“ Festa da Epifania do Senhor, quando íntimo e infinito se tocam”

 

 

Solenidade da Epifania do Senhor

( Is 60, 1-6; Sl 71; Ef 3, 2-3; 5-6; Mt 2, 1-12)

Celebramos neste final de semana a solenidade da epifania do Senhor. Epifania significa a manifestação do Senhor a todas as nações e todas as gentes. É uma aparição que transcende o particularismo de Israel, mas toca e alcança a toda “Orbe”.  O salmo responsorial desta festa litúrgica expressa: “os reis de toda a terra hão de adorá-lo e todas as nações hão de servi-lo” (Sl 71, 3). Se na noite de Natal o sinal anunciado pelos anjos aos simples pastores era o de um menino encontrado na manjedoura envolto em faixas com sua mãe (Lc 2, 16); nesta liturgia, o sinal se amplia a todo a universo e se estende também a estes magos advindos do longíssimo oriente para também contemplar e adorar o menino Jesus: “ Quando entraram na casa, viram o menino com Maria sua mãe. Ajoelharam-se diante dele e o adoraram” (Mt 2, 11). A solenidade da Epifania do Senhor é um evento da Graça que supõe e aperfeiçoa a natureza: Pois partindo do particularismo de Israel alcança os confins do universo o mistério da salvação de Cristo:  “Esse mistério, Deus não o fez conhecer aos homens das gerações passadas, mas acaba de o revelar agora, pelo Espírito, aos seus santos, apóstolos e profetas, os pagãos são admitidos à mesma herança, são membros do mesmo corpo, são associados à mesma promessa em Jesus Cristo por meio do evangelho” (Ef 3, 5-6).

O Evangelho nos fala do grande itinerário espiritual feito pelos magos. Saídos do longínquo oriente chegam a Jerusalém com uma pergunta fundamental e ainda muito atual: “onde está o rei dos judeus, que acaba de nascer? Nós vimos sua estrela no oriente e viemos adora-lo” ( Mt 2, 2). Os magos eram homens sábios, estudiosos dos astros, das leis da natureza. E foram conduzidos à Jerusalém por meio disto, uma espécie de sabedoria antiga que unia ciência e religião. Não fora a lei ou as Escrituras que os haviam inspirado este caminho, mas a sabedoria. São Justino mártir (165 dC), no início do II séc; já havia intuído sabiamente as sementes do Verbo Divino dispersas nas culturas além de Israel. O prólogo do Evangelho de João descreve também esta realidade da presença cósmica do Verbo eterno na criação: “ No princípio era o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus e todas as coisas foram feitas por meio Dele, e sem Ele nada do que foi feito se fez. Nele estava a vida e a Vida era a Luz do homens” (Jo 1, 1-4). Fora esta Luz que era com Deus no princípio a conduzir os magos até Jerusalém. Esta luz que ilumina os homens que guiaram estes sábios até Jerusalém.

E fora esta mesma luz que é também um nome da Graça que não permitiu que as trevas de pecado, do egoísmo e da escuridão em que estava mergulhado o rei Herodes, ofuscasse aquela luz da estrela que continuo a conduzir os magos atém o encontro com a profecia de Miquéias: “ E tu Belém na Judéia, de modo algum és a menor entre as principais cidades de Judá, porque de ti sairá um chefe que vai ser o pastor de Israel o meu povo” (Mt 2, 6).

Ao verem novamente a estrela os magos sentiram uma alegria muito grande (…) ajoelharam-se diante dele e o adoraram. Depois ofereceram seus presentes: ouro, incenso e mirra” (Mt 2, 10-11). Os magos guiados pelo infinito, pelos astros, pela sabedoria, foram levados ao íntimo, ao pequeno ao mais humilde. O Natal, a Epifania que ora celebramos une estas duas realidades que para muitos ainda é oposta, diametral, dialética e intocável. No entanto o mistério que hoje celebramos une o infinito com o íntimo, o eterno ao tempo a Graça e a Natureza presente no encontro dos magos que adoram a mãe e o menino na manjedoura de Belém.

O que têm nos guiado neste tempos de Natal? Como vamos conduzir nossa vida durante todo este 2018? Que estrela ou que luz nos guiará nestes tempos?

 

 

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“ A Sagrada família de Nazaré propaga a cultura de esperança”

Solenidade da Sagrada Família.

