Festa da Santíssima Trindade “Em Deus não existe solidão”

Papel de Parede do Visualizador de Fotos do WindowsNeste final de semana celebramos a solenidade da Santíssima Trindade, mistério mais dado a contemplar do que a explicar!!!! Depois de celebrarmos Páscoa e Pentecostes, ressurreição do Filho e envio do Espírito é chegada à hora de contemplarmos o princípio, a fonte, o começo, o movimento de todas as coisas, o Deus Uno e Trino!!!

A solenidade da Santíssima Trindade aponta para o ser de Deus!!! E a primeira informação que nos é comunicada é que em “seu ser”, não é possível a solidão!! Ele é uma família, formada por três pessoas reunidas em uma única natureza chamada “amor”. Outra informação que podemos colher desta solenidade litúrgica, é que “esta fonte, este princípio”, foi nos dado no dia de nosso batismo, e a partir de então passamos a viver interiormente esta familiaridade divina “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”, nisto podemos concluir que também a solidão humana é impossível!!!

A Santíssima Trindade sabemos é um imenso mistério, não é fácil decifrá-la, bem melhor seria amá-la. Mas como poderemos amá-la se não a conhecemos? Ou como poderíamos contemplá-la senão a sentimos em nossa vida, se ainda esta distante de nossas realidades, se o mistério do Deus Uno e Trino, ainda continua a ser em nossa mentalidade, matéria de reflexão para teólogos e filósofos!

Não é bem assim, pois Deus se revelou. E revelar-se é isso, é tirar os véus, as coberturas, é dizer quem se é na verdade. E Deus não quis ocultar-se e sim apresentar-se, pois quem ama, não teme revelar-se, dizendo à criação, que não estava só: “Façamos o homem nossa imagem e semellhança” (Gn 1, 26); “No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus”. (Jo 1, 1ss).

A revelação de Deus é sua não solidão, e que por sua vez, acaba por revelar a nossa também. Não é somente Deus que é um mistério, o homem o é também. Aquele chamado a ser sua “imagem e semelhança”, posto ao centro de toda a criação, por vezes é tão desconhecido de si- mesmo e dos outros quanto o mistério do Deus Uno e Trino. E por que isto acontece? Por que os homens e as mulheres colocam tantos véus em torno de si, ao invés de trilhar o caminho mais fácil, o da revelação? Por que com o pecado de nossos primeiros pais, algo se perdeu dentro de nós: “Uma amizade plena e uma liberdade perfeita”. O homem olhou para si e se percebeu “nu”, “envergonhado”! Antes uma amizade sem temor e uma liberdade perfeita no amar. Agora como conseqüência deste afastamento, a intimidade com Deus foi perdida e como conseqüência a unidade consigo mesmo e com os outros!

É por isso que desconfiamos, e carregamos a sensação de um mundo onde o outro é um inimigo e Deus um desconhecido!

então abriram-se os olhos dos dois e perceberam que  estavam nus e entrelaçaram folhas de figueira e se cingiram, eles ouviram os passos de Iahweh Deus que passeava no jardim à brisa do dia e o homem e a mulher se esconderam da presença de Deus” (Gn 3, 7-8).

Mas é exatamente ai, neste lugar simbólico entre estar num jardim em plena amizade com Deus e logo experimentar o deserto e a perda desta intima-unidade é que o mistério da Trindade nos socorre e nos salva! Pois a Trindade nos fala que o amor é quem “gera” os outros no próprio ser de Deus! O Pai, o eterno amante, amando eternamente, gera seu Filho amado!!! “Tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo” (Mc 1, 11). “Pois Deus amou tanto o mundo que entregou seu Filho único para que todo o que nele crer tenha a vida eterna” (Jo 3, 16).

Mas como entendermos ainda um terceiro em Deus mesmo? O Pai só pode ser Pai se tiver um filho, mas o Espírito Santo, como é compreendido neste mistério? A segunda leitura da liturgia de hoje apresenta o Espírito como aquele que nos confirma que somos filhos de Deus: “Todos os que são conduzidos por Deus são filhos de Deus; recebestes um espírito de filhos adotivos, pelo qual clamamos Abba! Pai!” (Rm 8, 15)

É o Espírito Santo que nos conduz a toda a verdade!!! Ele é nosso advogado na Trindade: “quando vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá a toda a verdade plena pois não falará de si mesmo mas dirá tudo o  que tiver ouvido” (Jo 16, 13).

