!; e se encontra no intimo do homem. É ali que ele é chamado a recomeçar sempre!!!

Na realidade com a queda uma unidade foi perdida, o homem sentiu-se dividido e recomeça agora em Cristo um processo de integração, que é penoso e muitas vezes doloroso, mas é o caminho que o levará de novo a aquela amizade plena com o Senhor!!! São Paulo expressa muito bem isto: “vós que outrora estáveis longe, fostes tornados próximos pelo sangue de Cristo. É Ele com efeito que é nossa paz, do que era dividido, fez uma unidade, em sua carne destruiu o muro de separação” (Ef 2, 13-14)

É a salus carnis de Cristo que devolve ao homem a imagem e semelhanças perdidas em Adão!!! Na carne enquanto oposição a Deus o homem pecou, no entanto o Verbo ao assumir a carne humana recapitula todas as coisas em si!!! Integra novamente. Tudo que no homem era oposição, divisão e inimizades, em Cristo (sua carne) se torna redimido, elevado integrado!!! Pois Ele é o novo Adão!!! E Nele homens novos.

O Evangelho deste final de semana nos fala de uma acusação sofrida por Cristo da parte dos mestres da lei: “diziam que ele estava possuído por Belzebul, e que pelo príncipe dos demônios que ele expulsava demônios” (Mc 3, 22); outra vez nos deparamos com uma das conseqüências do pecado: “acusam Cristo de agir possuído pelo mal”! Jesus desconstrói esta nova artimanha, lembrando que toda a divisão não encontra suas raízes em Deus, mas no próprio acusador (que era um dos nomes do diabo)!!! A acusação, a divisão, a discórdia foram superadas pelo Senhor na obediência a seu Pai na cruz!!! “ Por isso não desanimamos. Mesmo se o nosso homem exterior se vai se arruinando, o nosso homem interior pelo contrário, vai-se renovando dia a dia” (2 Cor 4, 16)!!!!

E para nós hoje, que fazemos com nossas cotidianas inimizades, divisões e acusações? Elas que se manifestam de varias maneiras: ora em relação a Deus, ora aos outros e muitas vezes a nós mesmos. Somos os primeiros a nos apontar o dedo e lembrar nossas misérias e cair na tentação do inimigo que jamais serão superadas? A primeira coisa é lembrar, quem acusa têm nome e endereço, e um interesse que você descubra sua fria habitação. Ele é o acusador e aquele que divide: “diabo”!!! Então atentos a estes movimentos da alma, quase sempre não são provocados pelo bom Espírito!!!, mas por alguém que não nos ver em paz com Cristo. Ao contrário Nosso Senhor assumiu e elevou nossas tantas misérias!!! Há muita divisão em cada um de nós, sabemos, temos muito de andar, o Sl desta liturgia diz: “Das profundezas eu clamo a voz Senhor, escutai a minha voz” (Sl 129, 1). E Ele escuta, pois é o eterno amigo do homem!!! É ele que surge no deserto de nossas vidas e pergunta de novo: Onde estás? A pergunta feita a Adão foi cuidadosa e amorosa e não punitiva!!! Hoje deixe o Senhor lhe perguntar de novo, onde estas?  E onde estou em tua vida: Se te sentis perdido, será o teu caminho! Se estás dividido, te devolverá a unidade espiritual, se te encontras distante, quase um inimigo, vai te devolver a amizade eterna e salvadora!!!  A mesma voz que estava no paraíso a procura de Adão é a que amigavelmente pergunta e corre atrás de você em nosso  tempo!!! “Vós sois meus amigos, se praticais o que vos mando. Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que o seu Senhor faz; mas eu vos chamo amigos, porque tudo o que ouvi de meu Pai eu vos dei a conhecer” (Jo 15, 14-15)