( Eclo 3, 3-7.14-17; Sl 127; Col 3, 12-21; Lc 2, 22-40)

Celebramos neste final de semana a festa da Sagrada família de Nazaré e a liturgia da Igreja nos convida a ampliar nosso olhar sobre o significado do natal do Senhor até ao mistério que envolve sua santa família.

Os pais de Jesus participam inteiramente deste digno evento que neste tempo litúrgico celebramos. À ambos fora revelado pelos anjos que o menino que nascerá será santo e filho do altíssimo: “ O Espírito virá sobre ti, e o poder do altíssimo te cobrirá com sua sombra. Por isso o menino que vai nascer será chamado, santo, Filho de Deus” (Lc 1, 35); e a José: “eis que em sonho, o anjo do Senhor que lhe disse: não temas receber Maria por esposa, pois o que nela está gerado, é do Espírito Santo” (Mt 1, 20).

O nascimento de Jesus Cristo realiza uma conexão jamais experimentada na humanidade. Em uma humanidade marcada por oposições, contradições, pecados, divisões que foram durante a história só aumentando o abismo que antes existia entre os homens e Deus, o mistério da encarnação a superou. O nascimento do Filho de Deus reestabeleceu este elo perdido fruto da desobediência dos nossos antigos pais e construiu uma ponte agora jamais destruída entre a realidade humana e a santidade Divina. Por isso ecoa neste santo tempo do Natal ainda mais fortemente dentro de nós e em todas as celebrações litúrgicas o texto do prólogo do Evangelho de são João que não só tratou de descrever que o “ No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e era Deus” (Jo 1, 1-3); mas convida-nos a coparticipar agora desta realidade divina quando afirma: “E o Verbo Divino se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1, 14).

Na festa que hoje meditamos até que ponto fora estabelecido este antigo vinculo perdido tocando a realidade humana da família. Ao refletirmos sobre a Sagrada Família de Nazaré, voltamos nosso olhar a outros personagens que reconheceram no nascimento do Jesus o mistério do Filho de Deus.

Os primeiros são os próprios pais de Jesus: José e sua mãe Maria. Após o maravilhoso anuncio celeste acerca da real identidade de seu filho, parece que suas vidas retomam uma normalidade igual a de toda família nazarena. Como todos os casais hebreus no oitavo dia do parto do menino, fazem o usual itinerário e se dirigem talvez de Belém até Jerusalém para o rito de “purificação de sua mãe e de seu filho”. Por mais que o tão grande mistério possa ter envolvido o “parto virginal de Maria”, e com isso a preservando de toda e qualquer forma de perda: “ convinha que não lesasse a honra da mãe o que havia mandado honrar os pais” (Tomas de Aquino), ambos cumprem obedientemente a lei de purificação. Com isso o casal não somente torna-se cumpridor da lei mosaica, mas na associam-se no cumprimento do rito a toda humanidade que realiza ritos, costumes e guarda com profundo zelo o grande mistério que levam em seus braços. Não foram José e Maria ao templo para anunciar ou publicar a graça que lhes havia acontecido. Permaneceram eles também envolvidos no mesmo mistério que foram agraciados.

E será no templo de Jerusalém que surgiram as testemunhas tão humanas e desconcertantes do menino. A primeira delas será de Simeão. A palavra nos apresenta Simeão como um homem justo e piedoso e que esperava a consolação de Israel (Lc 2, 25). Além disto há um subtexto sobre este homem de Deus. Ele é sinal de esperança. É alguém que não se deixou jamais abater com a “espera”, com as demoras, com as contradições, os pecados as injustiças e os silêncios. Simeão é apesar de tudo um grande sinal a todos nós.

O Espírito Santo havia lhe inspirado que jamais deixaria esta vida sem antes “ver” com seus olhos a Salvação: “ movido pelo Espírito Santo, Simeão foi ao templo. Quando os pais trouxeram o menino ele o tomou nos seus braços e bendisse a Deus” (Lc 2, 27-28). O grande desejo deste homem fascinante, o projeto mais significativo de sua existência, o horizonte de sua vida é a síntese do tempo do Natal: Ver a Salvação. Penso comigo, como Simeão pode inspirar nossos sonhos e projetos de vida. Quais são eles? Onde estamos investindo nossa energia, nossos planos, nossa salvação?  Simeão aponta para o essencial: O Natal celebra a nossa Salvação. Celebra e revive que a Salvação entrou na história, ela se encarnou para que a pudéssemos “ver seu rosto, ouvir sua voz e testemunhar seus sinais entre nós.;

Há ainda uma outra tão desconcertante personagem como o velho Simeão: a profetiza Ana. Ela em sua alta idade demonstra que o tempo é relativo diante do Senhor. E que se faltam forças físicas para o encontro  e a caminhada, não lhe faltaram jamais energia espiritual para reconhecer o Cristo.  Há tantas Anas entre nós, espalhadas em nossas comunidades eclesiais com semelhante atitude de entrega. Ana representa aqueles que falam com sua vida: Só Deus basta, tudo mais é relativo. Tudo mais é efêmero e Ele é o único e essencial.