Em nós ele grita ‘Abba!! Pai’!!’ O termo Abba, é um modo de chamar Pai!!! Porém em uma forma muito íntima!! Como o balbuciar de uma criança ao ver seu Pai!!! Abba seria o diminutivo de Pai. Poderíamos traduzi-lo por “Papai, paizinho”. E esta era a forma com que Jesus relacionava-se com seu Pai! Até mesmo na hora da Cruz: “Abba o Pai!! tudo te é possível para ti: afasta de mim este cálice” (Mc 14, 36).

O Espírito grita este Abba dentro de nós também!! Pelo batismo recebemos este dom, este acesso e de novo esta intimidade tornou-se possível. Permitir que o “amor”, nome do Espírito Santo no mistério trino, balbucie a palavra Pai em nosso íntimo, nos faz perceber que o mistério santo de Deus não esta fora, ou distante de nós, mas dentro, no mais íntimo de cada pessoa humana:

Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! Estavas dentro e eu de fora te  procurava; lançava-me, eu disforme, sobre as coisas belas que fizeste. Estavas comigo, contigo eu não estava” (Conf, Agost, L, X, 26)!

E o terceiro então na Trindade quem é? E a mais pura intimidade que há entre Pai e Filho, sua respiração, comunicação, amor, entrega total Neles e pelo Filho a nós!!!

A trindade em nós inaugura o caminho da interioridade! Ela é o templo onde reconstruímos de novo nossa amizade com Deus, com nossos irmãos! Ela nos recorda esta presença antes ignorada de Deus em nós, mas que precisa ser sempre descoberta, desvelada!!! A Trindade em nosso íntimo nos devolve a condição de filhos. Havíamos perdido com a desobediência original, e iniciava um processo de solidão humana! Pois a grande solidão é a sensação de ruptura com o Deus amor. Mas a obediência do Filho entregue na cruz devolve à humanidade a condição mais nobre que podemos ter: “de sermos chamados filhos de Deus” (1 Jo 3, 1)

Nesta solenidade da Santíssima Trindade, peçamos que o Senhor nos conceda algumas graças: a) Traga de novo a nossa memória a graça de nossa filiação divina; b) abra nossos olhos para percebermos que viver na familiaridade da Trindade é começo de cura para qualquer sentimento de solidão que possamos carregar conosco e; c) que a Trindade em nós, crie caminhos de interioridade e intimidade com o Senhor e abertura para com todos, “pois no amor não há temor”!!  (1 Jo 4, 18)

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“Espírito Santo enche-nos de ti mesmo”

pentecostes015Neste final de semana celebramos a solenidade de Pentecostes. Depois de 50 dias de alegria pascal é ora de colher as primícias, os primeiros frutos, os dons, carismas, serviços e prodígios que fazem com que a Igreja de Cristo seja sempre uma esposa bela e ornada para seu Senhor: “ A voz do meu amado! Vejam, vem correndo sobre os montes… Fala meu amado, e me diz ‘levanta-te, minha amada, formosa minha, vem a mim!” (Ct 2, 8.10).

Pentecostes na liturgia cristã é isto: festa da Igreja! Dê seu nascimento no tempo, daquela que ‘ao ouvir a voz do amado’ (Cristo), sente que já é hora de ‘levantar-se’ (Ef 5,14) e correr com alegria a seu encontro!

Pentecostes e Páscoa do Senhor celebram na realidade mistérios semelhantes! Na ressurreição é Cristo que se ergue da “morte”. Nele a “cabeça” se ergue, para estar à direita do Pai. Em Pentecostes é a hora e a vez de todo o “corpo” levantar-se também de seu sono! Como o corpo que levanta-se à chegada do ‘Esposo’, todos nós seus membros somos a partir de agora chamados a ‘acordar’ dos “sonos de morte” que nos adormecem e impedem de ver e tocar os frutos que o dom do Espírito concede a Igreja nesta feliz solenidade!  “Ora vos sois o corpo de Cristo e sois seus membros, cada um por sua parte” (1 Cor 12, 27).