Esta solenidade da Sagrada Família de Nazaré recorda-nos que se os primeiros a anunciarem a vinda do Filho de Deus foram anjos (mensageiros do céu), os primeiros que o reconhecerem foram homens: José, Maria, Pastores, Simeão, Ana e mais tarde os magos. Esta liturgia que hoje celebramos quer reforçar em cada um de nós que o reconhecimento do Deus feito homem é e será sempre feito também por homens como nós. Homens e mulheres de fé que não perderam jamais a esperança de ver também a salvação.

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“Mudanças de planos não significam que Deus se ausentou de nossa vida, indicam na realidade que algo novo e melhor se torna mais próximo de nós”

IV Domingo do Tempo do Advento

( 2 Sm 7, 1-5; 8-12.16; Sl 88; Rm 16, 25-27; Lc 1, 26-38)

O IV domingo do advento se nos apresenta mudança e transformações na mensagem da liturgia da Palavra. Não é tão simples acolhê-las, nem as entender. Nem sempre as coordenadas de Deus em nossa vida correspondem aos nossos planos, construídos muitas vezes sobre castelos de areia e seguranças pessoais. A liturgia deste IV domingo do advento nos ensina que com Deus planos pessoais podem mudar, transformações são bem-vindas e o processo de conversão continua a iluminar sempre nosso horizonte.

A primeira leitura fala-nos do interessante diálogo entre Davi e Natã o profeta. O rei confidência as vitórias e conquistas adquiridas com o auxílio de Deus que: “ livrou-o de todos seus inimigos” (2 Sm 7,2), porém logo percebe que deve fazer algo pela “arca” de Deus: “ Vê, eu resido em um palácio de cedro, e a arca de Deus está alojada em uma tenda” (2 Sm 7, 2). O profeta o responde em um primeiro momento desta forma: “ Vai e faze tudo que diz teu coração, pois o Senhor está contigo” (2 Sm 7, 3), mas logo após o plano pessoal de Davi, em querer construir uma “casa para Deus” é refeito pelo próprio Senhor que fala ao coração do profeta: “ Mas naquela mesma noite, a palavra do Senhor foi dirigida ao profeta Natã nestes termos: “ Vai dizer ao meu servo Davi: ‘ Assim fala o Senhor: Por ventura és tu que me construirás uma casa para eu habitar? ” (2 Sm 7, 5).

A palavra de Deus revelada a Natã é sinal de algo que pode ocorrer também em nossa caminhada espiritual: Nós muitas vezes podemos correr no risco de ousar construir casas, torres, edifícios e seguranças para Deus habitar com as mais belas intenções; mas não devemos jamais perder de vista que é Ele mesmo aquele que constrói sua habitação em cada um de nós: “ Se o Senhor não construir a nossa casa, em vão trabalharão os que a edificam” (Sl 127, 1).

Antes de querer construir algo para que o Senhor venha e faça sua morada é preciso deixar-se ser reconstruído por ele.

No evangelho deste domingo encontramos o mais belo exemplo de casa e habitação para Deus. Ninguém jamais se permitiu construir por Deus como a mãe do Senhor. Haviam planos já determinados para ela, mas a partir da visita do anjo, sua jovem vida passa a uma grande transformação: “ No sexto mês o anjo Gabriel foi enviado a uma cidade da Galiléia chamada Nazaré, a uma virgem prometida em casamento à José. Ele era descendente de Davi e o nome da virgem era Maria” (Lc 1, 26-27). A lei determinava que aqueles que eram da família de Davi, deveriam desposar-se com alguém de mesma linhagem. Por isso Maria estava prometida ao justo José. A visita do anjo Gabriel em alguma medida transformou estes planos, esta casa, está singela família nazarena.

A visita do anjo Gabriel a Maria é um grande diálogo entre Deus e a humanidade e entre convite feito por Deus e a generosidade e abertura humana em o acolher. E é também um sinal de que nossos planos pessoais são pequenos diante da grandiosidade que Deus reserva para todos nós.

Maria é este grande exemplo de abertura e acolhida. Mesmo que venha a manifestar dúvidas e incertezas, a mãe do Senhor confia e abandona-se ao Pai: “ Como acontecerá isso se não conheço homem algum? O anjo respondeu: “O Espírito Santo virá sobre ti, e o poder do altíssimo te cobrirá com sua sombra” (Lc 1, 34).

Neste IV domingo do advento mergulhamos todos no mistério da encarnação do Senhor. Jesus, nosso Salvador nasce de uma mulher. Da virgem que há muito Isaias já profetizará. O Salvador da humanidade nasce da humanidade pois não poderíamos participar integralmente deste mistério de salvação se Ele não tivesse se tornado como um de nós! Sabemos Jesus é do “alto” é do “céu” mas quis nascer a partir de baixo. Nasceu igual a nós, precisou de cuidados como qualquer um de nós, cresceu e amadureceu como nós crescemos e amadurecemos, mas todas essas coisas foram possíveis por que esta mulher, disse um “fiat”, um faça-se em mim segundo tua Palavra. (Lc 1, 38).

O Senhor veio ao mundo gerado no ventre de Maria e por obra do Espírito Santo, por que Maria, percebeu que seus planos pessoais não se equiparavam ao que Deus lhe havia chamado: “ Bem aventurada aquela que acreditou naquilo que o Senhor cumprirá tudo o que tiver revelado” (Lc 1, 45).

Maria é o grande sinal desta santa liturgia. Ela é sinal sempre atualíssimo. Vive-se hoje sob a hegemonia dos planos pessoais, dos “meus objetivos”, da garantia de um futuro seguro, e bem menos sob a possibilidade de abrir mão de algo bom, pelo melhor e: ser capaz de renunciar o ordinário por algo maior. Maria é este sinal em uma cultura tão desprovida de grandes gestos de sacrifício e oblação.

Que possamos com Ela dizer ou renovar nosso sim a Deus. O nosso fiat cotidiano de cada dia, que é o que nos põe em crescimento diante de Deus.

 

“João Batista nos ensina a melhor forma de prepararmo-nos para a acolhida do Senhor”

II Domingo do Advento

( Is 40, 1-5.9-11; Sl 84; 2 Pd 3, 9-14; Mc 1, 1-8)

No segundo domingo do advento a liturgia convida-nos a que nossa espera vá se concretizando sob a forma de “preparação”. Como uma família que aguarda a visita de amigos e familiares para as “festas do final do ano” e então prepara e arruma toda a casa, limpa, pinta, lixa paredes, apara arestas, o segundo domingo do advento tem esta característica: “preparar o caminho”.

Na liturgia da Palavra a figura emblemática que surge como um mensageiro orientando a preparação do caminho do Senhor é o profeta João Batista. Ele é aquela voz, que grita forte no deserto, que percebe que é chegada a hora, que o tempo é próximo e que a visita já se avizinha de todos. João Batista é dotado pelo Espírito de Deus deste discernimento que as vezes nos falta, que não devemos mais “titubear ou andarmos desatentos”, pois o Senhor em breve virá: “ Inicio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus. Está escrito no profeta Isaias: ‘ Eis que envio meu mensageiro à tua frente, para preparar o teu caminho. Esta é a voz daquele que grita no deserto: preparai o caminho do Senhor, endireitai suas estradas” (Mc 1, 1-3).

Nós um tanto descuidados como somos também precisamos de vozes que gritem aos nossos ouvidos e coração que os “amigos e parentes” estão chegando. Geralmente homens se revelam mais desatentos que as mulheres. Nem sempre percebem que a casa ou à frente da casa, o seu interior, precisam de reparos e alguns consertos. Por vezes necessitam que o “felling” feminino os ajudem a enxergar onde e quais os ambientes de uma residência que precisam de reparação. João Batista o protagonista “maior” (grande, magnum) desta liturgia, se fez conhecer para toda a Igreja como o sendo “minor minorum” (menor dos menores): “ Eu vos afirmo que dentre os nascidos de mulher não há um ser humano maior do que João. Todavia, o menor no Reino de Deus é maior do que ele” (Luc 7, 28), e é do próprio Cristo que ele recebe esta honra.

Uma afirmação desta saindo da boca de Cristo pode ecoar aos nossos ouvidos incompreensível. Mas creiam que neste momento Jesus Cristo elogiava tremendamente o batista. Não compreendemos mui facilmente por estarmos por demais habituados a um contexto narcisista na cultura onde o valor esta do lado do auto reconhecimento, da auto referencialidade, da projeção pessoal em demasia, das honras, glórias e luzes que nossa concepção de mundo pode oferecer.