Na liturgia deste domingo é notória a alusão a Igreja em todas as leituras:

O livro dos Atos dos Apóstolos nos traz a efusão do Espírito Santo, com muitos sinais extraordinários: O vento, as línguas de fogo, os povos de todas as nações conhecidas, e todos no ‘mesmo lugar’ e na mesma ‘casa’! São dois símbolos importantes para esta solenidade: Apontam para um dos dons mais ricos do Espírito: a unidade!!!! E a unidade é também um dos nomes da Igreja Católica; ela deve ser sabemos, ‘santa, apostólica, mas sempre una’. “ Há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo;  há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo, diversidade de modos de ação, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos” (1 Cor, 12, 4-6)

No Pentecostes de Atos dos Apóstolos, sobressaem os muitos carismas do Espírito: o vento impetuoso, as línguas de fogo sobre as cabeças dos discípulos, o dom das línguas! Mas os dons extraordinários não se elevam sobre a unidade, fruto maior do Espírito de Deus: “ Não são acaso galileus todos esses que falam? Como é, pois, que os ouvimos falar, cada um de nós, no próprio idioma” (At 2, 7); E ainda o apóstolo Paulo com maior ênfase diz: “ aspirai aos dons mais altos… ainda que eu falasse línguas as dos homens e as dos anjos, se eu não tiver caridade, seria como bronze que soa…”  (1Cor, 13, 1) Os dons e carismas que não por nossos méritos, mas por pura graça, recebemos no dia de Pentecostes, são importantes, movimentam a Igreja, reforçam a evangelização, dotam os fiéis com os tantos dons do Espírito de Deus, mas estão a serviço do corpo de Cristo que é sua Igreja!

Outro aspecto importante que aponta a dimensão eclesial desta liturgia se dá em um verbo que ora aparece em At 2, ora no Evangelho . O verbo “encher” é próprio do Espírito. Ele remete a noção de preenchimento do que antes podia estar vazio, mas também de plenitude, de graça e de vida: “se retiras tua respiração eles expiram voltando ao pó, envias teu sopro e eles são criados e renovas a face da terra” (Sl 104, 20)

Em Atos: “encheu toda a casa”, e “ficaram repletos do Espírito Santo” (At 2, 2;4). Esta casa, oikos, na língua grega ou domus na latina, era o nome da Igreja. oikos, era o símbolo da comunhão, enquanto domus, as casas onde na Igreja primitiva se encontravam os cristãos para celebrar os mistérios!!! E ela, a Igreja, agora é cheia do Espírito e preenche da graça os que receberam o batismo!

No Evangelho de João de novo percebemos a idéia da casa!! Os discípulos estão reunidos, no primeiro dia da semana, “estando fechadas as portas por medos dos judeus”(Jo 20, 19)!!! Portas fechadas evocam claro o medo da perseguição, mas podem significar também muitas portas que estão fechadas em nós mesmos e tememos abri-las. Portas fechadas lembram medo, isolamento, falta de perdão, egoísmo e egocentrismo de não querer abrir-se a graça de Deus e conseqüentemente aos outros. Esta não é uma bela imagem da Igreja! A igreja é a casa aberta, que celebra e vive a unidade! Todos nós sabemos que ainda existem portas e quartos fechados em nossa vida que se não tratarmos de abri-los para o Senhor poderão com o tempo fazer-nos muito mal! Cristo entrou onde os discípulos estavam!  E em lugar do medo, nasceu a paz! A reação dos discípulos foi uma imensa alegria, como em Pentecostes, “cheios de vinho doce” (At 2, 13)

Cheios sim, mas do Espírito! Ele é a alegria que nos chama nesta solenidade a abrir as portas e deixar que o Espírito nos preencha dele mesmo!

Quais as portas da sua vida que ainda estão trancadas? Que medos ainda nos paralisam? De que sonos de morte não queremos acordar? Deixe o Senhor soprar sobre você o seu Espírito!!! E abra as portas e janelas para que o amor de Deus lhe faça uma nova criatura!!!

 

Festa da Ascensão do Senhor “Um mundo em três andares ou em três dimensões humanas”

Ascensão+de+Jesus+aos+Céus

A solenidade da ascensão do Senhor que celebramos ainda no tempo Pascal, marca o cume deste tempo litúrgico que vivemos durante estes mais de 40 dias. Como o cume de uma montanha é sua parte mais alta, a ascensão é sim também a subida a este monte! Sabemos que é nas partes mais altas que conseguimos ver melhor, mais longe e com maior amplitude. No entanto a solenidade da “subida” só pode ser bem compreendida se associada ao mistério de sua “descida”. Dois mistérios estes de nossa fé que se complementam, encarnação e ressurreição do Senhor.