O nosso João Batista (ao lado de Cristo o protagonista desta liturgia), não tinha ao que parece uma personalidade dócil e suave como o é geralmente a natureza feminina. A palavra de Deus sempre nos fez conhecê-lo e admirá-lo como um grande asceta. Um profeta que vivia no deserto e que possuía a força o poder e a coragem de Elias nas palavras: “ Sim que fostes ver no deserto? Um homem ricamente vestido? Os que se trajam ricamente estão nas casas dos reis. Mas então que fostes ver? Um profeta? Sim, eu vos digo, e muito mais do um profeta”. (Mt 11, 8). E é exatamente esta personalidade assim tão despojada, tão “pequena e apontando coisas tão grandes”, que mais nos ajudará a preparar nossa casa para a vinda do Senhor.

A melhor preparação para a vinda do Senhor é também reparação. A melhor forma de acolher e receber aquele que virá, na mais absoluta pobreza e simplicidade é apresentando uma casa humilde. É desta virtude essencial que a liturgia deste final de semana nos fala. É desta virtude que João Batista com sua própria vida nos chama a redescobrir neste advento e após Natal do Senhor: “E pregava dizendo; depois de mim virá alguém mais forte do que eu. Eu nem sou digno de me abaixar para desamarrar suas sandálias. Eu vos batizei com água, mas Ele vos batizará com o Espírito Santo” (Mt 1, 8).

Somente alguém muito integrado consigo e com o Senhor para se colocar desta forma: tão pequeno a ponto de não se sentir digno de desatar as sandálias do mestre. As sandálias eram símbolo de nobreza, dignidade e liberdade. Somente alguém realmente livre assim como João para ser capaz de tamanha renúncia.

Como estamos nos preparando para a vinda do Senhor? Como esta nossa casa para esta chegada? Como estamos interiormente para acolhida do Senhor que vêm? O profeta Isaías na primeira leitura como João Batista pode ser uma boa referência de espera: “Preparai o caminho do Senhor, aplainai na solidão a estrada de nosso Deus. Nivelem-se todos os vales, rebaixem-se todos os montes e colinas; endireite-se o que é torto e alisem-se as asperezas” (Is 40, 3-5). Eis aqui um belíssimo itinerário de vida: a tanta coisa que precisa ser aplainada em nós: raivas, mágoas e rancores; nivelem-se os vales: tantas realidades que precisam equilibrar-se, nivelar-se em nós e no mundo, na política e na justiça; rebaixem-se as colinas: ainda há tempo de aprendermos com João Batista o segredo do rebaixamento, da humildade e da austeridade de vida para a vinda do Senhor.

 

“ Assim não tendes falta de nenhum dom, vós que aguardais a revelação do Senhor nosso, Jesus Cristo. É ele quem vos dará a perseverança em vosso procedimento irrepreensível, até ao fim, até o dia de nosso Senhor” (1Cor 1, 7 -9)

I Domingo do Advento

( Is 63. 64, 2-17; Sl 79; 1Cor 1, 3-9; Mc 13,33-37)

Neste final de semana iniciamos o tempo litúrgico do Advento. Neste tempo a Igreja convida seus fiéis a uma atitude de espera e vigilância. Estes serão os dois movimentos espirituais que iram mobilizar toda a espiritualidade no advento.

Os dois motivos que marcam o tempo do advento não são tão simples e fáceis de serem observados. Exigem de nós passos em direção à lugares que durante o “corre-corre” da vida nem sempre observamos. Advento por exemplo significa “espera”, e sabemos que na sociedade pragmática que vivemos onde quase tudo se reduz ao imediato, ao “aqui e o agora”; “esperar”, aguardar, demorar-se, se torna tarefa difícil.

Mas o advento convida-nos também a vigilância, a andarmos mais atentos e acordados. Outro profundo desafio espiritual que se impõe a nossa vida.

O Papa Francisco tem pedido estas atitudes dos católicos nos dias de hoje. Dá a elas palavras diferentes, mas que terminam por indicar semelhantes significados: Quer a Igreja em um estado permanente de missão! Quer a Igreja em caminho de saída, de encontro e acolhida para os irmãos. Quer a Igreja em estado de vigilância, de cuidado e atenção com aqueles que estão fora, com aqueles que se encontram em “periferias existências”, alienados de toda forma de dignidade, mas que devem encontrar na Igreja está casa aberta e acolhedora.

O profeta Isaias na primeira leitura de nossa liturgia se torna expressão antagônica daquilo que estamos meditando. Ele é porta voz de um cenário de cansaço espiritual, acomodação, esfriamento da fé e endurecimento do coração: “ Como nos deixaste andar longe de teus caminhos e endureceste nossos corações para não termos teu temor? Por amor de teus servos, das tribos de tua herança, volta atrás.” (Is 17-19). O lamento de Isaías é revelador. Agimos assim também. Facilmente encontramos culpados para nossas “burradas”, fora de nós mesmos. Com muita dificuldade assumimos a responsabilidade de nossas fraquezas e pecados. O profeta vai além, chega a culpabilizar o próprio Deus por seu relaxamento e endurecimento de coração.

O reconhecimento do mal, e suas consequências: “ todos nós nos tornamos imundície, e todas as nossas boas obras são como um pano sujo; murchamos todos como folhas(…)” (Is 64, 4); foi o caminho encontrado por Isaías para retomar o caminho em direção a Aliança com seu Senhor. Tal qual o filho pródigo que após cair em si, faz o caminho de volta para casa: “ Não há quem invoque o teu nome, quem se levante para encontrar-se contigo(…). Assim mesmo, Senhor, tu és nosso pai, e nós somos barro; tu, oleiro, e nós todos, obra de tuas mãos” (Is 64, 7).

O profeta nos exorta que o advento pode ser um tempo especial de reencontro com esta inacabada obra que somos nós nas mãos de Deus, mas relembra também que não precisamos para isto chegar ao fundo do poço na vida espiritual e moral. Não há necessidade de criar abismos, mas sim pontes: “ Assim não tendes falta de nenhum dom, vós que aguardais a revelação do Senhor nosso, Jesus Cristo. É ele quem vos dará a perseverança em vosso procedimento irrepreensível, até ao fim, até o dia de nosso Senhor” (1Cor 1, 7 -9- segunda leitura da liturgia).

É Paulo quem faz a conexão desta liturgia com o santo Evangelho. Na segunda leitura se encontra o outro importante “tom” do advento: a vigilância!

O Evangelho deste domingo começa com a seguinte expressão: Cuidado! Não para incutir nos ouvintes um sentimento de “medo” e sim de atenção de nossa parte de como estamos conduzindo nossa vida cristã. Se há algum esfriamento, algum cansaço, alguma sonolência, a culpa deste estado de coisas, não está no Cristo que vêm , mas com que espírito estamos o acolhendo. Para isso o “bom recado” desta liturgia de advento é a vigilância: “ vigiai, porque não sabeis quando o dono da casa vem: a tarde, à meia-noite, de madrugada ou ao amanhecer. Para que não suceda que, vindo de repente, ele vos encontre dormindo” (Mc 13, 36).

A palavra do Senhor atinge em cheio um estado de anima, em que muitos de nós podem se encontrar. Mas atinge também um estado de anima, em que nossas própria comunidades eclesiais, movimentos, pastorais, comunidades religiosas, parecem também estar: sonolentas e adormecidas.

Neste domingo deixe-se acordar pelo Senhor. Ouça a voz de Cristo gritar em seu coração: vigiai! e cuidado, porque não sabeis quando chegará o momento. (Mc 13, 33)

 

 

 

 

 

“No entardecer de nossa vida seremos julgados pelo amor” (São João da Cruz)

 

Festa de Cristo Rei

(Ez 34, 11-12; 15-17; Sl 22; 1 Cor 15, 20-18; Mt 25, 31-46)

A liturgia da Igreja é feita de ciclos. Cada tempo litúrgico corresponde a um ciclo específico. O tempo do Advento, o ciclo natalício, a quaresma, o ciclo da pascal, as festas e os santos importantes festejados na Igreja e claro o tempo comum que neste final de semana celebramos. Todo o calendário litúrgico se encaminha para a solenidade que hoje celebramos: A festa de Cristo Rei e Senhor do Universo.

É para este “oriente” que se encaminha a caminhada litúrgica eclesial. A vida é também liturgia. Ela também é feita de ciclos e ritos. Quando os homens perdem o significado ritual da vida, eles perdem também aquilo que sustenta o ritmo da existência humana: Nascer, crescer, tornar-se adulto, saber envelhecer e morrer, são ciclos da vida que se abrem e se concluem diante de nós todos sem que seja preciso muita reflexão, é o ordinário no tempo existencial de cada um.