A liturgia de hoje, já era celebrada desde a antiguidade cristã. Presente nos primeiros símbolos apostólicos da era cristã até sua profissão oficial em Nicéia 325 e em Constantinopla 381: “ anelqonta eis tous ouranous “, ‘Ele subiu aos céus’ (Constantinopla, 381).

Sem querer trilhar a teologia do dogma, a pergunta que devemos fazer no dia de hoje é: O que esta solenidade diz a nossa vida? Ao nosso tempo? A nosso caminho espiritual e eclesial? . Sabemos que falar em nossos dias de um tema como a ascensão do Senhor, é desafiante, pois vivemos em um contexto onde as categorias do tempo estão reduzidas ao aqui e agora, ao pré-determinado! Ao imediato e cada vez mais o mundo atual vai perdendo a expectativa de uma “idéia de céu”, o que tem interessado hoje em dia é o “já”. Também nos ambientes eclesiais sentimos esta dificuldade. É difícil às vezes falar na catequese as crianças e aos jovens e até mesmo nas assembléias litúrgicas de temas que envolvam a vida eterna, o céu, a ascensão do Senhor. E por que isto acontece? Penso que por dois motivos: Primeiro por que estamos por demais impregnados da cultura do imediato e do “é pra já” em nossa vida. Outro aspecto é o do conhecimento: Encontrar uma linguagem que de acesso a este mistério de fé.

No inicio de nossa meditação falávamos que a “subida” só pode ser bem compreendida com o mistério da “descida” do Senhor:

Que significa que ‘subiu’, senão que ele também desceu, às profundezas da terra’? O que desceu é também o que subiu acima de todos os céus” (Ef 4,9). Estes dois verbos subir e descer lembram ao leitor cristão, de um mundo divido em três andares. Um andar de baixo, os infernos, um intermediário, onde vivemos e um andar de cima, os céus, onde iremos, como se fossem três lugares distintos, que não se tocam um ao outro. Mas não é bem assim. A Ascensão do Senhor não é uma “repartição”, mas sim uma realidade humana e espiritual, da qual todos participamos pelo elo da via batismal: “ Se morremos com Cristo cremos que também com Ele viveremos”(Rm 6, 8). Porém esta afirmação não exclui a realidade teológica dos “céus”, mas não como um lugar para além do mundo, e sim como a plena comunhão com Deus, que o Filho experimentou depois de sua morte. Eis ai o lugar onde mergulhamos na liturgia de hoje. Cristo passou pela morte, Ele “desceu”. O antiquíssimo hino cristológico aos Filipenses descreve esta visita de Cristo aos infernos: “humilhou-se e foi obediente até a morte e morte de cruz, por isso Deus o sobreexaltou grandemente e o agraciou com o nome sobre todo o nome”(Fl 2, 8-9). Pensamos então de que modo a morte de Cristo torna-se via para sua e nossa ascensão?

A morte é sempre o grande mistério da humanidade. É a experiência do abandono absoluto, do silêncio, da negação e por que não dizer do abandono de Deus! Os antigos costumavam afirmar que a região do hades (infernos) era fria e solitária ! No entanto isto foi de alguma forma experimentada pelo Verbo eterno de Deus, que no alto do cruz gritou: “ Meu Deus, meu Deus por que me abandonastes” ( Sl 22,1; Mc 15, 35). A descida de Cristo a região dos mortos é razão para sua “subida”. Com sua morte, na sexta-feira da paixão, Ele supera esta ultima inimiga, assumindo-a, morrendo e ao terceiro dia ressuscitando dos mortos. Primeiro a cabeça (Cristo) e logo após todos nós seu corpo (Igreja). E o que esta realidade diz sobre a solenidade que estamos celebrando? Que todos nós agora somos cidadãos do céu!!! A morte biológica, ma também as mortes existenciais que são muitas foram todas assumidas por Cristo. Não há mais razão para o abandono, a solidão, a negação de Deus, a edificação de infernos que nós mesmos construímos. A festa a ascensão do Senhor nos ensina que a experiência do céu, pode começar agora conosco. O Evangelho deste final de semana diz: “Estes são os sinais que acompanharão aos que tiverem crido: em meu nome expulsarão demônios, falarão novas línguas, pegarão serpentes, e se beberem algum veneno mortífero nada sofrerão” (Mc 16, 17) O texto é forte, fala dos sinais que acompanharam os discípulos da primeira geração, mas fala também de algo muito simbólico!!! Tantos são os demônios que encontramos fora e dentro de nós, tantas serpentes, ou venenos que parecem que vão nos tirar as forças e criar situações infernais em nossa vida.

Estes sinais-símbolos são como sombras que temos, e às vezes podem ser tão perigosas quantas as serpentes e os demônios fora de nós. São as nossas regiões de morte, nossos vales escuros, que por mais que pensamos ou sintamos como regiões solitárias e esquecidas, não o são! Por que Cristo desceu lá, e quer descer com você se você permitir, para que você suba com Ele e enxergue melhor, com mais amplitude!

O céu começa em cada um de nós, já aqui e agora, se é assim que o pragmatismo atual define! Começa quando deixamos entrar a luz do ressuscitado sobre nossas noites e sombras! A fé na ascensão é uma experiência de cura espiritual de que este mundo é também sombra de algo que “nossos olhos não viram, os ouvidos não ouviram, e o coração do homem não percebeu, isso Deus preparou para aqueles que o amam” (1 Cor, 1, 9). Mas esta visão das realidades eternas pode ser vista também no tempo. Começamos a vê-la quando nos empenhamos em amar “aquele que ama conhece a Deus” (1 Jo 4, 80), quando encontramos uma casal de namorados que vivem a dom da castidade, pois sabem  que a espera em  seu namoro, revela uma realidade maior, um amor maior no  qual também estão mergulhados, contemplamos e subimos, quando encontramos os consagrados (a), vocações que apontam para o eterno, e dizem as vezes no mais inaudito silêncio que a vida só se realiza em Deus, percebemos os  vestígios da ascensão quando encontramos testemunhos como o de santa Teresa de Calcuta, no amor aos mais pobres, enfim em tantos outros gestos!

A celebração de hoje revela por fim uma saudade do mundo! “ a criação em expectativa anseia pela revelação dos filhos de Deus…pois ver o que se espera não é esperar.  Acaso alguém espera o que vê? E se esperamos o que vemos, é na perseverança que o aguardamos” (Rm 8, 25) . E por outro sua cura: Pois a subida aos céus de Cristo aponta o futuro da humanidade, diz que nosso coração só encontra repouso em Deus, e não faz da realidade mundo um fenômeno fechado em si mesmo! Mas como estão abertos agora os céus para todos nós, nós devemos estar abertos aos nossos irmãos!! O céu que se abre no firmamento, é o mesmo que deve abrir-se dentro de mim para todos. Assim subimos,  e o que era antes abismo, agora se torna ponte, aqui na terra como no céu!!!

V Domingo da Páscoa “As podas que nos salvam” (Jo 15, 1-8)

Neste quinto domingo da páscoa, a liturgia da Igreja nos traz o belíssimo texto da verdadeira videira no Evangelho de João. A videira é uma árvore muito conhecida em nossos meios, podemos encontrá-la facilmente em nossas, casas, pátios ou quintais, ofecerendo gratuitamente seus saborosos frutos a cada estação.  O tema relacionado às árvores foi sempre presente na Sagrada Escritura. Israel foi comparada ora a Oliveira, ora a Figueira e claro a Vinha. No gênesis já a encontramos: “a árvore do conhecimento do bem e do mal” (Gn 2, 17), que evocara a morte para aqueles que comessem de seus frutos.

No evangelho deste final de semana Jesus se denomina a “Verdadeira videira” e o Pai o agricultor.  No domingo passado o Bom Pastor, aquele que dá a vida pelas ovelhas, hoje aquele que dá seu fruto, seu maior dom, a santidade a todos os que Nele permanecem. Para falar do mistério santo que é sua intima união com o Pai, e com os seus discípulos o evangelista se usou da linguagem simbólica. Que é sempre a melhor forma de falar das coisas de Deus. Nos vs 2-3 do texto sugerido para o evangelho deste domingo, surgem dois verbos muito interessantes: cortar e podar. O Pai, o agricultor, ‘corta o ramo que não produz fruto, e todo o que produz fruto ele o poda’. Nós com facilidade por vezes nos vemos dando cortes em pessoas que nos cercam. Machucamos outras para nos defendermos. É um instinto natural, o ataque é sempre a melhor defesa. Por vezes vitimamos, damos cortes profundos, mas saímos ilesos, tranqüilos destas batalhas com o nosso próximo. No entanto o evangelho de hoje nos fala que o ‘agricultor’, uma imagem de Deus Pai, corta em mim, o ramo que não produz nenhum fruto. Estamos atentos aos ramos de nossa vida que precisam ser cortados… Quem não permite os pequenos cortes internos, acaba sempre por ver enormes traves nos olhos de outros.