Neste final de semana celebramos a alegria da conclusão de mais um ciclo litúrgico. Desde que o calendário litúrgico foi assumido na Igreja no séc V; com sabedoria a Igreja segue esta melodia litúrgica. O tempo litúrgico tens muitos fins seguramente. Mas um deles somos sempre chamados a abraçar: Nele nós vivemos e celebramos nossa vida de santidade. Nele Deus nos chama á “esperar”, à “mudar e purificar nosso coração”, à festejar, e a caminhar como peregrinos até o foco que a Igreja jamais perde de vista que é : Cristo Senhor de todas as coisas: “conforme decisão prévia que lhe aprouve tomar, para levar o tempo à sua plenitude: a de em Cristo encabeçar todas as coisas as que estão nos céus e na terra” (Ef 3, 10).

Na liturgia deste final de semana, a Igreja nos chama atenção a revisão de nossa caminhada. Para que este “exame” se realize de forma concreta, e não meramente subjetiva, os critérios nos são dados pela Palavra de Deus. É ela a Palavra do Senhor que deve trazer luz aos lugares que permanecem ainda escuros e sombrios, em nossa vida. Será ela, a Palavra, que permitirá que ciclos vitais ainda abertos dentro de nós ou inconclusos venham a fechar-se e resolver-se neste final de ano litúrgico.

A liturgia neste final de semana aponta para um ciclo que permanece aberto entre nós e que invariavelmente todos temos de participar: Neste “exame de final de ano litúrgico”, nossa aprovação espiritual deve permitir-se interpelar pelos apelos que o evangelista Mateus nos provoca: “ Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita; Vinde benditos de meu Pai! Recebei como herança o Reino que meu Pai vos preparou desde a fundação do mundo! Pois eu estava com fome e me destes de comer; eu estava com sede e me destes de beber; eu era estrangeiro e me recebestes em casa; eu estava nu e me vestistes; eu estava doente e cuidastes de mim; eu estava na prisão e fostes me visitar” (Mt 25, 34-36).

Com certeza durante todo este ano fizemos muitas coisas. Realizamos boas obras em nome de nossa comunidade, de nosso movimento eclesial, em nossa vida espiritual, mas não poderíamos encerrar este ano sem que nossa vida cristã queira participar de forma efetiva deste ciclo que permanece aberto em nossa sociedade.

O Papa Francisco no lançamento do dia mundial dos pobres enviou uma belíssima mensagem a toda a Igreja, nela estava presente o eixo de nossa vida cristã: unir fé e obras, vida interior e misericórdia, mãos e coração: “ «Meus filhinhos, não amemos com palavras nem com a boca, mas com obras e com verdade» (1 Jo 3, 18). Estas palavras do apóstolo João exprimem um imperativo de que nenhum cristão pode prescindir. A importância do mandamento de Jesus, transmitido pelo «discípulo amado» até aos nossos dias, aparece ainda mais acentuada ao contrapor as palavras vazias, que frequentemente se encontram na nossa boca, às obras concretas, as únicas capazes de medir verdadeiramente o que valemos. O amor não admite álibis: quem pretende amar como Jesus amou, deve assumir o seu exemplo, sobretudo quando somos chamados a amar os pobres. Aliás, é bem conhecida a forma de amar do Filho de Deus, e João recorda-a com clareza. Assenta sobre duas colunas mestras: o primeiro a amar foi Deus (cf. 1 Jo 4, 10.19); e amou dando-Se totalmente, incluindo a própria vida (cf. 1 Jo 3, 16).Um amor assim não pode ficar sem resposta” (Papa Francisco).

Do ponto de visto litúrgico, esta solenidade de Cristo Rei e Senhor do Universo propõe um movimento de toda a humanidade e criação em direção à Cristo. O apóstolo Paulo expressa esta realidade na segunda leitura: “E quando todas as coisas estiverem submetidas a Ele, então o próprio Filho se submeterá áquele que lhe submeteu todas as coisas, para que Deus seja tudo em todos” (1 Cor 15, 28). Celebrar Cristo Rei, é celebrar este destino, esta recapitulação de todas as coisas em Cristo (oração da coleta), no entanto sem esquecer que este destino, este caminho, esta direção passa por situações práticas e concretas: Passa pelo amor ao próximo e aos mais pequeninos. São João da Cruz o grande teólogo-místico do séc. XVI, nos oferece uma bela intuição para este “exame” de final de ano litúrgico: “ No final da vida seremos julgados pelo amor”. No final de nosso ciclo seremos julgados com a seguinte sentença: “ Senhor quando foi que te vimos com fome e te demos de comer? Com sede e te demos de beber? Quando foi que te vimos como estrangeiro e te recebemos em casa, e sem roupa e te vestimos? Então o rei lhes responderá: Em verdade vos digo que todas as vezes que fizestes isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25, 37-40).

Encerrando este ciclo anual litúrgico cheio de muitas graças e bênçãos recebidas por Deus, a Palavra do Senhor nos oferece nova oportunidade de abrirmos nova etapa em nossa vida espiritual. Que não esqueçamos dos critérios que o bom Senhor nos apresenta neste dia, e que no dia em que formos julgados, que pese sobre nós apenas o amor que doamos aos mais pequeninos.

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“O segredo da fidelidade no pouco”

Neste final de semana a liturgia da palavra nos convida a refletir sobre os bens que recebemos de Deus. É um convite a gratidão e a confiança. A todos, Deus cumulou com dons, graças, capacidades, inteligência, criatividade, etc. Todos esses bens existenciais, o bom Deus distribuiu a todos os homens para que produzam frutos: “ Eu sou a Videira verdadeira e meu Pai é o agricultor, todo aquele que permanece em mim, produz muito fruto” (Jo 15, 1).

No evangelho deste domingo, Jesus fala a seus discípulos sobre a importância de permanecer Nele, se fiar no Senhor, para que os frutos possam aparecer, isto é, para que os bens concedidos pelo Senhor a nós possam germinar. A parábola dos talentos aponta para este seguinte tema: em primeiro lugar a confiança que o Senhor Jesus tem para conosco, pois confia a nós seus discípulos “talentos”, que precisam ser administrados.

O talento era uma medida monetária. Seu valor era altíssimo, corresponderia a mais ou menos 59 kg de ouro, o que é se torna muito simbólico, pois Deus foi muito generoso ao extremo conosco: Nos cumulou com um valor altíssimo de bens, dons e capacidades e além do mais, deu-nos aquilo de maior valor que é sua herança paterna.

A parábola fala da imensa generosidade de Deus e de nossa resposta a ela: “ um homem ia viajar para o estrangeiro. Chamou seus empregados e lhes entregou seus bens. A um deu cinco talentos, a outro dois e a um terceiro, um, segundo a capacidade de cada um. Em seguida viajou” (Mt 14-15).

Claro que a parábola evangélica é uma imagem do Reino: Cristo depois da ressurreição, retorna até o Pai e confia sua missão a seus discípulos (as). E esta missão é valiosa como uma mina de ouro.

Cuidar, administrar algo tão nobre não é fácil para ninguém. A missão que Deus confiou a nós seus discípulos exige de nossa parte confiança no Senhor. É esta a “capacidade” que aparece no evangelho. Bem mais que um atributo natural, é um dom da Graça que nos capacita a produzirmos os frutos necessários.

Obviamente que a parábola dos “talentos”, encontra eco no contexto judaico-cristão na qual o evangelho de Mateus é grande porta voz: Os talentos lucrados por aqueles empregados que produziram cinco e outro dois talentos, sãos os frutos advindos bem mais da Graça do que dos méritos próprios da lei. São símbolos da Igreja nascente que estando unida a seu Senhor produzem muito fruto:  “Não me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi a vós, e vos nomeei, para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça; a fim de que tudo quanto em meu nome pedirdes ao Pai ele vo-lo conceda” (Jo 15, 16).

Mas há também na parábola a negação, a contradição, o fechamento, na imagem do terceiro homem que recebeu 1 talento e por medo o enterrou na terra. Conhecemos muita gente na Igreja que têm enterrado seu talento na terra. Enterrar algo no chão na antiguidade era símbolo de morte. Dons, bens, criatividades, graças que não são postas em comum, mas enterradas no solo, acabam sendo sufocados e morrendo. A parábola dos talentos é uma aventura de fé. Um convite a revisarmos nossa resposta ao que a generosidade de Deus tem disposto ao nosso coração.

Hoje neste final de semana Deus está querendo recordar algo a você: a) Você é amado e dotado de muitos bens doados gratuitamente por Deus. b)  lucrar estes dons é confiar naquele que os cumulou. c) enterrá-los é sufoca-los. Não esqueça, não os deposite no chão por medo de Deus. Mas procure a pequena via da fidelidade, ela lhe garantirá a participação de sua plena alegria “ muito bom servo bom e fiel, como fostes fiel no pouco, eu te confiarei muito mais, vem participar de minha alegria” (Mt 25, 21).