O segundo verbo importante deste belíssimo evangelho é podar. Os agricultores das vinhas na estação das podas contam, que as videiras choram, derramam lágrimas no momento das podas. Na verdade sabemos não são lágrimas, mas a videira libera um líquido, que lembra na mentalidade poética dos agricultores, por que não uma lágrima. O Pai hoje quer nos falar por meio do Filho: “Sei o que se deve cortar e ser queimado, mas também sei o que devo podar para que venham muitos frutos.

Mergulhando nas fontes cristalinas da língua original, o verbo podar em grego ‘kaqairei’ ou latim purgabit, significa não apenas podar, mas purificar, revelando que toda poda feita é na verdade uma purificação. “Bem aventurados os puros por que verão a Deus”(      Mt, 5,12) . As podas que sofremos em nossa vida são dolorosas, os cortes nem tanto. As podas moram no profundo, surgem depois dos cortes que damos ….cortar é apenas o início…se o corte não permitir depois um tempo de purificação ele será apenas um corte, ao cicatrizar a ferida, poderá retornar com mais força. A poda não, ela é purificadora, pois é a hora de Deus em nossa vida. São feitas pelas duas mãos do Pai, o Verbo e o Espírito que realizam com amor esta purificação. (Santo Irineu, lion)

Não é fácil viver um tempo de podas, mas sabemos que é necessário. É só olhar para as videiras depois das podas. Florescem vicejantes primeiro, só depois nos dão seus frutos. Jesus soube tirar de seu pequeno mundo a mais alta teologia, aquela que nos eleva…. e nos salva.

Jesus que hoje é a Videira verdadeira orienta-nos a como viver a estação da poda com um  outro verbo. De novo voltemos ao texto original. O verbo, permanecer  mhnh, ou maneant, em sua versão latina, nos indica um caminho e uma ligação: É preciso  permanecer… estar com Ele, assim como os ramos permanecem na videira para dar frutos, nós enquanto permanecemos Nele, Ele que é fiel permanece em nós.(Jo 15, 4ss). Não é um jogo de palavras, é sim uma verdade espiritual, a mais profunda. Jesus é a Verdadeira videira que o Pai plantou para nós… “Pois Deus amou tanto o mundo que deu seu Filho para nos salvar” (Jo 3, 17ss) O fruto da videira de Cristo é seu amor em nós…e é Ele que nos une ao Pai…por meio de seu Espírito.

A segunda leitura de hoje nos fala do fruto das podas: “ Este é seu mandamento crer no nome de seu Filho Jesus Cristo e amarmo-nos uns aos outros…aquele que guarda seus mandamentos permanece em Deus e Deus nele” (1 Jo 3, 23ss). Eis o porquê das dorolosas podas, ‘para que não amemos somente com palavras mas com verdade’ (1Jo 3, 18)

A parábola da Verdadeira videira é um convite a unidade e a comunhão com o Pai, é uma belíssima imagem da Igreja, videira verdadeira nos nossos tempos, que a cada Eucaristia oferece Pão e Vinho, corpo e sangue do Senhor…

Voltemos ao Gênesis e à árvore do conhecimento. Ela do meio do jardim (Gn 2, 17), ofereceu seu fruto com facilidade… desconfiemos dos frutos que nos chegam sem esforços e sacrifícios em nossa vida. A árvore da vida que é Cristo Senhor no dá o que é melhor…e maior!!!! Seu fruto é a salvação, não sem seu próprio sacrifício. Subamos e apanhemos dos seus frutos: “amor, alegria, paz, mansidão, bondade, fidelidade” (Gal 5, 22)

Recordando, o fruto da vinha sabemos qual é? É a uva. A uva precisa de duas coisas para vir a ser: frio e calor!!! Primeiro um bom tempo de frio, onde ela matura, cresce. Porém não basta apenas o frio, ela precisa também de sabor. O bom sabor da uva quem há da é a exposição ao sol, a luz! As podas nos maturam, mas a nossa exposição a Cristo sol invictus dá o sabor do amor a nossa vida cristã!